Capítulo XCII Quincas Borba · Capítulo 92 de 201
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Capítulo XCII

De noite, correu á praia do Flamengo. Não pôde fallar a Maria Benedicta, que estava em cima, no quarto, com duas moças da visinhança, amigas della. Sophia veiu recebel-o á porta, e levou-o para o gabinete, onde duas costureiras faziam os vestidos de luto. O marido acabava de chegar; ainda não descera.

—Sente-se aqui, disse ella.

Tomou conta delle; estava divina. As palavras sabiam-lhe carinhosas e graves, entrecortadas de sorrisos amigos e honestos. Fallou-lhe da tia, da prima, do tempo, dos criados, dos expectaculos, da falta d'agua, de uma multidão de cousas diversas, vulgares ou não, mas que passando pela bocca da moça, mudavam de natureza e de aspecto. Rubião ouvia fascinado. Ella, para não estar vadia, ia cosendo uns folhos; e, quando a conversação fazia pausa, Rubião era pouco para comer-lhe as mãos ageis, que pareciam brincar com a agulha.

—Sabe que estou formando uma commissão de senhoras? perguntou ella.

—Não sabia; para que?

—Não leu a noticia daquella epidemia n'uma cidade das Alagoas?

Contou-lhe que ficara tão penalisada, que resolveu logo organisar uma commissão de senhoras, para pedir esmolas. A morte da tia interrompeu os primeiros passos; mas ia continuar, passada a missa do setimo dia. E perguntou que lhe parecia.

—Parece-me bem. Não ha homens na commissão?

—Ha só senhoras. Os homens apenas dão dinheiro, concluiu rindo.

Rubião, de cabeça, subscreveu logo uma quantia grossa, para obrigar os que viessem depois. Era tudo verdade. Era tambem verdade que a commissão ia pôr em evidencia a pessoa de Sophia, e dar-lhe um empurrão para cima. As senhoras escolhidas não eram da roda da nossa dama, e só uma a comprimentava; mas, por intermedio de certa viuva, que brilhára entre 1840 e 1850, e conservava do seu tempo as saudades e o apuro, conseguira que todas entrassem naquella obra de caridade. Desde alguns dias não pensara em outra cousa. Ás vezes, á noite, antes do chá, parecia dormir na cadeira de balanço; não dormia, fechava os olhos para considerar-se a si mesma, no meio das companheiras, pessoas de qualidade. Comprehende-se que este fosse o assumpto principal da conversação; mas, Sophia tornava de quando em quando ao presente amigo. Porque é que elle fazia fugidas tão longas, oito, dez, quinze dias, e mais? Rubião respondeu que por nada, mas tão commovido, que uma das costureiras bateu no pé da outra. Dahi em deante, ainda quando o silencio era largo, cortado apenas pelo som das agulhas no merinó, das tesouradas, dos rasgados, uma e outra não perdiam de vista a pessoa do nosso amigo, com os olhos fisgados na dona da casa.

Veiu uma visita de pesames,—um homem, director de banco. Foram chamar logo o Palha, que desceu a recebel-o. Sophia, pediu licença ao Rubião, por alguns segundos; ia ver Maria Benedicta.

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