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A Capital

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A Capital

Capítulo 1 · A Capital

Capítulo I

A estação de Ovar, no caminho-de-ferro do Norte, estava muito silenciosa pelas seis horas, antes da chegada do comboio do Porto. A uma extremidade da plataforma, um rapaz magro, de olhos grandes e melancólicos, a face toda branca da frialdade fina de Outubro, com uma das mãos metida no bolso de um velho paletot cor de pinhão, a outra vergando contra o chão uma bengalinha envernizada, examinava o céu. De manhã chovera e a tarde ia caindo com uma suavidade muito pura. Laivos rosados esbatiam-se nas alturas como pinceladas de carmim muito diluído em água, e

longe, sobre o mar, para além da linha escura dos pinheirais, por trás de grossas nuvens tocadas ao centro de tons de sanguínea e orladas de ouro vivo, subiam quatro fortes raios de sol, divergentes e decorativos — que o rapaz magro comparava às flechas ricamente dispostas de um troféu luminoso. Na estação, havia apenas um passageiro esperando o comboio: era um mocetão do campo que se conservava imóvel, encostado à parede, com as mãos nos bolsos, os olhos duramente cravados no chão; ao lado, sentadas sobre uma arca nova de pinho, estavam duas mulheres, uma velha e uma rapariga grossa e sardenta, ambas muito desconsoladas, tendo aos pés, entre elas, um saco de chita e um pequeno farnel de onde saía o gargalo negro de uma garrafa. O chefe da estação, gordo, com o queixo amarrado num lenço de seda preta, o boné de galão sujo posto muito ao lado, apareceu à porta da sala das bagagens, de charuto nos dentes. O rapaz magro dirigiu-se timidamente para ele: — Creio que o comboio vem atrasado... O chefe afirmou silenciosamente com a cabeça, e depois de uma fumaça: — Vem sempre atrasado aos sábados... É a demora em Espinho. O rapaz esteve um momento raspando o chão com a bengalinha — e foi andando devagar ao longo da plataforma. Reparava agora no moço do campo: decerto ia a Lisboa, embarcar para o Brasil; e sensibilizado pela face tão desolada da velha, pensava que o Emigrante daria um motivo tocante de poesia social, quadras de cor rica — os vastos azuis do mar contemplados de uma amurada de paquete, as noites saudosas, longe, numa fazenda do Brasil, quando a Lua é muito clara e os engenhos estão calados... E aqui, no casebre da aldeia, os pais chorando à lareira e esperando o correio... Entrevia mesmo os primeiros versos: Ei-lo que deixa o lar, a mãe chorosa, Os verdes campos, o casal risonho... Procurava a rima, já interessado, quando um sujeito baixote e bochechudo, de boné

escocês, apareceu na grade da estação, com uma chapeleira de papelão azul, a galhofar com duas raparigas que o seguiam, oferecendo ovos-moles ou mexilhões para ele levar para Lisboa. — A ti é que eu te levava, Mariquinhas; queres tu vir? — É já, Sr. Joãozinho... Vou buscar o Sr. Padre Mendes, que nos casa aqui mesmo. Mas o sujeito bochechudo avistou o rapaz magro, de paletot cor de pinhão, e a estação de Ovar, no caminho-de-ferro do Norte, estava muito silenciosa, pelas seis horas da tarde, antes da chegada do comboio do Porto. Exclamou: — Olá, sô Artur! Então também se vai até Lisboa? O Sr. Artur sorriu: — Quem dera! Não; vim apenas esperar meu padrinho que vai de passagem para lá. O outro puxou as calças para a cinta e disse, rindo: — Homessa! E vem o amigo de Oliveira de Azeméis aqui, para ver passar seu padrinho no comboio?... — Então? Para lhe apertar a mão, desejar-lhe boa viagem... — Diabo! — Disse o outro. — Já é ser bom afilhado!... Eu não o fazia nem por meu pai. Pousou a chapeleira, petiscou lume e tirando uma fumaça do cigarro, continuou com satisfação: — Pois eu vou-me até à capital!... Desenferrujar... Se quiser alguma coisa... — Que se divirta! — Fica por minha conta! Há-de encher-se este ventrezinho! E então que vamos ter um rico Inverno em Lisboa! Sassi em S. Carlos, cancanistas francesas no Casino... Naturalmente fornada nova de espanholas... Não lhe digo mais nada... Deu outro puxão às calças e foi colocar com prudência a chapeleira de papelão ao lado de um saco de tapete. Artur seguialhe o dorso grosso, curvado sobre a bagagem, os quadris de obeso sobre que estalava uma calça cor de avelã; e pensava com desconsolo, que era aquela criatura endinheirada que ia para Lisboa, o Joãozinho Mendes, de Ovar, a quem chamavam em Coimbra o Chouriço e era incapaz de compreender um livro ou mesmo um dito! E lembrava a noite em que o Taveira, no Carneiro, muito bêbedo, improvisava injúrias ricas ao Joãozinho Mendes:

Lá na eterna Salgadeira, Ensacando duma vez, Dentro da tripa da Asneira, Um naco gordo e roliço Do lombo da Estupidez, Fez-nos Deus este Chouriço! O Taveira, com todo o seu gênio, era um advogado pobre no fundo de Trás-os-Montes e o Chouriço, proprietário, ia em primeira classe ouvir Meyerbeer... Aquele bochechudo, em Lisboa, parecia-lhe semelhante a um lagarto de couve pousado sobre o mel de um cálice de madressilva; e esta comparação subtil, que o Chouriço nunca poderia ter inventado, consolouo durante um momento da diversidade amarga da fortuna... Mas um silvo penetrante de locomotiva cortou o ar calado e imediatamente o comboio apareceu. Deslizando sobre os rails, dardejando ao alto jactos direitos de fumo branco. — Pois eu, disse o Chouriço, aproximando-se com júbilo, enquanto o comboio parava, estendo-me agora ao comprido e levo a noite de uma soneca até Lisboa. Sei-a toda, hem? E amanhã a estas horas, na pândega! Vem pouca gente... Caramba, bonita pequena! Era uma senhora, com um vestido de xadrez, que se debruçara à portinhola de um vagão de primeira classe; tinha um livro fechado na mão e o seu chapéu pequenino, feito de penas, parecia o peito roliço de uma ave negra. Artur foi ao comprido do comboio, procurando o padrinho: não o encontrou. Quis interrogar o condutor que ao fundo verificava uma descarga de caixotes. Mas o homem não o atendeu, atarantado, de boné para a nuca, os olhos esgazeados: em volta dele, um guarda, o chefe da estação com as mãos atulhadas de papéis, o cocheiro do char-à-bancs da vila, vociferavam e bracejavam, tão aturdidos em torno dos quatro caixotes, como se os surpreendesse a acumulação inesperada de todas as mercadorias do Universo. Por trás da grade fechada da estação, as raparigas vozeavam também, oferecendo mexilhões e ovosmoles de Aveiro. Artur, desconsolado, voltou ainda a olhar pelas portinholas até à terceira

classe, onde soldados que conduziam um desertor beberricavam de uma garrafa. Aí, o rapaz do campo acomodava devagar, debaixo do assento, o seu saco de chita e o farnel, passou depois o lenço pela testa como para limpar o suor, e, muito pálido, com os beiços a tremer: — Adeus, mãe! — Disse. A velha abraçou-se-lhe desesperadamente ao pescoço: — Meu filho! Meu rico filho, que não te torno a ver! Oh! Meu filho, oh! Senhor, que não o torno a ver! — Adeus, mãe! Adeus, Joaquina! Tem de ser, tem de ser! Beijou violentamente a velha na face, apertou nos braços a rapariga, saltou para o vagão e ficou com a cabeça enterrada nos punhos, aos soluços. Artur comoveu-se. Pensou ainda na tristeza dos que emigram, nos pobres, nas existências trabalhosas em que o pão é um cuidado amargo. Quando viria à terra uma revolução de paz e de justiça dar a cada um campo próprio a lavrar, uma lareira farta na velhice? Veio andando devagar junto ao comboio. O Chouriço já se instalara numa primeira classe, de gabão pelos ombros, charuto nos dentes. — E então o padrinho? — Perguntou galhofando. — Não veio. O Chouriço esfregou as mãos, divertido: — É boa! É muito boa! E vir o amigo expressamente de Oliveira de Azeméis... — E depois de um momento: — A propósito, diga-me uma coisa, como vai o Teodósio? — Não o tenho visto. Está prá quinta. — E o que faz o amigo por Oliveira? — Pra lá estou. — Ainda se faz seu versinho, hem? Artur sorriu ambiguamente. O Chouriço tirava o relógio, impaciente. O guarda fechava as portinholas. As raparigas, com os tabuleiros à cabeça, recolhiam à

vila; havia agora um silêncio na plataforma, de onde tinha desaparecido o chefe e o condutor. Naquela estação sonolenta, o comboio parecia ter adormecido, sob a tarde serena; só uma rapariguita ia dizendo a espaços, num tom plangente e fanhoso: água! Água! E sem descontinuar, adiante, a máquina resfolgava baixo. — Então nós ficamos aqui toda a vida? — Exclamou uma voz irritada. Era um sujeito gordo, que vinha com a senhora de vestido de xadrez. Artur então reparou nela; e pareceu-lhe tão linda, que ficou com os olhos pasmados num enleio que o invadia, sentindo bater forte o coração: nunca vira aquela delicadeza fina de pele, nem uma doçura tão tenra da linha oval; os seus olhos negros de grandes pestanas, um pouco tristes, enterneciam. Estava ainda debruçada à portinhola com o livro amarelo na mão; era pequenina e delicada e o corpete justo do vestido desenhava um seiozinho que devia caber na cova da mão. Ela pareceu notar também aquele rapaz tão admirado; retirou-se devagar para dentro da carruagem, mas tornou logo a debruçar-se à portinhola, compondo ligeiramente o laço fofo da gravata de renda — e os olhos de ambos encontraram-se. — Boa pequena, hem? — Disse o Chouriço. — Eu estive para me meter na mesma carruagem e tinha divertimento para toda a noite. Mas embirrei com a cara do marido. Artur achou-o também odioso — com as suas bochechas balofas e brancas, o chapelinho de casimira sobre o cabelo encarapinhado, o beiço sensual de comilão e um enorme pince-nez, com a fita passada por trás da orelha. — Eu parece-me que o conheço de Lisboa, creio até que é Barão — disse o Chouriço. Mas o chefe da estação badalava a campainha e o comboio começou a rolar devagar com estalidos secos dos freios retesados. — Adeus, amigo, saúde! — Exclamou o Chouriço. — Até à vista! Os olhos da senhora de vestido de xadrez pousaram-se ainda um momento nos de Artur. Outras faces passaram diante dele, apoiadas aos vidros: os soldados e o desertor galhofavam de garrafa à boca e o rapaz do campo, com os olhos vermelhos como carvões, dizia adeus

