Universo da obra
Universo da obra
Quando Isadora entrou na casa da avó, o relógio da sala estava coberto com um pano de prato.
Ela parou diante do móvel com a mala ainda presa à mão. O tecido tinha cajus bordados nas pontas e uma mancha redonda de café perto da bainha. Celeste usava aquele pano para proteger o bolo de macaxeira que deixava esfriando sobre a mesa. Isadora reconheceu primeiro a mancha, depois os pontos largos do bordado e, por último, o volume dos ponteiros sob o algodão.
— Foi dona Dira que cobriu — disse Lourdes, atrás dela. — Falou que relógio não deve olhar defunto.
Isadora soltou a alça da mala. Os dedos demoraram a abrir.
— E desde quando minha avó obedecia a dona Dira?
— Desde antes de tu nasceres. Só não fazia na frente dos outros.
Lourdes a abraçou sem pedir licença. Cheirava a chuva, alfazema e ao café que vinha sendo requentado desde a madrugada. Isadora encostou o rosto no cabelo úmido da vizinha e deixou que ela apertasse suas costas. Não chorou. Tinha passado o voo inteiro esperando o momento em que veria o caixão e perderia o controle que mantivera no aeroporto, no táxi, na calçada. O momento chegou sem trazer nada além de uma pressão seca atrás dos olhos.
A sala parecia menor. Haviam retirado a mesa de jantar e encostado duas poltronas na parede. Cadeiras de plástico formavam linhas irregulares diante do caixão. Coroas de flores ocupavam o lugar onde Celeste guardava um rádio, três santos e uma caixa com contas antigas. Um ventilador girava no canto e empurrava ar quente sobre as pessoas. A cada volta, as fitas das coroas tremiam.
Do lado de fora, a chuva batia nas telhas, nas folhas do quintal e no toldo improvisado sobre a porta. A água descia pela rua em lâminas rasas. Isadora havia observado a sarjeta antes de entrar. O escoamento estava livre, a boca de lobo não parecia obstruída e a água ainda não alcançava o meio-fio. Fez as verificações sem decidir fazê-las, como sempre fazia quando chovia numa cidade.
Celeste estava no centro da sala.
O caixão tinha madeira clara, ferragens douradas e um revestimento branco acolchoado. A avó usava um vestido azul-escuro que Isadora nunca vira. As mãos estavam unidas sobre o peito, com um terço entre os dedos. Alguém havia passado um batom discreto em sua boca. A cor escondia o tom arroxeado, sem devolver a firmeza com que Celeste costumava apertar os lábios antes de discordar.
Isadora se aproximou devagar. Tocou a borda do caixão e sentiu a madeira fria.
— Desculpa — falou.
Era a palavra que lhe restava desde a ligação de Lourdes. Desculpa por não atender no domingo. Desculpa por adiar a viagem em janeiro. Desculpa por acreditar que uma mulher de setenta e nove anos, com falta de ar e uma lista crescente de remédios, continuaria esperando porque sempre esperara.
O rosto de Celeste recusava a leitura fácil da raiva ou da paz. Ela estava morta, e Isadora se irritou com a necessidade de atribuir uma última mensagem à posição da boca ou ao peso das pálpebras.
Tocou a mão da avó. A pele tinha a frieza dura do metal deixado sob ar-condicionado. Entre as unhas havia uma matéria escura, quase preta. Isadora aproximou o rosto. Podia ser terra. Celeste cuidava de vasos até nos dias em que mal conseguia caminhar até o quintal.
Sob a unha do indicador, porém, um grão dourado refletiu a luz.
— Arrumaram ela onde? — perguntou.
Lourdes baixou a voz. — No hospital. Depois levaram para a funerária da Gentil. Chegou aqui às sete.
— Ela mexeu nos vasos ontem?
— Isadora.
— Estou perguntando.
— Tua avó passou os últimos dois dias na cama.
