Paris
1. a flama da saudade
Place de l’Étoile. Em torno do Arco do Triun fo magotes de automóveis giram. As avenidas são doze bocas de asfalto que comem gente e veiculos, vomitam gente e veiculos. Insaciáveis. Ruído. Pó. E gente. Muita gente. O soldado api ta, levanta o seu bastão, e a circulação pára para que possam passar, tranqúilamente, a ama e o seu carrinho. Duas costureirinhas que tagarelam. A familia que vai bocejar nos bancos do Bois. Um maneta vendendo alfinetes. Gargalhadas de uma loura de olheiras verdes. A Kodak de um inglês. Um casal de namorados. Israelitas ostentando a roseta da Legião de Honra. Monóculos. Paris que passa. E pára sob a arcada. Do chão sobe a flama da saudade, que dança. Très mutilados, condecora dos, compenetrados, montam guarda. 0 menino de capote azul, carregando um arco, inclina-se. Gira o gorro na ponta do pau e soletra baixinho: — I . . .ci re. .. p o . .. po. .. Ici r e . .. pose... Recolhimento de teatro dramático. Em volta do Arco, a vida dinâmica da cidade tumultuária. t h b a
\■ berrando no buzinar dos automóveis, no ronco dos / ônibus, no vozerio indistinto que sobe e foge. Sob a arcada, os olhos fixando o túmulo. E o menino: — . . . repose un s o l . .. dat... Mulheres de luto juntam as mãos. Os lábios tremem. Há coroas pelo chão. A flama joga para o alto uma fumaceira escura que envolve as me- retrizes que chegam. Cabeças descobertas. — . . . f r . .. f ran. . . français m . . . mort . . . Cabeças baixas. A meretriz mais alta despren de da cintura um ramo de violetas, coloca-o entre as coroas. O ramo resvala, esconde-se sob as flores mortas. A filha da burguesa de buço agacha- se, pega o ramo roxo, pousa-o sobre o túmulo. A burguesa de buço (e gorda) aprova com o olhar. Todos pensam. Todos rezam. — . . . pour la p a . . .trie. Em torno do Arco, os automóveis buzinam sempre, os ônibus roncam, sobe e foge o vozerio da multidão. O menino sai, correndo, tocando o seu arco,, feÍ!*'*! ’ír. ,i| » ' triunfantemente.
2. o baile do magic-city í j A taboleta diz: JAVA. Estrepitosamente a or questra toca La Belote, Música saltitante, treme- licante.
Gincoenta, cem, duzentos pares, incontáveis. Frenéticos. Prazo — dado de todas as raças, de todas as idades, de todas as classes. Do amor e da alegria. Paris que a Agência Cook não conhece. Peito contra peito, bôca contra bôca, fronte contra fronte, um estudante chinês dança com uma dactilógrafa cubana. Duas raparigas gingam cola das, os lábios da mais alta no pescoço da mais baixa. Pulos. Gritos. Gargalhadas. Uma costureiri- nha do Boulevard des Filies du-Calvaire abraça o indiano de óculos e corcunda. — Voilã nion père qui arrive avec sa gon- zesse... Que bôca tão vermelha! Os braços magros de um argeliano fazem-se quilométricos para enlaça rem os cento e cinco quilos de uma norte-ameri cana de colar de pérolas. Cada par tem o seu esti lo : o estilo que lhe convem. Os passos improvisam- se, traduzem estados de espírito. Passos burgueses. Passos cómicos. Passos pitorescos, voluptuosos, es candalosos. Vozes roucas, imitando a de Mistinguett, prin cipiam o estribilho irresistível:
On fait un' petiV belote et puis ça v a . . .
Outras continuam, misturando cincoenta pro núncias diferentes:
' i Tout le resV c'est d'Ia gnognotte à côté d’ça . .. Confusão estonteadora, policroma. Peitilhos de casaca. Fardas. Caras barbudas. Um par de lá bios grudados, parado no meio do salão. Mamãs suarentas, com copos de cerveja. Um inglês manco e que salta, arrastando os sessenta anos da rumai- e- ca alta. E o estribilho que recomeça: On fait un’ petit belote et puis ça v a . ..
E continua:
. . . on belote et rebelote à tour de bras!