agitando um grande lenço; a velha ia seguindo o vagão, a gemer, estendendo-lhe ainda desesperadamente as mãos duras e negras. Por fim o trem, com um silvo penetrante, desapareceu na curva, entre os pinheirais já escurecidos. Artur sentia-se triste. Toda a noite, assim, aquele comboio rolaria, passando as estações iluminadas, as aldeolas adormecidas, levando o Chouriço, feliz, estirado no seu gabão, o pobre emigrante banhado em lágrimas, o desertor para a enxovia, aquela linda mulher para o seu palacete. De madrugada chegariam a Lisboa: a Lisboa que lhe parecia mais desejável, pensando que era só lá que uma civilização superior produzia aquelas belezas delicadas de perfil patrício, como certas flores preciosas que só nascem em terrenos muito preparados! Quem seria ela? O gordo de pince-nez era, decerto, o marido; e sentia ali duas existências discordantes: ele pesado e material, ela de uma sentimentalidade subtil... Desejaria saber o seu nome e o seu passado, os seus gostos, o tom da sua voz e que poeta preferia. Feliz o que escrevera aquele volume que ia lendo e que a fazia cismar: devia ser talvez um romance de Daudet ou de Sandeau, uma obra delicada e nobre. Em que pensaria ela durante essa noite toda, com a cabecinha pálida apoiada ao encosto do vagão, enquanto, defronte, o marido muito prosaicamente ressonasse? Lembrar-se-ia da estação de Ovar!... Artur deu ainda um olhar aos rails que iam assim, continuamente, paralelos e luzidios, até Lisboa — e ia atravessar para o outro lado da estação onde o esperava o char-à-bancs de Oliveira de Azeméis, quando viu um sobrescrito caído na plataforma, no lugar sobre que ela se debruçara. Apanhou-o vivamente, leu: Exma. Sra. Baronesa de Pedralva Hotel Francfort Porto. Então imaginou logo que ela o deixara cair, para lhe dar com o seu nome a certeza da sua simpatia; e entreviu, num relance, uma correspondência romanesca trocada entre eles, mais tarde um encontro em Lisboa, ou em Sintra, e um grande amor à Rafael, todo cheio de glórias e martírios... — E estava tão perturbado, que o Manuel cocheiro teve de lhe perguntar

duas vezes «se o padrinhinho não aparecera». — Não veio. Vamos lá, vamos lá! Atirou-se para um canto do char-à-bancs. Sentia bem uma carta dentro do sobrescrito mas queria lê-la só no quarto em Oliveira, onde o mesmo ar estava repassado dos sonhos e desejos de amor. E enquanto o carro rolava surdamente na estrada já escura, Artur, olhando pela vidraça aberta, uma claridade terna de luar que aparecia por cima da linha negra dos pinheiros, recitava versos de Hugo, sufocado de uma melancolia deliciosa: Et j'étais devant toi plein de joie et de flamme Car tu me regardais avec toute ton âme... Artur tinha então vinte e três anos. Pertencia a uma família burguesa, originária de Lisboa, mas dispersada na província desde a guerra civil. Seu bisavô paterno, que ficara na tradição familiar como uma glória doméstica, pertencera, em Lisboa, ao grupo de poetas parasitas que se entusiasmavam platonicamente nos botequins por Mirabeau e Robespierre, faziam sonetos aos fidalgos em dias de anos, desejavam morrer pela liberdade e espancavam a ronda ao sair dos saraus, onde eram admitidos para recitar elegias às Malvinas. Já velho, começara a traduzir em verso as Ruínas, de Volney, e os seus manuscritos eram propriedade de uma das suas netas, que casara em Oliveira de Azeméis e levara para sua companhia as duas irmãs mais novas, Ricardina e Sabina. Seu avô, esse, fora, no Porto, tabelião correcto e obscuro. Seu pai, depois de ter, na primeira mocidade, publicado duas Meditações funerárias num seminário do Porto, casara com a Sra.ª D. Maria das Neves Alpedrim, senhora pálida e magra, que tocava harpa e fora comparada num folhetim do tempo a uma Virgem de Ossian; mais tarde estabelecera-se seriamente em Ovar, onde tinha obtido o lugar de escrivão de Direito. Foi lá que Artur nasceu, anos depois — e a mãe, encantada, dera-lhe este nome, em memória dos seus tempos de harpa e dos cavaleiros de xácara, cujos amores e proezas na Terra Santa tanto a tinham comovido. O pai, esse, homem excelente e terno que até aí se desolara com a esterilidade do seu

casamento, adorou logo a criança e com o seu respeito supersticioso pela magistratura, ainda Artur não fora baptizado, já o bom Manuel Corvelo decidira economizar com método, para mais tarde o levar a Coimbra e fazer dele um bacharel; mas, secretamente, esperava que o filho cultivasse as Belas-Letras, e a sua esperança era que o Arturzinho, um dia, reunisse em si as qualidades dos dois homens que ele mais admirava em Ovar — o delegado Pimenta, de argumentação tão capciosa, nutrido de legislação, um Pegas destinado a uma desembargadoria, e o advogado Silveira, de imagens floridas, célebre na comarca pelos seus folhetins poéticos no Campeão de Aveiro! Às vezes, quando o pequeno Artur rabujava muito — o pobre pai, alta noite, de chinelos e paletot, embalava-o nos braços pelo quarto, cantarolando-lhe, numa voz roufenha, o Gentil Pajem de El-Rei até o adormentar; e ficava, então, enlevado a olhar para aquele rostozinho amarelo de lombrigas, ainda com uma lagrimazinha nas pestanas, imaginando-o já na sua beca de desembargador, célebre como Lobão e autor de um livro querido como Amor e Melancolia! Ele, por esse tempo, coitado, estaria velho: não poderia trabalhar, mas aquele serzinho que, agora, a sonhar lhe mamava no dedo, seria então um filho ilustre e bom, que, pela posição na Magistratura, lhe faria a velhice farta e pela glória nas Letras lhe tornaria o nome clássico. Foi grande a sua alegria quando notou que nada calmava as raras perrices do Arturzinho, como folhear algum venerável in-fólio de antiga legislação; e sobretudo, mais tarde, quando viu que o divertimento querido do pequeno, não era rufar em tambores ou cavalgar vassouras, mas, aninhado nas saias da mãe, coser caderninhos de papel, que cobria de capas cor-de-rosa e de que acumulava colecções com a devoção de um velho bibliófilo. — Sinais de inteligência — dizia muito sério, o bom homem. Por isso, bem cedo, Artur começou a trabalhar o seu Tito Lívio e o seu Telémaco. Mas a mãe, que depois do parto ficara sempre adoentada, afligia-se do tamanho das lições, e se o rapaz, com sono, não fazia o tema, mandava ao outro dia secretamente um arrátel de chá ou de açúcar ao mestre João Grainha, para lhe acalmar a severidade. De Verão e de Inverno cobria-o de flanelas, e se o ouvia espirrar, fazia-o beber ao jantar copinhos de água quente;

nunca o deixava adormecer sem verificar se ele tinha aos pés a sua botija, à cabeceira a imagem de Nossa Senhora, e ao lado a campainha, a lamparina, a chazada, o açucareiro e um ladrilhozinho de marmelada. E o próprio pai o ia buscar à escola, para impedir que os outros pequenos o fizessem correr ou lhe dirigissem chufas. O rapaz, sob este regime, não se desenvolveu. Tinha a palidez, a graça nervosa de uma menina: uma porta que batia de repente fazia-o despedir um grito. A sua sensibilidade era como a corda muito afinada de uma rabeca: uma história triste, um não de recusa, punhamlhe logo nas pálpebras duas grossas lágrimas. A sua memória, que retinha longas poesias, fazia o espanto dos amigos da casa, e já quando ele tinha oito anos, era para o pai um grande orgulho ouvi-lo, nas noites de partida, entre o semicírculo enternecido das vizinhas, começar numa melopeia: É noite, o astro saudoso Rompe a custo o plúmbeo céu... — Deve ir longe — dizia num tom profundo o escrivão, acariciando compenetradamente os três pelos da calva. Mas o verdadeiro espectáculo era ouvi-lo recitar ternamente a fábula dos Dois Pombos: Deux pigeons s'aimaient de amour tendre... Já então passava os seus fins de tarde, depois da aula, encostado à janela do quintal, trazendo sempre algum volume da pequena livraria do papá, um tomo de Filinto Elísio ou os Mártires de Chateaubriand, ou, sobretudo, alguma novela da Biblioteca das Damas. Era de resto, como dizia o advogado Silveira, «uma gentilíssima criança». Tinha naturalmente as maneiras de um homenzinho, e a mãe babava-se toda quando o via, na sala, precipitar-se a recolher das mãos de uma senhora a xícara vazia, ou quando ele dava um shake-hands ao delegado Pimenta, com os pés muito juntos, todo curvado, como na Corte. Enfim, um dia, o pai, comovido, surpreendeu os seus primeiros versos, copiados a limpo,

numa bonita letra cursiva: Junto a um ribeirinho serpeante E eu, terno amante... Foi ao outro dia, no tribunal, com os olhos húmidos, mostrá-los ao advogado Silveira, a maior autoridade literária de Ovar. Silveira elogiou-os largamente — sobretudo o final, de uma cadência lírica tão rica que o surpreendeu: E eu celebrarei na minha frauta amena Teus olhos, ó morena... — Os versos estão todos certos — disse Silveira — e há duas imagens opulentas! Gentilíssimo rapaz! E tomou mesmo tanta afeição a Artur, que o presenteou com um Eurico, e propôs ao pai que nos dias feriados o deixasse ir para o seu escritório, onde lhe franquearia a sua livraria, «um verdadeiro banquete de inteligência». E assim, aos domingos, enquanto o Silveira à banca, de charuto nos dentes, ia entulhando de imagens floridas o seu folhetim semanal, Artur, a um canto, encolhido numa velha poltrona, devorava novelas e versos de Delille, de Garrett, de Volney e de Lamartine... Voltava sempre para casa exaltado. Fechava-se no quarto a trabalhar no seu Poema, de que já tinha quinze oitavas, e que se passava todo num jardim, entre ele, anjos e cavaleiros. Andava perdidamente namorado pela Joaninha das Viagens na Minha Terra, mas de um amor vasto, complexo, que a abrangia a ela, à casinha branca, ao rouxinol e a todo o vale de Santarém! Era então um rapazola quieto e triste, de olhos bonitos e cabelo corredio. O crepúsculo, o sino das Ave-Marias, o fado à guitarra, afogavam-no em melancolia. Pensava muito no amor e às vezes na morte. Tinha gostos delicados, um pudor ingênuo. A cozinheira, uma forte mocetona de Estarreja de olhos de azeviche, roçava-se constantemente por ele, tentada por aquela pele macia de pajem tenro, e uma noite que os pais tinham ido para a soirée dos Cunhas, e Artur, constipado, ficara só em casa, de cama — a Luísa entrou-lhe no quarto,

sentou-se-lhe ao lado, chamando-lhe a brincar «seu filhinho», e de repente, toda abrasada, colou-lhe os beiços ao pescoço. O rapaz repeliu-a, escarlate como uma Ofélia insultada e fechando os punhos de cólera: — Se tornas a ter desses atrevimentos, digo ao papá, que te corre pela porta fora! Era de temperamento linfático e calmo — e por esse tempo, tendo já esquecido Joaninha, amava idealmente a mais velha das sete irmãs Teles, senhora alta e vaporosa, sempre coberta de tules esvoaçantes, que ele celebrava misteriosamente sob o nome de Laura de Castela. O advogado Silveira aconselhara Manuel Corvelo, logo que Artur fez o seu belo exame de retórica, a que o mandasse estudar para Coimbra os últimos preparatórios de Geometria e Introdução: — «Assim acostuma-se a Coimbra e à vida acadêmica e quando entrar prá Universidade, já não vai como o recruta bisonho, mas bem como o soldado aguerrido» — tinha ele dito com uma das suas formosas e vagas imagens. E no Outubro seguinte, por uma fusca manhã de chuva que as lágrimas da mãe fizeram parecer a Artur ainda mais triste, foi o pai levá-lo a Coimbra, preciosamente. Com muita economia, instalou-o na casa das Barbosas, da Rua da Matemática, e deixou-o recomendado ao filho de um seu velho amigo, o Teodósio Margarido, valentão de grandes bigodes, terrível aos caloiros, grande matador de gatos, que usava uma moca enorme e frequentava o terceiro ano de Direito. Todo aquele primeiro ano em Coimbra foi triste, tomado pelo estudo da Geometria, de fórmulas positivas que lhe eram antipáticas, dominado pelo pavor incessante de troças e de graus. Ao toque da cabra, recolhia pontualmente aos seus compêndios, obedecendo àquela sineta melancólica como quem obedece a um ditame de moral; as únicas horas felizes dessa época passou-as extasiando-se com os luares do Penedo da Saudade, onde ia às vezes sob a proteção de Teodósio, armado da sua temerosa dava, ou, sobretudo, nas vésperas de feriado, no Trony, à sombra sempre de Teodósio, onde admirava os bilharistas famosos da Academia, fazendo sob a luz dura do gás efeitos de carambolas. Mas depois do seu exame, voltou a Ovar,

