Renato Almeida e Tristão de Athayde
PREFACIO AO "FAUSTO", DE
RENATO ALMEIDA
Conheceis, porventura, aquelle symbolo terrível de Dürer? Conheceis a sua "Melancolia"? O mestre germânico fixou, ali, toda a brutalidade e toda a subtileza da tortura humana. Aquelles instrumentos com que a sciencia procura illudir-se, aquellas retortas, aquelles compassos e aquellas reguas inflexíveis, toda aquella matéria poderosa que o rythmo dos números tenta dominar, num esforço vigoroso e supremo, representa a imagem atrevida da Intelligencia em face do Mundo. A voz dos séculos agita aquella poeira illustre. Todas as lutas do homem, todas as suas esperanças e tpdas as suas decepções vibram no metal daquelles cadinhos fumegantes, resoam nas paredes cristallinas daquelles alambiques, mordem a pedra inquebrantavel daquelle chão impassível. Tudo inútil, tudo em vão! O mysterio da terra se confunde com o do céo. Aquillo não é um laboratório, mas um campo de batalha, onde cada destroço é uma derrota de mil annos de heroismo innocuo.
E que Musa formidável é aquella que preside aos restos do festim doloroso? Seus olhos immotos, sua face carregada, sua fronte carrancuda lembram a mascara da Górgona e, ao mesmo tempo, a da Esphinge. Ha, porém, nas suas mãos paralysadas uma dor que commove, uma dor de mãe, que humaniza o aspecto da figura tenebrosa. Ha, nellas, o gesto de quem não espera mais nada senão o milagre, o milagre que é o ultimo logro para que appella o coração.
Aquella "Melancolia" é a Razão.
Fausto a conheceu, porque Fausto é apenas o Homem. Com as armas da sciencia quiz chegar até Deus, quiz explicar o mundo pelo seu demônio. E o seu demônio era a Razão. Foi ella que, sob os cambiantes disfarces de Mephistopheles, lhe fez as mais bellas promessas, os mais tentadores convites. Fausto, como qualquer um de nós, como os melhores dentre, nós, acreditou demasiadamente nas miragens do seu microcosmo. Fausto, quer dizer Platão e Aristóteles, Descartes e Spinoza, Leibniz e Pascal, a inquietação na posse, a ansiedade no desejo, o desconsolo na alegria. Para comprehender o mundo, para refazel-o, não recuou diante de nada. O pacto com o Diabo é o pacto comsigo mesmo, a confiança nas forças imponderáveis que nos regem, nos próprios elementos universaes. Certo de que estava na posse desses elementos subtis, foi levado por todas as vertigens da razão. Percorreu os séculos, sondou a substancia primeira, desceu á voragem das cousas, varou o tempo e o espaço, pesou o bem e o mal, abriu com a chave de Salomão o templo das Madres sybilinas, para voltar, por fim, desilludido, aos torvelinhos do seu tormento interior. Que lhe restava da temerosa viagem através dos elementos encontrados? A imagem do homunculo, de Wagner! Eis tudo quanto conseguira a sua sciencia: um verme tremeluzindo no concavo de uma r e t o r t a . . .
"Dem Tüchtigen ist diese Welt nicht stumm!" Não é para quem pensa o globo -mudo, eis a triste conclusão da sua experiência. A Eternidade, talvez creada por jiós mesmos, é uma bocca insaciável que nos devora, que não nos dá um momento de repouso, que nos comprime como um pedrouço desconforme. Que valem as nossas sondas, as nossas miseráveis sondas no seu oceano illimitado? " W a s braucht er in die Ewigkeit zu schweifen!" Vogaremos sempre ao sabor dos seus mares alterosos, aos impulsos das suas ondas empolladas e infrenes.
Fausto, entretanto, consegue salvar-se. Ante a sua razão, que lhe diz: "Ich bin der Geist, der stets verneint", elle não se amedronta. Reage. Mephistopheles será vencido, e, se Fausto não chega a Deus, chega ao menos, á perfeição, quero dizer, ao domínio das suas duvidas.
