Veneza, Florença e Bolonha
1. pais da música Do alto do Campanile, fogos de Bengala en sanguentam a noite. As pombas disparam. E a multidão vermelha, ondulando na praça, estoura . % em aplausos. Os palácios abrem mil olhos brilhantes. Os ca valos da Basilica puxam um carro fantástico de carnaval em que explendem cúpolas. Sobre a cabeça branca, no centro da praça, treme uma batuta. Os pedidos de silêncio engrossam o ruido que sobe e desce. — Cinquanta centesimi il programma del con- certone! Dieci soldi il programma! A banda luta contra o vozerio. Vence-o corn o estridor dos metais. As notas esvoaçam sobre dez mil cabeças inquietas. — Ma che razza di musica é questa? — Ouverture nelVopera ‘7 maestri cantori” . — Ah! si capisce. Roba wagneriana. A sinfonia ganha espaço, bate asas, toma toda a praça, transborda para o céu roxo. As espadas dos oficiais prendem a renda dos chalés femininos. Choradeira infantil. Bandejas de - f i .■
refrescos. Abalroamentos. A pituitária estrangeira sente indisfarçavelmente a aversão nacional ao banho. Toscanos fumegando. Os braços do maestro fardado fecham-se em cruz. Um grupo de escoteiros alemães bate pal J- mas meditabundas. Só. Dez minutos de agitação berrante. De novo, a batuta se movimenta. Silêncio de parlamento (brasileiro, por exemplo). Governa ,r mentalmente completo. Estúpido. O hino al sole da íris desfere as primeiras notas. Segreda. Aos poucos, inflama-se. A melodia toma corpo. Apressa-se o ritmo. As notas galopam, .'.' J: . atropelam-se. Cento e cincoenta vozes unem-se á orquestra. Estardalhaço mascagniano. Na noite quente parte para o céu a oração tumultuosa que o sol deus não ouve. A batuta sobe, tremendo. E o hino cresce. E o hino estronda, cascatea, vocifera. i m W'"- ^ Pára. .ê t" O entusiasmo italiano da multidão rompe um tiroteio de aclamações. As mãos estalam. As bocas explodem. Docemente, o velhinho inclina a cabeça côr de açúcar. Repete-se o hino. Encerra-se o concerto. — Gelati! Gelati! Descem pombas no coreto abandonado.
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2. país do canto
Marcando o centro do cenário imutável, o pal ■t jr i
co estaca. Lanternas venezianas avermelham e es- it verdeam cantores e orquestra. Limites do teatro, a Isola di S. Giorgio Mag- giore é uma sombra erguida e a ponta da Dogana avança macilenta. Por detrás da Libreria Vecchia, o Campanile silencia para ouvir. iil Em segredo, as gôndolas chegam, coleando so bre a agua lisa. — Aida! Grande aria per tenore! O Radamés de palheta inicia a exaltação da celeste amada. Das gôndolas inquietas a assistên cia olha, no céu, o infinito. A velhinha do violino desafina. Ronco longínquo de sereias. Tem ar de frade o homem do contrabaixo. Orquestra para a direita; tenor para a esquer da. Separam-se. Nunca mais se encontram.
Uii trono vicin'al sol!
O peito de Radamés estufa-se. A garganta re pete em agudos: Un tro-no vi-cin* al sooooolU! IM E a dextra aponta a lua.
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éi Palmas dos gondoleiros. O director da com panhia corre pela assistência o pandeiro que re colhe as liras. .I ■ A pedido do dinheiro norte-americano, um realejo vesgo esganiça: i^-.i lo cerco la Titina, Titina, ah, Titina! O céu é o galinheiro apinhado.
3. ronda nocturna
A gôndola preta caminha como uma assom bração. No silêncio indigo. — Premi, ôh! O grito do gôndoleiro acorda o éco morto. As águas do Canal Grande escorregam entre os pa lí lácios brancos. Chegam fantasmas, como mensagens soltas de T. S. F. Povoam os balcões. Choram no canal as paixões vividas. E’ a parada nocturna dos amantes de Veneza. Do terraço do primeiro Palazzo Giustinian, Musset, vinte e très annos louros de poesia e amor, debruça-se sobre a noite sombreada. Cisma. Très golpes macios de remo. E, entre o rendi lhado ogival do Palazzo Contarini Fazan, Desde-
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mona entrega os cabelos côr de ambar a lascívia do negro. A cúpola da Chiesa delia Salute é o re flector da cena shakspeariana. Para a cazinha de d’Annunzio, sob um capuz de hera, Eleonora, de seu palácio fronteiro, esten de as mãos de tragédia. A gôndola insinua-se sob a Ponte di Ferro delPAccademia. No Palazzo- Giustinian-Brandolin, um alemão .1 il triste ouve a música do silêncio e plasma com a saudade de Matilde o dueto de Tristão e Isolda. Com a lâmina do suicídio nas mãos criadoras, Leopold Robert delira entre as colunas jónicas -do Palazzo Pisani. A alvura funérea dos mármores. A impassibi lidade morta das águas. O pigarro do gondoleiro. Do portão gradeado do solar dos Mocenigo. Byron pula na gôndola de Tita, para ir cavalgar nos pântanos de Lido amaldiçoando as estrelas. As voluptuosas do serralho colam pupilas de febre na vidraça das janelas. Marina Querini Benson espera nua, no Palaz zo di S. Benedetto, o amante da noite. 'lí Sombras lacrimosas. Frêmitos de sombras. Sombras sofredoras. O Palazzo Vendramin levanta a magestade en luarada de très andares renascença.
