Londres e Milão
1. charing cross O Criterion despeja na confusão do Picca dilly Circus mantos de zibelina com colares de pérolas, smockings com claques, caras raspadas com monóculos, cabeças louras com diademas. Os ônibus vermelhos de dois andares cruzam- se, esfregam-se, enfileiram-se. A multidão erran te cobre a Regent Street. Senhor do trânsito, o guarda de um metro e noventa faz com as mãos enluvadas geometria no espaço. O ruído é um atropelo de mil sons diferentes. Os cafés sorvem a gente que sobra das calçadas. Mas a gente não diminue. Coventry Street lateja como um vaso cardíaco. Motoristas de chapéo côco ridicularizam ta xis acrobáticos. Um cab passa sumido como o passado. Mulheres vendem flores por obrigação. Indianos de olhos imensos reunem turbantes dean- te da Corner House. O cégo de óculos pretos está bêbado com certeza. O moço míope só vê a beleza tropical que enlaça. 1 »1 , Os anúncios luminosos, galgando os prédios, policromos, despencando dos últimos andares, 11 ; travessos, rodando, piscando, ágeis, desaparecen-
do á direita, surgindo á esquerda, subindo, des cendo, indo, vindo, LEARN LANGUAGES AT BERLITZ!, MAZAWATTEE TEA, DO YOU COM POSE?, BOVRIL, MONICO, põem na téla desigual da multidão que não pára pinceladas de Léger e Delaunay, vermelhas, azues e verdes, depois de novo verdes, azues e vermelhas. A National Galery extende a fachada encar voada. E emquanto Trafalguar Square reflecte a vi da de oito milhões de vidas (a coluna de Nelson é o bastão que dirige a circulação do mundo), o escocês de saiote, nas escadarias de Saint-Mar tin’s in the Fields, tira sonzinhos pastoris da cor- namusa. Uma da madrugada.
2. humorismo
4 — WILLIAM BURR and DAPHNE HOPE
The lovers In “A Belle, a Beau and a Balcony” . k 6 Na luz dos reflectores a fumaça dos Virginia ■I. sobe, rasga-se, évolué. Decotes vermelhos. Casa cas. Casacos. 0 casal entra em cena. No Alhambra, sem lugar vasio, o silêncio provoca a tosse dos consti pados. Na segunda fila de poltronas, o lou rin h o... — The lovers, my love. . . . . . aperta a mão da lourinha. A bengala rola no tapete. O homenzarrão enche o canapé do palco. A mulherona, vestida de quiosque, acende o cigarro. São cómicos. O público acha. Ri. Ri. Ri. William (sorrindo) — V. tem lenço? Daphne (ingenuamente) — Tenho sim. William (com ironia) — Pois, então, assoe-scí Delírio. A alegria bate palmas. Engraçadis- simo. Animado, o casal continua. As gargalhadas são uma só gargalhada. William (misterioso) — Ontem, no Piccadil ly, um tipo pediu o cardápio, pensou, pensou e en comendou palitos. . . Daphne (divertida) — E depois? William (esfusiante) — Serviram-lhe uma bofetada! 0 riso do teatro compõe o final de um con certante italiano. — Oh! Oh! Ah! Ih! Oh! Oh! E aplausos.
p a t h a t|V t . William ergue-se. Resvala. Esparrama-se ho tapete. — Quá! Quá! William levanta-se. Escorrega. Estende-se no chão. — Quá! Quá! Quá! William equilibra-se. Deslisa. Cai com o panno. | — Quá! Quá! Quá! Quá! Ovação.
3. quadro de vistas simultâneas No centro, o vapor apita e a Tower Bridge escancara-se. A’ direita, sobre o oceano de telha dos se espraia a fumaça suja das fábricas. Em baixo, a multidão tapa as calçadas. Vendedores l' ambulantes. Berros. Rangidos. Londres ofega como um motor. A’ esquerda, o que faz tanta gente? As dócas são o iman das embarcações. Os guindastes gemem, no fundo. E* dos Tubes o ronco surdo. O ar cheira gazolina* ♦ :jl' Confusão. Dinamização. Civilização.
