Universo da obra
Universo da obra
O porteiro ligou às sete e doze, quando Olívia terminava de alinhar três taças sobre a mesa da sala. As taças estavam limpas desde a noite anterior. Ela as havia retirado do armário porque Sônia insistira em fazer um brinde durante o almoço de domingo, e a ideia de procurar louça com a mãe dentro do apartamento lhe pareceu pior do que deixar tudo preparado dois dias antes.
— Dona Olívia, chegou uma entrega para a senhora. O rapaz foi embora antes de eu chamar.
Ela afastou uma das taças dois centímetros. A base deixara um círculo na madeira recém-lustrada.
— Tem identificação?
— Só seu nome e o número do apartamento. Está num envelope pardo.
Caio dormia havia pouco mais de uma hora. Voltara do plantão com uma mancha de café na manga, tomara banho e atravessara o quarto sem acender a luz. Antes de deitar, perguntara se o vinho do almoço já estava na geladeira. O primeiro aniversário do casamento ocuparia o fim de semana inteiro, com mensagens, fotografias e histórias que Sônia contava como se tivesse organizado também o encontro dos dois.
Olívia disse ao porteiro que buscaria a entrega. Guardou duas taças e deixou uma sobre a mesa. O elevador desceu vazio, refletindo-a em quatro painéis de aço: calça clara, camisa larga, cabelo preso sem cuidado. Ela soltou o cabelo antes que a porta se abrisse no térreo. O gesto veio pronto, antigo, ligado à certeza de que qualquer pessoa no saguão poderia conhecê-la de alguma reunião, entrevista ou evento da Vértice.
Ramiro levantou o envelope usando as pontas dos dedos.
— Achei melhor não passar por baixo da porta. Parece que tem alguma coisa dura aí dentro.
O papel estava seco apesar da chuva que começara antes do amanhecer. O nome fora escrito com caneta preta em letras de forma. Sem selo, etiqueta ou marca de transportadora. No verso, a aba permanecia fechada por uma faixa estreita de fita transparente.
— As câmeras pegaram quem trouxe?
— Boné, máscara e capa. Deixou no balcão, falou que era documento e saiu. Posso separar a gravação.
— Separe. Não encaminhe para ninguém ainda.
Ramiro assentiu. Conhecia o tom de Olívia das vezes em que a imprensa aparecera no prédio atrás de algum cliente. Ela agradeceu, segurou o envelope contra o corpo e voltou ao elevador. Na subida, percebeu um relevo retangular sob o papel, pequeno demais para um telefone, grande demais para uma moeda.
Colocou a entrega na bancada da cozinha. Lavou as mãos, procurou uma tesoura e cortou a borda superior sem romper a fita. O conteúdo deslizou sobre a pedra: uma fotografia, um cartão magnético dentro de uma capa de papel e uma folha branca dobrada ao meio.
A fotografia caiu virada para cima.
O pátio do Hotel Mirante do Sal ocupava quase toda a imagem. A luz da madrugada tornava azul a pedra clara. No alto, duas varandas projetavam sombras compridas; embaixo, junto à porta de serviço, uma mulher estava deitada de lado. O vestido escuro subira até os joelhos. Um dos pés permanecia descalço. Havia sangue no cabelo, na nuca e na junta das pedras.
Olívia apoiou as duas mãos na bancada. A pressão fez o anel tocar a pedra com um ruído seco.
Ela conhecia aquela posição. Conhecia a dobra do braço esquerdo sob o tronco, o sapato caído perto do ralo e a faixa pálida do uniforme na cintura. Vira tudo de cima, depois ao lado de Caio, depois através do vidro da porta que Augusto fechara diante deles.
Na fotografia, o braço direito de Rebeca apontava para a entrada de serviço. Os dedos estavam abertos.
Olívia lembrava-se daquela mão junto ao corpo.
Virou a imagem. No verso, alguém escrevera apenas um horário: 02h47.
O relógio do forno marcava sete e dezessete. A chuva engrossou contra a janela da lavanderia e trouxe de volta a água batendo nas folhas largas do jardim do hotel. Olívia fechou os olhos. Viu o joelho de Caio tocando a pedra, o cabelo molhado sobre a testa dele e os dedos comprimidos no pescoço de Rebeca. Ouviu uma respiração curta, seguida pela voz de Augusto perto demais de seu ouvido.
Abriu os olhos quando o piso rangeu no corredor.
Caio surgiu com a camiseta que usava para dormir e o cabelo ainda úmido nas pontas. Tinha marcas do travesseiro no rosto. Parou antes de entrar na cozinha.
— O que aconteceu?
Olívia cobriu a fotografia com a folha dobrada.
— Chegou uma entrega.
— De quem?
