A batalha do Passo do Rosário
A BATALHA DO PASSO DO
ROSÁRIO
E' ponto incontroverso, na historia de Portugal, terem os dirigentes do Reino manifestado freqüentes vezes a vontade de assentar, na America do Sul, os alicerces de um vasto império, onde, sob a protecção da Coroa bragantina, viesse reflorir, livre e desembaraçada de quaesquer empeços, a velha raça lusitana. Os manejos de Espanha, as intrigas dos seus estadistas para se apoderarem de toda a península, ora pelo apparato das armas, ora por via de promessas e concessões vantajosas, punham sempre de sobreaviso os políticos portuguezes. Refere o profundo historiador da política do Prata, sr. Alfredo Varela, em sua documentadissima obra — Duas Grandes Intrigas — que, ao tempo da usurpação castelhana, e, na previsão do seu duradouro successo, já alvitrara D. Luiz da Cunha a idéa de transferir o governo portuguez para o Brasil, onde, "em vez de ser o rei dos aguadeiros de Lisboa", poderia o monarcha fidelissimo "grangear o throno de um paiz magnífico", resguardado das ameaças e tropelias dos exércitos de Felippe. Sabe-se que a D. João IV offereceu a Espan h a , e m troca da faixa p e n i n s u l a r , a posse e o domínio da America lusitana, ao que oppoz o Rei formal r e c u s a . Mas, sem embargo de taes declarações ostensivas, declinara tanto o prestigio de P o r t u g a l e era tão pouco de a m e d r o n t a r o peso das suas forças, cada vez m a i s enfraquecidas desde o século XVII, que o p r ó p r i o D. João IV, consoante os testemunhos (pie nos d e p a r a a mencionada obra do sr. Varela, l a n ç a r a " a s augustas vistas para o Brasil, afim de prevenir á sua família u m a r e t i r a d a segura no caso em que algum successo adverso, que então muito se temia, necessitasse deste ultimo remédio"
Seguindo Portugal na alheta de Inglaterra, não é de a d m i r a r se visse, por mal de seu g r a d o , e em respeito á fé j u r a d a nos tratados, envolvido nas contendas accesas por sua poderosa a l u a d a , e posto como joguete entre t rança e Castella. Desguarnecido de homens destros nos misteres guerreiros, embora audazes e de boa t e m p e r a , corroído pelos vícios de unia sociedade que cm tudo imitava os destemperos da casa reinante, m a l b a r a t a n d o cm folguedos e funyanah.s. em jóias e repasI«»s siu-c-ulentos o m e l h o r das faculdades, dre- d o p a r a os mesmos f i „ s biseivos não só * w y r e s , m a s o caracter, nem o pulso vó' « " t a n o a o c firme de P o m b a l conseguiu refrear-lhe o ímpeto da queda em que se despenhava. Morto o grande Marquez, sentiu Portugal aggravarem-se os symptomas da moléstia que, da mais luzida fidalguia ao mais desprezível populacho, ia quebrando a resistência e o animo do povo. Foi rápido o minuto da realeza de Pombal. Aquella energia de que deu provas, aquella inabalável confiança que depositou em si mesmo, aquella rude varonilidade com que enfrentava e resolvia os mais árduos problemas, não eram coisa vulgar em seu tempo. O ouro das Minas Geraes, a prata e a pedraria das índias, attestando as arcas da metrópole, contribuíram para amollecer a fibra dos herdeiros dos Affonso Henrique e dos Gama.
Do sensualismo felino de D. João V ao materialismo grosseiro de D. João VI, houve apenas a marcha progressiva de uma tara, accrescida certamente de outras enfermidades congênitas e peores desordens de educação. Ora, pois, quando, ao raiar do XIX século, Portugal deu accordo de si, troavam na península os canhões de Bonaparte, e aquillo que perderam lustros consecutivos de indisciplina, desvario e incontinencia não recuperaria, por sem duvida, um surto de improvisação patriótica. Ia realizar-se, dessarte, e ainda por mercê das armas, a previsão de D. Luiz da Cunha. A casa de Bragança deixava o continente europeu em demanda da America.
Não arrefecera de todo, no espirito dos portuguezes, a ambição de alargar as conquistas já feitas no novo mundo. Concorria para isso não só o desejo de augmentar a immensa área dos territórios ganhos ao selvicola, mas, também, o tradicional sentimento de rivalidade que sempre animou os lusos contra seus vizinhos. A historia dessas lutas continuas que, travadas na península, vinham repercutir nas remotas regiões sul-americanas, é um dos capítulos mais curiosos da nossa formação. Em livro substancioso, onde estuda as causas da campanha da Cisplatina, mostra o illustre general Tasso Fragoso, com abundância de testemunhos e copiosa critica, ter sido o elemento militar factor preponderante na gênese da nacionalidade brasileira. Eraquanto, nas mesas das conferências internacionaes, discutiam os embaixadores e assignavam os representantes das Coroas de Portugal e Castella accòrdos e convenções de feitura especiosa, decidiam-se aqui os negócios das respectivas colônias pela destreza dos braços e pela iniciativa dos capitães destemerosos. Determinando o impulso das bandeiras profundas penetrações no continente, quanto fixava a letra morta dos convênios, iamos desfazendo, pouco e pouco, impellidos pelas necessidades oriundas das próprias condições da nossa existência. As raias do nosso paiz não foram traçadas pelos diplomatas, se não pelos bandeirantes, pelos mineradores, agricultores e batedores de Índios. O que aquelles fizeram foi homologar, com habilidade, o que estes conquistaram sem medir sacrifícios.
