O universalismo britannico e o Brasil Estudos brasileiros: 3a. série · Capítulo 9 de 10
Obra Menu

O universalismo britannico e o Brasil

O UNIVERSALISMO BRITANNICO E O BRASIL

1 — O particularismo saxão e o humanismo

O particularismo saxão é uma diathese geographica. O caracter britannico é a saturação das próprias energias de uma raça comprimida, voltada para si mesma, entre duas infinitas monotonias: o mar e o céo. A lei dos grandes espaços gerou a imaginação britannica. Atrás dos seus horizontes não se desdobram divisas, onde se deslocam massas humanas, mas se estende a illimitada palpitação dos oceanos. Dentro da sua ilha, o inglez repete a lição da pérola, crescendo, em silencio, no concavo das valvas resistentes. Seu particularismo poderá ser uma enfermidade. Mas essa enfermidade constitue, sem duvida, uma riqueza da civilização Occidental. A contradicção perpetua entre o seu acanhado mundo physico e as solidões das águas marinhas, que o cercam por todos os lados, desenvolveu, no inglez, dois básicos sentimentos, que são os radicaes do seu caracter: a paixão do lar e o espirito de aventura.

Toda a Inglaterra é um sweet home. A Grã-Bretanha é o solar de uma familia feudal. O homem, ali, absorve a natureza, impõe um estilo ás coisas que o rodeiam. A paisagem britannica parece pintada por um primitivo, parece um jogo fino de pincel. 0 instincto da disciplina, resultante da economia de força, transparece nos taboleiros que sustentam, ao feitio de salvas de verdura, os cottages campestres, e se confirma no prodígio geométrico dos parques e jardins, de onde se levanta a pedra secular dos castellos senhoris.

Foi esse instincto de disciplina, formado cm lutas ásperas, onde os sangues invasores nordicos, romanos e normandos, vieram fundir-se na tempera autóchtone, que transformou o espirito de aventura em instrumento de acção, em regra de posse e de domínio sobre a matéria. Deante do mar, teria o bretão apenas uma de duas preferencias: ou a escravidão da solitude, ou a livre expansão da conquista.

O particularismo saxão criou o typo do aventureiro, no século XVI. O inglez saiu do seu lar, para defendel-o melhor. Depois de procurar, ansiosamente, um apoio no continente europeu, depois de correr as costas do Mar do Norte, da Mancha e da Biscaya, em refregas violentas, mas sem resultados definitivos, o guerreiro insular converteu-se no pirata marítimo.

A linhagem dos Lencaster, dos Cavendish, dos Walter Raleigh, surgiu á proa das naus de pilhagem e contrabando. Portuguezes, espanhóes, francos e batavos, tiveram que dividir, no mar, com os marinheiros de Elizabeth, os destinos dos novos mundos descobertos. Abre-se, então, o cyclo das feitorias. Em todos os quadrantes alvejam as velas de Plymouth, de Dover, Southampton e Liverpool. Inaugura-se a éra das cruzadas commerciaes. E as arcas de Londres atufamse da prata do México, do ouro do Potosi, da especiaria de Ceylão, das madeiras e plumagens do Brasil.

Senhores de archipelagos, estreitos, canaes, penínsulas e cabos, onde montam guarda as suas esquadras manobreiras, os britannicos invadem os continentes. Assaltam o Canadá, descem ao Missouri, fixam-se na America Central e na Guyana, penetram na África e espraiam-se pela índia, até repontar no Mediterrâneo, pela Ásia Menor e pelo Egypto. Em menos de duas centúrias, as portas do mundo ficam em suas mãos. Suez, Gibraltar, Cabo da Bôa Esperança, Austrália, Malvinas, Bahamas, Barbados, Trinidad, as chaves das communicações internacionaes encontram-se nas câmaras de commando de seus almirantes e capitães. Só o Panamá lhes escapa, com a condição de que, ali, também se fale inglez.

Essa permanente dilatação de raias e zonas de influencia, permittiu que o ardente aventureiro se mudasse no colonizador methodico. Insensivelmente, o caracter saxão impregnou-se de um generoso espirito humanista. A topographia do planeta, que as cartas lusas, itálicas e espanholas do Renascimento esboçaram com tintas de fantasia, começou a ser levantada com precisão mathematica. A chronica dos navegadores épicos, dos sacerdotes ingênuos e dos piratas solertes, foi substituída pelas relações de viagem dos mercadores atilados, sem a imaginação de Marco Polo, mas com a lúcida intelligencia dos livros de razão. As observações pitorescas dos roteiros náuticos, de Lisboa, Cadiz, Veneza e Brest, cederam logar ás classificações pacientes dos naturalistas, zoólogos, phytologos e mineralogistas. O inglez principiou a fazer o inventario do mundo.

2 — Canning c a liberdade

da America Latina

Mercê desse universalismo, proveniente do contado directo com terras e gentes estranhas ao velho mundo, pôde a política da côrte de St. James perceber a luz do astro que nascia, ao dealbar o século XIX, na obscura e nebulosa America Latina. Emquanto, no taboleiro da Santa Alliança, russos, austríacos, francezes e prussianos se empenhavam em alimentar os leões de Castella com sangue americano, favorecendo, por meio daquellas combinações subtis que teceram a trama do Tratado de Vienna, a reconquista do Vice-Reino do Prata, do Vice-Reino do Peru e do Vice-Reino de Nova Espanha, o gabinete de Londres viu, num relance, a impossibilidade material da empresa.