Ela retirou a mão. Caio olhou a imagem durante tempo suficiente para que o motor da geladeira ligasse e desligasse. Depois puxou uma cadeira e sentou. Seu rosto perdeu a lassidão do plantão. Ele aproximou a fotografia sem tocá-la, inclinou a cabeça e examinou as sombras.
— Quando deixaram isso?
— Agora. Ramiro está separando a gravação.
— Quem mais viu?
— Só ele. A fotografia estava dentro do envelope.
Caio ergueu os olhos.
— Ele abriu?
— Claro que não.
A resposta saiu mais ríspida do que Olívia pretendia. Puxou a cadeira em frente e se sentou. Entre os dois, Rebeca continuava sobre a pedra, o braço estendido para uma porta que na lembrança de Olívia já estava fechada.
Caio virou a fotografia.
— Esse horário pode ter sido escrito ontem.
— A mão dela mudou de posição.
— A imagem pode ter sido alterada.
— Você acredita nisso?
Ele levou a fotografia até a luz da janela. Era uma ampliação granulada, provavelmente extraída de vídeo. Na borda inferior, quase apagada pelo corte, havia uma sequência de números brancos. Caio procurou os óculos no bolso da camiseta e pareceu surpreso ao encontrar a mão vazia.
— Onde está seu telefone? — perguntou Olívia.
— No quarto.
— Pegue. Quero ampliar essa borda.
— Primeiro precisamos saber o que mais veio.
Olívia abriu a folha dobrada. O papel não tinha timbre. Uma frase fora impressa no centro: Qual dos dois vai contar primeiro?
Caio leu sem tirar a fotografia da luz.
— Isto é chantagem.
— Não pediram nada.
— Ainda.
O cartão magnético permanecia dentro da pequena capa de papel. Olívia o retirou. Era cinza, sem logotipo, riscado nas extremidades pelo uso. Na capa, um número fora carimbado em azul: 306.
Caio enfim tocou a fotografia. Colocou-a na bancada e pegou o cartão.
— De onde veio isso?
— Do mesmo envelope.
— Eu estou vendo. Quero saber quem guardou esse cartão durante um ano.
— A pergunta está na folha.
Ele soltou o cartão. O plástico girou sobre a bancada antes de parar junto ao anel de Olívia.
No hotel, o quarto 306 ficava à esquerda da suíte. Uma placa de latão presa à maçaneta informava que o espaço passava por manutenção. Durante os quatro dias anteriores à queda, Olívia ouvira passos atrás daquela parede. Numa madrugada, acordara com o som de uma gaveta sendo fechada. Caio atribuía os ruídos à tubulação do casarão e ao corredor de serviço que passava entre as alas.
Depois da morte, Augusto dissera à polícia que o 306 permanecera vazio durante todo o mês.
Caio foi buscar o telefone. Olívia fotografou a frente e o verso do envelope, a fita, a folha e o cartão. Usou o tablet da cozinha para abrir as imagens numa tela maior. Na ampliação da fotografia, os números da borda formaram uma linha incompleta: C04 02:47:13. A letra e os dois primeiros algarismos ocupavam uma área mais escura, preservada por acaso no corte.
Caio voltou usando os óculos. Ficou atrás dela, com uma mão apoiada no encosto da cadeira. Olívia sentiu o cheiro do sabonete do hospital, o mesmo que ele trazia para casa desde a residência médica.
— Câmera quatro — disse ela.
— Ou alguém escreveu isso sobre a imagem.
Olívia aumentou o braço de Rebeca. Os contornos se desfizeram em quadrados. Ainda assim, a palma estava voltada para baixo e os dedos pressionavam a pedra. Uma mancha clara surgia diante de sua boca.
— Ela se moveu — falou Olívia.
Caio afastou a cadeira e abriu a geladeira. Tirou uma garrafa de água, encheu um copo e bebeu de pé. Deixou parte da água escorrer pelo queixo. A falta de precisão daquele gesto atingiu Olívia com mais força que qualquer resposta.
— Você verificou às duas e quarenta e um — continuou. — Lembra do relógio no corredor? Eu olhei quando você se ajoelhou.
— Eu lembro.
— A fotografia é de seis minutos depois.
— Se o horário estiver certo.
— A chamada foi feita às duas e cinquenta e sete.
Caio pousou o copo. A água tremeu até alcançar a borda.
— Eu sei a hora da chamada.
— Então havia dez minutos depois desta imagem.
Ele retirou os óculos e apertou a região entre os olhos.
— Olívia, quem enviou isso conhece o inquérito, conhece o hotel e sabe onde moramos. Qualquer conversa nossa pode chegar a essa pessoa.
— Nossa conversa já chegou a alguém naquela noite.
— Você quer ligar para a polícia agora?
