Londres e Milão Pathé-Baby · Capítulo 5 de 10
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Londres e Milão

1. charing cross O Criterion despeja na confusão do Picca­ dilly Circus mantos de zibelina com colares de pérolas, smockings com claques, caras raspadas com monóculos, cabeças louras com diademas. Os ônibus vermelhos de dois andares cruzam- se, esfregam-se, enfileiram-se. A multidão erran­ te cobre a Regent Street. Senhor do trânsito, o guarda de um metro e noventa faz com as mãos enluvadas geometria no espaço. O ruído é um atropelo de mil sons diferentes. Os cafés sorvem a gente que sobra das calçadas. Mas a gente não diminue. Coventry Street lateja como um vaso cardíaco. Motoristas de chapéo côco ridicularizam ta­ xis acrobáticos. Um cab passa sumido como o passado. Mulheres vendem flores por obrigação. Indianos de olhos imensos reunem turbantes dean- te da Corner House. O cégo de óculos pretos está bêbado com certeza. O moço míope só vê a beleza tropical que enlaça. 1 »1 , Os anúncios luminosos, galgando os prédios, policromos, despencando dos últimos andares, 11 ; travessos, rodando, piscando, ágeis, desaparecen-

do á direita, surgindo á esquerda, subindo, des­ cendo, indo, vindo, LEARN LANGUAGES AT BERLITZ!, MAZAWATTEE TEA, DO YOU COM­ POSE?, BOVRIL, MONICO, põem na téla desigual da multidão que não pára pinceladas de Léger e Delaunay, vermelhas, azues e verdes, depois de novo verdes, azues e vermelhas. A National Galery extende a fachada encar­ voada. E emquanto Trafalguar Square reflecte a vi­ da de oito milhões de vidas (a coluna de Nelson é o bastão que dirige a circulação do mundo), o escocês de saiote, nas escadarias de Saint-Mar­ tin’s in the Fields, tira sonzinhos pastoris da cor- namusa. Uma da madrugada.

2. humorismo

4 — WILLIAM BURR and DAPHNE HOPE

The lovers In “A Belle, a Beau and a Balcony” . k 6 Na luz dos reflectores a fumaça dos Virginia ■I. sobe, rasga-se, évolué. Decotes vermelhos. Casa­ cas. Casacos. 0 casal entra em cena. No Alhambra, sem lugar vasio, o silêncio provoca a tosse dos consti­ pados. Na segunda fila de poltronas, o lou rin h o... — The lovers, my love. . . . . . aperta a mão da lourinha. A bengala rola no tapete. O homenzarrão enche o canapé do palco. A mulherona, vestida de quiosque, acende o cigarro. São cómicos. O público acha. Ri. Ri. Ri. William (sorrindo) — V. tem lenço? Daphne (ingenuamente) — Tenho sim. William (com ironia) — Pois, então, assoe-scí Delírio. A alegria bate palmas. Engraçadis- simo. Animado, o casal continua. As gargalhadas são uma só gargalhada. William (misterioso) — Ontem, no Piccadil­ ly, um tipo pediu o cardápio, pensou, pensou e en­ comendou palitos. . . Daphne (divertida) — E depois? William (esfusiante) — Serviram-lhe uma bofetada! 0 riso do teatro compõe o final de um con­ certante italiano. — Oh! Oh! Ah! Ih! Oh! Oh! E aplausos.

p a t h a t|V t . William ergue-se. Resvala. Esparrama-se ho tapete. — Quá! Quá! William levanta-se. Escorrega. Estende-se no chão. — Quá! Quá! Quá! William equilibra-se. Deslisa. Cai com o panno. | — Quá! Quá! Quá! Quá! Ovação.

3. quadro de vistas simultâneas No centro, o vapor apita e a Tower Bridge escancara-se. A’ direita, sobre o oceano de telha­ dos se espraia a fumaça suja das fábricas. Em baixo, a multidão tapa as calçadas. Vendedores l' ambulantes. Berros. Rangidos. Londres ofega como um motor. A’ esquerda, o que faz tanta gente? As dócas são o iman das embarcações. Os guindastes gemem, no fundo. E* dos Tubes o ronco surdo. O ar cheira gazolina* ♦ :jl' Confusão. Dinamização. Civilização.