Isadora olhou outra vez para o grão. Tentou removê-lo com a unha, mas a matéria estava presa à pele. O agente funerário podia ter usado algum produto com brilho. A ferragem do caixão soltava um pó da mesma cor. Havia explicações suficientes para uma partícula.
Lourdes segurou seu braço. — Vai sentar um pouco. Tu chegou agora.
Isadora obedeceu porque as pessoas haviam começado a observá-la. Reconheceu alguns rostos depois de ouvir os nomes. Outros continuaram pertencendo a gente que a conhecia quando ela ainda usava uniforme escolar. Recebeu abraços, ouviu lembranças e agradeceu presenças que não convocara. Uma mulher contou que Celeste preparara uma mistura para as dores do marido. Um homem se lembrou de ter carregado caixas para ela no mercado. Duas antigas freguesas falaram da precisão com que a avó distinguia folhas parecidas apenas pelo cheiro.
Cada história ocupava anos aos quais Isadora não assistira.
Um rapaz que aparentava pouco mais de vinte anos esperou os outros se afastarem antes de entregar a Isadora uma sacola de papel. Dentro havia três frascos pequenos, todos vazios, presos uns aos outros por um barbante. Os rótulos tinham sido retirados com tamanho cuidado que o vidro conservava retângulos limpos no meio da poeira.
— Ela pediu que eu devolvesse quando terminasse — disse ele.
— Terminasse o quê?
O rapaz olhou para o caixão. — Meu pai dormiu uma semana inteira depois que minha mãe morreu. Dona Celeste levou um óleo lá em casa e disse para usar só uma gota. Quando o frasco esvaziasse, eu trazia de volta.
— São três frascos.
— Ele levou três anos para conseguir dormir sem o óleo.
Isadora retirou um deles da sacola. A tampa estava colada por uma crosta branca. Não havia cheiro de planta, álcool ou essência. O vidro parecia ter passado muito tempo exposto ao sol, exceto pelo retângulo deixado pelo rótulo. Ali também não restava cor.
— Sua mãe morreu de quê?
— Acidente de moto. Dona Celeste não prometeu trazer ninguém de volta, se é isso que a senhora está pensando.
Ele falou depressa, como alguém que já precisara defender a avó de Isadora diante de outras pessoas.
— Eu só estou tentando entender o que ela fazia.
— Ela dizia que fazia o que podia. Às vezes dizia que não podia coisa nenhuma.
O rapaz deixou a sacola sobre uma cadeira e foi embora antes do café seguinte. Isadora guardou os frascos no armário da sala, ao lado da caixa onde Celeste mantinha recibos. Encontrou ali um caderno de capa mole com nomes, números de telefone e pequenas marcas de tinta. Alguns registros tinham um círculo vermelho. Outros haviam sido riscados até perfurar o papel. Isadora folheou duas páginas e viu datas espaçadas por anos ao lado da mesma pessoa.
Uma senhora de vestido verde percebeu o que ela segurava.
— Isso era da banca — falou. — Tua avó marcava encomenda aí.
— O que significam os círculos?
— Quando a pessoa voltava.
— E os nomes riscados?
A mulher se inclinou para enxergar melhor. O olhar parou numa linha próxima ao fim da página. Ela pressionou o dedo sobre o próprio pulso, como se conferisse uma pulsação, e retirou a mão.
— Essa letra está pequena demais para mim.
Isadora virou o caderno para si. O nome continuava legível. Perguntou se a mulher conhecia alguém daquela página. A senhora respondeu que precisava ajudar na cozinha e se afastou sem levar o copo de café.
O gesto permaneceu mais nítido que a recusa. Isadora colocou o caderno junto aos frascos e fotografou a disposição antes de fechar a porta do armário. O hábito de registrar antes de mover qualquer coisa vinha das vistorias em campo: uma tampa deslocada, uma marca acima do rodapé, a direção de resíduos depois de uma enxurrada. A casa de Celeste oferecia indícios de outra espécie, embora ainda obedecessem ao peso, ao desgaste e à passagem do tempo.
