Paris Pathé-Baby · Capítulo 3 de 10
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Paris

1. a flama da saudade

Place de l’Étoile. Em torno do Arco do Triun­ fo magotes de automóveis giram. As avenidas são doze bocas de asfalto que comem gente e veiculos, vomitam gente e veiculos. Insaciáveis. Ruído. Pó. E gente. Muita gente. O soldado api­ ta, levanta o seu bastão, e a circulação pára para que possam passar, tranqúilamente, a ama e o seu carrinho. Duas costureirinhas que tagarelam. A familia que vai bocejar nos bancos do Bois. Um maneta vendendo alfinetes. Gargalhadas de uma loura de olheiras verdes. A Kodak de um inglês. Um casal de namorados. Israelitas ostentando a roseta da Legião de Honra. Monóculos. Paris que passa. E pára sob a arcada. Do chão sobe a flama da saudade, que dança. Très mutilados, condecora­ dos, compenetrados, montam guarda. 0 menino de capote azul, carregando um arco, inclina-se. Gira o gorro na ponta do pau e soletra baixinho: — I . . .ci re. .. p o . .. po. .. Ici r e . .. pose... Recolhimento de teatro dramático. Em volta do Arco, a vida dinâmica da cidade tumultuária. t h b a

\■ berrando no buzinar dos automóveis, no ronco dos / ônibus, no vozerio indistinto que sobe e foge. Sob a arcada, os olhos fixando o túmulo. E o menino: — . . . repose un s o l . .. dat... Mulheres de luto juntam as mãos. Os lábios tremem. Há coroas pelo chão. A flama joga para o alto uma fumaceira escura que envolve as me- retrizes que chegam. Cabeças descobertas. — . . . f r . .. f ran. . . français m . . . mort . . . Cabeças baixas. A meretriz mais alta despren­ de da cintura um ramo de violetas, coloca-o entre as coroas. O ramo resvala, esconde-se sob as flores mortas. A filha da burguesa de buço agacha- se, pega o ramo roxo, pousa-o sobre o túmulo. A burguesa de buço (e gorda) aprova com o olhar. Todos pensam. Todos rezam. — . . . pour la p a . . .trie. Em torno do Arco, os automóveis buzinam sempre, os ônibus roncam, sobe e foge o vozerio da multidão. O menino sai, correndo, tocando o seu arco,, feÍ!*'*! ’ír. ,i| » ' triunfantemente.

2. o baile do magic-city í j A taboleta diz: JAVA. Estrepitosamente a or­ questra toca La Belote, Música saltitante, treme- licante.

Gincoenta, cem, duzentos pares, incontáveis. Frenéticos. Prazo — dado de todas as raças, de todas as idades, de todas as classes. Do amor e da alegria. Paris que a Agência Cook não conhece. Peito contra peito, bôca contra bôca, fronte contra fronte, um estudante chinês dança com uma dactilógrafa cubana. Duas raparigas gingam cola­ das, os lábios da mais alta no pescoço da mais baixa. Pulos. Gritos. Gargalhadas. Uma costureiri- nha do Boulevard des Filies du-Calvaire abraça o indiano de óculos e corcunda. — Voilã nion père qui arrive avec sa gon- zesse... Que bôca tão vermelha! Os braços magros de um argeliano fazem-se quilométricos para enlaça­ rem os cento e cinco quilos de uma norte-ameri­ cana de colar de pérolas. Cada par tem o seu esti­ lo : o estilo que lhe convem. Os passos improvisam- se, traduzem estados de espírito. Passos burgueses. Passos cómicos. Passos pitorescos, voluptuosos, es­ candalosos. Vozes roucas, imitando a de Mistinguett, prin­ cipiam o estribilho irresistível:

On fait un' petiV belote et puis ça v a . . .

Outras continuam, misturando cincoenta pro­ núncias diferentes:

' i Tout le resV c'est d'Ia gnognotte à côté d’ça . .. Confusão estonteadora, policroma. Peitilhos de casaca. Fardas. Caras barbudas. Um par de lá­ bios grudados, parado no meio do salão. Mamãs suarentas, com copos de cerveja. Um inglês manco e que salta, arrastando os sessenta anos da rumai- e- ca alta. E o estribilho que recomeça: On fait un’ petit belote et puis ça v a . ..

E continua:

. . . on belote et rebelote à tour de bras!