vaidoso da sua batina e de pertencer à Briosa, compenetrado da importância social da Academia, dos seus privilégios e do seu Hino, odiando já o futrica, tremendo diante do lente, sonhando futuros artigos na Ideia ou no Instituto e já preso a Coimbra por uma afeição sentimental, que abrangia a paisagem elegíaca do Mondego, o cavaco, a batina e a independência alegre da vida escolástica. Trazia além disso um drama quase concluído, o Conde de Além-Mar, cujo segundo ato, que julgava sublime, era uma festa à moda da Renascença florentina, passada num vago palácio junto ao Tejo, onde se bebia vinho de Siracusa, havia sicários mascarados e no rio, ao fundo, passavam gôndolas, em que o contralto das mulheres se casava ao gemido dos oboés. No ano seguinte, Teodósio, que se afeiçoara à natureza obediente de Artur e queria «ter o seu caloiro à mão», arranjou-lhe um quarto na casa em que vivia, na Couraça. Foi uma aventura, um entusiasmo para Artur, que conhecia de tradição e admirava de longe os companheiros de casa de Teodósio — rapazes extremamente literários, redactores ardentes do jornalzinho o Pensamento. Esta pequena Revista semanal fora originariamente fundada num alto espírito de fraternidade moça, para criar recursos ao Taveira, rapaz extremamente pobre e o grande lírico do grupo. Ultimamente era dirigida, porém, pelo Damião, o ilustre Damião, que, tendo levado um R, repetia alegremente o seu quarto ano; e apenas o Pensamento ganhara crédito naquela geração, tinham-se precipitado para ele, como espíritos sufocados pelo anonimato para um respiradouro de publicidade, não só todos os amigos de Damião, que se nutriam de Michelet e de Quinet, mas também aqueles que ainda admiravam Pelletan, e até o grupo de Cesário, que, num progresso revolucionário e científico, já devorava Proudhon, Comte, Littré, Stuart Mill e Spencer — sem contar os temperamentos puramente artistas, que tendo horror à abstracção filosófica e aos entusiasmos da Paixão, se retardavam na admiração de Hugo, de Musset, de Vigny e de Byron. A esta vaga associação de fanatismos, chamavam, em Coimbra, os Filósofos, ou também os Ateus. Eles mesmos se denominavam o Cenáculo. E ainda que não havia sessões regularmente organizadas, quase todas as noites se juntavam no largo quarto do Damião, na Couraça. E Artur sentiu os olhos humedecerem-se-lhe de entusiasmo quando pela primeira

vez, na fumarada dos cigarros, onde os três bicos do candeeiro de latão punham três luzinhas sedentárias, ouviu vozes fanáticas discutirem, em estilo de ode, a Arte, as Religiões, o Panteísmo, o Positivismo, a estupidez dos lentes, o Ser, o Ramayana, o Messianismo germânico, a Revolução de 89, Mozart e o Absoluto. Naquela «cavaqueira filosófica», só o forte Teodósio se conservava mudo, assombrado das ideias, como diante das portas augustas e inacessíveis de um santuário. Mas a sua presença atlética era querida de todo o Cenáculo: além de excelente rapaz, sempre com dez tostões no bolso para partilhar com um condiscípulo pobre, ele tinha uma admiração servil por todos aqueles «gênios». Ao lado de tais espíritos, exclusivamente ocupados da Ideia, ele punha a proteção formidável dos seus músculos e da sua moca. Uma noite que o Cenáculo discutia furiosamente Lutero e a Reforma, sentiram-se ao fundo da escada os gritos do filho da servente, espancado por futricas. Todos se ergueram para acudir. Então Teodósio trovejou, alçando a mão: Ninguém se mexa! Continue-se a bela discussão! Aqui na casa, para a bordoada, só eu! Desceu com a imensa moca e daí a pouco, na rua, era uma debandada aflita de futricas desbaratados. Desde então, tacitamente, entre os membros do Cenáculo, que se consideravam uma aristocracia da Inteligência, semideuses muito acima da obscura humanidade acadêmica, no cimo de um Olimpo — Teodósio, com os seu bigodes, os seus punhos que erguiam arrobas, e sobretudo a sua tremenda maça, foi o Hércules, o Alcides pagão, o subjugador dos rebeldes — e, ao lado dos Sacerdotes da Ideia, a personificação da Força. Mas isto não bastava a Teodósio e na sua dedicação pelos «gênios» com quem vivia, para partilhar mais diretamente dos seus interesses espirituais, servir utilmente o Cenáculo, colaborar no culto da Ideia, não podendo fornecer teorias e frases — encarregava-se pouco a pouco de ir comprando os livros. Filho de proprietários ricos, com uma mesada abundante, era ele que fornecia a Biblioteca do Cenáculo, e todas as semanas, seguindo as instruções de Damião ou de Cesário, aparecia trazendo em triunfo um volume de Michelet, de Renan, de Taine, ou de Heine, a que cortava as folhas reverentemente, dizendo com ar finório:

— Ora vamos a ver o que diz cá o patrão! E depois de ter, por um momento, esgazeado os olhos para o livro, concluía gravemente: — Já vejo que é obra curiosa e para leitura demorada. Hei de saboreá-la na cama. Abandonava o volume a algum do Cenáculo e subia para o quarto a estudar a sua lição de viola-francesa. Mas tinha assim o direito de ser um dos Filósofos. Contribuía também largamente para as despesas do Pensamento — o que o habilitava, se alguém lhe era antipático, a formular paralelamente estas duas ameaças medonhas: «o peso da sua moca e uma desanda no jornal». Mas o que o satisfazia mais, era poder pronunciar frases notáveis que recolhia no Cenáculo: assim, quando saía com os amigos a matar gatos à moca, nunca deixava de exclamar, mostrando o céu estrelado: — Isto, rapazes, não é lá qualquer coisa. É a lepra luminosa da face de Deus! Bela frase — que aprendera do Taveira. Foi deste modo que Artur se achou, por acaso, no meio que devia desenvolver as tendências do seu temperamento. Ao princípio, naturalmente, admirou sobretudo os indivíduos, as personalidades, a fraseologia nova, as excentricidades estranhas; tremeu de entusiasmo, vendo, numa noite de trovoada, na Feira, o próprio Damião tirar o relógio do bolso, um cebolão de prata, e numa atitude de Satã rebelde, dar cinco minutos a Deus para que o fulminasse, e, passados os cinco minutos num grande silêncio do Céu, atirar desdenhosamente o cebolão para a algibeira, dizendo com tédio: «está superabundantemente provado que não há nada lá no Céu», e acrescentar, olhando para as estrelas: «a não ser algum pó luminoso de Deuses mortos!» Extasiou-se diante do ilustre Fonseca, que, no seu horror pelas expressões vulgares, pedia um bife no Carneiro, exclamando: «Traga-me uma lasca do velho Ápis, preparado segundo as fórmulas do progresso!» Palpitou de simpatia com o humanitário Vilhena, ouvindo-o responder a quem lhe estranhara a tristeza: «Como querem vocês que o homem ria, quando a Polónia sofre?» Mas ninguém o impressionou como o grande Marçal, com a sua bela face clássica, a sua cabeleira, e a impassibilidade marmórea de um Deus da Ática. Teve a glória de o acompanhar uma noite que o Marçal ia ver a sua amante, esposa de um professor do liceu. Na rua estreita,

ao chegar debaixo da janela, onde se debruçava um vulto claro, o Marçal, soberbamente sereno, erguendo o rico metal de sua voz, perguntou para cima: — O veado já saiu? Do vulto alvo veio como um sopro subtil: — Foi agora mesmo para o Clube. E então o Marçal, desdenhoso da presença de Artur e de uma família que passava, no mesmo tom sonoro e cheio: Deita-me então a escada de Romeu, Que eu subo a ir beijar-te os peitos brancos. Estas audácias, estas palavras, pareciam a Artur prodigiosas, de uma raça de homens superiores aos mortais e ansiava por poder imitá-las. O que o exaltava, porém, acima de tudo, era o cavaco — aquele faiscante cavaco do Cenáculo, em que todas as noites se formavam, fumando cigarros, novas conceções do Universo, se decidia em quatro palavras de uma nova Ordem para a Humanidade, com uma pilhéria se aniquilava a glória de um herói, e em que argumentações temerárias iam abalar, no fundo dos Céus, os Deuses mais poderosos. Falavam de todas as mulheres com o esplendor do Cântico dos Cânticos; todo o sonho era bem-vindo — e a própria realidade do mundo tangível parecia esvaecer-se quando o Taveira, arrastando pelo quarto a capa esfarrapada, exclamava, atirando com um grande gesto lírico os braços para o Céu: A galope, a galope, oh, Fantasia! Plantemos uma tenda em cada estrela... Então, para igualar estes gênios, poder ter uma frase nestas discussões, Artur começou a devorar todos os livros de Teodósio, com uma sofreguidão confusa, indo de Petrarca à História da Revolução Francesa, de Stº Agostinho a Balzac, começando mesmo Hegel e precipitandose logo para as Orientais e para a legião dos Românticos. E assim, pouco a pouco, perdendo o

culto exclusivo pela personalidade do Cenáculo, elevou-se na admiração mais vaga de personagens da Arte ou da História, de épocas da Humanidade, de civilizações e de ideias. Entusiasmou-o a Meia-idade, as suas catedrais e os seus mosteiros, e o Reno gótico, com os seus castelos de Burgraves heróicos sobre píncaros de rochas; encantou— o Oriente e as suas cidades eriçadas de minaretes, onde pousam cegonhas — as caravanas no Deserto, os jardins dos serralhos onde suspira, ao murmúrio da água, a paixão muçulmana; depois, atraiu-o a Renascença italiana, os seus decâmerons galantes e as galas dos Papas; um livro de Arsène Houssaye deu-lhe por algum tempo a admiração exclusiva do século XVIII; depois, adorou a Boémia de Murger e de Gerard de Nerval... E tinha outros entusiasmos vagos por paisagens, heroísmos, teorias e atitudes — os rios sagrados da Índia, os corsários patriotas do Arquipélago grego, a regeneração das prostitutas, S. Bernardo em Clairvaux e Danton na Convenção. Torturava-o então o desejo permanente de reproduzir as imagens de que estes entusiasmos e as suas leituras lhe enchiam vagamente o cérebro: mas não sabia ainda que Arte empregaria. Às vezes os seus ideais eram tão indefinidos, que lhe parecia que só árias e melodias os poderiam exprimir; pensava então em estudar música e nenhum gênio humano lhe parecia superior a Mozart ou a Beethoven, que nunca ouvira; ambicionava compor sinfonias sobre assuntos que amava e para os quais a poesia lhe parecia insuficiente, como a Morte no Calvário ou o cavaleiro Sir Galaad procurando pela terra e pelos mares o vaso de S. Graal. Outras vezes, era a cor, a beleza das linhas que o interessava: desejava então ser pintor, lançar na tela o rico esplendor dos estofos, as decorações luminosas de um céu do Oriente, cenas de Shakespeare ou episódios grandiosos da História e nenhum destino humano lhe parecia igual ao de um Miguel Ângelo, compondo o Julgamento Final, vivendo de pão e de água e, nos intervalos de repouso, escrevendo um soneto imortal. Já os seus compêndios de Direito Natural e Romano lhe pareciam odiosos e passava as noites a escrever versos. Estes versos só os mostrava a um companheiro que vivia no quarto vizinho, mas que não pertencia ao Cenáculo. Este moço, ainda parente do Taveira e como ele de Bragança, sendo extremamente gordo e falando com frequência do Pote das Almas, como da maior impressão que trouxera de Lisboa, era conhecido no Cenáculo pelo nome de Pote-