A historia dessa reacção é justamente o fundamento do bellissimo ensaio de Renato de Almeida. Este livro é o espelho da inquieta adolescência, que não se contenta com o amargo prazer da duvida, mas quer resolvel-a pelo sentimento, já que o raciocínio é impotente e incapaz de vencel-a. "A felicidade não existe no homem que pensa; augmentando tua sciencia, augmentarás tua desgraça", exclama Renato Almeida, num dos capítulos mais profundos da sua obra. Fausto, sendo "o mais miserável dos homens", não poderia deixar de ser o mais intelligente. Emquanto ouviu a voz enganadora da razão, foi infeliz, demonstra o pensador brasileiro. De nada lhe serviu divagar com os cálculos da intelligencia. "Onde o homem puzer a intelligencia não terá amor, mas só t o r t u r a . . . " Tudo lhe falhou. O céo das suas esperanças dia a dia se afastava; somente o inferno das suas duvidas lhe refervia aos pés. O cumprimento do pacto parecia, pois, inevitável. A labareda que o deveria consumir já lhe abrazava os desvãos recônditos da alma.
Fausto, porém, possuia a natureza dos heróes. Era contradictorio e impulsivo. As formas e as regras não conseguiram nunca prender o curso caprichoso da sua imaginação. Â' semelhança dos heróes, elle criava as fôrmas e as regras que o momento exigia. Fausto salvou-se pela fé, observa com aguda penetração Renato Almeida. Pela fé no amor, na acção harmoniosa que dirige todas as cousas. Goethe percebeu, genialmente, que o mundo vive da luta entre o EternoMasculino e o Eterno-Feminino. Aquelle representa a Força, este o Amor. Da combinação dos dois, nasce a F é . Ora, sendo Fausto o Sêr no que elle tem de mais alto e mais puro, só chegaria a Deus pelo equilíbrio desses factores. Nem a simplicidade de Perceval, como apontou Wagner, nem a sabedoria da razão, como queria Fausto, seriam bastantes para resolver o problema. Aquella é mesquinha, porquanto só attingimos a perfeição pela dor; esta é vaidosa, e a vaidade é a mais orgulhosa expressão da duvida metaphysica, a vaidade de explicar sem comprehender Precisamos amar e crer para que não nos arraste o turbilhão das cousas. A solução que Renato Almeida propõe para o "problema do sêr", redimindo Fausto pelo amor, além de consoladora, parece-me a mais verdadeira, a mais accorde com o pensamento de Goethe e com as irremediáveis contingências do mundo. "A razão não é uma luz secca", disse Bacon, é mister que a lagrima das cousas a fecunde para que o demônio da duvida não nos tente com as suas p r o m e s s a s . . .
Este livro admirável é uma alta profissão de fé. Aquelle que nunca duvidou lhe atire a primeira p e d r a . . .
TRISTAO DE ATHAYDE
Começa a esboçar-se, agora, de modo seguro, a acção da nova intelligencia do Brasil, no sentido de fixar e penetrar as linhas e a physionomia do nosso patrimônio esthetico. Já podemos olhar para trás com interesse e orgulho. A obra da geração moderna, despojada, quanto possível do lirismo romântico e do pessimismo scientificista, se caracteriza justamente por uma sympathia que não exclue a razão e por uma analyse precisa que não repelle o sentimento. Os homens novos querem os factos e a experiência da realidade concreta. Não consideram o passado como um phenomeno a parte, um mero ponto de referencia abstracto, isolado no tempo e no espaço, ou pura expressão muda e incolor dos archivos. Sua concepção do passado não é mais estática ou simplesmente histórica, mas principalmente sociolo*gica e dynamica. Desprezando os elementos secundários ou accessorios que entraram na sua formação, procuram de preferencia os materiaes vivos que elle encerra e que constituem propriamente a base da creação humana. O passado, como quantidade invariável, não existe. E' uma invenção dos chronistas e dos rhetoricos. Foram esses doutores subtiliseimos que o transformaram em dogma inflexível. Os homens novos, ao contrario, sabem que elle é um instrumento malleavel, um corpo em movimento perenne, que não cabe nos moldes estreitos de qualquer theoria.
