Capítulo CLXXX
Daquella vez, teve a fortuna de encontrar o major Sequeira.
—Ia agora mesmo á sua casa, disse-lhe; vae para lá?
—Vou; mas já não estamos na mesma casa; mudamo-nos para os Cajueiros, rua da Princeza...
—Seja onde for, vamos.
Rubião precisava de um pedaço de corda que o atasse á realidade, porque o espirito sentia-se outra vez presa da vertigem. Entretanto, fallou com tanto acerto e propriedade, que o major o achou em pleno juizo, e disse-lhe:
—Sabe que tenho uma grande noticia que lhe dar?
—Vamos a ella.
—Ha de ser quando chegarmos.
Chegaram. Era uma casa assobradada; D. Tonica veiu abrir-lhes a cancella. Trazia um vestido novo e brincos.
—Olhe bem para ella, disse o major pegando na filha pelo queixo.
D. Tonica recuou envergonhada.
—Estou olhando, respondeu Rubião.
—Não se vê logo que é uma pessoa que vae casar?
—Ah! parabéns!
—É verdade, vae casar. Custou, mas acertou. Achou por ahi um noivo, que a adora, como todos elles; eu, quando fui noivo, adorei a minha defuncta, que foi urna cousa nunca vista... Vae casar. Arranjou um noivo. Custou, mas acertou. Pessoa seria, meia edade; vem aqui passar as noites. De manhã, quando passa para a repartição, creio que bate na janella, ou ella já o espera; eu finjo que não percebo...
D. Tonica dizia com a cabeça que não, mas sorrindo de modo que parecia dizer que sim. Estava tão buliçosa! Nem se lembrava já que requestára o Rubião, que este fora uma das ultimas, e por fim a ultima das suas esperanças. Tinham entrado na sala; D. Tonica foi á janella, voltou, cabeça alta, andando atoa, reconciliada com a vida.
—Boa pessoa, repetiu o major, boa creatura... Tonica, vae buscar o retrato... Anda, vae buscar o teu noivo...
D. Tonica foi buscar o retrato. Era uma photographia; representava um homem de meia edade, cabello curto, raro, olhando espantado para a gente, cara chupada, pescoço fino e paletot abotoado.
—Que lhe parece?
—Muito bem.
D. Tonica recebeu o retrato e fitou-o alguns instantes; mas, tirou logo os olhos, e deixou-se estar sentada, emquanto a imaginação saiu a esperar o Rodrigues. Chamava-se Rodrigues. Era mais baixo que ella,—cousa que o retrato não dava,—e empregado em uma repartição do ministerio da guerra. Viuvo, com dons filhos, um que estava no batalhão dos menores, outro que era tuberculoso,—doze annos,—condemnado á morte. Que importa? Era o noivo; todas as noites, ao recolher se, D. Tonica ajoelhava-se ante a imagem de Nossa Senhora, sua madrinha, agradecia-lhe o favor e pedia-lhe que a fizesse feliz. Sonhava já com um filho; havia de chamar-lhe Alvaro.