sem-Alma. Amava loucamente uma prima, que o abandonara por um morgado dos arredores de Bragança, e desde então, a ocupação do Pote-sem-Alma, era decorar pontualmente a sua sebenta e chorar aquele amor perdido. Era porém sempre no calor da cama que aquela saudade o pungia; e todas as noites, regularmente, a voz de baixo do Pote atroava a casa, bramando de entre os lençóis: — Ai, que rico bocado de pequena! Ai, quem ma dera aqui! Este berro lúbrico e doloroso escandalizava o gosto delicado dos artistas do Cenáculo. E um dia, ao jantar, Damião, muito severo, voltou-se para o Pote-sem-Alma: — Pote, você todas as noites lamenta a perda da sua prima Felícia, de um modo que nos é insuportável. Você, como homem e como pote, é livre, e não podemos proibir-lhe o queixume. Mas temos direito ao menos a que dê à sua saudade uma expressão literária e nobre. E já que Deus, para usar este termo obsoleto e convencional, lhe deu em gordura o que lhe recusou em ideia, aqui o amigo Taveira encarrega-se de lhe formular, em duas ou três estrofes correctas, um grito de desespero decente. E o Pote há-de ter a bondade de usar, de ora em diante, esta fórmula, sempre que o dilacere a dor dessa paixão infeliz. A «fórmula», composta por Taveira, era uma imitação de algumas estrofes de Loksley Hall, a patética elegia de Tennyson, em que o poeta, revisitando os prados e os areais, onde outrora, com sua prima Amy, dera os passeios sentimentais do amor harmônico, solta o grito tão célebre na tradição romântica: Oh, my cousin shallow hearted! Oh my Amy, mine no more Oh, the dreary, dreary moorland! Oh! The barren, barren shore! E a composição de Taveira, depois de falar com amargura dos prados e areais de Bragança, onde Felícia e Pote se tinham amado, na humidade da relva junto às espumas do mar, terminava com a mesma apóstrofe dilacerante: Oh! Minha prima Felícia! Nem minha, nem nunca mais! Desertos, desertos prados! Tristes, tristes areais!

Agora todas as noites, o Pote-sem-Alma, depois de ter arranjado a cama, com o gabão aos pés, a capa por cima, deitava-se, entalava a roupa nos ombros, dava um ah! Regalado de gozo e com o nariz fora dos lençóis, soltando toda a voz, bramava no silêncio: Oh! Minha prima Felícia! Nem minha, nem nunca mais! Desertos, desertos prados! Tristes, tristes areais! Ao princípio, este mugido lírico assombrou Artur; depois, a proximidade do quarto, trouxe-lhe a intimidade do Pote; ouviu-lhe a história da prima e os elogios das «pernas da pequena» e nestas confidências, no cavaco da noite, acabou por lhe ler alguns versos — e sobretudo uma elegia intitulada Ofélia, que ele ambicionava publicar no Pensamento. O Pote levou a poesia ao Taveira — e como era a semana de Entrudo, em que faltou original para o Pensamento, Ofélia apareceu em folhetim. Que surpresa para Artur! Que hora deliciosa! Era a entrada numa grande carreira poética. Sentia-se já igual ao Taveira e mais tarde, célebre como Musset, seria o confidente querido das almas ternas. Nesse dia, ao jantar, o Damião disse-lhe protectoramente: — Você tem a fibra e a forma, caloiro; trabalhe, trabalhe! E necessário ter a ideia. Procure a Ideia! Artur remeteu logo para Ovar vários exemplares do Pensamento. Não duvidou do seu gênio e começou a procurar a Ideia. Entusiasmou-se então pelo Panteísmo. Decidiu ser o grande poeta panteísta de Portugal; sonhou uma alma nas coisas e parcelas de divindade, nas folhas dos salgueirais. Esboçou imediatamente o plano de um poema dramático, que seria a explicação do Universo, e em que estrelas, montes, rochas e árvores eram personagens e tinham as paixões, os caprichos e as tristezas de uma humanidade inerte e muda. Esta ideia, porém, era muito vasta para a sua debilidade de anêmico e apenas produziu a primeira estrofe, o Coro dos Montes, monologando ao luar, no silêncio de um céu de Verão, com lua:

Nós somos os montes. E a fronte de neve Coroamos à noite de estrelas brilhantes. Nós somos os montes, gigantes severos Cismando ao sussurro das águas cantantes... Por esse tempo, namorou-se de uma senhora casada, da Calçada, cujos olhos árabes e graça de palmeira nova já tinham sido cantados pelos líricos da outra geração acadêmica; passou então as noites, rolando pensamentos à Romeu, contemplando a janela do quarto, onde ela, de camisola de flanela e os pés sobre a botija, ressonava ao pé do marido. Não ambicionava mais que pousar-lhe um beijo de leve sobre a testa, por um céu de luar; só no seu quarto, apertava convulsivamente as mãos contra o peito, murmurando num delírio vago, «oh, adoro-te!» Esqueceu o seu poema filosófico, caiu no lirismo, prodigalizado em quadras, em que ela era sucessivamente Julieta, a bela Andaluza, ou a Esposa dos Cantares. Julgou que na vida nada valia senão a paixão; compreendeu, admirou René, Wherter, Rola, Manfredo, Lara, outros piores! E como a felicidade desejada, o beijo ao luar, não chegava — para seguir a tradição dos desesperos românticos, começou a embebedar-se. Eram então, com o Taveira, noitadas de exaltação platônica, regadas com meios quartilhos, na tia Pôncia e no Arsénio. Vinha depois aos bordos para o quarto do Pote, declamar os seus desesperos. E o Pote, numa saudade que se lhe comunicava, mas obediente ao Cenáculo, mugia logo de entre os lençóis: Oh! Minha prima Felícia! Nem minha, nem nunca mais! Desertos, desertos prados! Tristes, tristes areais! E mais baixo, torcendo-se e roncando de concupiscência: — Oh, menino, que se a pilhasse aqui! Enfim, veio o Ato — e Artur levou um R. Uma tão grande injustiça deu-lhe o ódio a toda a autoridade: odiou os tiranos, desde Jeová até aos lentes, desde o Czar até ao bedel da Faculdade; ambicionou uma República governada por poetas e por gênios; pensou mesmo em abandonar a Universidade, o país que desconhecia assim os seus talentos, partir, ir combater

pela Polónia; ser-lhe-ia grato morrer numa batalha pela liberdade, entre cânticos patrióticos, pensando nela! Seu pai teve um grande desgosto com o R. Artur, porém, numa carta poética, provou-lhe que fora vítima da inveja suscitada por um gênio nascente, e mandava-lhe uma lista de todos os grandes homens que tinham sido mal apreciados pela Universidade e que, mais tarde, ministros, poetas, sábios, glórias nacionais, conservavam no seu passado camadas de RR injustos! Foi nessas férias que sua mãe, doente desde o Inverno, morreu de uma tísica de garganta. O pai, muito afectado, teve os primeiros sintomas de uma doença de coração. Foi um Verão desgraçado para o pobre Artur, naquela casa triste, em que lhe parecia sempre ouvir as marteladas sobre o caixão da mãe e sentir ainda o cheiro das tochas de cera e os suspiros cerimoniosos de pêsames. As últimas semanas, sobretudo, foram as mais melancólicas, diante daquele pai carregado de luto, com os olhos inflamados das lágrimas e que, agora, tomado também de pressentimentos de morte, lhe falava constantemente do futuro, da necessidade de trabalhar, da dor de o deixar sem recursos. Nem ao menos tinha o seu velho amigo Silveira para desabafar: contara deslumbrá-lo com as histórias do Cenáculo e os entusiasmos lá adquiridos, mas o Silveira estava a banhos em Espinho, onde fazia palpitar o coração das senhoras com o seu bigode fatal, as suas imagens, o seu cão da Terra Nova e a sua capa à espanhola. A volta para Coimbra foi para Artur um alívio. Tinha esquecido inteiramente a senhora da Calçada. Vinha então com ideias mais definidas de carreira e resoluções de estudar. A publicação feliz do D. Jaime dera-lhe a ambição de compor, durante a formatura, um poema histórico; iria depois estabelecer-se em Lisboa, advogar e lançar a sua epopeia. Andava procurando um assunto, quando a leitura da Vida de Jesus, de Renan, o entusiasmou pela Judeia e pela legenda Messiânica. Veio-lhe a ideia, que julgou grandiosa, de refazer o Evangelho, pintar num poema social um Jesus pálido e louro, errando pelos vales nazarenos e junto dos lagos sírios, amado das mulheres e das crianças, ensinando a Democracia às almas ternas. Mas o Damião, consultado, escarneceu a ideia. No progresso da sua evolução intelectual, lançara-se, com o

grupo do Cesário, no culto exclusivo de Proudhon, Stuart Mill e Augusto Comte, e não compreendia realmente o que vinham fazer Jesus, Madalena e os sicômoros da Betânia, em pleno século XIX, à hora do Positivismo e do Socialismo! Que o caro Artur cantasse a Revolução, o povo e o seu antigo opróbrio! Que fosse Virgílio fazendo a epopeia sintética de um novo mundo, ou Juvenal lançando a sátira de um mundo decrépito... Mas que deixasse os lirismos evangélicos às duquesas cloróticas do Faubourg St. Germain!... Artur não foi Virgílio, nem Juvenal, mas desistiu do poema sobre Cristo, como abandonara o poema histórico sobre D. Sebastião. Caiu então, de repente, sem motivo, numa desconsolação vaga da vida, tomada do tédio de todas as realidades, a alma cheia de ambições enevoadas de felicidades indefinidas. De novo odiou os compêndios; sentia-se vazio de imagens e de rimas: uma quadra custava-lhe os esforços dolorosos de uma epopeia. De tarde, lá seguia pela Sofia, murcho, encolhido dentro da capa, com o gorro enterrado até ao cachaço, arrastando-se para o Choupal, a saturar-se de melancolia; de noite, ou ia para o Penedo da Saudade, olhar para a Lua, no vale, ou ficava no quarto do Damião, no fogo das conversas do Cenáculo, sem achar uma frase, um dito, mais triste por aquela esterilidade. — Este Artur é prodigioso — dizia o Cesário. Está aos dezanove anos como Byron aos trinta. Com esta precocidade de sentimentos, há-de vir a ser um grande idiota! Foi por este tempo que Teodósio o levou, uma noite, a casa da Aninhas Serrana, ao tempo a meretriz mais cara de Coimbra, o sonho ardente de toda a academia pobre, a quem o Taveira, numa poesia delirante, chamara «estrofe de carne e Vénus cristã». A Aninhas tinha na janela cortinas de reps amarelo, usava um roupão cor de fogo e lia a Dama das Camélias; contava-se como uma legenda singular que tomava banho e era certo que o Salgado se tinha envenenado por ela. Tanto romantismo fascinou Artur; dedicou-lhe tercetos no Pensamento e a Aninhas, conquistada, concebeu por ele um capricho, grátis. Na madrugada em que ele saiu do seu leito, extenuado de amor, sentiu que toda a melancolia daqueles meses passados se lhe dissipara, como uma névoa ao sol quente de Maio; a sua vida tinha agora um centro e uma significação: queria ser o Armando Duval daquele anjo, regenerá-lo pelo amor e imortalizá-lo num poema, como o Intermezzo.

