Capítulo CLXX
—Você que tem? perguntou Maria Benedicta ao marido, logo que ficaram sós.
—Eu? Nada. Porque?
—Parecia estar aborrecido.
—Não, não estava aborrecido.
—Estava, sim, insistiu ella.
Carlos Maria sorriu, sem responder. Maria Benedicta já lhe conhecia esse sorriso especial, inexpressivo, sem ternura nem censura, superficial e pallido. Não teimou em querer saber, mordeu os beiços e retirou-se.
No quarto, durante algum tempo, não cuidou de outra cousa que não fosse aquelle sorriso descorado e mudo, signal de algum aborrecimento, cuja culpa não podia ser senão ella. E percorria toda a conversação, todos os gestos que fizera, e não achava nada que explicasse a frieza, ou o que quer que era de Carlos Maria. Talvez ella se mostrasse excessiva nas palavras; era seu costume, se estava contente, pôr o coração nas mãos e distribui-lo a amigos e a extranhos. Carlos Maria reprovava essa generosidade, porque dava um ar de sorte grande ao seu estado moral e domestico, e porque lhe parecia banal e inferior. Maria Benedicta recordava-se que, em Paris, na colonia brazileira, sentira mais de uma vez esse effeito de suas expansões, e reprimira-se. Mas D. Fernanda estaria no mesmo caso? Não era a autora da felicidade de ambos? Rejeitou essa hypothese, e tratou de ver outra. Não a achando,—voltou á primeira, e, segundo lhe succedia sempre, deu razão ao marido. Em verdade, por mais intima e grata que fosse, não devia contar á boa amiga as minucias da vida; era leviandade sua...
Nauseas vieram interrompel-a neste ponto das reflexões. A natureza lembrava-lhe uma razão de Estado—a razão da especie,—mais instante e superior aos tedios do marido. Ella cedeu á necessidade; mas, poucos minutos depois, estava ao pé de Carlos Maria, contornando-lhe o pescoço com o braço direito. Elle, sentado, lia uma revista ingleza; pegou-lhe na mão, pendente sobre o peito, e acabou a pagina.
—Você me perdoa? perguntou a mulher, quando o viu fechar o folheto. Daqui em diante vou ser menos tagarella.
Carlos Maria pegou-lhe nas duas mãos, sorrindo e respondeu com a cabeça que sim. Foi como se lançasse uma onda de luz sobre ella; a alegria penetrou-lhe a alma. Dir-se-hia que o proprio feto repercutiu a sensação e abençoou o pae.