Capítulo CXVI Quincas Borba · Capítulo 116 de 201
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Capítulo CXVI

Iam casar? Mas como é então que...? Maria Benedicta,—era Maria Benedicta que casava com Carlos Maria; mas então Carlos Maria... Comprehendia agora; era tudo engano, confusão; o que parecia ser com uma pessoa era com outra, e ahi está como a gente póde chegar á calumnia e ao crime.

Assim reflexionava Rubião, saindo para a sala de jantar, onde os copeiros adereçavam a mesa da ceia. E continuou, andando ao comprido da sala: «—Ora vejam! E o Palha queria justamente casar-me com a prima, mal sabendo que o destino lhe guardava outro noivo. Não é feio rapaz; é muito mais bonito que ella. Ao pé de Sophia, Maria Benedicta vale pouco ou nada; mas a sympathia é assim mesmo... Casam-se, e breve... Será de estrondo o casamento? Deve ser; o Palha vive agora um pouco melhor...»—e Rubião lançava os olhos aos moveis, porcellanas, cristaes, reposteiros. «—Hade ser de estrondo. E depois o noivo é rico...» Rubião pensou na carruagem e nos cavallos que levaria; tinha visto uma parelha soberba, no Engenho Velho, dias antes, que estava mesmo ao pintar. Ia fazer a encommenda de outra assim, fosse por que preço fosse; tinha tambem de presentear a noiva. Ao pensar nella viu-a entrar na sala.

—Prima Sophia onde está? perguntou ella ao Rubião.

—Não sei; esteve aqui ha pouco.

E, como a visse disposta a ir adeante, pediu-lhe uma palavra, e que se não zangasse. Maria Benedicta esperou; elle, sem hesitação, deu-lhe os parabens. Sabia que ia casar... Maria Benedicta ficou muito vermelha, e murmurou alguma cousa parecida com um pedido de não divulgar nada. Não havia então nenhum creado alli; Rubião pegou-lhe na mão e fechou-a entre as suas.

—Eu sou da casa, disse; a senhora merece ser feliz, e espero que seja.

Um pouco assustada, Maria Benedicta puxou a mão e libertou-a; mas, para o não aborrecer, sorriu. Não era preciso tanto; elle estava encantado. Sabemos que a moça não era bonita. Pois estava linda, á força de felicidade. A natureza parecia haver posto nella as suas mais finas ideias. Sorrindo egualmente, Rubião fallou-lhe como se fosse seu pae:

—Foi sua prima que me disse; recommendou-me segredo. Não direi nada antes do tempo. Mas que tem que diga á senhora? A senhora é boa e merece tudo. Não é preciso esconder os olhos; casar não é vergonha. Vamos lá; levante a cabeça e ria.

Maria Benedicta poz nelle os olhos radiantes.

—Isso! applaudiu Rubião. Que mal ha em confessar-se a um amigo? Deixe-me dizer-lhe a verdade; creio que a senhora será feliz, mas admitto que elle ainda será mais feliz. Não? Verá se não fallo verdade; elle mesmo lhe hade dizer o que sentir, e, se fôr sincero, a senhora reconhecerá que eu estou apenas prophetisando. Bem sei que não tem balança para medir os sentimentos; emfim, o que eu quero dizer é que a senhora é uma linda e boa creatura... Vá, vá-se embora; se não, fico dizendo verdades, e a senhora está corando muito...

De facto, Maria Benedicta corava de gosto, ouvindo a linguagem de Rubião. Em casa, achára acquiescencia, nada mais. O proprio Carlos Maria não era assim terno; gostava della com circumspecção. Fallava-lhe da felicidade conjugal, como de uma taxa que ia receber do destino,—pagamento devido, integral e certo. Tambem não era preciso que lhe fallasse de outro modo, para que ella o adorasse sobre todas as cousas deste mundo. Rubião repetiu a despedida, e ficou a olhar para ella, como para uma filha. Viu-a ir assim, atravessar a sala, viva e satisfeita,—tão diversa do que a achára em outros tempos, e desapparecer por uma das portas. Não pode reter esta palavra:

—Linda e boa creatura!

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