Pisa, Lucca, Siena e Nápoles Pathé-Baby · Capítulo 7 de 10
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Pisa, Lucca, Siena e Nápoles

0 Campanile eterniza um passo de quadrilha caipira: finge que vai mas não vai. Para o chão. O guia mente como um guia. — Titta Ruffo, quando piccino, ha lavorato nella mia officina di fabbro. Prop rio lui! A garganta do porteiro pálido é um orgão uo Battistero fechado. Por duas liras. No Duomo, o Battista de Giambologna, não tarda muito, sai andando. Efeitos de luz cênica no mistério das naves. Si prega di non sputare. Atrás do altar da Gappella dei Sacramento, Eva exibe cadeiras assustadoras. Pasmo amarelo de dois ja­ poneses. Cheiro frio. O Camposanto é galeria de pintura soberba. De uma boca torcida, no Trionfo delia Morte de Francesco di Traino, parte uma alma de cento e vinte quilos direitinha para o inferno. — Putto grasso: anima di vescovo. A Vergognosa di Pisa espia a gravata auri- verde de um espanhol. E cora. E’ vietato sputare. — Questo é il Palazzo dell’Orologio. Dove mori il conte Ugolino. Quello delia Divina Com- media. ir-

Na Chiesa di S. Maria delia Spina, tão peque- nina, Jesus pequenino morde o seio que Nossa Senhora descobre, pequenino. Discussão de dois italianos na Ponte de Mez- 2:0 . Tempestuosa. Acabam mal. E’ agora a bofe­ tada. Não. Berram ainda. E’ agora. Ainda não. Um esfacela o outro. E’ certo. Os dois se engolem. Fa­ talmente. Mais um berro e a desgraça se dá. E* agora! E não aparece um carabineiro! Que horror! E* agora ! E’ ago. . . — Arrivederci. Tanti saluti a casa! | :p r ^í: r ,i — Grazzie. Tante belle cose alla zia! Amicissimos.

Os muros arborizados dão um abraço verde ua cidade. S. Martinho, montado, na fachada da Cathe­ dral, oferece metade de seu manto a um pobre. O cinzel de Jacopo della Quercia dá beleza perpétua a liaria dei Carreto. No R. Albergo dell’Universo, impressionante copeiro de casaca e chinelos serve espinafre em francês.' Sol. Ninguém. Em Lucca, Giuseppe Garibaldi e Vittorio Emanuele II descansam de seu giro mo­ numental pela Itália, em cavalos de bronze e rabo T. comprido. Enfrentam a posteridade (uma boba­ gem) de pé. Silêncio e pernilongos. Só. I ■ tj

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Galga as tres colinas e pára no alto, muito branca do esforço feito. A fachada do Duomo ri, alegre. O interior ris­ cado de preto e branco é um prodigio de mármo­ re. No pavimento de mosaico, norte-americanos pisam o gênio de Mecarino. O Palazzo Comunale tem pescoço de girafa. Um louco sacode as ruas. Anda gente louca atrás dele. ALBERGO E RISTORANTE LE TRE DON- ZELLE (di sopra) y dei nuovo proprietário signor Teri Giiio. Uma familia de estrábicos louros. PRE- MIATA FABBRIGA DI PARAFULMINI. Há seis meses não chove. Luta de dois cachorros. O sol escorrega perpendicularmente. PURGANTOLO é Videale dei purganti {non disturba affatto). Mos­ cas. Moscas. *1 I Sobre os ombros de seis encapuçados, atrás de um encapuçadinho (o crucifixo treme na frente), um caixão enfunebrece a ladeira vasia. Cisma triste de ciprestes. A noite cobre Siena «omo um chapéu preto.

Julho de Í925.

1. passeio [ Cortinas de pó. O automóvel, modelo 1908, \abre-as pulando no calçamento execrável. \ — Questa invece, Mossiú; é la via Caracciolo. A e,státua sem importância de Giovanni de Tal. As arvores da Vila Comunale usam vestidos 1 de poeira. Carducci, sem pescoço, levanta, sufoca­ do, fóra de uma coluna, a cabeça hugoana. Sol de braza marcando a fogo o mar de anil. Moleques, bonecos de trapos, refocifelam em montes de areia. £ ’ vietata Vafissione. GIOGGO- LATO PERUGINA. Gritos de vendedores de re­ frescos. Puxando carrinhos com verdura, passam burricos de brinquedo. O volante do calhambeque treme nas mãos imundas do motorista — Baedeker, sacudindo um corno enorme de madeira negra. Ao lado da bom­ ba, a imagem de S. Cristóvão com esta súplica: Fortuna assistimi. — II palazzo di Donn’Anna. Lambido pelo mar, o palácio tem quatro sé­ culos de abandono. O homenzinho espeta na piteira de pau um > tôco de cigarro, acende-o, e recita a história do 11I

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( ^U palácio e de sua proprietária. Terrível d. Anna! Messalina para peor. E quando enjoava de um :■ I; amante (tremenda I) . . . — . . . lo buttava nel mare! Cusparada de nojo. A Strada Nuova sobe, entre árvores e vilas, sem perder o mar sempre mais baixo. — Signorí, questo é Posillipo.