Uma menina entrou da chuva com a mãe e correu até a cadeira mais próxima do caixão. Trazia no punho uma pulseira azul, larga demais para seu braço. A mãe a chamou de volta, secou seus cabelos e pediu que entregasse a Celeste o que tinham trazido. A menina soltou a pulseira e a colocou entre as mãos da morta, ao lado do terço.
— Isso precisa ser enterrado? — perguntou Isadora.
A mãe da menina baixou a voz. — Era para sua avó consertar.
— O fecho quebrou?
— A cor saiu.
Isadora examinou a pulseira. Sob a luz da sala, o tecido parecia cinzento. A menina insistia que era azul e apontava uma fotografia no telefone da mãe. Na imagem, a pulseira tinha uma cor forte, próxima do anil. O desenho trançado, o fecho e uma pequena mancha perto da borda coincidiam.
— Ficou assim depois de lavar?
— Ficou assim depois que meu irmão voltou — disse a mãe.
Antes que Isadora perguntasse de onde ele voltara, Lourdes chamou as duas para a cozinha. A pulseira permaneceu sobre o vestido escuro de Celeste. Por alguns segundos, junto à mão fria, um fio azul reapareceu no meio do tecido. Depois se apagou.
Isadora piscou e aproximou o rosto. A pulseira estava cinza. Tocou nela com a ponta do dedo, sentiu a trama úmida e levou a mão ao nariz. Havia sal, apesar de a menina ter chegado protegida da chuva.
Ela saiu de Belém aos dezenove, primeiro para estudar em Recife, depois para trabalhar em São Paulo. Durante algum tempo, telefonava à avó toda quarta-feira. As quartas passaram para domingos, os domingos se tornaram mensagens e as mensagens viraram fotografias enviadas sem explicação: uma cuia sobre a mesa, a chuva no quintal, o gato do vizinho dormindo no parapeito. Isadora respondia com corações e promessas de férias.
Às onze e vinte, um trovão fez as vidraças vibrarem. A energia caiu. O ventilador parou, e o calor da sala ganhou peso.
Alguém abriu mais a porta da frente. A chuva tornou-se uma parede cinzenta além do toldo. O cheiro das flores misturou-se ao da rua molhada e ao de peixe que subia com o vento da direção da baía.
Isadora se levantou para procurar velas. Conhecia o armário da cozinha, embora não o abrisse havia seis anos. Encontrou pratos de esmalte, potes sem tampa, uma pilha de sacolas e, no fundo, três velas amarradas com barbante. Ao puxá-las, derrubou uma caixa de fósforos e um maço de papéis dobrados.
Os papéis eram tabelas de maré.
Havia dezenas de folhas recortadas, algumas amareladas, outras impressas recentemente. Celeste anotara horários nas margens com caneta vermelha. Círculos envolviam certas luas e números. Em uma folha de quinze anos antes, a avó escrevera apenas uma palavra: Dora.
Isadora segurou o papel mais perto da janela.
Lourdes apareceu na porta da cozinha com um leque de propaganda.
— Achou?
Isadora mostrou as velas e manteve a tabela contra o corpo.
— Minha avó acompanhava maré?
— Tua avó acompanhava até mudança de vento que ninguém mais sentia.
— Para quê?
— Pergunta para as amigas dela.
— Que amigas?
Lourdes indicou a sala com o leque.
— As três que vieram cedo. Dona Dira, Nenzinha e Joana. Foram buscar uma coisa antes do enterro.
— Buscar o quê?
— Se tivessem me contado, eu dizia.
A resposta tinha a forma habitual das conversas com Celeste: uma informação escondida atrás de outra pessoa, um gesto ou um momento que ainda não chegara. Isadora guardou as tabelas no armário e levou as velas para a sala. Quando acendeu a primeira, a chama se inclinou em direção ao caixão, embora o vento entrasse pela porta oposta.