Quando a comitiva de D. João para aqui se transportou, se noutras regiões da colônia estavam serenadas as questões lindeiras, continuava a Banda Oriental a ser a mesma fonte de intrigas e dissensões entre os povos do Brasil e das Províncias do Prata. Os colonizadores portuguezes sempre tiveram em mira levar até á foz do Prata os confins das terras por elles descobertas na costa do Atlântico. (1)
Nas doações de Capitanias já se fala na "bocca do rio da Prata", como linha divisória extrema do Brasil. O primeiro passo para firmar os direitos de soberania sobre o território oriental, foi a fundação da Colônia do Sacramento, por Manoel Lobo, em 1680. Dahi até ao mallogrado combate do Passo do Rosário, tornou-se o Uruguay o pomo de discórdia perene. Diversas vezes entraram em accôrdo as cortes da península ibérica, propondo e assignando vários tratados, desde o
(1) Cf. Capistrano de Abreu: Sobre o Colônia do Sacramento. Eio de Janeiro, 1900. de 7 de maio de 1681 ao de l. a de outubro de 1777, com o intuito de dirimirem definitivamente a pendência. Mas, como observa sagazmente o general Tasso Fragoso, espelhando as nossas contendas as desavenças da Europa, foram inúteis todas aquellas tentativas de conciliação, pois, o que se concluía hoje, amanhã se rompia, ao sabor dos revezes ou dos successos felizes nos campos de batalha ou nos bastidores diplomáticos do velho continente.
Emquanto isso acontecia, sustentávamos, com as armas nas mãos. porfiosos recontros, defendendo-nos de investidas dos governadores de Buenos Aires, a exemplo das arriadas de Pedro de Ceballos sobre o Bio Grande, em 1763, e de Juan José Salcedo de Vertiz, em 1773, sobre o rio Pardo. Ao revés dos planos lusos de penetração no sul. alimentavam os espanhóes da Argentina a esperança de desbaratar os portuguezes nas coxilhas rio-grandenscs, atirando-os para o norte, e cerceando-lhes assim as possibilidades de attingirem elles o estuário do Prata. Contribuiu muito essa perigosa ameaça para que se povoassem os campos do sul e se levantassem fortins e villas onde fosse possível aguardar o inimigo vantajosamente Traça o general Tasso Fragoso magnífico estudo das tentativas, feitas por ambos os contendores, no sentido de se apossarem da Banda Oriental. Ressalta claramente, da sua critica minuciosa e imparcial, a impotência de brasileiros e argentinos para se firmarem no Uruguay, subjugado muitas vezes pela força, e sempre resistente ao domínio do invasor, alliando-se ora a uns e ora a outros, mas com o propósito manifesto de se libertar, afinal, quer das insinuações do Rio de Janeiro, quer das promessas de Buenos Aires.
Depois do incalculável dislate que praticaram os dirigentes do Rio, fundando a Colônia do Sacramento e consentindo, ao mesmo tempo, que os espanhóes se estabelecessem em Montevidéo, não era de espantar perdêssemos irremediavelmente a Banda Oriental. Tudo conspirava contra os desígnios da corte bragantina, em relação ao Prata. Os governos que ali se improvisaram seriam fatalmente ephemeros, porquanto, apartados como estavam da capital da colônia, sem maiores recursos, desprovidos de soldados e material necessário á manutenção do seu poderio, rodeados de inimigos teimosos, não lhes era fácil conservar intacto o prestigio da autoridade. Eis por que, máo grado as nossas intervenções nos negócios do Estado Oriental, as tropas que para lá enviamos, e todo o dinheiro gasto no custeio de varias occupações inconsistentes, nunca obtivemos um real triumpho. A batalha do Passo do Rosário, ou de Itusaingó, como lhe preferem chamar os argentinos, (2) foi apenas o ponto final de uma série de medidas infelizes, de mallogrados enredos, de ambições mal sustentadas, já pelos nossos homens, já pelos de Buenos Aires. Barbacena e Alvear, nas suas marchas e contramarchas, nos seus avanços e recuos, nas suas dúbias attitudes, encarnavam perfeitamente as indecisões da política internacional do Brasil e da Argentina. Defendia aquelle os interesses de um príncipe afouto e imprudente, a cujas mãos soffrcgas viera ter o espinhoso legado das machinações de D. Rodrigo de Souza Coutinho e D. Carlota Joaquina; representava este as tramas subtis de um caudilhismo ambicioso e audaz.