Algazarra de dançarinos que se chocam. Há­ litos que se misturam. Cheiro azedo de aglomera­ ção pública. • — Ah!... — N o n ! . .. — Oh!... A orquestra silencia. Por segundos. Aplausos. A orquestra ataca de novo La belote. O saxofone faz prodígios. Acrobacia sonora de todos os instru-

mentos. A música (tararirarirará-pum! tarirará- pum!) berra, silva, detona. Estardalhaço da ba- teria. A um canto, voltados para a parede, cabeças unidas, baixas, o rapaz e a rapariga tremem. O brasileiro, da mesa mais próxima, arrisca um olho, e sorve a limonada. Muito vermelho. SAMBA, diz a taboleta da outra orquestra. Maxixe de S. Guido. Delírio de pernas que se cruzam e se esfregam. Giro doido de corpos uni­ dos. Ginástica e desarticulação de todos os mem- ibros. Contorsões. Equilibrismo. Reviravoltas. Na vertigem, no goso, no espasmo, o respeito humano desaparece. O próximo não existe. Ninguém tem olhos para o que se passa em torno. Quem quer beijar, beija. Quem quer bolinar, bolina. Agora, tocam as duas. Tocam tudo. Sem inter­ valo. — Déjà? Assalto aos vestiários. Longos apertos de mão. Beijos de fim de fita. Empurrões. — Bonsoir. On se verra demain au m etro... — Oui, ma gosse... Da boca de um bêbado de cócoras na calçada (chuvisca), saem baforadas de alcool e versos da Internacional.

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3. meia-noite, boulevard des capucines Bulhento, internacional, colorido, o Café de la Paix prolonga-se até o meio da calçada. Entre meretrizes e ingleses, a multidão pas­ sa aos empurrões. Desfile de tipos e de raças. Ininterrupto. Pitoresco. Jornais de S. Paulo, do Cairo e de Tokio, revistas apimentadas e livros pornográficos enchem os quiosques de pouca li­ teratura e muita obscenidade. Anúncios lumino­ sos põem brilhos de palco na fachada cinzenta dos prédios. jiV — Un guide pour la nuit? Très discret... Vindos da Opéra, claques e peles. Árabes, de olhar canalha, oferecem tapetes. Uma negra de óculos. No asfalto, acrobatismo de automóveis que se chocam. Meia-noite iluminada e borbulhante. A mercadoria dos bordeis da vizinhança per­ corre o Boulevard. Há de tudo, para todos os vi- cios, para todas as bolsas. Apoiada em muletas, uma aleijada (há de tudo, para todos os vícios) obstinadamente vai e vem. O rosto é lindo. O olhar é um convite desesperado. Sujeitos mal cheirosos presentindo estrangei­ ro puxam do bolso cartões postais: Í; b’ — Poses artistiques... Dix francs la série. O francêz gordo, suando felicidade, esfrega os bigodes no rosto besuntado da magricela. Im-

prudência de francês gordo. Bufando como uma Mallet, a mulher de roxo o enfrenta e o esbofetea. Ao estalo segue-se a descompostura berrada: — Tu ne t’imaginais pas me rencontrer, hein, salaud? Tu cultives les poules maintenant? Mais je te jure que cette fois tu es f . . . , je te jure: — Voyons, ma chérie, voyon s... A luta começa. Empolga a multidão que faz roda. O guarda-chuva incansável da traida esbor­ racha o chapéu coco do adúltero. A lourinha de rosto besuntado chora. —II m’a dit qu’il était lib re ... Chora mais um pouco. — . . . le salaud! E safa-se. A luta agora é a soco. O adúltero na defesa. A assistência diverte-se, entusiasma-se, aplaude. -— Bravo, les élèves de Carpentier! Bravo! — C’est rigolo comme tout, vous savez! — Et gratis! O espectáculo, por intervenção de um barba- ças, transfere-se para o interior de um automó­ vel. Os espectadores afastam-se a custo. Para dois negros de polainas e luvas amarelas a velhinha do quiosque explica em falsete: — C’est le printemps...

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;v‘, 'y ' , Batendo com as muletas, cadenciadamente, a lírir aleijada vai e vem. Na rua há também taxis de I 1; bandeirinlia erguida. f'- 5‘t'i A norte-americana, feia como uma* francesa honesta, pára no meio da calçada, levanta o ves­ fi , tido e arranja demoradamente as ligas. Resumo do mundo, fervilha o Boulevard.