Algazarra de dançarinos que se chocam. Há litos que se misturam. Cheiro azedo de aglomera ção pública. • — Ah!... — N o n ! . .. — Oh!... A orquestra silencia. Por segundos. Aplausos. A orquestra ataca de novo La belote. O saxofone faz prodígios. Acrobacia sonora de todos os instru-
mentos. A música (tararirarirará-pum! tarirará- pum!) berra, silva, detona. Estardalhaço da ba- teria. A um canto, voltados para a parede, cabeças unidas, baixas, o rapaz e a rapariga tremem. O brasileiro, da mesa mais próxima, arrisca um olho, e sorve a limonada. Muito vermelho. SAMBA, diz a taboleta da outra orquestra. Maxixe de S. Guido. Delírio de pernas que se cruzam e se esfregam. Giro doido de corpos uni dos. Ginástica e desarticulação de todos os mem- ibros. Contorsões. Equilibrismo. Reviravoltas. Na vertigem, no goso, no espasmo, o respeito humano desaparece. O próximo não existe. Ninguém tem olhos para o que se passa em torno. Quem quer beijar, beija. Quem quer bolinar, bolina. Agora, tocam as duas. Tocam tudo. Sem inter valo. — Déjà? Assalto aos vestiários. Longos apertos de mão. Beijos de fim de fita. Empurrões. — Bonsoir. On se verra demain au m etro... — Oui, ma gosse... Da boca de um bêbado de cócoras na calçada (chuvisca), saem baforadas de alcool e versos da Internacional.
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3. meia-noite, boulevard des capucines Bulhento, internacional, colorido, o Café de la Paix prolonga-se até o meio da calçada. Entre meretrizes e ingleses, a multidão pas sa aos empurrões. Desfile de tipos e de raças. Ininterrupto. Pitoresco. Jornais de S. Paulo, do Cairo e de Tokio, revistas apimentadas e livros pornográficos enchem os quiosques de pouca li teratura e muita obscenidade. Anúncios lumino sos põem brilhos de palco na fachada cinzenta dos prédios. jiV — Un guide pour la nuit? Très discret... Vindos da Opéra, claques e peles. Árabes, de olhar canalha, oferecem tapetes. Uma negra de óculos. No asfalto, acrobatismo de automóveis que se chocam. Meia-noite iluminada e borbulhante. A mercadoria dos bordeis da vizinhança per corre o Boulevard. Há de tudo, para todos os vi- cios, para todas as bolsas. Apoiada em muletas, uma aleijada (há de tudo, para todos os vícios) obstinadamente vai e vem. O rosto é lindo. O olhar é um convite desesperado. Sujeitos mal cheirosos presentindo estrangei ro puxam do bolso cartões postais: Í; b’ — Poses artistiques... Dix francs la série. O francêz gordo, suando felicidade, esfrega os bigodes no rosto besuntado da magricela. Im-
prudência de francês gordo. Bufando como uma Mallet, a mulher de roxo o enfrenta e o esbofetea. Ao estalo segue-se a descompostura berrada: — Tu ne t’imaginais pas me rencontrer, hein, salaud? Tu cultives les poules maintenant? Mais je te jure que cette fois tu es f . . . , je te jure: — Voyons, ma chérie, voyon s... A luta começa. Empolga a multidão que faz roda. O guarda-chuva incansável da traida esbor racha o chapéu coco do adúltero. A lourinha de rosto besuntado chora. —II m’a dit qu’il était lib re ... Chora mais um pouco. — . . . le salaud! E safa-se. A luta agora é a soco. O adúltero na defesa. A assistência diverte-se, entusiasma-se, aplaude. -— Bravo, les élèves de Carpentier! Bravo! — C’est rigolo comme tout, vous savez! — Et gratis! O espectáculo, por intervenção de um barba- ças, transfere-se para o interior de um automó vel. Os espectadores afastam-se a custo. Para dois negros de polainas e luvas amarelas a velhinha do quiosque explica em falsete: — C’est le printemps...
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;v‘, 'y ' , Batendo com as muletas, cadenciadamente, a lírir aleijada vai e vem. Na rua há também taxis de I 1; bandeirinlia erguida. f'- 5‘t'i A norte-americana, feia como uma* francesa honesta, pára no meio da calçada, levanta o ves fi , tido e arranja demoradamente as ligas. Resumo do mundo, fervilha o Boulevard.
