Perugia, Assis e Roma
In questa citta si fabbrica il famoso Ciocco- lato Perugino. Os muros de tres mil anos não deixam a ci dade resvalar pelo colina. O automóvel que vem de Chiusi descarrega americanos empoeirados nos braços do porteiro do Grande Albergo Brufani. A placa fascista informa que dali partiu a Marcha sobre Roma, em vinte e oito de outubro de mil novecentos e vinte e dois. Parabéns. A Fonte di Piazza é uma salada genial. Ao lado da cegonha oto-rino-laringologista de Esopo, a vestal carrega a água com que prova sua vir gindade. Golias tremendo de medo. Salomé. Sa ' ’' li
lomão. A Gramática. A Geometria. Moisés. No Duomo, o pano que esconde as telas só desaparece com gorgeta. Mal empregada. A fachada bifronte do Palazzo Comunale é tr-' um namoro para os olhos. O padre gordo dá pal- madinhas demoradas na cara suja dos garotos. — Pianta ufficiale di Perugia ed intorni! Car- toline illustrate! Nem mosca nas vinte e duas salas da Pinaco teca. O triptico da escola toscana, Maddona e Storie delia vita di Cristo, S. Francesco e S. Chia ra, é uma lição de pintura moderna que tem sete
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séculos. Todos sorriem, satisfeitos da vida, na ;í Crocifissione de Pompeo Cocchi. O poder mila groso de S. Bernardino, na série de Fiorenzo di Lorenzo, beneficia uma estérü. Interessantíssimo. Jesus, pimpolho, passa de tela em tela, mamando, brincando, lendo, em pé, sentado, alegre, sério, côr de rosa, azulado, sempre gordo. — Mascalzone che non sei altro! O chinelo passa sobre a cabeça do peralta. A Via Vecchia é uma cadeira de pedra que recebe sujeira das casas macróbias e cuspo dos velhos sentados nas soleiras medievais. Lá em baixo, olhando a praça torta, o Arco Etrusco tem a solidez das cousas primitivas. Os cafés do Corso Vannucci servem sorvetes com partituras de Verdi. Pernilongos. Entre os dois seios de massa do manequim, na montra da modista, uma bandeirinha tricolor espia. No Giardino Pubblico namorados, desocupa dos e o busto de Carducci hipnotizam a Umbria serena, de montes e vales. O Rione di Porta S. Pietro é o braço esquerdo de Perugia, estendido sobre o campo sombreado. Céu e terra embaralham-se na noite. O me nino começa a contar as estrelas.
Junho de 1925,
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;4 Ï 'J^-4 Æi No Subasio verde-escuro, Assis, branca e tris te, é o anjo da guarda da Umbria. Os contrafortes da Basilica di S. Francesco amparam a montanha. O cachorro late. O auto móvel buzina. O garoto grita. O vento faz pssiuí E restabelece a paz mistica. Sob os pórticos da Piazza Inferiore di S. Fran cesco, o franciscano de hálito fedorento limpa os dentes com o polegar. Pouco a pouco, a igreja vestida de sombras vai-se desnudando e o corpo liberto desvenda as perfeições. No braço direito do cruzeiro, sobre o altar, o S. Francesco espantoso de Cimabue, na cara de caboclo brasileiro, resume a vida de espo so da pobreza e amante do cilicio. Seus olhos- enxergam. A escola de Giotto, nos cinco companheiros do santo, materializa a fé, a oração, o recolhi mento, o êxtase, a contemplação. Definitivamente. E se perpetua. A comissão de técnicos alemães avança lentes de aumento, pensativamente mede, escreve em 1 ^caderninhos, cheira cerveja. t •h a
if; Sobre o altar-mór os quatro frescos de Giotto dantescos, enormes, cansam o pescoço porque f . I arrebatam os olhos. Nos armários da Sagrestia Segreta, um espi nho da coroa de Cristo, o véu de Nossa Senhora, uma lasca da cruz do Calvário, um braço de S. Antonio di Padova, outro de S. Estanislao, uma porção de cousas de S. Francesco são de auten ticidade garantida. Pelo sacristão, que recebe duas liras. Autênticas. Cimabue, Giotto e discipulos enchem a Chiesa Superiore. A monotonia da arte conseguida. Nem um tico mal feito. Enjôa até. A cripta, sim, é uma indecência estupenda do século XIX. — Sembra la sala d’aspetto di un cinemató