Duas semanas depois, a Aninhas abandonou-o por um caixeiro da Sofia. Chorou de dor. Na mesma página do Pensamento em que a celebrara, insultou-a agora, com estrofes amargas à Mulher de Mármore; e no baile de terça-feira de Entrudo, no Teatro D. Luís, exaltado de genebra, vendo-a pular vestida de odalisca, numa polca frenética, exclamou com tremendo escândalo: — Folga, vil Messalina!... És podridão e em podridão te tornarás! Perneia, prostituta! Oh, Serrana, oh, magana, restitui-me as peúgas que te deixei no prostíbulo... O par de Aninhas, um quartanista desempenado, grande ginasta, esbofeteou-o imediatamente. Foi um episódio temeroso. Artur queria esperá-lo à saída para o apunhalar. Enfrascou-se de cognac até se tornar feroz... E os companheiros tiveram de o arrastar para casa, idiota de álcool, abraçando-se a todos os candeeiros, regando-os de lágrimas, e gemendo: — Mulher, teu nome é vileza! Ao outro dia, quis mandar à Aninhas uma placa de cinco tostões — escrevendo-lhe, como outrora Armando: aí vai o preço do teu amor e do meu insulto. Mas receou os músculos formidáveis do ginasta, e, furioso, descreu das mulheres. — Só a Arte não trai, Artur — disse-lhe um dia Taveira. E Artur lançou-se desesperadamente na Arte. Considerou-se cínico à Musset e à Byron e quis, como eles, dar à sua vida um delírio romântico: recomeçou a embebedar-se. E uma manhã que recolhia ainda estremunhado de um lupanar — como convinha a um irmão de Rola — encontrou em casa uma carta do Silveira: na véspera, enquanto ele, no Garrano, com Taveira, brindava à Morte e à Orgia, seu pai, de repente, ao entrar na Assembleia, tinha caído morto para o lado, murmurando apenas: Oh, meu filho! O pobre moço, que amava o pai, desmaiou, e depois das primeiras lágrimas, ficou aterrado. Ali estava, só na vida, sem recursos para continuar a formatura, tendo de deixar Coimbra, o Cenáculo, a vida poética... Por conselho do Silveira, foi a Ovar vender em leilão a mobília, algumas pratas da casa. Passou ali uma semana amarga, na hospedaria, coberto de luto, com os olhos vermelhos

como carvões, fumando cigarros, fazendo e desmanchando planos, ou, com o nariz contra a vidraça, vendo cair a chuva miudinha de Março. Uma noite, enfim, o delegado Pimenta, que muito solicitamente dirigira o leilão, veio trazer-lhe quarenta e cinco libras em ouro. Ao ver aquela riqueza, rebrilhando sobre o pano verde da mesa, uma esperança desordenada levantou-lhe a alma. Com uma economia sagaz, poderia viver dois anos em Coimbra; durante esse tempo, lecionando, fundando uma Revista, criaria recursos regulares... E apesar de chorar ainda ao olhar para o daguerreótipo do pai, começou a gozar instintivamente da ideia da sua liberdade — sem família que lhe traçasse autoritariamente um destino e com dois fortes cartuchos de dinheiro na maleta. Voltou para Coimbra — e daí a duas semanas pagava aos líricos do Cenáculo uma orgia na tia Pôncia; depois, comprou todas as obras de Vítor Hugo e um revólver; fez um fato, guitarreou, jogou a batota, alugou caleches para ir a Condeixa jantar no Castelo com o Taveira. No ato final levou outro R. E pelas férias, quando Coimbra começava a ficar deserta, achouse com oito mil-réis no bolso e uma sífilis. Foi então que se lembrou das tias, que nunca vira e que viviam em Oliveira de Azeméis. Eram duas, Ricardina e Sabina; a mais velha, a tia Loló, morrera tísica, um ano depois do marido e deixara uma filha, a priminha Cristina; vivia em Oliveira, com as duas senhoras, e às vezes recebiam-se em Ovar notícias das suas doenças, feridas nas pernas, humores nos ouvidos, uma degeneração de raça escrofulosa. Escreveu-lhes uma carta patética, com frases à Musset, pedindo às duas velhas que «o ajudassem nesta grande batalha da vida, em que ele se sentia fraquejar, porque era desta geração, nervosa e pálida, que necessita o amparo de uma ternura de anjo...». Como a resposta tardasse — partiu desesperado para Ovar, para a mesma hospedaria, como se esperasse ver outra vez cintilar, sobre o pano da mesa, o ouro de outro punhado de libras. Ali, o seu velho amigo, o advogado Silveira, que rompera com o Campeão e ia casar com uma viúva rica que fascinara em Espinho, irritou-o com conselhos práticos, solidamente burgueses: «a vida não era poesia, era necessário tratar do pão!» Mas onde? Como? Ir rabiscar papel para casa de um tabelião? Ir vender cheviots a um balcão do Porto?— Era

imbecilizar-me para sempre, anular as minhas faculdades, Silveira! Uma manhã, por fim, chegou a carta das tias. Era breve, numa letra bonita de mulher: «Meu querido sobrinho. Cá recebemos a tua carta, que mostra que tens muito talento e nos fez chorar a todos, que até o Albuquerquezinho pareceu muito afectado. E eu não teria felicidade maior que poder ajudar-te para a tua formatura, pois se vê que tens vocação para doutor e haverias de fazer boa figura. Mas, infelizmente, como tu não ignoras, pois o mano Manuel estava bem ao facto de tudo, nós pouco temos, apenas o bastante para alguma decência. Tu, porém, és do nosso sangue e por isso te posso dizer que nesta casa hás-de encontrar bom agasalho, porque até temos um quarto com alguma mobília e podia servir para ti e mesmo a mana Sabina já lá anda a escarolar, pois esperamos que aceites este oferecimento, que é feito do coração, tanto mais que o Sr. Vasco diz que, agora, são férias em Coimbra. Escreve anunciando o dia em que vens e recebe um apertado abraço da tua tia muito amiga do coração Ricardina.» O advogado Silveira, a quem ele correra a mostrar a carta, disse-lhe logo, traçando a perna. com uma das suas imagens floridas: — Aí tens tu! Eras a barca batida da tempestade: abre-se-te o porto hospitaleiro! Artur, passeando cabisbaixo pelo escritório, imaginava, por aquele estilo da carta da tia Ricardina, a existência em Oliveira de Azeméis, entre as duas senhoras cheirando a rapé, fazendo à noite uma meia sonolenta, depois do terço rezado com a criada, diante da cômoda armada em oratório. — Quem será este Albuquerquezinho? — Algum velho amigo da família... Jogador de gamão, naturalmente — disse o eloquente Silveira. Além disso tens a prima... Artur encolheu os ombros. — Uma criatura que está sempre doente com furúnculos nas pernas, feridas na cabeça. — Às vezes, nessas crianças doentes há uma alma profundamente terna. E a alma é

tudo! — observou o Silveira, cofiando o bigode romântico. — Enfim, disse Artur, vamos lá para Oliveira de Azeméis. Alea jacta est! Partiu de Ovar, ao fim de um dia tórrido de Agosto — e quando entrou, com o moço que lhe levava o baú, no pátio triste do casarão das tias, a torre de S. Francisco, ao lado, badalava as nove horas, sobre a vila silenciosa. As senhoras, carregadas de luto, vieram ao topo da escada receber o sobrinho, de braços abertos: — Oh, menino, pois tu vens a esta hora! — exclamou a tia Ricardina — e sem prevenir! Jesus, que despropósito! Ai, mana Sabina, que é o retrato do mano Manuel! Ai, dá cá um abraço, filho! Artur, muito embaraçado, pousou no chão a chapeleira, o paletot, o guarda-sol, para receber o beijo da Ricardina, que o esperava com uma lágrima ao comprido do seu grande nariz de cavalete; depois, foi para os braços da Sabina, toda pequenina, toda enternecida, de uma brancura de marfim sob a sua touca negra. — Ai, filho — repetia a tia Ricardina, levando-o para a sala — és o retrato do teu pai! Olha, íamos agora mesmo tomar chá. Sobre a mesa estava o tabuleiro com as chávenas, e ao lado, à luz de um candeeiro de abat-jour transparente, que representava cenas de neve numa paisagem da Noruega, um sujeito nutrido e calvo fazia uma paciência, muito tranquilamente. — Albuquerquezinho, aqui está o Arturzinho. É o retrato do mano Manuel... O homem pousou devagar o baralho, voltou-se na cadeira e com as pernas muito abertas, as mãos espalmadas sobre os joelhos, examinou longamente Artur, que torcia o buço, todo acanhado: — Ora viva o meu amigo! — exclamou subitamente, erguendo-se e arrebatando-lhe a mão, que conservou muito tempo, sacudindo-lha compassadamente. — Ora viva o meu amigo! Ora viva o meu amigo! Sentou-se e depois de ter acamado com método, de um e de outro lado da calva, os três pelos grisalhos, retomou gravemente o seu baralho. Mas o moço esperava à porta, e Artur, remexendo no bolso, estendeu-lhe dois tostões.

— Credo! — exclamou Ricardina. — Tu estás doido, menino! Olha o despropósito! Vai muito bem com quatro vinténs. Vá, Joana, ajude-o a levar o baú para cima. Espera, eu também lá vou. Sempre é melhor que eu lá vá. E tu deves vir a cair de fraqueza, filho. Veja lá se lhe arranja já alguma coisa, mana Sabina. Vá, não fique aí pasmada! Sabina apressou-se a ir para a cozinha enquanto o Albuquerquezinho, muito sério, ia baralhando sossegadamente as suas cartas. — Boa viagem? — perguntou, fixando Artur. — Muito agradecido a V. Exª, fiz muito boa jornada... — O mar picado? — O mar?... — murmurou Artur, assombrado. Eu venho de Ovar... — Hum! — rosnou Albuquerquezinho, com desprezo. — Na diligência! Nélson, o grande Nélson andava em diligência... — Nélson era um almirante e eu... — Chut! — fez imperiosamente o Albuquerquezinho, que, tendo disposto um quadrilátero de cartas, ia agora voltando uma a uma as que restavam no baralho: — ás! terno! valete! duque! Artur examinava com espanto a sua cabeça grave de tabelião, a calva polida e lustrosa como madrepérola, com quatro pelos brancos sobre cada orelha, a face rubra e bem nutrida, o beicinho luzidio, as duas suíças pequenas, grisalhas e o majestoso colete branco onde serpenteava um grilhão. Mas o que o maravilhava, eram três galões de ouro, de general, que ele trazia cosidos no canhão da manga. — V. Exª é amador de paciências? — perguntou Artur, para quebrar o silêncio. Um chuta! despedido com cólera, emudeceu-o. Artur ergueu-se, ofendido; uma das janelas estava aberta à noite cálida de Agosto: defronte, vermelhavam os dois bocais escarlates na vidraça da botica, e em redor, sob o céu negro, todas as casas, a praça, pareciam adormecidas no ar pesado, com uma ou outra janela aberta, mortiçamente alumiada. Devia ser aquele o fim da vila, porque se ouvia no grande silêncio, a distância, para além da massa escura da capela, um coaxar triste de rãs.