4. meia-noite, rue st. honoré
A inauguração (com a Marselhesa e discur sos) do pavilhão de Paris na Exposição das Ar tes Decorativas é um pretexto oficial. Simples mente. Na Rue St. Honoré, o que o povo comem.o- ra é a sua prójiria alegria, a alegria de viver e dançar. Caixeiras e operários, estudantes e costurei ras, funcionários e burgueses unem os corpos e bamboleam os quadris. A primavera lubrifica os membros, sugere desejos. Tres lâmpadas suspensas no meio da rua. Nas calçadas, mesas e cadeiras. A’ porta do café, í.m n uma sanfona e um banjo são a orquestra. Só. Mais nada. O suficiente. .1 Rodopiam os pares sobre o asfalto. Correm. Deslisam. Saltam.
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Cessa a circulação dos veículos. Que espe- rem Os sons fanhosos da sanfona, os sons duros do banjo movimentam os enlaçados. Dançam ho mens com homens, mulheres com mulheres. Um velho dança sozinho. Valsinha chorosa, balançada, gemebunda. No colo das raparigas ha flores de Maio. Trazem fe licidade. Trazem: a de dançar. Nos intervalos, os veículos cruzam o salão de asfalto. Vaiados. Os músicos, em mangas de camisa, engolem cerveja. — Java! Java! Sem chapéu, sem colarinho, sem cerimônia, os pares mimam o ritmo popular. De dentro de um ônibus feito camarote, pas ' •! sageiros espiam com inveja. 0 condutor não re siste. Pula da boléa, agarra a primeira rapariga que encontra, entra no fandango. Um grupo de estrangeiros, á distância, escan cara olhos surpresos. Entre ingleses que cachim bam e espanhóis que discursam, o japonês obser va, sumido. Num muro, fronteiro ao baile, cartazes colo ridos falam da crise da vida, das eleições munici pais, dos atentados comunistas. Um é tremendo:
■ 'fl conclama os padeiros. Truculentamente: OU VRIERS ROULANGERS! NOUS ALLONS FAIRE APPEL À VOTRE COLÈRE! Outras frases explo sivas. Dinamite verbal. Acaba berrando em letras vermelhas: DEBOUT, LA BOULANGE! Mas o povo dança, dança, dança, ao som do banjo e da sanfona. O condutor do ônibus combina um encon tro para o dia seguinte.
5. fête-foraine
— Venez voir l’HOMME CHAUVE- SOURIS! Un franc pour admirer le célèbre phénomène! As mulheres dos operários distribuem cênti mos pelos filhos. Os fócos de luz desfazem-se no Sena. Alegria de pobres. Montada nos cavalos do Carroussel, a gente vestida com côres contentes gira e gira com risos, com gritos. Os cavalos cor- coveam sincronicamente. Folheando o Paris-FUrt, a costureirinha morde os lábios. E a Tour Eiffel, subindo pelo céu, anuncia os automóveis Citroen, — Venez voir l’HOMME CHAUVE- SOURIS! Na frente da barraca a pintura é um monstro com pernas e rosto de homem, mas asas e orelhas
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de morcego. Ao lado da borradela sensacional, a furunculoso recebe o franco a afasta a cortina. Os curiosos ficam de pé olhando a caixa com- iprida. O tipo, de dentro da caixa, ergue a tampa com a cabeça. Mostra bem a careca. Depois, sorri* E desaparece. A velhinha de guarda -chuva sai indignada,, dizendo que é exploração. — Venez voir l’HOMME CHAUVE-SOURIS! Un franc! Un franc seulement! Assim, de gente!
6. espírito gaules A Éxposition des Arts Décoratifs et Industriels: Modernes, de árvores cubistas, de telhados qua drados, de jardins de madeira, levanta para o céu de Paris antenas de luz. A multidão torce o nariz deante dos pavilhões ricos, e vae divertir-se no Pare des Attractions. Tudo mexe. Tudo corre. Tudo berra. — Allons voir la Maison des Glaces. Na sala octogonal, os espelhos deformam as figuras. Engordam. Emagrecem. Entortam. Cari caturam. A gente ri.
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