De Cherbourg a Paris Pathé-Baby · Capítulo 2 de 10
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De Cherbourg a Paris

1. pii! — En voiture! En voiture! Um apito. Não: dois apitos. Sinais vermelhos. Rápido, o trem corre, rola com ruído, ran­ gendo. Sem deixar saudades, Cherbourg desajia- rece. Normandia. As aldeias começam a desfilar, vertiginosamente, umas atrás das outras, enfilei­ radas ao longo da linha como postes telegráficos. A natureza, para compor a paisagem nor- manda, estudou geometria. Desenhou-a com aju­ da de esquadro e compasso. Goloriu-a pobremen­ te, com duas cores só : cinzenta e verde. Caprichou. Estilisou. Tudo é medido: os campos, os prados, as árvores. O homem colaborou com a natureza : dividiu a terra em triângulos, losangos, trapésios. Muito interesseiro, espetou anúncios: CHOCOLAT ME- NIER, COINTREAU TRIPLE-SEG, SAVON ERAS- MIC. Evitou curvas. Deformou as árvores. Alisou os campos. Penteou a relva. t h b a b

2. percurso Casinhas aos pares. Téíos pontudos de ardó­ sia. Muros de pedra. Vacas bem tratadas (tudo é bem tratado). Simetria, fria simetria. Em cada canto do ter­ reiro quadrado, um arbusto. No centro, uma ár­ vore. A cêrca é de madeira pintada. Ninguém. Toda gente já viu um quadro assim. Numa loja de brinquedos. Cidadesinhas pequeninas. O trem não lhes dá importância. Passa por elas: não pára. Pobrezi­ nhas, ficam tristes. Ao menos, parece. Agora, em Valognes, Carentan, Caen, Lisieux e outras cidades assim, de muitas casas, de igrejas magestosas, de estação metida a sebo, o trem esta­ ca. Minutos só, é verdade. Logo, dispara. Vai dis­ parando, até encontrar outra que, unindo numa suplica as mãos no alto de um campanário, Ibe pede, lhe diz: — Pára! Êle consente ofegante. Ao menos, parece.

3. o lusíada do compartimento vermelho O português que desce em todas as estações usa bigodes pretos e polainas amarelas. E’ gordo. Súa. Desce para subir carregado. Traz frutas, gar­ rafas de Vitel, e doces para a mulher e os filhos. A paisagem o impressiona. Descascando peras, destampando garrafas, desembrulhando pacotes, 'encosta sempre o vidro do monóculo no vidro da janela e explode: — E* de escacha!

4. chiiú!

Escuridão de túneis. Pequenos castelos, cer­ ceados por parques e gramados. Macieiras perfila­ das como soldados. Piipas de madeira nos muros das casas. E’ primavera. Onde estão as flores? Bosques de pinheiros tristes. Planice chata que não termina I mais. Não há montanhas escondendo o horizonte. ! Por muito favor, colinas anãs. E só lá de vez em I quando. As povoações abrem ala para o trem passar, i E o trem passa veloz, em busca de Paris. Trilhos, trilhos, trilhos. Discos verdes, discos vermelhos. Lanternas. Sinais. Avisos. Letreiros. Trens parados. Trilhos. Postes. Guindastes. Loco- , motivas fumegantes. Arrabaldes tranquilos. Auto­ móveis. Estações pequeninas de nomes enormes. Fumaça. Trilhos. Rapidez do trem que vôa. Ruido.

K-|i. i (i M i * J- ti) ■ tí* *\ í> Imobilidade das cousas que ficam. Cheiro de gen­ Ct. t ( te. Cheiro de trabalho. Cheiro de civilização. Tri­ lhos. E as torres da Sacré Coeur, á esquerda, alon­ gando Montmartre até o céu. E a Tour Eiffel, á di­ reita, espetando as nuvens. Gare St. Lazare. Faz frio. Desce um casal de brasileiros: êle, de palheta, bengala e sobretudo; ela, toda cores carnavalescas, toda porta de tintu­ raria. — Ce sont des argentins. .. Ainda bem! Ainda bem!

Abril de 1925.

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