Acendeu um cigarro e ali ficou, pensando nas noites de Verão em Coimbra, nos luares sobre o Mondego elegíaco... Via-se na ponte, com os olhos postos na Lua, redonda e branca — que, àquela hora, contemplavam também o pastor na montanha, deitado sobre uma pedra, o marinheiro nos mares calmos, sobre o tombadilho — e ao lado, a voz extática do Taveira, murmurando: « Lua, hóstia do Infinito!...» A sala, dentro, parecia continuar a melancolia da praça e da vila, com o seu alto armário de pau-preto, a mesinha de pés torneados, coberta de uma colcha de cetim, sustentando preciosamente um vaso com flores de cera, e um recanto de alcova, com um velho divã cavado pelo uso, onde decerto, de dia, as senhoras caturravam fazendo meia. E a voz grossa do Albuquerquezinho, uma voz de major enrouquecida nas manobras, continuava: — Quadra! Dama! Ás! Terno!... Mas Ricardina apareceu enfim, azafamada: — Desculpa, que se te andou a arranjar o quarto. Vires sem prevenir, que despropósito! Calou-se, cheirando em redor: — Oh, menino! pois tu fumas? Ai, que peste! Ai, que peste! Agarrou um guardanapo, bateu o ar violentamente: — Ai, deves perder o hábito, que o Vasco diz que arrasa a saúde e dá más ideias. Pus-te o baú ao pé da cama. Olha, aí vem a tia Sabina. Vai com ela, que te vai mostrar o quarto, que eu vou-me aqui repimpar e estar um bocado caladinha... Mas não se calou, contando logo os seus achaques, o mal que a seca estava fazendo às terras, os bonitos passeios para os lados do Covo, a maravilha da fábrica de vidro... — Fez a paciência, Albuquerquezinho? — Duas, menina — disse o velho que baralhava as cartas — duas imperiais. — Logo se marca, que a Sabininha tem de lá ir acima... Ai, que balbúrdia, credo! Pois olha, até estou com dores de cabeça. É do fumo do tabaco. E também de sair dos meus hábitos... — Chut! — bradou o Albuquerquezinho que recomeçava o quadrilátero. E Ricardina, baixando a voz:

— Vá, mana Sabina, vá mostrar-lhe o quarto, já que tem pernas. — Por aqui, menino, por aqui — disse logo Sabina, levantando-se. Artur, atarantado, seguiu-a pela escada íngreme, mas quando chegou ao corredor, parou espantado, vendo a uma porta, postado, de arma ao ombro, um soldado de papel em tamanho natural, colado a uma tábua que fora recortada pelos contornos da figura. — Que é isto? — É o quarto do Albuquerquezinho, é a sentinela — disse Sabininha com um sorriso enternecido. — Quem é aquele sujeito? — perguntou Artur. — Ai, é um santo! Não deves fazer caso... tem a cabecinha desarranjada, não pensa senão em navios e coisas do mar. — Foi oficial de marinha? — Oh, não! O Albuquerquezinho era um amigo do mano; depois de viúvo começou a tresloucar. E como não tinha parentes e não estava doido declarado para ir para Rilhafoles, trouxemo-lo a viver cá para casa; que o Albuquerquezinho é rico, tem uma fazenda muito boa, ao pé de Santa Eufrásia. Falava enternecida, com o seu castiçal na mão, ao lado da enorme sentinela de kepi e farda azul, de bigodes napoleônicos. Fora ela que lhe pusera na manga os galões de almirante. Era ela que cosia as velas dos seus navios. — Ai, coitadinho, é um santo! É só aquela mania das embarcações, que em tudo o mais tem juízo. Mostrou-lhe então o quarto, pegado ao do Albuquerquezinho. Sobre a cômoda tinham posto um grande ramo de rosas e os lençóis da cama eram bordados. — Tens aqui água quente... E a vista da janela é linda. Artur deitou um olhar à janela, mas só viu uma vaga negrura, onde formas de árvores, outra torre distante, punham sombras mais densas, e das quais subia o mesmo coaxar triste das rãs. Mas Sabininha, ao retirar-se, hesitou um momento e quase com uma suplicação na voz:

— Não te rias, menino, queria pedir-te uma coisa. Sempre que falares ao Albuquerquezinho, chama-lhe «Sr. Almirante». Quando Artur desceu, o chá estava na mesa e Sabina, muito comovida, arranjava sobre o guardanapo a ceia do «menino». Ele teve então de contar dos seus estudos de Coimbra, como recebera a notícia da morte do pai, o que tinha rendido o leilão... Mas, de repente, o Albuquerquezinho arremessou a torrada que tomara do prato e empertigado na cadeira, fazendo estalar os nós dos dedos, olhou sucessivamente as duas velhas com rancor. Exigia as torradas quentes, louras, a escorrer de manteiga e encontrando uma seca, rosnou com azedume: — Se sabem que me faz mal! Se sabem que me faz muito mal! E não é uma, são todas que estão secas. Já é desleixo! Foi um desgosto para as senhoras. Tinha sido a atrapalhação. Fora com a chegada do menino! O Albuquerquezinho havia de perdoar! — É por culpa minha — disse Sabina — que as deixei fazer pela Joana. — Está claro — exclamou Ricardina — é culpa sua! Eu bem lhe tinha dito que deixasse os ovos à Joana e fizesse a menina as torradas. Mas não, quer-se sempre regular pela sua cabeça! Veja onde a levou a sua cabeça! — e aflautando a voz, muito tesa: — olhe o desgosto que sofreu! A Sabininha, encolhida, sorvia a sua pitada. E Albuquerque, voltando-se para Artur, com a testa franzida: — E que o amigo, que vem de Coimbra, compreende, ou são torradas ou é pão seco! Artur respondeu, muito sério: — Tem V. Exª muita razão, Sr. Almirante. Subitamente o velho calmou-se, passando com satisfação as mãos espalmadas sobre os quatro pelos da calva. As faces das senhoras iluminaram-se num reconhecimento comovido, e a Sabininha, sem se conter, passou os dedos magros pelo rosto de Artur, dizendo enternecida: — Ai, não podes negar que és filho do mano Manuel. E o mesmo coração de anjo.

E durante um momento Artur sentiu-se bem entre aqueles corações antiquados, tão fáceis de alegrar, naquela casa adormecida, a um canto de vila triste, onde errava por entre os móveis, a que o longo uso dera quase uma expressão humana, um cheiro pacato de alfazema. E mesmo o Albuquerquezinho lhe pareceu tocante, quando, estendendo sobre a mesa o seu braço agaloado de ouro, lhe declarou com amizade: — Hei de levá-lo amanhã a bordo. — É uma grande honra — respondeu sorrindo. Mas tinham dado as dez e meia, e as senhoras iam com as duas criadas ao oratório rezar o seu terço. A Cristininha ficava a fazer companhia ao menino — e corada, tomada agora dum acanhamento, permanecia calada, com o seu gato muito gordo no colo, fazendo girar o abatjour transparente que representava cenas de neve, numa paisagem da Noruega. Artur, torcia o buço. E o Albuquerquezinho, com as mãos cruzadas sobre o ventre, caíra numa sonolência, que lhe vinha sempre depois do chá. — É o gato da casa, hein, disse Artur. — E, respondeu a prima, baixo, para não perturbar o velho. Gostas de animais. — Gostava de ter um cão da Terra Nova, ou de S. Bernardo. Mas no que tinha gosto, era ter um leão domesticado. Ela riu, muito divertida, àquela ideia, de passear as ruas da vila com uma fera dos desertos... Que horror! E se o mordesse? E o despesão para sustentar um bicho assim... Na Índia, disse Artur, que é o país mais poético do mundo, os antigos reis, eram sempre seguidos por leões familiares. — Ah, fez ela. E aquele ah! tão seco, mostrando-a alheia, toda indiferente à Índia, e aos seus tiranos legendários, às pompas bárbaras dos cultos védicos, regelou subitamente aquela breve simpatia, que há pouco lhe dera o enternecimento dos seus olhinhos alegres. Quem se interessaria em Oliveira de Azeméis pela Índia e pelo Ramayana? E a certeza duma existência material e mesquinha, naquela terra de três ruas onde as pessoas passam, pesou-lhe na alma dolorosamente.

— Em que te entreténs tu aqui, perguntou com melancolia. Tu tocas piano? — Não. Comecei a aprender, mas parece que não tinha jeito. Na sala há um piano. Mas ninguém vai à sala. Faz frio, lá... E há anos que o não abro!... — Não gostas de música? Ela encolheu os ombros. Gosto, mas... Parece-me estúpido estar ali a martelar valsas... Para-tá, tá-tá... — Mas uma ária de Mozart, uma sinfonia de Beethoven... Ela não respondeu, numa ignorância, que pareceu odiosa a Artur, daqueles nomes divinos. — Ai, disse por fim, a filha do Carneiro, é que toca uma coisa bonita... E a D. Galateia, a do Vasco ali defronte, da botica, também agora a toca: São os Sinos da Aldeia. Foi então Artur que encolheu os ombros, com desprezo: — Uma sensaboria! Música de colégio. Havias de ouvir Meyerbeer, Weber, Bach... — disse, citando os nomes de músicos que lera nos livros do Teodósio, e admirava de tradição, como almas transcendentes. Então houve um silêncio, e na sala tudo pareceu adormecer também como o Albuquerque, e o gato branco: até o candeeiro que esmorecia, e as janelinhas transparentes cor de fogo nas cabanas nevadas do abat-jour: pela porta, vinha do corredor escurecido uma ciciação dormente de rezas ao lado. — E que lês tu? Gostas de ler? Cristina pareceu despertar, e procurou um momento, mentalmente, a certeza daquele gosto. — Não me entretém muito... A D. Galateia às vezes trazia-me aí romances que lhe vinham do Porto. Mas enfastiei-me... É uma trapalhada, e depois são tudo mentiras... Artur não respondeu, enojado. Achava-a estúpida, e feia, — com as suas grossas mãos acariciando ternamente o gato gordo, os ombros roliços de plebeia forte, e até o cabelo lhe parecia agora duma dureza rústica. Pensou noutras mulheres, de fina superioridade intelectual, a amante do Marçal que nas cartas lhe citava Lamartine, sobretudo a senhora de

olhos árabes da Calçada, cujo oval pálido era como a mesma expressão duma alma romântica. E amou-a naquele momento, tomado duma ternura pela sua cinta fina de palmeira nova, e a sua testa dum marfim puro, — que ele esquecera tão completamente — que agora, no contraste com a prima grossa e vermelha, lhe fazia sussurrar pela alma as ternuras adormecidas... E com melancolia, pensou nos homens a quem fora dado amar George Sand. — Mas de versos, ao menos, gostas? — perguntou-lhe ainda. Aquela interrogação — parecia fatigá-la: mas riu com bondade, disse: — Para que fazes tu tantas perguntas?... Olha quem gosta de versos é a tia Sabina. Falalhe a ela em versos que se morre por eles... A mim parecem-me sempre a mesma choradeira... São pieguices... Artur, escarlate, odiou-a. Ergueu-se, foi ainda à janela olhar o largo agora escuro: mas para além, numa claridade muito tênue, que recortava uma redondura de árvores juntas, a lua aparecia, como um lustre curvo de prata. Então, sentiu um isolamento de alma, como se toda a humanidade tivesse perecido. E de pé diante da prima, bocejou, espreguiçando-se longamente de fadiga e de tédio. — Estás cansado, menino? Exclamou ela. Sacudiu logo o gato, ergueu-se também e então foram perguntas, num grande interesse: queria lamparina? Gostava de leite quente pela manhã?... Se se achasse fatigado, podia almoçar na cama... Artur, importunado com aqueles cuidados que lhe revelavam um espirito abismado nos interesses mesquinhos de conforto caseiro, disse: — Não obrigado. A que horas se levantam por cá? — Às sete... mas eu levanto-me logo de madrugada. —Pra quê? Ela riu: — Pra quê? E que tenho muito que fazer... Olha logo a primeira coisa é dar de comer à criação. — Tens galinhas?

