Capítulo CLXI
Sophia resignou-se á reclusão. Já agora tinha a alma tão confusa e diffusa como o expectaculo exterior. Todas as imagens e nomes perdiam-se no mesmo desejo de amar. É justo dizer que ella, quando regressava desses estados de consciencia vagos e obscuros, tentava fugir-lhes e guiava o espirito para diverso assumpto; mas succedia-lhe como aos que têm somno e forcejam por velar: os olhos fecham-se de cada vez que espertam, e tornam a espertar para se fecharem outra vez. Afinal, deixou a vista da chuva e do nevoeiro; estava cançada, e para repousar, foi abrir as folhas do ultimo numero da Revista dos Dous Mundos. Um dia, no melhor dos trabalhos da commissão das Alagôas, perguntára-lhe uma das elegantes do tempo, casada com um senador:
Está lendo o romance de Feuillet, na Revista dos Dous Mundos?
—Estou, acudiu Sophia; é muito interessante, Não estava lendo, nem conhecia a Revista; mas, no dia seguinte, pediu ao marido que a assignasse; leu o romance, leu os que sahiram depois, e fallava de todos os que lêra ou ia lendo. Abertas as folhas daquelle numero, e acabada uma novella, Sophia recolheu-se ao quarto e atirou-se á cama. Passára mal a noute, não lhe custou pegar no somno,—profundo, largo e sem sonhos,—excepto para o fim, em que teve um pesadelo. Estava deante da mesma parede de cerração daquelle dia, mas no mar, á proa de uma lancha, deitada de bruços, escrevendo com o dedo na agua um nome—Carlos Maria. E as lettras ficavam gravadas, e para maior nitidez, tinham os sulcos de espuma. Até aqui nada havia que atordoasse, a não ser o mysterio; mas é sabido que os mysterios dos sonhos parecem factos naturaes. Eis que a parede da cerração se rasga, e nada menos que o proprio dono do nome apparece aos olhos de Sophia, caminha para ella, toma-a nos braços e diz-lhe muitas palavras de ternura, analogas ás que ella, alguns mezes antes, ouvira ao Rubião. E não a afligiram, como as d'este; ao contrario, escutou-as com prazer, meia cahida para trás, como se desmaiasse. Já não era lancha, mas carruagem, onde ella se ia com o primo, mãos presas, namorada de uma linguagem de ouro e sandalo. Tambem aqui não ha que atterre. O terror veiu quando a carruagem parou, muitos vultos mascarados a cercaram, mataram o cocheiro, arrancaram as portinholas, apunhalaram Carlos Maria e deitaram o cadaver ao chão. Depois, um delles, que parecia ser o cabo de todos, tomou o lugar do defuncto, tirou a mascara e disse a Sophia que se não assustasse, que elle a amava cem mil vezes mais que o outro. Logo em seguida, pegou-lhe nos pulsos e deu-lhe um beijo, mas um beijo humido de sangue, cheirando a sangue. Sophia soltou um grito de horror e acordou. Tinha ao pé do leito o marido.
—Que foi? perguntou elle.
—Ah! respirou Sophia. Gritei, não gritei?
Palha não respondeu nada; olhava á tôa, pensava em negocios. Então um receio assaltou a mulher, se haveria effectivamente fallado, murmurado alguma palavra, um nome qualquer,—o mesmo que escrevera na agua. E logo, espreguiçando os braços para o ar, fel-os cahir sobre os hombros do marido, cruzou as pontas dos dedos na nuca, e murmurou meia alegre, meia triste:
—Sonhei que estavam matando você.
Palha ficou enternecido. Havel-a feito padecer por elle, ainda que em sonhos, encheu-o de piedade, mas de uma piedade gostosa, um sentimento particular, intimo, profundo,—que o faria desejar outros pesadelos, para que o assasinassem aos olhos della, e para que ella gritasse augustiada, convulsa, cheia de dor e de pavor.