Barcelona, Sevilha e Córdoba Pathé-Baby · Capítulo 9 de 10
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Barcelona, Sevilha e Córdoba

1. a cidade

Sob as folhagens da Rambla, a multidão se estende como um tapete. O Mercado de la Bo- queria apodrece o ar. Para o Escribiente n, 3, úa mulher, toda ânsia, dita uma carta com lágrimas. 1,, í i Na Plaza de la Universidad, o Monumento al Doctor Robert pede dinamite. Passam olhos, sob mantilhas negras. O abandono das ruas. A hediondez dos pré­ dios. A cincoenta e tres metros de altura, Christó- vão Colombo abençoa o mar de mastros. i O corso no Paseo de Gracia enfileira automó­ veis milionários. Dentro do terreno murado, sobem paredões gradeados, parecidos com girafas, parecidos com a Tour Eiffel. Pastores, ovelhas e santos, em cima de uma porta, aglomeram-se para um concurso de feiura. A construção, em começo, é um assom­ •i. bramento de pedra. Caminha para uma realidade final assustadora. — El Templo de la Sagrada Familia. Con- cepción portentosa dei genial arquitecto d o n ... p t h a Y. M')'í — Siga! Siga, por favor! Poeira. Abençoada. A noite enfeita Barcelona, como úa mantillia.

; ti '1; 2. a tourada As patas do touro negro golpeiam a terra. Borboletar de capas. O cavalo de olhos vendados recebe a chifrada, sacode as patas dianteiras no alto, cai destripado. O touro cola-se contra outro. — Que viene! Que viene! O picador é uma peteca no ar. O ventre la­ cerado do cavalo sobe e desce com vida. — Arriba! Balançando meio metro de intestino grosso,, manchado de areia, a azêmola dança sobre as pernas moles. A banda, vestida de vermelho, toca La bejarana. Wi -• Só, Lagarito avança. Devagar. O touro abai­ . I; xa a cabeça deante do homem azul que caminha» E pula como um autômato. A capa resvala sôbre os chifres. — Olé! Vai e vem deante do focinho espumante. — Olé! O toréador é um pião roçando a nuca peluda. — Olé! 1' I

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Pára deante do touro, olhar contra olhar. — Olé! Ajoelha-se, agitando a capa. — Olé! O delírio levanta vinte e cinco mil entusias­ mos. As palmas sacodem o anfiteatro ondeante. 0 primeiro par de bandarilhas desenha um arabesco de sangue. No centro da arena, Genesillo, mãos no alto, bate as farpas coloridas. Sobre o bico dos pés, avança. Freme. E’ uma volúpia. Deslisa. E’ um sadismo. Aproxima-se. Corre. Espeta. Escapa. A assistência é um turbilhão em pé. Com a espada sob a capa, Lagartito volta. Co­ la-se ao íouro. Os chifres, depois o touro, passam por baixo do pano estendido como uma asa. — Olé! Duas marradas roçam o braço que não treme. — Olé! O vulto asul se expõe e se encolhe. Sem al­ cança-lo, o vulto negro estonteia. — Olé! Ribomba a aclamação. — Mátalo! Mátalo! O silêncio principia com um toque de clarim. Arqueja a emoção colectiva. A tres passos da vítima raivosa, toreador e lâmina são um ângulo recto que espreita. Um se- ••

gundo. Dois. T r ... A espada branca mergulha por metade na nuca arqueada. Reluz, tremendo. Em silêncio, no silêncio, o touro tomba deante do matador erecto. No berreiro desvairado lenços se agitam como flâmulas que saúdam. Bengalas, pentes, manti­ lir lhas e carteiras são o despojo do entusiasmo ro­ lando no chão revolto. Lagartito recebe uma ore­ lha do touro. Ganha a outra. Ganha o rabo. Dá duas voltas pela arena, chapéu erguido. — Viva! Viva! Viva! A banda berra a Canção do Toreador.

0 touro n. 44, côr de terra sêca, vira o rabo ás capas provocadoras. Contempla os cavalos com ternura. Quer brincar. Salta contente. — Otro toro! Oiro toro! Otro toro! A indignação zune assobios. A vaia sobe como uma inundação. Transborda em injúrias. Volta­ dos para a presidência de palheta, os meninos que urram, as mulheres de punhos levantados, os homens de olhar assassino são uma onda que se ergue, se avoluma e espuma de cólera para reben­ tar. O desespero sacode lenços. — Lástima de toro! Hay que cambiarlo! Otro toro! Otro toro! Dois bois macambúzios entram, badalando. O touro n. 44 sai pateado.

