Capítulo CLXXV
—Anda, vamos jantar, repetiu D. Fernanda.
Theophilo deu um golpe no joelho, com a mão aberta, e levantou-se, dizendo palavras soltas e raivosas, andando de um lado para outro, batendo o pé, ameaçando. D. Fernanda não pôde vencer a violencia daquelle novo accesso, esperou que fosse curto, e foi curto; Theophilo chegou-se a uma poltrona, sacudiu a cabeça e cahiu outra vez prostrado. D. Fernanda pegou de uma cadeira e sentou-se ao pé delle. Os olhos com que lhe fallou não tinham a doçura captiva e dependente de Maria Benedicta, para quem o marido era tudo debaixo do sol. Não era bem a esposa que fallava, mas uma creatura humana que via padecer outra.
—Tens razão, Theophilo; mas é preciso ser homem. És moço e forte, tens ainda futuro, e talvez grande futuro. Quem sabe se, entrando agora no ministerio, não perderias mais tarde? Entrarás em outro. Ás vezes, o que parece desgraça é felicidade.
Theophilo apertou-lhe a mão agradecido.
—É perfidia, é intriga, murmurava elle, olhando para ella; eu conheço toda essa canalha. Si eu contasse a você tudo, tudo... Mas para que? Prefiro esquecer... Não é por causa de uma miseravel pasta que estou aborrecido, continuou elle depois de alguns instantes. Pastas não valem nada. Quem sabe trabalhar e tem talento póde zombar das pastas, e mostrar que é superior a ellas. A maior parte dessa gente, Nanan, não me chega aos calcanhares. Disso estou certo e elles tambem. Sucia de intrigantes! Onde acharão mais sinceridade, mais fidelidade, mais ardor para a luta? Quem trabalhou mais na imprensa, no tempo do ostracismo? Desculpam-se; dizem que os gabinetes já vem organisados de S. Christovão... Ah! eu quizera fallar ao Imperador!
—Theophilo!
—Eu diria ao Imperador: «Senhor, Vossa Magestade não sabe o que é essa politica de corredores, esses arranjos de camarilha. Vossa Magestade quer que os melhores trabalhem nos seus conselhos, mas os mediocres é que se arranjam... O merecimento fica para o lado.» É o que lhe heide dizer um dia; póde ser até que amanhã...
Calou-se. Depois de longa pausa, ergueu-se e foi ao gabinete de trabalho, que ficava ao pé do quarto; a mulher acompanhou-o.
Era já escuro, accendeu o bico de gaz, e circulou pelo gabinete os olhos velados de melancholia. Havia alli quatro largas estantes cheias de livros, de relatorios, de orçamentos, de balanços do Thesouro. A secretária estava em ordem. Tres armarios altos, sem portas, guardavam os manuscriptos, notas, lembranças calculos, apontamentos, tudo empilhado e rotulado methodicamente;—creditos extraordinarios,—creditos supplementares,—creditos de guerra—creditos de marinha,—emprestimo de 1868,—estradas de ferro,—divida interna,—exercicio de 61—62,—de 62—63,—de 63—64, etc. Era alli que trabalhava de manhã e de noite, som mando, calculando, recolhendo os elementos dos seus discursos e pareceres porque era membro de tres commissões parlamentares, e trabalhava geralmente por si e pelos seis collegas; estes ouviam e assignavam. Um delles, quando os pareceres eram extensos, assignava-os sem ouvir.
—Homem, você é mestre e basta, dizia-lhe, dê cá a penna.
Tudo alli respirava attenção, cuidado, trabalho assiduo, meticuloso e util. Da parede, em ganchos, pendiam os jornaes da semana, que eram depois tirados, guardados e finalmente encadernados semestralmente, para consultas. Os discursos do deputado, impressos e brochados em-4° enfileiravam-se em uma estante. Nenhum quadro ou busto, adereço, nada para recrear, nada para admirar;—tudo secco, exacto, administrativo.
—De que vale tudo isto? perguntou Theophilo á mulher, após alguns instantes de contemplação triste. Horas cançadas, longas horas da noite até madrugada, ás vezes... Não se dirá que este gabinete é de homem vadio; aqui trabalha-se. Você é testemunha que eu trabalho. Tudo para que?
—Consola-te trabalhando, murmurou ella.
Elle, acerbo:
—Ruim consolação! Não, não, acabo com isto, passo a ignorar tudo. Olha, na camara, todos me consultam, até os ministros—porque sabem que eu applico-me deveras ás cousas da administração. Que premio? Vir para cá, em maio, applaudir os novos senhores?
—Pois não applaudas nada, disse-lhe mansamente a mulher. Queres fazer-me um obsequio? Vamos á Europa, em março ou abril, e voltemos d'aqui a um anno. Pede licença á camara, d'onde quer que estejamos,—de Varsovia, por exemplo; tenho muita vontade de ir a Varsovia, continuou sorrindo e fechando-lhe graciosamente a cara entre as mãos. Diga que sim; responda que é para eu escrever hoje mesmo para o Rio Grande, o vapor sae amanhã. Está dito; vamos a Varsovia?
—Não brinques, Nanan, que isto não é objecto de brincadeira.
—Falo seriamente. Já ha muito tempo que ando para propor a você uma viagem, a ver se descança desta papelada infernal. É demais, Theophilo! Você mal se pode arranjar depois para uma visita. Passeio, é raro. Quasi não conversa. Os nossos filhos mal veem seu pae, porque aqui não se entra quando você trabalha... É preciso descançar; peço-lhe um anno de repouso. Olhe que é serio. Vamos para a Europa em março.
—Não pode ser, balbuciou elle.
—Porque não?
Não podia ser. Era convidal-o a sahir da propria pelle. Politica valia tudo. Que tambem houvesse politica lá fora, sim; mas que tinha elle com ella? Theophilo não sabia nada do que ia por fora, excepto a nossa divida em Londres, e meia duzia de economistas. Comtudo, agradeceu á mulher a intenção da proposta:
—Tu és bôa.
E um sentimento vago de esperança restituia á voz do deputado a brandura que perdera naquella grande crise moral. Os papeis sopravam-lhe animo. Toda aquella massa de estudos apparecia-lhe como a terra adubada e semeada aos olhos do lavrador. Não tardaria a grelar; o trabalho teria a recompensa; um dia mais tarde ou mais cedo, o grelo brotaria e a arvore daria fructos. Era justamente o que a mulher havia dito por outras palavras directas e proprias; mas só agora é que elle via a possibilidade da colheita. Lembrou-se das explosões de colera, de indignação, de desespero, das queixas de ha pouco, ficou vexado. Quiz rir, e fel-o mal. Ao jantar e ao café entreteve-se com os filhos, que naquella noite recolheram-se mais tarde. Nuno, que já andava no collegio, onde ouvira falar da mudança de gabinete, disse ao pae que queria ser ministro.
Theophilo ficou serio.
—Meu filho, disse elle, escolhe outra cousa, menos ministro.
—Diz que é bonito, papae; diz que anda de carro com soldado atraz.
—Pois eu te dou um carro.
—Papae já foi ministro?
Theophilo tentou sorrir e olhou para a mulher, que aproveitou a occasião para mandar deitar os filhos.
—Já, já fui ministro, respondeu o pae beijando a testa ao Nuno; mas não quero mais, é muito feio, dá trabalho. Tu has de ser capellão.
—Que é capellão?
—Capellão é cama, respondeu D. Fernanda; vae dormir, Nuno.