4. good save the king

O saguao rubro-azul do Savoy Hotel é uma aula da escola Berlitz. Os elevadores sobem ar-

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gentinos e descem japoneses. Cartolas cinzentas. Angú internacional. Polainas brancas. Dois persas ipedem Apollinaris em francês. Sujeitos de fraque recebem gorgetas. Inglêsas sardentas. Com exage­ ro. O tenor italiano faz barulho. Cartões postais. Fardas da Agência Cook. Fumo. O porteiro co­ manda. Pela porta do salão de chá as notas do Guarany (tan-tan-tararam tan-tararam) entram, perdem-se. Todos levantam-se. Precipitam-se. Correm. 0 homem dos automóveis: — The King! Na Slrand Street, Jorge V, vestido de burguês, dentro da victória, passa em revista a fidelidade dos súbditos. Os granadeiros da guarda nem pis­ cam. As calçadas agitam chapéus e lenços. As sa­ cadas espiam. Em cada olhar de inglês há um orgulho e um contentamento. Britânicos.

4. hyde-park O verde é macambúzio. Só há flores nos cha­ péus das mulheres. Elegantes de sapatos amarelos e cartola. Bulldogs enfatuados. O esfarrapado no banco lê os anúncios do The Evening Standart, Pela Ring Road se desenrola a cauda dos au-

tomóveis. Passo de parada, os cavalos dão impor­ tância aos cavaleiros. No Serpentine River, os botes que os moços alegres manobram têm na proa uma rapariga e um gramofone. A inveja dos basbaques apura os olhos, nas margens, e comenta. Há sujeitos tristes, tristes, de cachimbo apagado. Em torno do pavilhão de chá, as mesinhas verdes reunem gente contente. A orquestra toca o Tea for two para ninguém ouvir. No gramado escovado, vultos sentados jogam, o sério com o céu. Cachorros bem educados cum­ primentam-se de longe. A tarde (a bola da crian­ ça bate na careca do pastor) cai como uma folha.

Maio de 1925.

. compêndio urbano Pela Galleria Vittorio Emanuele Milão gira. Italianas lindas. A qualquer hora. Alugáveis )U não. Olhos de tragédia. Atitudes cinematográ-- icas de mulher fatal. Homens caricatos. Elegância desopilante. Não isam chapéu: usam juba. Formidável. Os cabelos ormam chumaço. Calças sacos. Os paletós param nesperadamente. Bengalinha em punho, os terri- ^eis com o olhar despem e apalpam as mulheres, íleunem-se em grupos, riem e cantarolam, gesti- íulam, berram, cospem e assobiam. A Galleria é bolsa, exposição e mercado de artistas. Ambiente de caixa de teatro. Cantores sem contracto. Maestros cabeludos. Coristas seben­ tos. Um só assunto: canto. Deante do tablado das orquestras, á porta dos restaurantes, soldados, velhos e criados assobiam Puccini. Carabineiros carnavalescos, aos pares (um alto e um baixo, um alto e um baixo). Floristas velhas oferecem cravos ás damas acompanhadas. Parada de galões e de fardas. Meretrizes das ime­ diações do corso Vittorio Emanuele. •i

— UAmbrosiano! La Sera! La Sera! Mulheres grávidas, de andar soleníssimo. To das as gravatas masculinas são vermelhas. Todo; os pés femininos são de anjo.