Ela acendeu as outras duas e colocou uma perto do relógio coberto. O pano de prato se moveu. Por um instante, Isadora pensou que os ponteiros giravam sob o tecido. Puxou uma ponta e descobriu o mostrador parado em duas horas e dezessete minutos.
— Acabou a pilha? — perguntou.
Lourdes franziu a testa. — Esse relógio não usa pilha. Tua avó dava corda toda noite.
— Que horas ela morreu?
A vizinha fechou o leque.
— Duas e dezessete.
Isadora tornou a cobrir o relógio. Um pano sobre um mecanismo parado não constituía mistério. Celeste morrera, Lourdes olhara as horas e alguém interrompera o relógio por costume. A ordem dos fatos podia ser simples, mesmo quando ninguém a apresentava inteira.
A energia voltou pouco depois do meio-dia. O ventilador retomou o giro com um estalo. As pessoas comeram pão, beberam café e se revezaram nas cadeiras. A funerária telefonou duas vezes. O sepultamento estava marcado para as quatro, e o carro chegaria às três e vinte.
Às duas, Isadora viu água sob o caixão.
Era uma faixa estreita, escura, acompanhando a emenda entre duas tábuas. Ela colocou o copo de café no chão e se abaixou. A água não vinha da porta nem da parede. Formava um retângulo quase exato sob os quatro pés do suporte.
Passou dois dedos pela superfície. Levou-os ao nariz antes que Lourdes pudesse impedi-la.
— É salgada — disse.
— Tu provou água do chão?
— Senti o cheiro.
Isadora verificou o teto. Não havia goteira. A parede mais próxima estava seca. Pediu um pano, enxugou a faixa e pressionou a tábua. A madeira cedeu menos de um milímetro, sem expulsar água pela fresta.
— Tem tubulação passando aqui?
— Por baixo da sala, só o cano antigo da cozinha — respondeu Lourdes. — E foi fechado quando tua avó reformou.
— Fechado como?
— Fechado, Isadora. Obra. Cimento. Essas coisas que tu entende.
Um senhor se levantou para ajudar. Isadora pediu que ninguém movesse o caixão. Se houvesse um ponto frágil no assoalho, concentrar peso num dos lados podia romper a tábua. Procurou trincas, abaulamento e mudança de cor. O piso permanecia firme.
Quando voltou com outro pano, a água reaparecera.
Desta vez, havia fragmentos de folhas sobre ela, verdes e escuros, com bordas grossas. Isadora recolheu um deles. Tinha cheiro de lodo e sal.
— Isso veio de fora — disse.
Lourdes olhou a rua. A chuva diminuíra, e a água ainda corria abaixo do meio-fio.
— Então entrou sem passar pela porta.
As pessoas mais próximas começaram a se afastar. Um homem fez o sinal da cruz. A mulher que falara das dores do marido pediu que cobrissem o caixão. O agente funerário, chamado às pressas, chegou com sapatos molhados e examinou o suporte. Disse que o vazamento pertencia à casa. Isadora respondeu que umidade da casa não depositava vegetação estuarina no centro de uma sala.
— A senhora quer adiar o sepultamento? — ele perguntou.
— Quero saber se há risco de o piso ceder.
— Posso transferir o corpo para o carro agora.
Isadora olhou para Celeste. O grão dourado permanecia sob a unha. Havia outro perto da cutícula do polegar.
— Ainda não.
Ela trouxe uma chave de fenda da área de serviço e retirou dois parafusos de uma grelha antiga no corredor. Um cheiro de poeira e madeira úmida saiu da abertura. Iluminou o espaço com o telefone. Viu o contrapiso, um cano desativado e teias intactas. Não havia corrente de água sob a sala.
Quando retornou, uma linha molhada escapava do caixão.
Começava na costura interna do revestimento branco, descia pela madeira e pingava sobre o assoalho. Isadora chamou o agente. Ele passou um lenço pela borda e cheirou.
— Devem ter deixado gelo dentro — disse Lourdes.
