Prefacio ao Moltke, de Raul Tavares Estudos brasileiros: 3a. série · Capítulo 10 de 10
Obra Menu

Prefacio ao Moltke, de Raul Tavares

PREFACIO AO "MOLTKE", DE

RAUL TAVARES

Moltke é uma synthese do gênio germânico. Sua vida é uma continua batalha. Nascido em um meio que lhe fechava, a cada passo, a ousada trajectoria marcada pelo destino, viu-se forçado, no primeiro impeto da idade varonil, a procurar uma pátria digna da sua ambição enérgica. Uma pátria que não fosse apenas recordação e ternura, mas principalmente desejo e esperança. Não lhe bastava a Dinamarca das tranquillas auroras boreaes, dos fiords mansos e brumosos, dos campos macios, dos castellos roqueiros ainda mergulhados no espanto dos mythos cosmogonicos. Moltke não pertencia á família dos espíritos irrequietos, dos que jogam com a vida pelo puro prazer de jogar, dos que se satisfazem com os artifícios do calculo pelo simples gosto de calcular. Nas doces granjas de Andersen ou entre os soliloquios do Príncipe Hamlet não havia logar para a sua espada. Moltke tem a flexibilidade forte da lamina de aço. E' recto, preciso, claro e resistente. Prepara-se para todas as tarefas, até as mais singelas, com inalterável lentidão. Ajunta, pouco e pouco, os materiaes de que necessita, corrige, aqui e ali, os dados do seu problema, investiga, esmiuça, põe em equação todas as incógnitas possíveis, resolve, elucida todas as hypotheses. Mas a sua acção produz o effeito de um golpe instantâneo. E' a manobra do raio entre duas nuvens de tormenta. 0 choque succede ao clarão, quasi de improviso. Moltke é uma espada.

Bismarck, por exemplo, em que pese aos prégoeiros do pan-germanismo, Bismarck não se ajusta á sua raça tão perfeitamente quanto Moltke. No Chanceller ha uma astucia de grego, de judeu, de homem do Mediterrâneo. Sua intelligencia se compraz em deslocar todos os problemas. Ninguém sabe nunca onde elle vai conduzir-nos. Quando parece que está cedendo tudo, é, justamente, quando vae ganhar tudo. Foi assim que elle atirou Francisco José em Sadowa e Napoleão III em Sedan. Seu estilo é o de Richelieu. Menos elegante que o do Cardeal, mas em ambos ha o mesmo cynismo de aproveitar a vietoria com sensualismo, o mesmo costume subtil de experimentar até onde vae a capacidade do vencido para se deixar vencer ainda mais.

Bismarck é uni homem de muitos caminhos. Moltke é o homem de um caminho só. Pode ser què o Marechal, á guisa do Diplomata, pensasse na unidade do Império. O que elle queria, antes do mais, era a grandeza da Prússia. Objectivo directo, rápido, sem complicações, sem raizes imaginárias. Visando-o, Moltke visava um alvo presente sempre aos seus olhos, que o seu pensamento estava habituado a ferir, desde a juventude. E' que, na Prússia, estava a sua raça, a sua gens, e do desenvolvimento delia dependeria, naturalmente, a projecção do germano em toda a Europa.

Moltke percorreu o velho mundo, da Hollanda á Turquia, como um caixeiro-viajante, levando no bolso, para convencer todos os povos, a mercadoria única do seu amor: a Prússia. Na sua longa correspondência intima, que o Commandante Raul Tavares commenta com tanta agudez, ha um refrão permanente, o refrão do soldado distante do seu regimento, do soldado que não deve esquecer nunca as fronteiras da sua terra natal. Essas fronteiras foram a preoccupação exclusiva da sua vida. Nem os caiques dourados de Stambul, nem as steppes da Rússia desenrolando-se por milhares de kilometros, nem as águas illustres do mar jonico, saturadas de historia humana e divina, nem os brilhos ephemeros de Paris do Segundo Império, nada disso lhe perturbou a lembrança das suas fronteiras. Em toda parte lá estavam ellas, vigiadas pelos seus pesados prussianos silenciosos e timidos.