O inglez sabia que as directrizes políticas do século XIX já não se cifravam nos accôrdos sybilinos entre as coroas. A Europa estava esgotada pelos sacrifícios da Revolução e do Império bonapartista. Para reconstituil-a, seria mister a abertura de novos mercados. E a liberdade da America importaria na única formula de equilíbrio para o velho mundo.

Pela voz de Canning falou o universalismo britannico. Nem um poder possuía, então, maior somma de humanismo, de conhecimento e de cultura do Universo que o da Grã-Bretanha. O descobrimento da America, portanto, não foi somente fruto da energia luso-hispanica. Foi, também, uma resultante da politica britannica.

Vencendo o absolutismo de Reis e Imperadores, assim como a própria vontade de ferro do Duque de Wellington, Canning descobriu de novo a America. Descobriu-a no que ella apresentava de mais real: na sua humanidade.

3 — O espirito britannico e o Brasil

As instrucções com que o Lord Strangford desembarcou em Lisboa, no mez de Novembro de 1807, afim de aconselhar o Príncipe D. João a deixar immediatamente o Reino, em busca da colônia ultramarina, foram o fermento activo da independência do Brasil. Se a família bragantina permanecesse na península, seria Junot o instrumento de outra abdicação de Bayonna. E o Brasil, certamente, não se libertaria com um Príncipe, dentro de uma formula de unidade territorial, mas com um pugilo de caudilhos, mutilado em vários núcleos de exasperada demagogia .

Canning influiu decisivamente para que o Brasil fosse um Reino, com os mesmos foros da Metrópole, antes de ser um Império, o maior Império da America. Sua vigilância sympathica sempre nos acompanhou. E se, por vezes, o nosso Itabayana se queixou a Pedro I.° de algum repente de humor do Foreign Office, nem por isso o chanceller de Wellington nos regateou a confiança.

Na sua longa correspondência com Strangford, o nome do Brasil brilha como indice de esperança. Ao remetter as credenciaes áquelle plenipotenciario, insistia Canning no propósito de aconselhar o Principe D. João a assentar, no novo Reino, as bases da sua dynastia. O Brasil, accentuou elle em mais de uma opportunidade, por sua grandeza e enormes cabedaes, é um império de futuro muito maior que o pequenino Portugal. E accrescentava, em officio de 17 de abril de 1808, que Sua Majestade Britannica tinha a maior satisfação, quando considerava "the Period when the Brazilian Monarchy shall have acquired strength and consideration far superior to that which Portugal enjoyed among the nations of Europe." (Record Office. London. Vol. l.° F- O. 63).

Ao lado de Strangford, de Stuart, de Ponsonby e Gordon, de par com os diplomatas e os políticos, formam, na intimidade com que versaram assumptos brasileiros, aristocratas, navegadores, commerciantes, scientistas e modestos viajantes.

Antes de Roberto Southey, o Brasil não conhecia bem a sua historia. Rocha Pitta escrevera, no século XVIII, uma ingênua America Portugueza, com a rhetorica de uma arcade. Os fastos do paiz encontravam-se esparsos nas chronicas e nos roteiros de bandeirantes, missionários e padres visitadores, despachados pelo Santo Officio. Não havia, por isso, uma obra de synthese, que reproduzisse a physionomia do Brasil, na sua integridade. Pois, coube a um poeta inglez, de quem Byron disse tanto mal injustamente, escrever a nossa primeira historia. E, para cumulo do espanto, merece referencia o facto de que Roberto Southey nunca veio ao Brasil !

Depois dessa carta de baptismo, Henderson, em 1821, e Armitage em 1836, publicaram copiosas historias do Brasil. Em 1839, o almirante Sir Sidney Smith estampou as suas Memórias, onde se deparam profundos subsídios sobre a intriga de Carlota Joaquina, para se apossar do Vice-Reinado do Prata. Koster descreveu o nordeste, onde viveu dez annos, chegando a senhor de engenho em Itamaracá. Luccock, que passou também uma década entre nós, deixou notas interessantíssimas sobre os costumes do Rio de Janeiro, entre 1808 e 1818, assim como sobre as capitanias do sul. Maria Graham, Sir G. M. Keith, James Prior estudaram, cada qual ao seu gcito, o nosso paiz. Fixaram algumas linhas fundamcntaes do nosso caracter, ás vezes com ralhos, outras com excessivos louvores, mas sempre com espirito objectivo.

O universalismo dos inglezes conferiulhes o galardão de clássicos da historia americana. Sem o livro de Southey ou sem a obra de Prescott, por exemplo, haveria paginas em branco tanto na historia do Brasil como na do México. Se os inventários bem feitos facultassem títulos de posse, os britannicos seriam, em verdade, os proprietários do mundo.

1/1
Menu

Fazer anotação