A historia militar do Brasil
A HISTORIA MILITAR DO
BRASIL
Somos um povo muito mal julgado. A Europa nos desconhece, confunde as nossas origens ethnicas e históricas com as dos nossos vizinhos espanhóes, sabe apenas que habitamos um território immenso, rico de metaes e pedrarias, abundante de matérias primas de toda espécie. Gustave Le Bon declarou que éramos uma nação hispano-americana, igual á Argentina, ao Peru e ao Chile. Lapouge affirmou, no Aryano, que o "Brasil era um grande Estado negro que regressava á barbaria" O barão de Gobineau escreveu que éramos uma sub-raça, sem importância histórica, indigna de merecer a attenção dos sociólogos avisados. Paul Adam humilhounos com os seus hyperbolicos louvores, comparando as nossas poetizas campanudas aos maiores escriptores da Academia Franceza. Blasco Ibanez só enxergou no Rio de Janeiro uma colmeia de negroides semi-nús regando as sargetas das ruas, ao sol candente dos trópicos abrazadores, com as secreções da bexiga. Jules Huret, por mal da fatalidade, desembarcou, aqui, numa noite de Carnaval. O que lhe interessou, em nossa capital, foram as orchideas da Tijuca e os micos do Silvestre. De um viajante francez, recebemos a carinhosa epigraphe conhecida: No Brasil, os frutos não têm sabor, os homens não têm vergonha e as mulheres não têm pudor Talvez tenha sido Chamberlain um dos poucos publicistas europeus que nos fizeram justiça e nos olharam com sympathia.
A lista dos primeiros, entretanto, é muito mais numerosa e selecta.
Para o europeu, geralmente, o brasileiro é um typo achamboado,, vestido de couro, de chapeirão desabado, indolente, sensual, capaz de se defender das cobras mas incapaz de vencer, na concorrência dos "povos civilizados" Dizem alguns dos nossos agentes diplomáticos e consulares que o Brasil é mais conhecido no Japão que no nosso delicioso velho mundo.
Se a Europa nos desconhece, os paizes da America do Sul nos calumniam. Tal phenomeno, todavia, não nos deve espantar. E' das escripturas que os vizinhos não se amam, principalmente quando uns são devedores dos outros. A historia diplomática e militar do Brasil é um longo rói de favores prestados aos povos lindeiros do nosso paiz. Quando ella for escripta, como deve ser. ninguém ousará contestar esse juizo, onde nada ha de gabolice patriótica.
O illustre commandante Genserico de Vasconcellos, na sua admirável obra sobre a campanha contra Rosas e Oribe, poz em foco todas essas verdades infelizmente deslembradas até dos brasileiros. (1) Mostra-nos o distincto official do nosso Exercito, em paginas de alto patriotismo e de excellente doutrina militar, servindo-se da mais copiosa documentação conhecida sobre o assumpto, a posição do Brasil entre os povos do Prata. O sangue dos nossos homens, o dinheiro do nosso thesouro, a estratégia dos nossos generaes e a politica subtil dos nossos diplomatas e governantes entraram largamente, contribuíram generosamente para a estabilização dos governos do Prata, entregues á sanha dos caudilhos ambiciosos e aventureiros. Demos á Argentina o melhor das nossas energias, conquistamos, para a tranquillidade do seu destino político, a victoria de Monte Caseros, que determinou a deposição e a fuga do dictador d. João Manoel de Rosas. Como nos pagaram, porém, taes sacrificios? Apezar daquellas vozes que, no Manifesto de 10 de março de 1852, se dirigiram ao brigadeiro Marques de Souza, clamando: "Os argentinos reconhecem que,
(1) Genserico de Vasconcellos: Historia Militar do Brasil. Rio de Janeiro. 1922. no dia 3 de fevereiro, contrairam uma immensa divida para com a generosa nação brasileira"; máo grado as ardentes ordens do dia de Urquiza aos nossos bravos soldados, os historiadores militares da Argentina, talvez por escassez de documentos e informações, procuraram sempre apagar o brilho das nossas acções dentro do território da sua pátria, conspurcado pela mashorca federal. ( 2 ) Apezar de "Caseros" ainda guardam os museus da Republica vizinha os falsos trophéos de Itusaingó, trophéos que, ainda ha pouco, o benemérito sr. Macedo Soares reduziu ás verdadeiras proporções, em seu consciencioso livro acerca dessa irritante questão. (3) Ajudámos a expulsar da Republica Oriental o bando de Oribe, abrimos áquelle governo as portas das nossas arcas, mandámos a esquadra de Greenfell proteger as costas uruguayas. afim de cortar a retirada das tropas inimigas e impedir a juncção com as de Rosas. De que modo nos agradeceram certos nacionalistas uruguayos? Declarando, pela palavra autorizada de um dos seus parlamentares, o sr. Larreta, que "ei Brasil ha servido siempre, en Ias cuestiones dei Rio de Ia Plata, sus in-
(2) Cf. Sarmienio: Campana en ei Ejcrcito Grande Atu ato.