Quando pesquizamos as características de um grande espirito e a sua influencia no meio que o produziu, logo nos occorre lidarmos com uma força em actividade continua, em perpetua relação com todo o systema da energia universal. Homero é tão contemporâneo quanto Shakespeare ou Descartes. Cada um delles explica o Homem em si mesmo, e, portanto, a humanidade. Andaria mal avisado, pois, quem descobrisse os fundamentos de uma literatura no particularismo das seitas ou das escolas. Confundiria as fôrmas com a essência das coisas. Incidiria na falsa trilha do passadismo, ficaria bloqueado entre os próprios preconceitos, incapaz de se libertar do monstruoso erro inicial. Assim, por exemplo, quem circumscrevesse< a nossa imaginação creadora ao indianismo ou ao sertanismo, se veria impossibilitado de explicar a nossa verdadeira psyche, as directrizes do nosso caracter, as fontes do nosso passado. Gonçalves Dias não é brasileiro porque cantou os Índios, nem Machado de Assis o deixou de ser, porventura, porque evitou a emphase e castigou o falar despejado dos nossos patrícios. Não é impunemente que nasce um indivíduo em determinado logar, onde vieram á luz os seus pães e avós. Reproduz-se nelle o que poderiamos chamar a "consciência do meio", — o dynamismo do passado.
Notável testemunho dessa "consciência do meio" é a obra de Affonso Arinos, segundo acaba de nos revelar Tristão de Athayde. Seu livro admirável é, sem duvida, um modelo da verdadeira critica moderna, que se utiliza dos documentos, exactamente como o artista se serve das suas impressões, — para explicar a realidade. Através de Affonso Arinos, viu Tristão de Athayde um aspecto da alma humana, dentro do ambiente brasileiro. Fazendo profundo balanço da nossa historia literária, afim de situar na posição que lhe compete o autor do "Pelo Sertão", mostra-nos elle, com excellente critério, que atravessou o nosso pensamento três épocas primordiaes: "o americanismo", dos Frei Vicente do Salvador, dos Rocha Pitta e dos Santa Rita Durão; "o brasileirismo", dos Alencar, dos Magalhães e dos Taunay; "o regionalismo", de Euclydes da Cunha, de Arinos e vários outros.
Durante o período colonial, predominou o que seria licito denominar — o "sentimento extreme da* terra", como valor econômico e geographico. Inspiraram-se os primeiros poetas e chronistas que aqui escreveram, nas "grandezas" do solo. Taes "grandezas", que desde Bento Teixeira aos últimos arcades, inflammaram a imaginação dos marinheiros, commerciantes e agricultores reinóes, constituíam, por assim dizer, um factor de enthusiasmo, nascido espontaneamente da exaltação dos europeus que vieram povoar o novo continente. Sahidos de regiões relativamente pobres, onde as difficuldades da vida degeneraram em lutas sanguinosas e porfiadas, portuguezes e espanhoes não conseguiram refrear os Ímpetos do pasmo que lhes invadiu os corações, ante o mundo virgem que emergia das ondas equatoriaes. A fome do ouro, a cobiça da fortuna e do mando exaggeraram, naturalmente, as proporções do que viam e suppunham vislumbrar nos territórios recentemente conquistados. Formou-se, dessarte, uma tradição oral e escripta das maravilhas tropicaes, que se dilatou por toda a phase colonial, produzindo o que Tristão de Athayde chama com propriedade: — o americanismo.