grafo. Verdi, Umberto I, Garibaldi, outros notá\eis, em oleogravuras de salão de engraxate, são exem plos pregados nas paredes do convento feito co légio, para edificação diária dos meninos. tJil' I A’ esquerda da Torre Comunale, na praça que Ut( ■ ouviu S. Bernardino da Siena, o Tempio di Mi nerva ergue seis colunas coríntias. A Cattedrale di S. Rufino é só fachada. Na porta principal, leões engolem homens principian- do pela cabeça. Uma alemã sem meias coça as costas. A freira de rosto coberto abre a janela, no subterrâneo da Basilica, descerra as cortinas da urna de bronze e cristal, onde S. Chiara mostra o rosto mumificado e com as mãos de virgem sus tenta o lirio sem mancha. Na Capella dei SS. Sacramento, outra freira de rosto coberto abre também uma janela. E no muro escuro, o Cristo que conversou com S. Fran cesco estende os braços magros sobre a cruz cheia de santos. 0 sacristão, que é gordo e tem boa memória, recita as palavras do crucificado: — Francisco, vade et repara domum meam, quæ, ut cernis, tota destruitur... Assis sóbe no Subasio para ficar mais perto de Deus. Para lá é Eremo delle Carceri onde S. Francesco foi tentado pelo demônio e abençoou os pássaros. Do lado do oriente, é o Santuario di S. Damiano onde S. Francesco rezou e internou S. Chiara. Aqui, S. Francesco nasceu num está bulo, como Jesus. Esta é a Chiesa di S. Nicolò, onde S. Francesco estudou o evangelho. Ali, S. Francesco beijou os leprosos. Longe, naquele bu raco, em S. Maria degli Angeli, S. Francesco mor reu. E foi para este céu que subiu.
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M! carregando velinhas.
Julho de 1925.
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1. indústria Na Stazione di Termini as hordas desembar cam em ordem. A invasão quotidiana de Roma pelos bárbaros da Agência Cook, da American Express, das peregrinações católicas. Enfileiram-se os batalhões basbaques. Empu nham bandeirinhas. Ostentam medalhas. Trocam dinheiro (m uito). Vêm ver as ruínas e o Papa.
E equilibrar as finanças do Estado e da Igreja. Começa a transformação intensiva das libras, dos pesos, dos dólares em liras. A indústria italiana mais próspera tem por operários-chefes mortos os estatuários gregos, os arquitectos de Nero e Caracala, Raffaello Sanzio, Michelangelo Ruonarroti, Bernini, outros. Quando os artigos expostos da Roma-museu ganham o ar massante de cousa vista, dois golpes de picareta renovam a mostra, salvando a situação. Desco brem-se mais cinco pares de colunas coríntias, tres -dorsos mutilados, dois metros quadrados de mo saico romano e chama-se o estrangeiro. Êste vem, pasma e paga.
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Os ingleses — coitados — enegrecem de notas graves os Baedeckers vermelhos no pó da Domus Flavia, deante do Juizo Final da Capela Sixtina. I':! 'ii á luz das velinhas na escuridão frigorífica das Catacumbas de S. Calixto, e levam para enqua drar na Inglaterra uma reprodução colorida da Batalha de Ostia, da Torre Borgia. Os peregrinos do Brasil e da Espanha — bem- aventurados — esfolam os joelhos nos vinte e oito -l!|: ii' degraus que escondem a Escada Santa, recons troem com indignada fé os tres pulos da cabeça de Paulo na Via Laurentina, salivam no pé gasto do S. Pedro da Basilica, e levam, como presente para os amigos que ficaram na pátria, uma fotografia do Papa martelando a Porta Santa. Invariavelmente. Sob a fiscalização remunera da das autoridades civis e eclesiásticas.
Focalizando Kodaks ou berrando litanias, as bordas vão-se. Um Atila de farda ou batina á frente. Têm a benção da Igreja. Têm a protecção do Estado. E recibos dos dois. Antes de partir, na Fontana di Trevi deixam o soldo propício que garante a volta á Roma.
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Os garotos da Via della Stamperia e da Via del Lavatore vêm á noite brincar na bacia. Depois vão comprar melancias.