— Tenho galinhas, coelhos, patos, bacorinhos, uma cabra! — Tenho tudo, disse com um entusiasmo que alumiava a face. E depois tenho de ir dar a sopa aos filhos da Micaela. — Quem é a Micaela?, perguntou ele, bocejando. — É uma vizinha. A pobre mulher tem dois pequerruchitos, e vai, secou-lhe o leite... E são tão pobres... Tenho de lhe levar as sopas de leite às criancinhas... E cedo, pobres anjinhos, estão à espera delas toda a noite, e abrem cada boquinha... — E ficou a olhar para Artur, movendo os beiços, com olhos em que parecia subir, a névoa duma lágrima. Mas as tias entravam, sonolentas daquele longo terço no oratório. O Albuquerquezinho despertou, acamou com furor as suas repas, e erguendo-se, disse em redor com satisfação: — Pois senhoras, passou-se o bocadito da noite. Deram então um castiçal a Artur, com recomendações infinitas: que apagasse a luz antes de adormecer, que não deixasse os fósforos espalhados por causa dos ratos... — Eu estou lá ao pé, eu estou lá ao pé — disse o Albuquerque. — Eu lá vigiarei. E se o amigo quiser alguma coisa, é bater na parede! Vamos, boas noites! E subiram para o corredor, o Albuquerquezinho, adiante, devagar, bocejando, puxandose pelo corrimão. — Pois amigo — disse — não há nada melhor do que uma sonecazinha, depois das torradas. Que elas hoje estavam más; mas, enfim, foi dia de hóspede. O que o amigo deve vir, é cansado. Três horas de diligência... Oiça lá, as conveniências são ao fundo do corredor. E Artur pasmava de o ver tão sensato, quando o Albuquerquezinho, parando à porta do seu quarto, fez a continência ao soldado de papel e deu este santo-e-senha, para entrar a bordo: — Nélson e Sabininha! Só no seu quarto, Artur, sentado na cama, começava a fumar o seu cigarro, quando de fora a voz de Ricardina falou pela fechadura: — Pois tu estás ainda a pé, menino? Ai, apaga a luz, apaga a luz... Diz se estás a fumar?— Não, tia Ricardina. — Ai, filho, pelas chagas de Cristo, tem cuidado com o fogo.

Deitou-se desesperado, pensando no que faria para fugir bem depressa daquela casa embrutecedora, onde nem poderia ler de noite na cama ou trabalhar, sem que uma das velhas viesse, na sua ronda, fazer-lhe soprar a luz e as imaginações. Ao outro dia, ao erguer-se, foi abrir a janela. Era uma manhã resplandecente. Em baixo, estendia-se toda uma verdura de pomares e hortas, com tanques aqui e além, onde espelhava a água; brancuras de roupa a secar, casas caiadas, faiscavam ao sol. O quintal das tias, de onde se subia por três degraus de pedra para o pátio da criação, era cercado de um muro baixo eriçado de fundos de garrafas. Estava plantado de couves, alfaces, feijões; pés de roseira e dálias faziam um jardinete ao canto; no fundo, debaixo de árvores, era o poço, e sobre o seu pedestal, uma estatueta de gesso da Fortuna, com o pé no ar, a cornucópia alta, branquejava na luz forte. E Artur, debruçado, fumava, quando da janela ao lado, saiu um braço agaloado de ouro e imediatamente uma voz formidável retumbou: — Orça a barlavento! Senhor segundo-tenente, abra as escotilhas da proa! — e uma trombeta soou: traiará, traiará, rá, rá, á... E então de um porta-voz, que apareceu fora da janela, saiu um vozeirão: — Cerre os traquetes! Fogo! Boum! Boum! Boum!... Traiará, traiará, rá, rá, á... Era Albuquerquezinho, de chapéu armado, comandando, do peitoril da janela, a sua fragata de guerra! Começou então para Artur uma vida desgraçada, em que os dias se seguiam como as páginas brancas de um livro que se vai tristemente folheando. Toda a manhã, as duas senhoras faziam a sua meia na sala, com as janelas cerradas, o soalho regado, num silêncio em que errava a sussurração das moscas. Às vezes, para o distrair, Sabina levava-o ao quintal, ver a criação: mostrava-lhe os coelhos novos pulando sobre as camadas de couves molhadas, de nariz franzido, as orelhas direitas, fitando os olhinhos vermelhos como rubis ou negros como vidrilhos nas côdeas que ela trazia; e em torno dela era um correr de pintainhos, redondos como bolas de penugem, um cuê-cuê de patos, um despedir de bufos dos dois perus entufados. Mas o cheiro da capoeira, da coelheira, o bafo morno e acre dos pelos e das penas

enjoavam Artur; detestava os bacorinhos, com a pele cor-de-rosa, a suar de gordura, fossando até aos olhos, grunhindo de gozo, na lavagem das gamelas. Só não desgostava do velho galo, o Pimpão, de cauda flamante e passadas pomposas: muito atrevido, o Pimpão plantava-se diante dele, erguendo a crista sanguinolenta, fitando-o de lado com o seu olho rutilante, e de repente, batendo as asas, estendendo o pescoço onde corriam reflexos de esmaltes vermelhos e azuis, lançava o seu toque de clarim; galos, noutros quintais, respondiam; e as galinhas iam dando em redor, no mato estradado, picadelas subtis e vorazes. Mas Artur declarava que não lhe agradavam senão pombos e pavões — e subia para casa, bocejando, enquanto a tia Sabina, magoada daquela indiferença, ficava a olhar desconsoladamente «a sua bicharada». Depois do jantar, dadas as graças, era a sesta: tudo parecia adormecer numa lassidão entorpecida, até os móveis e as moscas. E Artur, estirado sobre a cama, olhava vagamente as tábuas do tecto, ruminando pensamentos saudosos de amor, de celebridade, ouvindo fora, nas suas gaiolas de vime, arrulharem as rolas. Ao fim da tarde, as senhoras iam tomar o fresco para o fundo do quintal, ao pé da estatueta da For— tuna, enquanto o Albuquerquezinho fazia navegar no tanque do poço o seu bote cheio de soldados de chumbo; e naquele repouso das folhagens, cansadas da ardência do dia, ouvia-se a água de rega murmurar ao lado, no pomar do Freitas. E ali ficavam até tarde, esquecidas, até que alguma estrelinha tremeluzia no alto e os morcegos esvoaçavam em torno da Fortuna. A essa hora, Artur entrava do seu passeio triste pela estrada de Ovar ou do Covo e o serão começava, com as janelas, por onde entravam borboletinhas brancas, abertas à escuridão tépida do largo. Era aquela a hora pior. As meias das duas senhoras, as paciências do Albuquerquezinho, os quartos que caíam plangentemente da torre de S. Francisco, davam-lhe um tédio taciturno. As tias imaginavam que eram saudades do papá: — Não maluques nisso — diziam — quem lá está, lá está. E Artur detestava-as, por não compreenderem a elevação espiritual da sua melancolia. Depois, o Albuquerquezinho tomara afeição a Artur e queria mostrar-lhe a sua esquadra. Eram dois grossos cadernos de papel em que ele colava em fila os navios e paquetes

recortados nos anúncios dos jornais, com os nomes escritos a tinta vermelha: Valoroso, Relâmpago, Fragata Sabina, Nélson... Havia as esquadras de todos os países da Europa, e, como não cessava de recortar, tinha agora esquadras de terras exóticas: a frota da Lapónia, a frota da Cafraria, a frota da Arábia... — Hem, meu amigo! Que esquadra... E tudo às minhas ordens! — dizia, mostrando os galões da manga. — Dá-me muito que fazer... — Decerto, Sr. Almirante, decerto! Ao fim do serão, subindo para o seu quarto, erguia os braços para o céu numa acusação muda! Quando acabaria aquela vida? Quando voltariam noites como as do Cenáculo? Pela janela aberta entrava a paz escura da vila adormecida. Olhava então as casas apagadas, os telhados fazendo na sombra sombras mais densas: àquela hora, toda uma burguesia dormia, roncando de barriga para o ar; nenhum daqueles seres lera Alfredo de Musset ou compreenderia os sonhos que lhe revoavam na alma como bandos de aves cativas; a obtusidade daquele montão de lojistas e de proprietários sem ideal e sem emoção, ignorando os poetas, ocupados com o preço da carne e o adubo das terras, exasperava-o, dando-lhe desejos vagos de uma Revolução, em que o poder, o dinheiro, pertencessem aos gênios e às almas delicadas. Ocupava-se então, para não perder a comunicação intelectual com o Cenáculo, em compor para o Pensamento uma longa elegia, intitulada A Morte e dedicada à memória do pai. Mas Damião, que passava o Verão em Coimbra, devolveu-lhe o manuscrito, com uma carta, dizendo que o Cenáculo decidira não publicar o Pensamento durante as férias; talvez mesmo, no ano seguinte, agora que o Taveira estava formado, o Pensamento se tornasse uma Revista puramente filosófica e científica, de onde os poetas líricos, como na República de Platão, seriam excluídos, «a não ser que, deixando a preocupação estreita da dor individual, se lançassem na simpatia mais larga da humanidade martirizada...». Censurava-lhe a poesia «cheia de lamentações caóticas e lamartinianas»; aconselhava-lhe um livro forte e democrático: «a morte — dizia — é uma transformação banal da substância, e não comporta adjectivos tão espantados, verbos tão plangentes e essas fileiras de interjeições, que parecem

renques de ciprestes. Só a vida é interessante porque é fenômeno único. Escreva páginas vivas!...» Aquele fim do Pensamento, cortando a sua última comunicação com a vida intelectual, desolou-o. Assim se completava o isolamento da sua alma. De resto, sentia-se vazio de ideias, de imagens, de rimas. Atribuía aquela esterilidade ao meio dormente, à ausência de conversas, de excitação inspiradora. A falta de livros amargurava-o. Os que tivera, vendera-os em Coimbra quando vira o fim das libras do leilão, e não podia obter outros, porque os próprios cigarros que fumava no quintal, longe da tia Ricardina, tão avessa ao tabaco, comprava-os com alguma placa que lhe dava a boa Sabininha. O seu tédio era tão grande que se pusera a desejar, como um acontecimento, a aparição aos serões, do Vasco e de D. Galateia, que então convalescia do seu último parto. Sabininha falara-lhe de D. Galateia como de uma «verdadeira beleza» e, por aquele nome literário, pelo que ouvira do seu amor dos romances, do seu talento no piano, viera a conceber uma mulher de olhos tristes e alma impressionável, sofrendo da existência mesquinha da aldeia e sonhando amores elevados. Mas foi uma desilusão quando eles vieram um domingo. D. Galateia era quase uma quarentona, grossa e branca, de buço forte, com uns seios, umas ancas, que sob o vestido leve de cassa clara, lhe davam a aparência flácida de um odre mal cheio. Atravessara o largo em chinelos, com fitas verdes no cabelo, um cartucho de rebuçados na mão — e a sua conversa sobre o leite da ama e os cuidados em que estava com o sarampo do Pedrinho, e a canastra de marmelos que comprara nessa tarde, revoltou Artur, que fez dela esta definição irreverente: uma vaca! O Vasco, esse, pareceu-lhe odioso. Pouca gente lhe tinha visto o rosto todo: com a testa e os olhos sempre cobertos pela pala enorme do boné de pano, o queixo e a boca constantemente abafados num cache-nez roxo, mostrava apenas a Oliveira de Azeméis um nariz bicudo e lustroso. Vivia numa irritação permanente. E todo o dia era pela botica um passear furioso, fungando, fazendo estalar violentamente os nós dos dedos, com sacudidelas desesperadas da cabeça, como a fugir ao ferrão de uru moscardo invisível, mastigando em seco, dentro do cache-nez, como se a vida lhe soubesse mal. Ninguém explicava na vila aquele azedume hipocondríaco.