O homem negou. — A preparação não usa gelo.
— Então vê de onde vem — respondeu Isadora.
Ele hesitou diante das pessoas, calçou luvas e afastou alguns centímetros do tecido. O revestimento estava seco na parte superior. Pressionou a costura, e uma gota escura surgiu entre os pontos.
— Pode ser do material de conservação.
Isadora encostou o lenço molhado na ponta da língua. Sal. Antes que alguém a repreendesse, a costura se abriu sozinha por quatro dedos de comprimento.
Uma chave caiu no assoalho.
O som metálico atravessou a sala. Ninguém falou.
A chave era comprida, de haste preta e cabeça oval. Uma crosta dourada preenchia os entalhes. Preso a ela havia um fio encerado e um papel dobrado tantas vezes que parecia uma tira.
O agente funerário deu um passo para trás.
— Isso não foi colocado pela nossa equipe.
Isadora recolheu a chave. Estava morna.
Abriu o papel com cuidado. A tinta de Celeste ocupava duas linhas:
Maré cheia. Duas e dezessete.
Leva teu nome.
Isadora leu novamente. A palavra nome tinha sido reforçada três vezes, até quase rasgar o papel.
— O que está escrito? — perguntou Lourdes.
Ela entregou o bilhete. A vizinha leu, apertou os lábios e devolveu sem comentar.
— Você sabia disso?
— Sabia que tua avó deixou instruções.
— Para quem?
— Para as três.
— E onde elas estão?
Lourdes olhou além da porta. A chuva havia parado. Sob o toldo, três mulheres permaneciam lado a lado, cada uma com um paneiro coberto por pano escuro. Isadora não as vira chegar.
A mais velha ergueu o rosto. Tinha a pele marcada pelo sol e uma cicatriz curta ao lado da boca.
— A cheia já sabe que Celeste morreu — disse.
Isadora guardou a chave na palma.
— A senhora é dona Dira?
— Sou quando a água está longe.
— E quando está perto?
Dira olhou para o retângulo molhado sob o caixão.
— Perto dela, a gente escolhe palavra com cuidado.
Nenzinha, a mulher à direita, pousou o paneiro no chão. Alguma coisa se moveu sob o pano. Joana segurou o braço dela antes que o tecido fosse levantado.
— Ainda tem muita gente na casa — falou Joana.
— Que coisa vocês foram buscar? — perguntou Isadora.
Dira passou por ela e se aproximou de Celeste. Não tocou no corpo. Depositou sobre a madeira uma pequena concha branca, fechada com cera.
— Aquilo que tua avó empurrou por vinte e um anos.
O agente funerário consultou o telefone. O carro aguardava, e o cemitério não estenderia o horário. As mulheres se afastaram do caixão. Dira pediu que a concha fosse enterrada com Celeste. Isadora quis abri-la, mas Lourdes segurou sua mão.
— Uma coisa de cada vez — disse a vizinha.
O caixão foi fechado às três e vinte e oito. Quando os homens o ergueram, não havia água sob o suporte. O assoalho estava seco, sem mancha ou folha. Isadora passou o dedo pela emenda entre as tábuas e encontrou apenas poeira.
No cemitério, o céu clareou com violência. A luz refletia nas poças e obrigava as pessoas a apertar os olhos. Isadora acompanhou o caixão até a sepultura, segurando a chave dentro do bolso. Durante as últimas orações, percebeu um homem parado além do grupo, perto de uma mangueira. Reconheceu André pela maneira de inclinar a cabeça antes de reconhecer o rosto.
Ele estava mais magro. Usava camisa clara com as mangas dobradas e segurava um caderno contra o peito. Os olhos encontraram os de Isadora por um instante. André não avançou.
O padre terminou a oração, e as primeiras pás de terra caíram. Dira pediu espaço junto à sepultura. Abriu a mão sobre o caixão e deixou escorrer um punhado de areia clara misturada a fragmentos de concha. Nenzinha fez o mesmo. Joana manteve o punho fechado.