(.'!) J. C de Macedo Soans: Os falsos trophéos de ItiiMiiugó. S. Paulo. 1!>22. tereses y no los nuestros, y hago votos por que no vuelva a producirse alguna situación en que le demos oportunidad ai Brasil -de venir a luchar entre nosotros y por nuestras cosas, a titulo de que viene a servir a Ia libertad"; mais adeante ajunta o sr. Larreta: "que libertad podia dar a otros, él que no habia sabido todavia ser libre, ni libertar a esos millones de hombres que tenia bajo Ia férula de Ia esclavitud?" (Diário de Sesiones de Ia Câmara de Representantes. Tomo CCLXVI, pag. 122) Evitámos que o Uruguay se tornasse a presa fácil da cobiça de Rosas, quando se tornou inefficaz a intervenção francobritannica.
Pois bem, que dizem de nós vários dos seus publicistas? Lê-se na Geographia, de Pedro Martin, adoptada officialmente nas escolas orientaes, que "no litoral do Brasil reina quasi constantemente a febre amarella" Abra-se, por exemplo, o Curso da Historia Pátria, de Carlos Maeso, e veja-se como é tratado o Exercito brasileiro: "El 31 de diciembre (cerco de Paysandú), Lucas Piriz separa 34 hombres de los que tenia en las trincheras, y senalandoles un batallón brasilero que le hacia muchas bajas en sus filas: — estos hombres nos hacen mucho mal, les dice a aquellos bravos; es preciso desalojarlos de alli. La pólvora es poça y debemos economisarla; vamos a sacarlos a punta de lanza. — Y con un arrojo temerário empunan Ia espada, acometen a lanza y bayoneta, y introducen ei pânico entre los brasilefios, que casi todos huyen saltando las paredes, y dando Ia espalda a un punado de Valientes." Deveria o escriptor uruguayo, para ser mais exacto, advertir, em nota, que muitos desses covardes que fugiram de um punhado de uruguayos terriveis como tigres de Bengala, auxiliaram mais tarde os batalhões, quasi destroçados, de César Diaz a galgar a posição de Caseros, o núcleo de resistência de Rosas. O sr. Maeso, porém, preferiu accrescentar que, depois daquella immortal arremetida, o "coronel Lucas Piriz se sento tranqüilamente a comer damascos" Eis. pois, o que o jacobinismo oriental nos deu, em troca do que fizemos pela sua independência: os caroços dos damascos comidos pelo coronel Lucas Piriz...
Não mereceu menos da nossa política de paz e amizade o Paraguay Fomos a primeira nação que lhe reconheceu a independência. Garantimos-lhe a existência política, ameaçada pelos desmandos de Rosas, assignando o Tratado de 25 de dezembro de 1850, em virtude do qual dávamos ao Paraguay o prestigio de uma alliança poderosíssima. Enviamos-lhe uma plciade notável de instruetores militares, como Soares Pinto, Caminada, Willagran Cabrita e Porto-Carrero. Quem traçou o plano de Humaytá foi um tenentecoronel prussiano, Wisner Morgestein, apresentado ás autoridades paraguayas pelo ministro plenipotenciario do Brasil, Pimenta Bueno. Sabemos como o Paraguay nos descontou essa letra de amizade, impondo-nos o sacrifício da victoria de Riachuelo...
E' grato, comtudo, registar o asserto com que o sr. Genserico de Vasconcellos conclue uma das suas notáveis conferências sobre o nosso passado militar: "Em toda a nossa historia o exercito cumpriu o seu dever" Precisamos pôr em relevo o cumprimento desse dever, afim de que, ao menos os brasileiros, possamos conhecer e amar as tradições do Brasil. Apesar de isolados entre varias raças de Índole diversa da nossa, nunca desembainhamos a espada para ferir direitos alheios, nunca intrigámos os nossos vizinhos uns com os outros, nunca tivemos necessidade do auxilio estranho para libertar-nos de caudilhos, mercê de Deus, inexistentes em nossa pátria. Cabe aos profissionaes illustres, como o sr. Genserico de Vasconcellos, essa pesada mas nobilissima tarefa de escrever indelevelmente a Historia Militar do Brasil. Um paiz que sempre poz a espada dos seus generaes ao serviço do Direito, deve orgulhar-se da sua força.