4. good save the king
O saguao rubro-azul do Savoy Hotel é uma aula da escola Berlitz. Os elevadores sobem ar-
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gentinos e descem japoneses. Cartolas cinzentas. Angú internacional. Polainas brancas. Dois persas ipedem Apollinaris em francês. Sujeitos de fraque recebem gorgetas. Inglêsas sardentas. Com exage ro. O tenor italiano faz barulho. Cartões postais. Fardas da Agência Cook. Fumo. O porteiro co manda. Pela porta do salão de chá as notas do Guarany (tan-tan-tararam tan-tararam) entram, perdem-se. Todos levantam-se. Precipitam-se. Correm. 0 homem dos automóveis: — The King! Na Slrand Street, Jorge V, vestido de burguês, dentro da victória, passa em revista a fidelidade dos súbditos. Os granadeiros da guarda nem pis cam. As calçadas agitam chapéus e lenços. As sa cadas espiam. Em cada olhar de inglês há um orgulho e um contentamento. Britânicos.
4. hyde-park O verde é macambúzio. Só há flores nos cha péus das mulheres. Elegantes de sapatos amarelos e cartola. Bulldogs enfatuados. O esfarrapado no banco lê os anúncios do The Evening Standart, Pela Ring Road se desenrola a cauda dos au-
tomóveis. Passo de parada, os cavalos dão impor tância aos cavaleiros. No Serpentine River, os botes que os moços alegres manobram têm na proa uma rapariga e um gramofone. A inveja dos basbaques apura os olhos, nas margens, e comenta. Há sujeitos tristes, tristes, de cachimbo apagado. Em torno do pavilhão de chá, as mesinhas verdes reunem gente contente. A orquestra toca o Tea for two para ninguém ouvir. No gramado escovado, vultos sentados jogam, o sério com o céu. Cachorros bem educados cum primentam-se de longe. A tarde (a bola da crian ça bate na careca do pastor) cai como uma folha.
Maio de 1925.
. compêndio urbano Pela Galleria Vittorio Emanuele Milão gira. Italianas lindas. A qualquer hora. Alugáveis )U não. Olhos de tragédia. Atitudes cinematográ-- icas de mulher fatal. Homens caricatos. Elegância desopilante. Não isam chapéu: usam juba. Formidável. Os cabelos ormam chumaço. Calças sacos. Os paletós param nesperadamente. Bengalinha em punho, os terri- ^eis com o olhar despem e apalpam as mulheres, íleunem-se em grupos, riem e cantarolam, gesti- íulam, berram, cospem e assobiam. A Galleria é bolsa, exposição e mercado de artistas. Ambiente de caixa de teatro. Cantores sem contracto. Maestros cabeludos. Coristas seben tos. Um só assunto: canto. Deante do tablado das orquestras, á porta dos restaurantes, soldados, velhos e criados assobiam Puccini. Carabineiros carnavalescos, aos pares (um alto e um baixo, um alto e um baixo). Floristas velhas oferecem cravos ás damas acompanhadas. Parada de galões e de fardas. Meretrizes das ime diações do corso Vittorio Emanuele. •i
— UAmbrosiano! La Sera! La Sera! Mulheres grávidas, de andar soleníssimo. To das as gravatas masculinas são vermelhas. Todo; os pés femininos são de anjo.