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O cavalo de ventre costurado esborracha-se no chão. O touro tira de outro os arreios e as tri- pas. O terceiro se estende na arena como uma bola de borracha furada. A terra embebeda-se de sangue quente. — Mira que toro, hombre! Bravito y noble! O animal esvazia a arena. Fica só, bufando. — Que valientes! Que valientes! A assuada ri. O capinha de roxo avança. O touro investe. O capinha de roxo dispara. O touro alcança-o. O capinha de roxo é recolhido com a perna esquer­ da rasgada. Sobre os íoreadores a vaia cai como uma bo­ fetada. Genesillo adeanta-se. Chega perto. Balança a capa. A arrancada quási o derruba. A pafeada também. As farpas de Lagartito caem murchas, ü ber- reiro das archibancadas é um estouro longo. Genesillo enfia a espada obliquamente. In­ teira. A ponta, fóra da barriga do touro, derrama sangue. O touro continua de pé. Toque de clarim. Outra estocada. — Mal collocada! . 0 touro continua de pé. Raiva dos assobios que silvam. Toque de clarim. Procurando a me-

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dula, a lâmina pica très vezes. O touro cai de joelhos como um penitente. Estridula a vaia. 0 que custou a morrer dá uma volta junto ao palanque, puxado por dois cavalos que sacodem guizos. Sob aclamações. O corpo malhado deixa 1 na arena um circulo húmido, vermelho. A banda estrondea a Marcha triunfal da Aida,

Setembro de 1925.

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1. giro Todas as cores. Todas. Todas as luzes. Todas. Burricos sacudindo franjas vermelhas levan­ tam poeira na Plaza de San Fernando. Os homens de dolman de alpaca, chapelão andaluz e calças coladas discutem no sol. Carros parados esperam forasteiros. Sierpes é a rua balcão. Mantilhas. Desocupa-

‘ Si lit» Ihando, desagúa carroças carregadas no Bairro de Macareiia. Morenas. As casas desenham arcos-iris ao longo das ruas. Creanças pulam de mãos dadas. Dois frades: enchem a porta de um botequim verde. O sol derruba de chapa na praça a torre afri­ cana de S. Marcos, sombra comprida. l'*'. I 9 Da Fábrica de Tabacos, Carmen, ar de flor,, -li.

sai num saracoteio. D. José, sem farda, cospe pri­ meiro e depois enlaça.

iSir.c No loja de antiguidades, a velhinha recebe J1 cem pesetas pelo Jesus de século e meio. U‘ t.^i'' — Vaya usted con Diós e la Virjen, senora marquesa! A tarde que cai peroliza a Giralda que sobe, que domina, que é a cabeça da catedral, que tem vinte e quatro bronzes, que é alta de vinte e oita îi metros, que é velha de setecentos e quarenta anos,, que é linda. i 'j 'i L I ■ '1 1%; 2. cinematografia i J i Nos jardins verdes do Alcázar, a Paramount Pictures fabrica uma pelicula árabe. Nas janelas do Pabellón de Carlos V sultanas de pele loira e olheiras azúes fumam Ariston.

-l'fl; Entre as colunas de mármore branco, o dire­ ctor toma chá e morde o cachimbo. Albornozes. Sandálias. Punhais. Véus. Para duas objectivas, a favorita trai o sultão de barbaças com o joven cheik. Mas o espião entra. O director berra : — No! O espião entra de novo. — No! O espião entra pela terceira vez. — No! O eunuco do serralho é pai da heroina, que nasceu em Chicago. O sultão, a um lado, foxtrotea e canta :

7 want to b e ...

O espião entra pela quarta vez. — Yes! A luta é tremenda. ' *VI . ..b u t I want to be h a p p y... Os mantos brancos esvoaçam, abrem-se, fe­ cham-se, pulam, tombam, engalfinham-se. — All right! O sultão, atrás da cortina, ouve êste dialogo: — I love you! — My dear!

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Mas entende, e o joven cheik é preso. fS . 1 'i — Tomorrow, the second part! A favorita instala-se no colo do director. O leão de pedra, cuspindo, enche o grande tanque.

!l 'T' 3. vésperas

ill 1 ft.'í't^' De preto e barba feita, êles cercam a Portada dei Baptisterio. Pente alto e mantilha negra, elas ‘'';fl!Íip entram. Pobres avançam pires vasios. O mistério se disfarça na sombra das naves. ï f f |!'íi Deante de Nuestra Senora de los Reyes, os vul­ tos ajoelhados de braços abertos são crucificados pregados no lenho de sua própria fé. Murmúrio de reza. Olhos de súplica. Atitudes de idolatria. Tres padres. Tres monjas. Seis negrumes. A prata dos castiçais recebe ~luz das velas que ardem. A boca do sacristão cheira álcool. O túmulo de Co­ lombo é feito de feiura. Beijos fanáticos nos pés de um Cristo muito magro e muito pálido. Flores de papel. Um orgão ronca. O coro das Vesperas ribom­ ba. E a catedral ecoa. Sons. Incenso. Sons.

