Paris a Dives-sur-Mer Pathé-Baby · Capítulo 4 de 10
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Paris a Dives-sur-Mer

. rodovia

A estrada de asfalto é um risco de lapis cor­ ando o campo verde. Paris ficou atrás. Na bruma. Entre acácias, a Citroen engole quilómetros, om uma fome de 10 H. P. As cidades abrem-se. Bougival, St. Germain- •n-Laye, Manles-la-Jolie. A estrada passa. Paisagem asseada, civilizada. Ao longe, ma­ deiras em flor são velhinhas de cabelos brancos móveis na relva esmeralda. Passaros deslisam no ir embaçado como folhas que o vento ergue. E eva. Telhados culminando num campanário es- piio: Bonniéres, Fontaine-la-Soret, Malbrouck, 3uranville. Nem cidades, nem vilas, nem aldeias: )ousos. Com um Hotel du Grand Cerf e um mo- lumento aos mortos da guerra {A nos morts glo- 'ieux, Aux héros morts pour la patrie, e a lista, î a palma de bronze, e o galo gaules). Os parentes contemplam-o com orgulho. En- re suspiros, para evitar falatórios. 2. visita Farnel nas costas, pedalando, pedalando, ci­ clistas, homens, mulheres e crianças, ao lado dos automóveis, correm sobre a estrada. Os olhos re- flectem as árvores. O cheiro da terra dilata as narinas. Os corpos se cansam para a carícia da grama. Aos domingos. Paris faz uma visita á natu­ reza. .1 I . ____ ____

3. santidade Flores vermelhas pintam os ramos altos dos castanheiros. Parques e castelos. Completando a paisagem passadista, carneiros unidos e parados. ■/} Calvários de pedra e madeira anunciam Li­ ni; sieux. Pregado em cruzes diferentes, numa encru­ zilhada ou á sombra de um plátano. Cristo pende a cabeça ferida, reproduz, de distância a distân­ cia, o mesmo espectáculo de martírio. Terra que acalentou Teresa do Menino Jesus e lhe ensinou virtudes suaves. Nos campos de Li­ sieux, a discípula se fez boa. Sem pretensão: os os homens é que a fizeram santa.

4. descanso de dez minutos o pitoresco normando de Pont-l’Evêque. Ruas finas, angulosas. Desenhos de madeira nos muros dos prédios. Os telhados vêm descendo, vêm des­ cendo. Vêm descendo procurando o chão. Os bei­ rais trabalhados são propriedade dos pássaros. Nas águas do canal as casas olham-se. Cheiro de mo­ fo, bafo frio de porão fechado. Roupas domin­ gueiras. No balcão roxo de glicinias, a mulher ergue o filhinho nos braços. O padre, na calçada, não acerta com o bolso da batina.

5. deauville Casario envernizado. Campos de tennis. Jar­ dins e modistas. Não se vê ainda. Mas se adivinha para logo o francês mulherengo, monóculo suspenso nos de­ dos enluvados, mesuras para cá, mesuras para lá, deante da estrangeira rica: — Oh! madame, quelle robe ravissante! E a norte-americana, montra de pérolas e bri­ lhantes, mostrando as ondas com a bengalinha. — Beautiful! Oh! Oh! Wonderful! E o argentino bonito (que as prostitutas sus­ tentam), e a duquesa russa, e o príncipe indiano, e o grupo de ingleses basbaques tendo á frente, de dedo espetado, um guia da Agência Cook: — This is the Casino. O verão verá tudo isso.

t h a Y- 6. saudade Pelas ruas de Trouville vasia, o automóvel passeia um bumbo e um clarim. No boléa, aos gri­ tos, o palhaço anuncia a funcção. E o clarim: lá- tarará ! E o bumbo : bum-bambum ! 'K Oportunidade para um italiano berrar: Si puó? Si piió? E, sem esperar resposta, desandir por aí afóra. Mas deante do auto que avança aos bocadi­ nhos, é a voz da saudade brasileira que lembra dentro da gente: — 0 paiaço que é? I vJ*'- — E’ ladrão de muié! O automóvel passa, desaparece, levando o bumbo, o clarim e o palhaço. A saudade não passa: — Hoje tem goiabada? — Tem, sim sinhô! Ah! o palhaço montado de través no seu ca­ valo, as negras arregaçando a beiçorra á porta das casas, a molecada correndo, delirante! POUR LES ENFANTS, ALLURE MODÉRÉE.