Quer de um quer de outro lado, não estava em jogo uma causa justa. Não foi o povo brasileiro que se levantou para arrebatar a autonomia do Uruguay. pois, se em verdade dependesse dahi a salvação e garantia da pátria, poderíamos varrer facilmente
(2) O verdadeiro num. . como refere Adolfo Sahiias, na sua obra Historia de ia Confedcración Araentina" tomo l.«, pi,. !».;/, ,„ fint% (! CutUaingó. "Por corruptala se ha llamado de ltu;ainaó ú Ia batalla que tuvo lugar ai frente dei Cas.-u dei Rosário y inaronies dei arroyò CutiZüUlqo ' da margem esquerda do Prata todos os contingentes argentinos ou orientaes que se encontrassem porventura em nosso caminho. Éramos superiores em tudo aos nossos inimigos de então. Em riqueza, em abundância de homens e munições, em preparo technico e militar Desfrutávamos a consideração das potências estrangeiras e mantinhamos indisputável hegemonia na America latina. Sustentávamos, porém, uma guerra antipathica, em que não estava empenhado o renome da nação, e contra a qual se erguiam vozes autorizadas no próprio parlamento do paiz. Vêm em apoio desta insophismavel these, as declamações do deputado Silva Maia, em 1826, quando, referindo-se á fala do throno, assim se exprimiu: "Se tomarmos o rio da Prata ao sul por ser uma divisa natural e bem visivel, então, pela mesma razão, deveríamos tomar por divisa, ao norte, o Amazonas, o que seria em grande prejuízo das possessões que temos para lá desse rio. Mas assim como não devemos perder o que de certo nos pertence, não devemos querer o que pertence aos vizinhos, estendendo-nos até ao Prata. Não faltemos ás regras e princípios da justiça" Assim, muito embora militassem em nosso favor certos pretextos de ordem geographica e histórica, eram despiciendos todos os precedentes que intentassemos invocar, em vista dos erros seculares comettidos pelos reinóes e da sua incapacidade manifesta nos negócios do Prata.
Lança mão desse ponderoso argumento o autor eminente da "Batalha do Passo do Bosario" para demonstrar, á saciedade, que, não havendo um ideal superior que dirigisse os officiaes e soldados brasileiros, não puderam estes pelejar com amor, posto lhes não minguasse o intemerato caracter revelado no correr da pugna. "A causa principal do nosso revez, escreve o general Tasso Fragoso, foram os factores moraes" Viram frustrados, por igual, os nossos adversários, os planos com que procuravam assegurar a posse do Vice-Reinado do Prata. Depois que se retirou do Passo do Rosário o exercito de Barbacena, as tropas de Alvear, ou por desidia, ou por impossibilidade material, não puderam transformar em victoria decisiva o inopinado suecesso de Itusaingó. Perderam contacto com o grosso das nossas armas, limitando-se a frouxos assaltos diversivos, carecentes de importância, e demonstrativos da má fé ou ignorância daquelles que. á semelhança de Baldrich, encarecem demasiado a estratégia do commandante em chefe dos corpos argentinos. O que ficou á prova, ao contrario disso, foi que, em toda a campanha da Cisplatina, não houve uma só inspiração genial, mas exclusivamente a canhestra applicação de expedientes e recursos suggeridos pelo momento ou pelas condições da luta.
Não foi em vão, comtudo, que perdemos nessa guerra porfiada oito mil dos nossos compatriotas e quarenta e oito mil contos de réis. Nasceu da Convenção de 27 de agosto de 1828 um paiz soberano, ao qual prestariamos ainda, varias vezes, o concurso desinteressado das nossas forças, em defesa da sua integridade. Moralmente, ao menos, estávamos victoriosos, pois obrigamos a Republica das Províncias Unidas do Rio da Prata a se desfazer dos territórios urugayos, então sob a sua tutela. A obra do general Tasso Fragoso, cujos passos de maior relevo capitulo neste breve ensaio, não vale somente como testemunho de pura doutrina militar, se não que se recommenda mui particularmente por uma profunda intuição da historia, da formação sociológica e do desenvolvimento político do nosso paiz. Oxalá procurássemos sempre clarear, desvendar e analysar assim, com essa mesma agudeza e lealdade, os nossos desastres e desatinos. Não lhes doam as mãos a quantos, imitando áquelle distincto militar, castigarem os nossos erros e apontarem, ajudados da serena razão, os verdadeiros caminhos que nos cumpre trilhar. Esses mostrarão que a historia não é mera collectanea de factos, simples matéria que a nossa imaginação vae colorindo e animando, mas uma disciplina de vida, um manancial sempre renovado de experiência e observação.