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In questo palaggio Valtimo spiro di Ricardo Wagner odono le anime perpetuarsi coino la marea ïi ■' che ïambe i marmi. G. D’ANNUNZIO.
h Gondolas cobertas de luto esperam o caixão. A Marcha funebre de Sigfried o anuncia. O cortejo Hifi parte (o venio de tempestade uiva sinfonias) , * rt V «' oscilando. O Canal Grande balança o cadáver que m vai para a Alemanha. Cosima está vestida de preto. Com lágrimas. — Stai, ôh! O canal estreito lança um hálito de ácido sul- fídrico. O ar arde em febre. As águas acariciam os muros. O luar caia um cemitério. '^; ■■' A gôndola segue como um ladrão, uma co bra, um destino anônimo. Despercebidamente. — Premi, ôh! Na ponte dell’Olio vozes bêbadas acompa nham um violino. — Stai, ôh! A lua desenha no Rio di S. Marina um baile sinistro. Há sacis emigrados de capas espanholas. 't Mulheres bifrontes maxixam com fascistas. Das casas desce limo.
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— Premi, ôh! (Porque este desejo grandíssimo de chorar?) No Rio di Palazzo, morcegos beijam bôcas in visíveis. A Ponte dei Sospiri é trágica. Mas a Ponte delia Paglia tem japoneses debruçados. — Premi, òh! Pondo mais très estrelas no céu um aeroplano iluminado sobe do Lido e rodopia sobre a cidade em decomposição. No Bacino di S. Marco joga um fogo de artifício vermelho, azul, dourado. As águas sorvem-o. (Porque este desejo grandíssimo de rir?) A lua é uma careca. — Stai, ôh ! . . . ôh ! . . . • m il
Julho de 1925.
1. ií :
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Sovra cândido vel cinta d'oliva Donna m’apparve, sotto verde manto, Vestita di color di fiamma viva. Dante, Pur., XXX, 31-33 I I
Ou no limoso canto Ponte Vecchio-Via Por S. Maria :
......... 'n sul passo d'Arno. Dante, Inf., XIII, 146.
Isso porque Dante é maior do que Florença. Ao lado de Beatrice, gentil madonna, é vendido em mármore, bronze, couro e papel. Em todas as montras, entre sabonetes e cartões postais, ofere ce o nariz enérgico, a boca amarga, o queixo duro. Custa ás vezes vinte cêntimos. A’s vezes não vale. Perto da Badia Fiorentina, num paredão es curo, há esta placa:
............. Io fui nato e cresciuto Sovra 7 bei fiume d'Arno alla gran villa. Dante, Inf., XXIII, 94-95.
Ali nasceu o Divino. Imortalidade de Floren ça. Ganha-pão dos florentinos. a t a
Não é certo, porem. Ou melhor: é certo que não é. A casa dos Alighieri desapareceu. A única lápide dantesca justificável marca úa mentira.
2. viajem de estudos Entre vilas de princesas russas e inglesas pro testantes, a estrada colea, subindo, até Fiesole. O guia de nariz vermelho vai dizendo o que sabe sobre o Teatro Romano. — Siamo nella cosi detta cavea. Degraus carcomidos. Musgo. Moscas. — Laggiii era il cosi detto pulpitum. Era. Há vinte e dois mil anos. — Queste sono le cosi dette termae. Cousa nenhuma. Operários esgaravatam a colina. Pedras sol tas. Grilos. Lascas de colunas. Dez centimetros quadrados de mosaico. (Dizem que são muito instrutivas as visit i : • 1-.
aos monumentos da antiguidade romana).