Ela observou a folha impressa. A bancada larga reduzia a pergunta a uma linha no centro do papel. A polícia significava entregar o envelope, explicar o medo e permitir que um investigador retomasse horários que o hotel organizara numa sequência limpa. Significava também admitir que a versão prestada por eles começava depois do momento mostrado na fotografia.
— Quero saber de onde a imagem foi tirada — respondeu.
Caio recolheu o copo e o colocou na pia.
— A câmera quatro ficava no pátio. O relatório menciona duas câmeras externas.
— As duas estavam desligadas durante a tempestade.
— Era o que constava.
— Esta câmera estava ligada.
Olívia pegou o telefone e procurou o número do Mirante do Sal. Não ligava para o hotel desde que Augusto telefonara, cinco semanas depois do enterro, para informar que o inquérito fora encerrado como acidente. Caio tentou segurar sua mão antes que ela tocasse o botão.
— O que você vai perguntar?
— Se o quarto 306 está disponível no fim de semana.
— Eles guardam nosso número.
— Vou ligar pelo escritório.
Caio olhou para o relógio. Tinha outro plantão às treze. Olívia começaria uma reunião em quarenta minutos. Na parede da cozinha, o calendário exibia o almoço de aniversário cercado por um traço vermelho que Sônia desenhara na última visita.
— Cancele sua manhã — pediu ele.
— Tenho uma diretoria esperando uma resposta sobre um vazamento de dados.
— Isto também é um vazamento.
— Por isso mesmo sei o que fazer nas próximas duas horas.
Ela transferiu as imagens para uma pasta protegida, desligou a sincronização automática e guardou os originais numa embalagem plástica. Caio assistiu à sequência sem ajudar. Havia aprendido nos últimos meses a reconhecer os momentos em que Olívia transformava medo em procedimento. Antes da viagem, dizia admirar aquela capacidade. Depois do hotel, passou a vigiá-la.
— A gravação da portaria — falou ele. — Ramiro pode mandar para você?
— Vou buscar pessoalmente. Também quero a lista de entradas da madrugada.
— E o envelope?
— Fica aqui.
— Leve para o escritório.
— Minha equipe entra na minha sala.
— Então coloque no cofre.
Olívia reuniu a fotografia, a folha e o cartão. O cofre ficava no armário do corredor, atrás de caixas com documentos da compra do apartamento. Caio escolhera o modelo depois da lua de mel. Dissera que guardariam passaportes, apólices e joias. Desde então, o espaço abrigava uma cópia do depoimento, as passagens da viagem, duas matérias impressas sobre a morte de Rebeca e um recibo do hotel que Olívia nunca conseguiu jogar fora.
O depoimento tinha sete páginas. Olívia sabia onde cada pergunta começava porque relera o documento tantas vezes que as marcas do grampeador haviam rasgado a primeira folha. O delegado os ouvira ainda no hotel, numa sala usada para reuniões, enquanto funcionários retiravam do jardim as mesas molhadas pela tempestade. Augusto permanecera do lado de fora e entrara duas vezes para levar café.
Na versão assinada, Olívia e Caio dormiam quando ouviram um impacto. Caio abriu a varanda, viu uma pessoa caída no pátio e telefonou para a recepção. A instabilidade causada pela chuva explicava a ausência da chamada no aparelho da suíte. Um funcionário teria acionado o socorro assim que recebeu o aviso interno. Eles desceram somente depois que a equipe médica chegou.
Cada frase se apoiava numa informação fornecida por Augusto. A tempestade afetara as linhas. As câmeras externas estavam desligadas. Rebeca usara um cartão mestre para circular por áreas restritas e carregava comprimidos sem receita. O exame posterior identificara álcool em seu sangue. A polícia tratara a presença dela no terceiro andar como tentativa de entrar numa suíte vazia ou furtar algum hóspede.
Durante o depoimento, Caio olhara três vezes para Olívia antes de confirmar que jamais tocara o corpo. Ela contara os movimentos porque precisava ter certeza de que ambos repetiriam a mesma resposta.
Quatro dias depois, uma matéria local publicou o nome completo de Rebeca, sua idade e uma fotografia retirada de uma rede social. A imagem mostrava uma mulher de cabelos soltos, sentada na areia com os braços ao redor dos joelhos. A legenda chamava a morte de acidente durante possível surto. Olívia imprimiu a página antes que o texto fosse atualizado e guardou a cópia sem contar a Caio.
A segunda matéria apareceu quando Malena contestou a versão do hotel. Dizia que a irmã não bebia durante o trabalho, não usava os comprimidos encontrados em seu bolso e tentara conversar sobre irregularidades na empresa. Augusto respondeu por meio de uma nota preparada pela própria Vértice. Olívia reconheceu o formato, a ordem dos parágrafos e a frase de encerramento usada pelo núcleo que atendia a Rede Ferraz. A nota lamentava a perda, prometia colaboração e citava a privacidade da família como motivo para evitar detalhes.