Esse americanismo é apenas um laivo original, um colorido vago que matiza a literatura dos colonos europeus. "Sentem e verificam os portuguezes, commenta Tristão de Athayde, que as obras dos seus patrícios colonizadores — nascidos no Reino ou lá educados, o que é regra geral — escriptas sob o sol tropical, têm qualquer cousa de differente, qualquer acção própria da natureza e mesmo da mentalidade ambiente. Não a attribuem ao Brasil, que ainda não é uma nação, que ainda não apresenta physionomia própria, e não passa de terra a explorar — más á America, ao continente novo, que o século XV revelara ao mundo do Renascimento, ávido de vida, de ouro e de aventuras. Logo que a terra principiou a ser devassada, mercê das bandeiras, da agricultura e das minerações, com o advento das immensas propriedades ruraes, que, a pouco e pouco, se iam estendendo para o interior, foi ganhando expressão real no animo dos nossos antepassados aquillo que, antes, fora apenas sonho e devaneio da fantasia desmedida. Posto em contacto intimo com o meio cósmico, sentindo-lhe directamente o poderoso influxo, começou o luso-brasileiro a perceber mais claramente a lição da terra. Retemperando o caracter nas lutas quotidianas, que a existência dura da gleba lhe exigia, o filho do reinol entrou de olhar a metrópole com olhos firmes e varonis, arrancando-lhe, finalmente, para os descendentes livres, o mais bello florão da Coroa Bragantina. Desenvolveu-se, pois, com a Independência, o "brasileirismo" "Esse brasileirismo literário, que já não era o americanismo de apparencia dos tempos coloniaes e ainda não chegara ao brasileirismo de raiz dos tempos de hoje, caracterizou-se especialmente no século XIX, por uma consciência maior da nacionalidade, por um desejo especial de exprimir essa nacionalidade, naquillo que parecia mais profundo e sincero, e por uma subdivisão em varias correntes que abrangem as differentes faces dessa realidade nacional." Se bem com mais sabor e intensidade, não nos deu o brasileirismo frutos muito menos artificiaes que o americanismo. Foi o "indianismo" o derradeiro vestígio da epopéa americana. Entrara, comtudo, um elemento distincto na feitura das nossas obras: a emoção. Em todo o período colonial, exceptuadas algumas sátiras de Gregorio de Mattos ou certas liras de Gonzaga, faltou sentimento á nossa literatura. 0 arcadismo e o preciosismo não deram margem ao desabrochar da personalidade subjectiva dos nossos escriptores. Mesmo no "Uraguay", de Basilio da Gama, onde ha versos tão elegantes, a monotonia do estilo descriptivo tolhe e difficulta o exlravazamento da sensibilidade profunda. Preparou-nos, por isso, o brasileirismo para "sentirmos" a influencia ambiente com espontaneidade, singeleza e ternura.
O "regionalismo", da maneira larga porque o considera Tristão de Athayde, sem excluir a porção de universalidade peculiar ás grandes creações estheticas, é o gráo mais elevado a que pôde chegar o espirito particularista de qualquer literatura. A "Mireio" traduz tão luminosamente o caracter da raça francesa como a "Iphigenia" ou as "Festas Galantes", E' que, em Mistral, ha uma "consciência do meio", transmittida de geração em geração, amadurecida e caldeada lentamente ao longo do tempo. Aquellas uvas, aquellas águas frescas e aquellas cigarras da Provença não pertencem exclusivamente a um certo logar, a uma determinada região, mas á natureza, á mesma natureza que despertou, nos homens rudes do seu poema, accentos e vozes universaes.
Uma das feições mais singulares do nosso regionalismo é a sertanista. Alguns ingênuos têm querido, porém, metter a nossa literatura somente no sertão. Contra esse dislate protesta sabiamente Tristão de Athayde, ponderando que: "O sertanismo, de forma alguma resume toda a nossa literatura. Mas, justamente*por ser, de momento, uma das suas faces originaes e fecundas, "devemos deixal-o exclusivamente aos filhos do sertão."
Por ser "filho do sertão", sobre gentilhomem dos mais puros da nossa gente, é que Arinos conseguiu accordar toda uma estirpe de escriptores interessantíssimos.