Entre vilas de princesas russas e inglesas pro testantes, a estrada colea, descendo, até Firenze. !ÃS
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■fíí 3. tesouro de preciosidades Na Galleria degli Uffizi, visitantes dominguei ros arrastam os pés. Compõem um ar entendido deante da Venus lambida, manjar branco sem açú car, da Nascita botticelliana. Empanturram-se íU: com as mil e uma variantes da Vergine col bam bino, com ou sem acompanhamento de santos; da hK'. ■ , Madonna in trono, só ou não, bonita ou feia; da Adorazione dei Magi; da Annunziazione; da Sa cra Famiglia; da Deposizione; da Assunzione; da Crocefissione. Durante séculos, Taddeo Gaddi ou Domenico Veneziano, fra Filippo Lippi ou Sandro Botticelli, Raffaello Sanzio da Urbino ou Michelangelo Buo narroti, Ridolfo del Ghirlandaio ou Andréa del Sarto, geniais ou medíocres, dão a impressão de haverem frequentado o mesmo curso de pintura. Seus directores, papas ou nobres, os obrigaram a reproduzir modelos idênticos, cem vezes copiados, mil recopiados. Até não poderem mais. í- *. As galerias italianas negam a invenção huma na. Meia dúzia de assuntos em meia dúzia de sé ;íí i culos. Afirmação de arte ou afirmação de fé? O poema cristão transformou-se em lugar-commiim pictórico. Os olhos modernos saem ansiando por uma tela dinâmica e liberta de Léger.
Inglesas de óculos compram reproduções da Venere com muque de Lorenzo di Credi (discutin do o preço). O Saiiro danzaiite, quatro séculos mais velho do que Cristo, saracotea para um grupo de recrutas. Na Piazza della Signoria o sol ilumina brasi leiros gordos.
4. engorda
Piouxinois trinam, na solidão encastelada da Certosa dei Galluzo, para vinte e quatro monges contempladores. As celas-tombas dão para o claustro-cemité rio. Os frescos de Poccetti põem sombras apaga das nas paredes nuas. Zumbidos no silencio cheio de sol. Perfume doce. Sacudindo o hábito branco, diz o padre balofo (que olhos tão vasios!): — Da venticinque anni che non mangio carne E sono grasso lo stesso... Afaga a pança tremelicante. Ri. Ri. E aponta uma porta envidraçada: __ Li é la nostra piccola fabrica di liquori e cioccolato. Está justificada a pança. í.
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fi O perfume doce é dos jasmineiros floridos. l Parece S. Paulo.
5. concerto
■ I ; Sobre o Arno calado as pontes são parábolas ■M brancas. No Lungarno Américo Vespucci vultos negros afinam bandolins. Para ouvi-los, as janelas abertas dos forastei ros põem trapézios de luz na fachada dos boteis. As estrelas furam buracos dourados no céu de papel. Namorados enlaçados recolhem das Cascine com preguiça e beijos. O ronco de um ônibus atravessa a Ponte alla Carraia, e afunda no si lêncio. Avança a serenata, com sons tristes. Mia um gato e o corcunda canta. Scettico blues. A melodia italiana latiniza melancolicamen » te o ritmo norte-americano. Quando ü mio primo amore Ii mi sconvolse la v ita ... A voz do corcunda lacrimeja. Grave e quente. Exala alma. Os bandolins tremem mais alto. . . . baccif lusinghe, carezze, promesse» illusion. . .
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Outras janelas se abrem com gente debruça da. Cocheiros de chapéu de Chile formam um mon tão pigarrento. O corcunda acende, na pausa re- ticenciada, um Macedonia. Põe desprezo na gar ganta e termina entre fumaça: P"'
. . . io come il fumo li sperdo nelVaria . . . c o s il . . .
Camisolas pingam liras do alto. A serenata re colhe as liras e segue. Senhor do silêncio, o gato mia fortissimo.
Julho de 1925.
Economia de guarda-chuvas. Pórticos e arca das são túneis sobre as calçadas. Pompa da arqui- tectura trescentista. Quatrocentista também. Os cinco palácios (Comunale, dei Notai, dei Podestá, dei Nettuno, dei Re Enzo) monumentali- zam o centro. Os homens circulam pequeninos. No Caffé-Concerto Excelsior, artistas inter rompem as cançonetas para acenderem cigarros nos fósforos galantes da assistência. O maestro acha graça. Que cheiro tão italiano! tí Peregrinos da Baviera, em marcha militar, tro vejam ladainhas guturais na Via Indipendenza. Os pórticos alígeros da Chiesa di S. Maria dei Servi. A fachada desarmônica da Mercanzia. Man díbulas atroadoras, evidentemente nacionais, cho cam-se no Caffé S. Pietro. Do Piazzale delia Chiesa di S. Michele in Bos co, kodaks britânicas retratam a cidade. A Torre ■
Garisenda, velhinha cansada, inclina-se sobre a Asinelli, vertical audaciosa no azul. Cercando um perneta (o perneta sorri), mulheres lacrimejam no portão do Instituto Ortopédico. Música de uma oficina.
t h — Bologna, mio caro signore, é bellissima! Opinião de um cocheiro espinhoso. Com esta los de chicote. II — II Resto dei Carlino! 11 Resto dei. .. Que cheiro tão italiano!
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