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2. derrota brasileira .í: f O moço forte senta-se no tamborete, desperts no teclado sons trepidantes, e a salinha escura perdida no quarto andar da Via Caiazzo n. 32, ga nha côr auri-verde. As notas brasileiras escapam pela janela. Nc ar verdiano de Milão a harmonia cabocla põe un cheiro tropical de mata húmida. r^omo essas figurinhas que a cinematografia norte-americana faz sair do fundo de uma taça oi de uma pupila, de dentro do piano pulam dois sertanejos repinicando violas. Começa o desafio Os dedos de Francisco Mignone pintam a noite en luarada, o terreiro fervilhando, a torcida da assis tência caipira. Esgrima de sátira e lirismo. Um dos troveiros, súbito, hesita, tamborila á toa na caixa do violão, atrapalha-se, emudece. Chiquinha Pei to de Rôla suga os lábios do vencedor. O vento mistura a gritaria da caipirada e a música da flo resta.
Di quella pira . . . 0 sapateiro do andar térreo quebra o milagre da visão brasileira. . . . 7 orrendo fuoco. .. 0 compositor, suspirando, fecha o piano.
3. notabilidades amestradas
Na Piazza di S. Fedele, ao lado de Manzoni, o homenzinho comanda os pombos. — Mussolini! Mussolini! Destacando-se do grupo inquieto, que bica o chão, Mussolini agita as azas e vem receber a sua bolota de pão. 0 homenzinho diz com doçura; — Adesso, Maria Melato! Fancesca Bertini acode ao chamado. A voz, com energia, repete: — Maria Melato! E a dextra aponta a faltosa. — Maria Melato! Ma-ri-a Me-la-to! Emfim, Maria Melato ouve e obedece. Como castigo, o homenzinho exige : — Ancora, Maria Melato! A ave pousa na mão que a repulsa. — Ancora, la Melato!
A pobrezinha volta, humilde, humilde. — Adesso, Herminio Spalla! Herminio Spalla dá um empurrão em Mas cagni, belisca os dedos do domador e desaparece por trás da Chiesa de San Fedele. — Adesso, la Duse! No. La Duse! Eleonora aproxima-se. — Va! D’Annunzio t’aspetta! Eleonora desce e une-se a um pombo de penas arrepiadas. — D’Annunzio! Lá vem êle. * O grupo em volta, pasm a. O homenzinho, mansamente, continua.
4. regosijo nacional
Sete de Junho. Bodas de prata do rei com o trono. Embandeiramento patriótico dos mastros, I I. dos veiculos, dos balcões, das montras, das lapelas. f Espetada em tudo, a bandeira tricolor. Gritos de cartazes: VIVA EL RE! VIVA IL FASCIO! VIVA IL DUCE! Taratá-tchim-bum de bandas ambulan tes. Camisas pretas. Cada peito de oficial é um anúncio de estabelecimento fabril premiado em Í-* ï ■ ^ M cincoenta exposições universais. 4 í.fi'
í-, ,s,i ; ^ f i«|í Atrás do hino fascista, cortejos encaminham- se para o monumento aos mortos de 48. Suando em hica, os manifestantes assumem um ar heroico. E berram: Giovinezza, giovinezza, primavera di belle-e-e-e-zza! Um mutilado bigodudo troveja de instante a instante : — Evviva il Re! Evviva Mussolini! H Entusiasmo de 32.® á sombra. O retrato do rei, na montra de um fotógrafo, descobre a mul tidão. A chupeta festiva de uma criança arvora na ponta um laço de fita tricolor.
5. aspecto Ao pé da estátua de Vittorio Emanuele (he diondez equestre), os bondes amarelos se esva- siam e se enchem. :í:h '■! As azêmolas dos carros e das carroças, fugi das de um album de Benjamin Rabier, usam cha péu de verão. Algumas com direito a guarda-po. Os cachorros são infelizes: têm focinheira. Não ladram nem mordem. Vingam-se, eles sabem como. O corcunda, que de esguicho em punho rega prodigamente a praça, também sabe.
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■Mf a t h •ó ^'li ' Í'5,' H Í ’if'' .', í' O calor pesa na praça. Nas escadarias do Duomo, vendedores de ca M í f •!■ mafeus e cartões postais são sarna dos estran íílr 'I geiros. Na ponta da flecha rendada, a Madonina dc ouro ollia-se no sol como num espelho.
Junho de 1925.