A um verdadeiro prussiano a Europa não devia mostrar uma plácida mascara tranquillizadora. As chammas da guerra da Criméa poderiam reaccender-se, dilatando-se por outros paizes. Em face de uma Rússia exasperada, de uma Áustria intolerante, cheia de suspicacias, de uma França dirigida por um Bonaparte, de uma Inglaterra sempre disposta a desfechar sorpresas, a Prússia estava só. Peor, ainda. A Prússia estava presa nas malhas de uma larga rede de intrigas que, entre a Baviera, o Hanovre, os Estados do Rheno e demais povos da Allemanha do Sul, teciam as cortes de Vienna e de Paris. Era mister, portanto, ver claro para agir com proveito.

Moltke viu claro. Considerou, genialmente, que sua pátria sahiria humilhada irremediavelmente da pugna próxima se não preparasse logo elementos bastantes para defender os seus interesses vitaes. Elle viu, também, que a só diplomacia, por mais sagazes que fossem as suas directrizes, não daria á Prússia nem um relevo na Europa, nem evitaria uma possivel derrota desastrosa e immincnte. Em poucos annos, lançando mão do instincto de disciplina característico da sua raça, elle dava ao lacre dos timbres, com que Bismarck sellava os seus tratados, o peso grave de quinhentas mil baionetas. Dessarte, em verdade, a palavra da Prússia poderia pesar nos destinos da Europa. E foi com esse peso inicial que, mais tarde, conseguiu equilibrar-se a balança da Unidade do Império Allemão. Sem as maduras meditações de Moltke, sem as suas cogitações, sem a sua longa paciência de soldado, os espelhos de Luiz XIV, na Galeria de Versalhes, não teriam reflectido as sedas dos estandartes e os metaes das couraças com que os germanos festejaram o nascimento da Grande Allemanha. Sem Moltke, Bismarck teria sido um amável philosopho político, um sociólogo de pequena corte, commentador de Goethe, de Beethoven, amigo dos potes de faiança, onde espuma a cerveja negra de Munich.

Essa é a lição generosa do formoso ensaio do Commandante Raul Tavares. Escrevendo sobre Moltke, o illustre official da nossa Marinha de Guerra não quiz apenas mostrar o seu enorme cabedal de cultura e as riquezas do seu gosto de escriptor. Na Prússia de hontem elle enxerga o Brasil de hoje. Este Moltke, de Baul Tavares, não é um retrato bem composto, é, ao revés, um jacto de matéria viva, uma grande massa de energia, de exemplos edificantes e productivos. ( 1 ) E \ em summa, um incitamento, um aviso aos descuidosos, a quantos julgam que o factor militar é despiciendo e até prejudicial, a quantos confundem o entorpecimento satisfeito com a severa disciplina da paz forte e varonil.

Os povos sem disciplina não têm direito a vida. Disciplina quer dizer capacidade de adaptação á realidade do paiz, comprehensão dos seus problemas políticos, estudo acurado das suas necessidades. O Estado que apenas prepara doutores obra criminosamente, porque deixa de apromptar homens para a sua própria defesa. Só as verdadeiras Escolas poderão produzir typos da excellencia de Moltke. A verdadeira Escola não se baseia na letra morta dos livros, mas na lição permanente do real. O que a Escola deve formar é, principalmente, o caracter e não a fria cultura da intelligencia. Livros como este do Commandante Raul Tavares são salutares para temperar o caracter dos moços. Mostrar com tanto acerto uma vida, como a de Moltke, é ensinar a viver

(1) Raul Tavares: Moltke. Rio de Janeiro. 1920.

1/1
Menu

Fazer anotação