4. olé!

A Alameda de Hercules mistura sujeira e gente. — Ésta és la casa donde vivió Josselito, el Ga- jito. El mayor toreador de Espana y dei mundo. Tenia veinte anos cuando murió de un trompazo. Que lástima! Junto á Calle dei Nino Perdido. — Aqui nació Josselito... Calle de Santa Ana. — Si, Belmonte és enorme. Juega con la muer- te. . . sonricndo! O gesto rasgado levanta o chicote. O cavalo sofre as consequências do entusiasmo. — Manolo és un muchacho que empeza bien. Pero tiene miedo. Flaquea cuando llega la hora de meter el brazo, que és la hora de la verdad... No Campo de la Feria barracões de madeira vendem orchatas com pó. Os edifícios da Exposición Hispano- America­ na de 1927 levantam-se no parque resequido. — Aqui está expuesto el cuerpo ,del imenso Josselito. Se puede ver, com tres pesetas... Guinemeyer. D. Sebastião. Um heroi.

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f 5. alma andaluza , tl; I I ' Para lá do Guadalquivir. Triana agita a noite queiiío. As casas abrem janelas vasias e a gente nas ruas bebe alegria. A Plaza Altozano está tomada por mesas e cadeiras. O ruído, que cresce, descresce, pára, é uma música de Albeniz. O sujeito de azul, sentado na mesa de pernas cruzadas (testa de gênio, alpargatas de ladrão), arranha a guitarra. A mulher de quadris dança­ rinos põe as mãos na cintura, levanta a cabeça, bate os pós. A canção eterniza-se, subindo e des­ cendo, no gorgeio das últimas vogais.

No te pido que me b e. . .s e .. . e . . .e s . . . Ni que me hcses la b o .. .ca. . .a!

Na porta da taverna, um magro ergue o copo de vinho: — Por tu hermosura, triguena! O grupo une cotovelos em volta. Todo o de­ sejo ambiente sorve os lábios que se apertam.

Que una vez que me besas.. .t e .. . e .. . e . Por poco me vuelves l o . . .c a .. .a!

36® á sombra. O guia: — Aqui se está muy bien en invierno, sefior! A cidade é a falência do urbanismo. Sob a poeira, os burricos trotam, carregados. O Gualda- quivir se arrasta, entre a desolação da terra auri- verde. Moinhos preguiçosos esperam D. Quixote. Tristeza. Campo acabrunhador. Pobreza. Esterili­ dade. Dois olhos negros, bem negros. Novelos de pó. Miséria da natureza sovada. O guia: — Mire, por favor, el paisaje, senor! Que ma- ravilla ! O molequinho, na frente do Dodge, junta os pés, agita nas mãos erguidas uma capa imaginá­ ria, foge com o corpo, grita: — Olé! Entre as oitocentas e cincoenta e seis colunas de vergões sanguíneos, na Mezquita indescrití­ vel, os olhos enxergam Arte, descobrem Arte, aprendem Arte. Pelas paredes do Mirab descem rendas de alabastro. Apunhalando o esplendor musulmano, num contraste que é um crime, o fanatismo da Idade Média pariu um aleijão im­ pagável. Nas capelas cristianizadas, a única di-

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vindade que se vê e 'se adora é o Sublime, que O árabe realizou. Cântaros nos quadris, cântaros nos ombros, mulheres morenas, como os cântaros, rodeam as fontes do Patio de los Naranjos. Gargalhadas. A tarde despede-se da torre triste. Na muralha alta, lâmpadas douram a Virjen ii:^ - de los Paroles. i Pif /' Í No pases pecador' ntTfi;' sin hablar a Maria. . .

Ganha o inferno quem recusar o diálogo. Para os hóspedes empanturrados do Hotel Regina, na sala de azulejos verdes, a radiolete- fonia transmite do Savoy de Londres um fox-trot da No, no Nanetie. Dois americanos dançam. Um francês descompõe a cadência lenta. Ninguém dá conta do milagre estupendo. O Paseo dei Gran Capitan é um rumoroso I ^ café ao ar livre. Gonzalo de Córdoba, sobre os ombros de bronze, sob o capacete de bronze, fran­ ze o rosto de mármore. — Que ojos! Na cidade velha, as ruas estreitas de muros negros (não convem acorda-las) dormem, no si­ lêncio lírico, um sono que já dura séculos. Atra-

vés do janelão gradeado, a mão magra da moça passa o cravo que o tipo de capa preta pega c prega na capa. As estrelas. A lua. O passado. Sombras. O guia: — Córdoba es la evocación.

Setembro de 1925.

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