'A- 7. antiguidades Em Dives-Sur-Mér, onde termina a rua d’Has- I tings, indicando o ponto de que partiu Guilherme

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para conquistar as terras de alêm Mancha e o titulo de conquistador, há uma placa e uma ma­ ravilha. A placa é uma placa. A maravilha é a Hostel- ierie de Guillaume le Conquéreur. — Voici Mr. le Rémois. Mr. Le Rémois é hoteleiro e artista. Velhi­ nho e feliz. Vai mostrar a casa. A sala de jantar narra, nos vitrais coloridos, a história gloriosa da estalagem. Antes de mais nada, o bota-fóra guerreiro do conquistador, es- padagão na dextra. Depois, Henrique IV, que ali dormiu uma noite. 0 mesmo fez Maria de Médicis e esse facto notável o vitral seguinte regista em côres bem vivas. Agora, é a vez de Luiz XIII, ou­ tro freguês coroado. Ao lado, Mme. de Sevigné. Coçando os cabelos, Mr. Le Rémois repete palavra por palavra o trecho da carta em que a United Press do século XVII (Comunicados epistola­ res) conta á filha que na Hôstellcrie sujou uns len­ çóis (ela também), regaladamente. E passa adean- te para mostrar uma velhinha cercada por carões conhecidos e pela gaforinha de Dumas, pai. — C’est le portrait de ma m ère... O filho reuniu no mesmo vitral literatos ami­ gos da casa e da mãe. if Nas paredes, sôbre os móveis, descendo do t této normando, estatuetas, colunas, pratos, lâm- íl

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padas, utensílios. Cada objecto tem a sua história. E o seu historiador, que é Mr. Le Rémois. Deante da Virgem Mãe sem braços e negra,, com o Menino Jesus grudado no ombro esquer­ do, o velhinho, concentrado, balbucia a biogra­ fia da imagem e a narração de seu encontro. Cabeça trêmula, mãos trêmulas, Mr. Le Ré­ mois aponta um suporte de ferro batido susten­ tando uma lâmpada de dez séculos. E recita, com voz de prece, a história do suporte. — II était là, parmi les tombes d’un cimitière de village, auprès d’une petite église... P Mr. Le Rémois passa, vê aquela preciosidade como cousa morta entre a gente morta, e vai logo á sacristia da igreja confabular com o vigário. ' f; — Voyons, mr. le curé, c’est un crime, un grand crime, de laisser cette merveille l à . .. Depois vem o fecho da história: *í I — Je l’ai payée cinq fra n cs... ii ' Mr. Le Rémois sorri. *'■ * í á Beirando o páteo Luis XIV, florido, continua ■ I 'i ‘ 5i ■ o museu: desenhos originais de Gavarni, gravuras- ^ ■ iji.. velhas, autógrafos graúdos, versinhos apimenta­ ^ - 't ! dos, inscrições sugestivas. RÉJOUIS TOI MON VENTRE, TOUT CE QUE JE GAGNE C’EST POUR TOI.

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Sereno, alvo, contente, entre tulipas e anti­ guidades, Mr. Le Rémois fala das suas viajens. Très espanhóis mais très espanholas são seis ^gramofones de corda infinita em torno de uma mesa de refrescos. O velhinho vem á porta da estalagem. Tudo é ^zul: o céu, o mar, os olhos de Mr. Le Rémois. — Ronjour! Bonjour! A mão enrugada, erguida um momento, volta á barhicha cor de espuma.

Maio de Í925.

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