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2. derrota brasileira .í: f O moço forte senta-se no tamborete, desperts no teclado sons trepidantes, e a salinha escura perdida no quarto andar da Via Caiazzo n. 32, ga nha côr auri-verde. As notas brasileiras escapam pela janela. Nc ar verdiano de Milão a harmonia cabocla põe un cheiro tropical de mata húmida. r^omo essas figurinhas que a cinematografia norte-americana faz sair do fundo de uma taça oi de uma pupila, de dentro do piano pulam dois sertanejos repinicando violas. Começa o desafio Os dedos de Francisco Mignone pintam a noite en­ luarada, o terreiro fervilhando, a torcida da assis­ tência caipira. Esgrima de sátira e lirismo. Um dos troveiros, súbito, hesita, tamborila á toa na caixa do violão, atrapalha-se, emudece. Chiquinha Pei­ to de Rôla suga os lábios do vencedor. O vento mistura a gritaria da caipirada e a música da flo­ resta.

Di quella pira . . . 0 sapateiro do andar térreo quebra o milagre da visão brasileira. . . . 7 orrendo fuoco. .. 0 compositor, suspirando, fecha o piano.

3. notabilidades amestradas

Na Piazza di S. Fedele, ao lado de Manzoni, o homenzinho comanda os pombos. — Mussolini! Mussolini! Destacando-se do grupo inquieto, que bica o chão, Mussolini agita as azas e vem receber a sua bolota de pão. 0 homenzinho diz com doçura; — Adesso, Maria Melato! Fancesca Bertini acode ao chamado. A voz, com energia, repete: — Maria Melato! E a dextra aponta a faltosa. — Maria Melato! Ma-ri-a Me-la-to! Emfim, Maria Melato ouve e obedece. Como castigo, o homenzinho exige : — Ancora, Maria Melato! A ave pousa na mão que a repulsa. — Ancora, la Melato!

A pobrezinha volta, humilde, humilde. — Adesso, Herminio Spalla! Herminio Spalla dá um empurrão em Mas­ cagni, belisca os dedos do domador e desaparece por trás da Chiesa de San Fedele. — Adesso, la Duse! No. La Duse! Eleonora aproxima-se. — Va! D’Annunzio t’aspetta! Eleonora desce e une-se a um pombo de penas arrepiadas. — D’Annunzio! Lá vem êle. * O grupo em volta, pasm a. O homenzinho, mansamente, continua.

4. regosijo nacional

Sete de Junho. Bodas de prata do rei com o trono. Embandeiramento patriótico dos mastros, I I. dos veiculos, dos balcões, das montras, das lapelas. f Espetada em tudo, a bandeira tricolor. Gritos de cartazes: VIVA EL RE! VIVA IL FASCIO! VIVA IL DUCE! Taratá-tchim-bum de bandas ambulan­ tes. Camisas pretas. Cada peito de oficial é um anúncio de estabelecimento fabril premiado em Í-* ï ■ ^ M cincoenta exposições universais. 4 í.fi'

í-, ,s,i ; ^ f i«|í Atrás do hino fascista, cortejos encaminham- se para o monumento aos mortos de 48. Suando em hica, os manifestantes assumem um ar heroico. E berram: Giovinezza, giovinezza, primavera di belle-e-e-e-zza! Um mutilado bigodudo troveja de instante a instante : — Evviva il Re! Evviva Mussolini! H Entusiasmo de 32.® á sombra. O retrato do rei, na montra de um fotógrafo, descobre a mul­ tidão. A chupeta festiva de uma criança arvora na ponta um laço de fita tricolor.

5. aspecto Ao pé da estátua de Vittorio Emanuele (he­ diondez equestre), os bondes amarelos se esva- siam e se enchem. :í:h '■! As azêmolas dos carros e das carroças, fugi­ das de um album de Benjamin Rabier, usam cha­ péu de verão. Algumas com direito a guarda-po. Os cachorros são infelizes: têm focinheira. Não ladram nem mordem. Vingam-se, eles sabem como. O corcunda, que de esguicho em punho rega prodigamente a praça, também sabe.

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■Mf a t h •ó ^'li ' Í'5,' H Í ’if'' .', í' O calor pesa na praça. Nas escadarias do Duomo, vendedores de ca M í f •!■ mafeus e cartões postais são sarna dos estran íílr 'I geiros. Na ponta da flecha rendada, a Madonina dc ouro ollia-se no sol como num espelho.

Junho de 1925.

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