2. chamada
O Monumento a Vittorio Emanuele II é um altar branco. Na Piazza Venezia os crentes se mis turam. Milhares. Quatro filas fardadas desenham um trapézio vasio deante da massa lívida. O Corso Umberto I derrama gente. O rei a cavalo, saindo da brancura de pe dra, é o incisivo de ouro das dentaduras caboclas. Esbofetea a vista. Camisas pretas fascistas. Camisas vermelhas garibaldinas. Sobrecasacas escuras oficais. Mães condecoradas. Negror de viuvas. Faisco de baione tas. Panças comendatoriais. Mutilados. Inválidos. Bigodões de cav. uff. Populacho festivo. Peitos me dalhados. Suor e cheiro de data nacional. Sobre as escadarias do Monumento, as delega ções compõem um panejamento ondeante onde as flâmulas tricolores tremem. A fanfarra real anuncia a chegada cumpri mentada do oficiante de barbicha alva. A Canzone del Piave rompe das charangas e das gargantas.
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Canto e música cessam. Para os sinos do Campi- doglio sacudirem brutalmente o silêncio imenso. A sonoridade retumbante do bronze bombardea a ’ !i ‘ noite. O oficiante grita: — Umberto I di Savoia! Pelo Re Buono, há vinte e cinco anos assassi nado, responde o ribombo da multidão: — Presente! De novo cai o silêncio como uma tampa. A Mareia Reale levanta as carabinas e desco bre as cabeças. Entre braços erguidos, o limo Fa- cista cadencia o desfile das delegações patrióticas. — Due soldi la cartolina-ricordo 1 Due soldi I La cartolina- ricordo! La cartolina- ricordo! Suando, some-se a multidão.
3. cidade eterna
Roma-ruína. Roma-sacristia. Roma-explora- ção. Um guia de mau hálito realeja decorada eru ’i dição histórica na poeira do Vicus Tuscus. Aqui» isto; ali, aquilo. Mutilações venerandas. Por lá des cia o cavalo de Galigula para votar no Senado (agora chegam de automóvel). Um alemão, em mangas de camisa, copia as oito colunas do Tem--
pio de Saturno. Os Barberini arrancaram os már mores da Basilica Emilia. Michelangelo inspirou- se nos arcos da Basilica de Maxencio. Que importa? Nada. Bom lugar para um arranha-céu. Perdido. No Museo Nazionale só o Ermafrodita deitado respira. O resto é cadáver. Gherardo delia Notte salpicou de gotas de água verdadeiras a perna di reita de Judite surpreendida no banho, no Casino Borghese. Batinas passeam no Pincio sobraçando livros. A orquestra do Valladier cacareja, apita, urra o Scettico Blues. O sol acende cúpolas. O Castelo de S. Angelo lembra a Tosca. Isso o estraga. Beatitude do Tèvere. Frades comboiam beatas. Ingleses de calças de golf compram relíquias. Sobre o Palatino um diri gível manobra. Vistos de um banco apropriado, na Basilica de S. Paolo, os olhos de mosaico do pri meiro sucessor de S. Pedro chispam milagrosa mente. Mas o milagre é do artista. Na Via Appia^ do Arco do Druso á Porta di S. Sebastiano, o foras teiro tem por vinte cêntimos dez cambalhotas de moleques amestrados. Na pedra dura, que uma velhinha mostra (sem gorgeta não mostra), Cristo deixou a marca dos pés. E a velhinha conta o dia logo havido:
— Quo va dis, Domine? — Venio Roma iterum crucifigi! O santo fujão, enfiado, não quiz ouvir mais| nada. Cercando o Fiat de Mussolini, na Piazza Co- lonna, deante do Palazzo Chigi, candidatos á bu 'H rocracia esperam o Duce para úa manifestação ex pontânea, diária, com gritos de Alalà! Alalà! e j mãos erguidas. O Biffi expõe meretrizes sorvendo limonadas. Antigamente, havia gansos sentinelas no Ca- | pitolio. Hoje, há gatos no Foro Trajano. A Prefei- | tura os sustenta para miarem e federem. Lacoonte e filhos, na galeria dos roubos pa- | pais, morrem teatralmente sob os coleios estran- i guiadores das serpentes. Na noite de 35.®, as luzes da cidade são fogos- fátuos revelando a Roma-cemitério. O Monumento a Vittorio Emanuele II é um bolo de aniversário. O Coliseu abafa gemidos de cristãos ou não, que | entram enlaçados. A imobilidade negra dos ciprestes, nas abas ^ do Aventino, enfunebrece o silêncio.
Julho de 1925.