Basta mencionar, entre os modernos, o sr. Monteiro Lobato ou o sr. Peregrino Júnior com a sua profunda e trágica Pussanga, para ajuizar da sua influencia admirável. Não seria erro affirmar que Arinos não teve propriamente precursores. Quaes seriam elles? Alencar, com os seus arroubos épicos? Bernardo Guimarães, com sua galeria de personagens fluctuantes? Taunay, com o seu delicado sentimentalismo? Tavora, com as suas tiradas sociológicas? Nem um delles contribuiu directamente para formar a sua psyche. Houve, certamente, uma imponderável reacção do meio, sem o que seria impossível explicar-lhe a obra. Mas o que sobreleveu tudo isso foi o temperamento de Arinos. Esse, não se alou dos livros nem da atmosphera especiosa das cidades. Irrompeu livremente, á sombra das florestas,*nos campos illimitados das Geraes. Na penetrante e deliciosa pagina, em que Tristão de Athayde traça a biographia dos Mello, de Paracatú, está em relevo a gênese do temperamento de Arinos. Rebento de um tronco forte de mineradores, bandeirantes e agricultores, recebeu elle* por um conjunto rarissimo de circumstancias, o legado moral, intellectual e physico dos seus maiores. A* laia daquelles, trouxe no sangue a inquietação dos conquistadores aventurosos, dos homens que estão sempre em viagem, ou através dos mundos ou nos círculos infinitos da mesma alma que os habita.
Para melhor marcar a figura soberana de Affonso Arinos, soccorre-se Tristão de Athayde das preciosas lembranças de Alceu Amoroso Lima, em cuja memória tão indelevelmente ficou a recordação carinhosa daquelle "príncipe encantado" Merece referencia, entre varias outras, a seguinte reminiscencia: "Lembra-me, a propósito, um episódio por elle referido, de sua vida selvagem, e que bem pode fornecer a imagem necessária para comprehendermos o seu perfil mental. Certa tarde, depois de um dia de sol, do mais ardente sol do sertão, começou o céo a cobrir-se de negro. Não havia nas redondezas um rancho, uma tapera, uma furna siquer, que abrigasse a tropa. Resolveram, então, Arinos e camaradas, armar barracas no próprio chão, ao sopé de pequeno comoro, a cujas faldas corria um riacho de águas cristalinas. Tão claras eram ellas, que se podia ver o colorido dos pedrouços, formando-lhes o leito. Armadas as barracas, abrigados caminheiros e camaradas, roncou a tormenta. E só quem assitiu ás trovoadas do sertão, que aos mais affoitos apavoram, pode comprehender o que tenham sido essas horas de elementos em fúria. Toda a noite, uivando por arrancar dos esteios as lonas frágeis, rodou o vento; e torrentes de água ensopavam a terra, inundando o abrigo illusorio dos viajantes. Pela madrugada, amainou o tempo, e mal se quebraram as barras, sahiu Arinos a ver os estragos causados pela tempestade e a apreciar a torrente impetuosa de lama em que, seguramente, se teria convertido o paradisíaco riacho da véspera. Qual não foi o seu espanto ao observar-lhe. as águas tranquillas, mais tumidas por certo, mas tão immaculadas como elle as vira ao recolher-se! A enxurrada, coando pelo leito pétreo das nascentes e do curso do regato, não conseguira macular o cristal das águas! Assim foi a personalidade de Arinos, e assim devemos comprehender a sua obra."
Quem possue tão impressiva arte de narrar, pode facilmente transmittir os segredos de um subtil narrador, a exemplo de Arinos. O "expressionismo" de Tristão de Athayde não precisaria de mais títulos para vingar. Depara-nos o seu primeiro livro um modo pessoal, riquíssimo de observar e julgar as obras literárias. O homem, o critico e o artista caminham de par, e não se apartam nunca. Eis ahi porque, ao revés de encontrarmos a imagem de Arinos desmontada mecanicamente, em capítulos anatômicos, ou pervagante ao longo de períodos inúteis, vêmol-a de pé, cheia do fulgor que lhe era essencial, palpitante de carne e intelligencia. Surge-nos elle vivo, ora discutindo molhos e condimentos nos albergues da Bretanha, junto ao lume do borralho, ora no meio dos tropeiros de Minas, ora contando as suas historias, por onde circulava a seiva agreste do sertão, ora desenrolando, com a sorridente sabedoria de um mercador de jóias e tapetes orientaes, os surprehendentes thesouros da sua imaginação fina e ágil. Tudo isso me convence ainda mais que o único e verdadeiro gênero literário que existe é o estilo. Somente com esse milagroso dom de exprimir o que pensamos ou sentimos — seja na poesia, no romance ou na critica — é que se fazem as obras de arte. O livro de Tristão de Athayde é uma obra de arte.