Ela poderia ter telefonado para a equipe naquela manhã. Poderia ter pedido os documentos que sustentavam a resposta. Em vez disso, imprimiu também a contestação de Malena e colocou as duas páginas no cofre.
Caio encontrara os recortes meses depois. Discutiram até o amanhecer. Ele queria destruí-los; Olívia argumentou que uma cópia doméstica jamais os comprometeria mais do que o depoimento. Nenhum dos dois pronunciou a razão verdadeira. Jogar as páginas fora exigiria aceitar que guardavam provas apenas quando pretendiam usá-las. Mantê-las permitia chamar de cautela aquilo que ainda era medo.
Quando abriu o armário, sentiu Caio atrás dela.
— Você ainda tem as matérias? — perguntou ele.
— Estão no fundo.
— Com o quê mais?
— Você sabe.
Ele se agachou e puxou uma das caixas. O recibo estava dentro de uma pasta azul, dobrado no ponto em que aparecia a cobrança de gelo entregue à suíte às duas e vinte e nove. Caio não recebera gelo algum. A despesa surgira na conta final, e Olívia só a notara quando já estavam em São Paulo.
— Isso precisa ir junto — disse ele.
— O recibo é nosso.
— Se alguém entrou no 306, pode ter lançado o pedido para justificar presença no corredor.
Olívia colocou a pasta no cofre. Caio segurou a porta antes que ela fechasse.
— Tem mais alguma coisa que você guardou sem me contar?
A pergunta permaneceu entre os dois. Ela poderia responder com a lista completa: o áudio de Augusto, gravado por acaso no bolso de seu vestido; o botão escuro encontrado junto ao ralo da varanda; a lembrança da primeira frase de Rebeca, jamais incluída no depoimento. Em vez disso, afastou a mão dele e girou a chave.
— Tenho uma reunião às oito.
Caio ficou ajoelhado diante do armário aberto.
Olívia levou o notebook para a sala. A taça esquecida ainda estava sobre a mesa. Guardou-a junto das outras e limpou o círculo deixado na madeira. Antes de entrar na reunião, recebeu a gravação da portaria. O entregador aparecia durante onze segundos: capa preta, máscara, boné baixo. Ao sair, virou o rosto para a câmera do elevador.
Na lateral do boné havia um bordado dourado em forma de meia-lua, o emblema do Mirante do Sal.
Olívia pausou a imagem. Atrás do entregador, no espelho do saguão, uma mão sem luva apertava o botão externo do elevador. A pessoa permanecia fora do enquadramento principal.
Ela voltou três segundos. O envelope já estava sobre o balcão quando a segunda pessoa acionou o elevador.
Caio apareceu na entrada da sala, vestido para sair. Olívia girou o notebook em sua direção.
— Ele não veio sozinho.
Caio aproximou o rosto da tela. Depois olhou para o corredor onde ficava o cofre.
— O cartão é do quarto ao lado — disse.
— O quarto estava vazio.
— Foi o que disseram.
Olívia ampliou o reflexo até que a imagem se quebrasse. A mão junto ao elevador usava um anel largo no indicador. Ela conhecia aquele desenho. Vira a mesma faixa de metal quando Augusto fechou a porta do pátio e pediu que os dois voltassem para a suíte.
O telefone de Caio começou a tocar. Na tela, aparecia um número do Rio de Janeiro sem identificação.
Ele recusou a chamada.
O aparelho tocou outra vez.
— Atenda — disse Olívia.
Caio colocou no viva-voz.
Durante alguns segundos, ouviram apenas o som de água correndo e um objeto de metal batendo em vidro. Então uma mulher respirou perto do microfone.
— Qual dos dois vai contar primeiro? — perguntou.
A ligação terminou.
Eles tinham tudo para viver o “felizes para sempre”. Um casamento impecável, carreiras bem-sucedidas, amigos que os admiravam e a sensação de que, enfim, o futuro estava em ordem. Na lua de mel, entre risos e promessas, acreditaram estar vivendo os dias mais perfeitos de suas vidas. Até que naquela noite, algo aconteceu no silêncio do hotel. De volta à rotina, juraram enterrar aquela lembrança. Mas os acontecimentos, a culpa e o segredo vão guiando o relacionamento mágico para um caminho insuportável para ambos. Agora, o silêncio que os une é também o que os separa. Enquanto família, amigos e colegas buscam respostas, eles lutam para sustentar a fachada de perfeição, mesmo sabendo que sua omissão pode destruir não apenas o casamento, mas tudo que lhes importa. Alguns segredos não desaparecem, eles encontram sempre uma saída.
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