2. lixo

i-i De longe o mau cheiro anuncia a podridão. Podridão que se vende, como peixe, na Piazza dei Mercato. Os vendedores berram um berro cantado. Mulheres, manchadas de sujeira no rosto, nas mãos (os p é s l . . . ) , escarram e gesticulam. A seguir, Strada dei Lavinaro. Sentina habita­ da. As casas unem-se no alto por varais coloridos. O vento balança as calças remendadas e os cober-- tores furados. Cosinhas ao ar livre. Confusão de mostras de . Á(.’ sapatos, de tabaco, de roupas, de verdura. Cheiro azedo de comida popular. Humidade pestilenta. Crianças núas pulando em poças de agua verde. Mulheres amamentando. Burricos. Fedor de aglo­ ',1 f meração pública. Panelas de macarrão. Mixórdia de cortiço. Mãos magras, abaixadas, catando pe-

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daços de pão e tôcos de cigarro. A Traviata fa­ nhosa (tarari-tarará-tarari) de um realejo torto. Flores de papel. Imagens santas. Tascas. — Signori, tengo una bella guaéagliona. Dois olhos lindos de miséria. Gestos obscenos. Pilhas de parmezão e grana. Blasfêmias compri­ das. Bandeirinhas tricolores. Cartazes. OMMAG- GIO A MARIA S. S. DEL CARMINE! VIVA MA­ RIA S. S. DEL CARMINE! Em baixo a carvão: Morra! . Uma velhinha corcunda dançando a tarantela ao som de uma orquestra de assobios garotos. Ca­ çada desesperada de piolhos na soleira de uma porta. Algazarra e moscas. Pitoresco. Saudade de creolina.

3. garotos

O mais velho tem uma cicatriz no queixo. O outro é estrábico. Vêm correndo. Param deante do Grand Hotel. Farejam estrangeiros no terraço. — Mossiü, due lire, mossiü! Oferecem cravos. — Due lire, madama. Insistem. Contam fome e miséria. Dizem gra­ çolas. Fazem caretas. O menor, pés nús, calças pre­ > sas com barbante, limpando no dorso da mão o

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í' r!K ranho que alcança a boca, pede cigarro. O inglês joga-lhe um toco. O outro também quer. — Pé me, mister pé me! Começa a dar cambalhotas. Dá uma, duas, tres. Espera a recompensa. Nada (a generosidade inglesa é difícil). Complica a ginástica. Põe pedras na calçada, ('■' D-ií apoia nelas a cabeça e gira. Ganha o cigarro. íl fííil.'' Mas são incontentáveis. — Guarda che belle fiore, signori! Tutte per due lire! Due lire! -' '.:.>■ Passa uma feiura norte-americana. O garoto corre atrás. Olhando o ramo, a feiura sacode ne­ gativamente a cabeça. — No good, lady, no good? Outros aparecem. Homens e mulheres. For­ mam um côro: — Cigaretta, cigaretta, mister! O inglês joga o Ariston, ponta de ouro, no monte de pedregulho. Confusão empoeirada de E;!:j■■ mãos e cabeças. Unhadas. Socos. Palavrões. Gar­ galhadas do inglês. II l^ií ! Os garotos fogem deante do soldado de cava­ f‘./i'vli* laria que contra êles investe montado. O menor- m I zinho cai, ajoelha-se na calçada, junta as mãos, chora. O inglês como ri! O inglês como ri! 4. vedere napule. . .

O mar esconde-se na noite. Ao longe, Capri é uma nuvem preta boiando. O archote dos pescadores que fisgam ilumina can­ delabros dentro do oceano. De Santa Lucia a Posillipo, as lâmpadas en­ fiam na água punhais tortuosos. E a água sangra luz. 0 Vesuvio, escuro, é uma pira acesa. O vento toca mansamente a fumaça, e a fumaça risca uma elipse cinzenta sobre o golfo. As estrelas são fagulhas que o Vesuvio atira. No fundo, lado a lado, Sorrento, Castellamare e Torre Annunziata arriscam olhinhos vesgos. Sob as arvores da Riviera, o bandolim inicia a serenata. O baritono canta a história do cor­ sário louro que a sereia fez morrer de paixão.

Sirena dei mare, sorridimi, non tremar. ..

As nebulosas são uma prolongação mais páli­ da da fumaça do Vesuvio, que a brisa espedaça.

. . . s*io son pirata, piccola fata. . .

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ill A lua. Pegando fogo.

.. SO pure amarl

Alonga os pés dourados e escorrega no golfo. V iirM. . . . un navigante vide vagante un corpo su dal fon d o, ..

i í M:i,t„‘Í;‘Tif"'M k Os sons do bandolim, acima das arvores da Rivieira, sobem. A ,voz do baritono arrebenta em soluços.

.. era il corsário biondol

Quietude iluminada.

Junho de 1925,

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