— A sua fica com você? — Isadora perguntou.
Joana olhou para a água acumulada no fundo de uma cova vizinha. — A minha já ficou tempo demais com outra pessoa.
Dira a conduziu para longe do reflexo. Quando chegaram à sombra de uma árvore, Joana abriu a mão. Uma concha semelhante à que fora enterrada com Celeste estava colada à pele por cera derretida. Havia um nome escrito nela, porém Joana fechou os dedos antes que Isadora lesse.
— Amanhã, antes da vazante acabar — disse Dira. — Se quiser resposta, procura a margem.
— Qual margem?
Nenzinha apontou com o queixo para André. — Ele sabe onde a água começa a guardar medida.
Isadora olhou de novo para a mangueira. André já caminhava para a saída, desviando das poças sem consultar o chão. Uma das páginas do caderno se soltou com o vento e virou sobre a capa. Mesmo à distância, ela distinguiu círculos vermelhos semelhantes aos do caderno de Celeste.
Quando o caixão desceu, ele já havia partido.
Isadora voltou à casa depois das seis. Lourdes insistiu para que ela dormisse em seu apartamento, do outro lado da rua. Isadora recusou. Precisava separar documentos, falar com o banco e verificar o assoalho antes de abandonar a casa fechada.
As cadeiras foram recolhidas. As coroas ficaram encostadas na parede, desprendendo pétalas sobre o piso. Isadora removeu o pano do relógio e deu corda ao mecanismo. Os ponteiros continuaram parados em duas e dezessete.
Colocou a chave sobre a mesa e abriu outra vez a tabela encontrada na cozinha. Na data daquele dia, Celeste circulara dois horários. O primeiro era 2h17. O segundo, 14h06, coincidindo com o momento aproximado em que a água surgira sob o caixão.
Na margem, havia uma terceira anotação:
Depois de mim, ela volta a dever.
Isadora sentou-se. Procurou o telefone para fotografar a página e percebeu que estava descalça. Não lembrava de ter tirado os sapatos.
Eles estavam junto à porta da frente, alinhados sobre o tapete.
Do corredor vinha o som de água tocando madeira.
Isadora pegou a lanterna e seguiu o ruído. O banheiro estava seco. A torneira da cozinha não pingava. A área de serviço continuava coberta de poeira ao redor do tanque. Quando retornou à sala, viu uma pegada molhada diante do lugar onde o caixão estivera.
Era pequena e estreita, do tamanho do pé que tivera aos treze anos.
Outra pegada surgia perto da primeira. Depois uma terceira.
Não apareciam de uma vez. A água preenchia o desenho do calcanhar, avançava pelo arco e alcançava os dedos, como se alguém invisível caminhasse devagar sobre o assoalho. As marcas seguiram até a mesa.
Pararam diante da chave.
O metal girou sozinho, uma volta curta sobre a madeira.
Isadora recuou. A lanterna tremeu em sua mão. Sob o piso, alguma coisa pesada passou de um lado ao outro da casa e raspou a barriga contra as tábuas.
Então uma voz de menina falou debaixo do assoalho:
— Eu ainda sei teu nome.
Ao retornar a Belém para o velório da avó, Isadora descobre que a cidade guarda mais do que lembranças, mistérios sob as águas. Entre ruelas encharcadas, marisqueiras que falam em enigmas e um ex-amor que nunca deixou de vigiar o rio, ela encontra a porta submersa que a infância tentou esquecer. Agora, cada passo em direção à verdade cobrará um preço e a dívida não é só dela. A cidade exige escolhas. A água não perdoa barganhas. E todo pacto feito em silêncio um dia volta à tona. “A Cidade Debaixo d’Água” é o primeiro volume da trilogia As Portas do Igapó, uma fantasia sombria que mistura lendas amazônicas, memórias familiares e segredos capazes de afogar até mesmo o coração mais resistente.
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