4. meia-noite, rue st. honoré

A inauguração (com a Marselhesa e discur­ sos) do pavilhão de Paris na Exposição das Ar­ tes Decorativas é um pretexto oficial. Simples­ mente. Na Rue St. Honoré, o que o povo comem.o- ra é a sua prójiria alegria, a alegria de viver e dançar. Caixeiras e operários, estudantes e costurei­ ras, funcionários e burgueses unem os corpos e bamboleam os quadris. A primavera lubrifica os membros, sugere desejos. Tres lâmpadas suspensas no meio da rua. Nas calçadas, mesas e cadeiras. A’ porta do café, í.m n uma sanfona e um banjo são a orquestra. Só. Mais nada. O suficiente. .1 Rodopiam os pares sobre o asfalto. Correm. Deslisam. Saltam.

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Cessa a circulação dos veículos. Que espe- rem Os sons fanhosos da sanfona, os sons duros do banjo movimentam os enlaçados. Dançam ho­ mens com homens, mulheres com mulheres. Um velho dança sozinho. Valsinha chorosa, balançada, gemebunda. No colo das raparigas ha flores de Maio. Trazem fe­ licidade. Trazem: a de dançar. Nos intervalos, os veículos cruzam o salão de asfalto. Vaiados. Os músicos, em mangas de camisa, engolem cerveja. — Java! Java! Sem chapéu, sem colarinho, sem cerimônia, os pares mimam o ritmo popular. De dentro de um ônibus feito camarote, pas­ ' •! sageiros espiam com inveja. 0 condutor não re­ siste. Pula da boléa, agarra a primeira rapariga que encontra, entra no fandango. Um grupo de estrangeiros, á distância, escan­ cara olhos surpresos. Entre ingleses que cachim­ bam e espanhóis que discursam, o japonês obser­ va, sumido. Num muro, fronteiro ao baile, cartazes colo­ ridos falam da crise da vida, das eleições munici­ pais, dos atentados comunistas. Um é tremendo:

■ 'fl conclama os padeiros. Truculentamente: OU­ VRIERS ROULANGERS! NOUS ALLONS FAIRE APPEL À VOTRE COLÈRE! Outras frases explo­ sivas. Dinamite verbal. Acaba berrando em letras vermelhas: DEBOUT, LA BOULANGE! Mas o povo dança, dança, dança, ao som do banjo e da sanfona. O condutor do ônibus combina um encon­ tro para o dia seguinte.

5. fête-foraine

— Venez voir l’HOMME CHAUVE- SOURIS! Un franc pour admirer le célèbre phénomène! As mulheres dos operários distribuem cênti­ mos pelos filhos. Os fócos de luz desfazem-se no Sena. Alegria de pobres. Montada nos cavalos do Carroussel, a gente vestida com côres contentes gira e gira com risos, com gritos. Os cavalos cor- coveam sincronicamente. Folheando o Paris-FUrt, a costureirinha morde os lábios. E a Tour Eiffel, subindo pelo céu, anuncia os automóveis Citroen, — Venez voir l’HOMME CHAUVE- SOURIS! Na frente da barraca a pintura é um monstro com pernas e rosto de homem, mas asas e orelhas

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de morcego. Ao lado da borradela sensacional, a furunculoso recebe o franco a afasta a cortina. Os curiosos ficam de pé olhando a caixa com- iprida. O tipo, de dentro da caixa, ergue a tampa com a cabeça. Mostra bem a careca. Depois, sorri* E desaparece. A velhinha de guarda -chuva sai indignada,, dizendo que é exploração. — Venez voir l’HOMME CHAUVE-SOURIS! Un franc! Un franc seulement! Assim, de gente!

6. espírito gaules A Éxposition des Arts Décoratifs et Industriels: Modernes, de árvores cubistas, de telhados qua­ drados, de jardins de madeira, levanta para o céu de Paris antenas de luz. A multidão torce o nariz deante dos pavilhões ricos, e vae divertir-se no Pare des Attractions. Tudo mexe. Tudo corre. Tudo berra. — Allons voir la Maison des Glaces. Na sala octogonal, os espelhos deformam as figuras. Engordam. Emagrecem. Entortam. Cari­ caturam. A gente ri.

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