Os serões das Corvelos, porém, pareciam calmá-lo: mostrava então as repas grisalhas que lhe cobriam o crânio estreito e o cache-nez, alargado, descobria um queixo mole, que lhe fugia para as cordoveias do pescoço. E a cabeça, emergindo-lhe assim dos agasalhos, com aquela longa saliência do nariz agudo, lembrava a de um pássaro pelado. Artur compreendeu imediatamente que o Vasco era um ciumento: via-o mudo, de queixo rilhado, os olhinhos de clorótica amarelada cravados ansiosamente, ora nele, ora na grossa Galateia; e quando esta, requebrando-se, o interrogava sobre os seus passeios aos arredores, a sua visita à fábrica de vidro do Covo, o Vasco, retido a distância pela tagarelice da Ricardina, sondava de olhos faiscantes a escuridão debaixo da mesa, no terror de que já houvesse um terno roçar de joelhos. Enfim, quando trouxeram o chá, veio bruscamente plantar-se entre ambos, como um áspero muro eriçado de pregos. Então Artur indignou-se. Ser suspeitado, ele, com a delicadeza fina dos seus gostos idealistas, de desejar aquela matrona de carnes moles!... E para evidenciar bem o seu desdém pela Galateia, pelas palestras caturras, por toda a vila — subiu para o seu quarto, foi estirar-se na cama, gemendo interiormente da solidão do seu coração. Daí a pouco, a voz da tia Sabina dizia de fora: — Tu estás incomodado? Vai-se fazer um quino. Ele veio abrir: — Não, tia Sabina. Não estou para aturar os Vascos. Diga que estou a escrever para Coimbra. Não jogo o quino. Em baixo, o nariz de Ricardina, a esta explicação, alongou-se: — Podia escolher outra hora para escrever! — Rapazes! — disse o Vasco satisfeito. — Deixou o coração em Coimbra. E o loto começou em torno da mesa, enquanto, diante do álbum aberto das esquadras universais, o Albuquerquezinho fazia a sua soneca. Já o Vasco, para sair, recolhera a face de ave triste ao boné e ao cache-nez, quando Artur desceu. O farmacêutico tomou-lhe a mão com afecto: — Estimei conhecê-lo... Aquela casa está às ordens... Eu tinha lido a carta que escreveu às titias... E de muito talento. Eu admiro o talento!

Pobre Vasco! D. Galateia, ainda depois de dez anos de casada, lhe dava ardores imoderados e zelos pungentes. Outrora, interceptara um bilhete do seu praticante, em que o moço a tratava por tu e falava dos «celestes gozos da outra noite»; mais tarde, surpreendera-a positivamente nos joelhos do sobrinho do Carneiro, moço imberbe que estudava geometria. Perdoara, mas desde então a desconfiança, a paixão tenaz, junto à hipocondria de uma doença de fígado, dera-lhe aquele azedume taciturno. A virtude de Artur, que experimentou noutros serões, tornou-lho querido. Depois, tendo conversado com ele sobre assuntos que o interessavam, como a Eletricidade, o Magnetismo animal, deslumbrado por algumas recordações dos compêndios de Introdução, que Artur bordava de frases do Cenáculo, concebeu uma consideração ilimitada pelo talento e pela ciência do «Corvelo sobrinho». Mas não se abandonou imprudentemente a esta simpatia, quis sondar-lhe os princípios e o carácter, e um dia que Artur entrara na botica a buscar o xarope da Sabininha, o Vasco fechou a porta, para fazer uma solidão propícia, e cruzando formidavelmente os braços, atirou-lhe esta interrogação: — Quais são as suas ideias a respeito da família? Artur, interdito, balbuciou: — Eu, parece-me que é uma instituição respeitável. — De modo que um peralvilho que atenta contra a paz do lar, é um canalha? — Parece-me que é um canalha! — Muito bem. E se o Sr. Corvelo fosse legislador, que penalidade lhe infligiria? Artur passou os dedos pela testa, confuso, procurando penalidades: — Eu, parece-me que o castigo actual do Código é suficiente... Três ou quatro anos de cadeia... — Muitíssimo bem! — exclamou o Vasco apertando-lhe a mão. — Estimo que se não afaste desses princípios respeitáveis... E num reconhecimento às Corvelos, por possuírem um sobrinho de tanta virtude doméstica, pesou um quarto de rebuçados, encartuchou-os e exclamou: — Para as senhoras suas tias, da minha parte. Compreendo o gosto que fazem em V. Exª.

Foi por esse tempo que o Vasco, desgostoso com todos os praticantes moços que tivera, e que invariavelmente tramavam contra a sua honra, obrigado ultimamente a despedir o hábil Alfredo, por ser «atiradiço», concebeu um plano — que dali a dias foi muito gravemente comunicar às Corvelos. Era tomar Artur como seu praticante: oh, ele bem sabia que um moço de tais talentos, com dois anos de Coimbra, merecia uma posição mais elevada na Sociedade. Mas enfim, o Sr. Artur estava ali na vila, inactivo, comendo o pão das titis... O seu desejo de o possuir era tão forte, que lhe oferecia sete mil e quinhentos por mês! De resto, a farmácia era uma Ciência. Ele estava velho, minado do fígado, ávido de repouso, e se o Sr. Artur revelasse talentos verdadeiramente farmacêuticos, poderia mais tarde passar-lhe a botica, a melhor em todo o distrito. Demais a mais, não seria difícil, em alguns meses, com os estudos que ele tinha, iniciá-lo na manipulação dos elementos químicos «que é de tanta responsabilidade, minhas boas senhoras...». Foi uma alegria violenta para as tias. Ainda o Vasco ia no pátio, já elas estavam batendo à porta do quarto de Artur, que se aferrolhara por dentro na composição ardente de quadras entusiastas: Eu quero uma existência fulgurante! Mover-me livre sob o livre céu! Quero a glória épica do Dante E os amores sublimes de Romeu... Ficou petrificado, quando Ricardina, enternecida, lhe anunciou a proposta do Vasco, daquele santo! Praticante de farmácia! Parecia parvo, de pena na mão e os cabelos esguedelhados, rolando assim dos céus poéticos onde pairava até aos almofarizes da botica do Vasco! — É uma ocupação para ti — dizia Ricardina. — Tens ao menos para o teu fumo e para as tuas extravagâncias... — ajuntou Sabina. — Que nós, mesada, não te podemos dar. E quando se te acabar o luto, nem tens para mandar

fazer um casaco... E são sete mil e quinhentos... Não podia recusar-se a trabalhar: balbuciou lugubremente que «sim». Mas a desconsolação que lhe murchara a face magra foi tão visível que comoveu a tia Sabina: — É para o teu bem — murmurou. — Que, se fôssemos ricas... Mas enfim, se te custa muito... — Que há-de custar? Que há-de custar? — exclamou Ricardina. — Aí vem a mana com as suas coisas! Olhe o despropósito. Se a deixassem regular-se pela sua cabeça, não iam nesta casa senão desgraças. Veja onde a levou a sua cabeça... Veja o desgosto que sofreu! Vai muito bem, é uma fortuna para ele. — Sim, tia Ricardina, obrigado. Até estimo... Quando elas saíram despedaçou os versos. E até ao jantar, movendo-se pelo quarto, tomado de desespero, pensou em fugir de Oliveira de Azeméis. Tinha a certeza de que o seu gênio, na frequentação do Vasco, entre os unguentos e os bocais, pereceria como um lírio desfolhando-se numa caverna. Por que não iria para Paris, ser operário, amar uma Mimi republicana do Faubourg St. Antoine e conspirar contra o Império? Pensou em ir para Lisboa, fazer-se escudeiro numa casa fidalga, onde a sua figura e as suas réplicas profundas, lhe dariam bem depressa o amor da senhora condessa ou da mulher do banqueiro... Mas tinha as desesperações superficiais — e daí a dias, com o casaco de laboratório que pertencera ao hábil Alfredo, preparava resignadamente, sob o olhar paternal do Vasco, a sua primeira garrafada de mistura salina. Consolava-se achando, na sua sorte, similitudes com biografias ilustres: pensava em Michelet impressor, em Proudhon conduzindo pelo Ródano carregações de madeira; lembrava-se da frase de Damião: «o homem moderno deve trabalhar com as suas mãos e filosofar com o seu cérebro». Depois, eram sete mil e quinhentos por mês... De resto o trabalho era breve. O principal negócio do Vasco consistia numas pastilhas peitorais que inventara e de que fornecia todo o distrito. À noite, dispensava Artur: a essa hora D. Galateia descia à botica e o Vasco, apesar da sua confiança na virtude heróica do novo

praticante, não queria, por sistema, depois do lusco-fusco «corações de vinte anos na botica». Temia sobretudo a noite, como mais propícia às fraquezas ternas e à passagem de bilhetinhos sub-reptícios, destruidores da sua honra. Depois, veio-lhe outra felicidade. Uma manhã que estava só na botica, a porta abriu-se, como arrombada, e apareceu o colosso do Teodósio. Viera à vila de passagem: vinha buscar pastilhas do Vasco para uma «pequena que se lhe encatarroara»; fez estalar os ossos do caloiro com um abraço, chalaceou sobre a botica, convidou-o a ir à quinta, e, ouvindo-o queixar-se do aborrecimento da vila, da falta de livros, exclamou divertido: — Ah, caloiro, é isso que te falta? Caramba, está a calhar! Eu trouxe dois caixotes atulhados de livraria, mas lá na quinta não me servem de nada... Se queres, mando-te para cá um caixote... Ou ambos! Tem cuidado com as encadernações, que lá nisso faço gosto.— Dásme a vida, Teodósio! — Pois valeu, caloiro! A chegada dos dois caixotes, uma tarde, foi um alvoroço na casa das Corvelos. Artur precipitara-se, em cabelo, da farmácia. E Ricardina, que subira ao quarto a ver-lhos destapar, aterrou-se diante daqueles montões de volumes amarelos, em que decerto se deviam tramar coisas contra a Religião: — Tu vais tresler, menino... Olha não te faça mal! Depois do chá, aferrolhou-se no quarto, atirou-se ao seu tesouro, sofregamente, como se tivesse achado no quintal uma panela de dinheiro. Eram romances, poemas, críticas, dramas, filosofias... Mas só os poetas o atraíam e ia através dos volumes espalhados na cama, lendo uma página ou uma estrofe, logo passando a outra, ávido de versos sonoros, de diálogos, de adjectivos ricos, e cada livro lhe renovava aquela exaltação especial do tempo de Coimbra, acordando-lhe na alma antigos entusiasmos do Cenáculo. Com Vítor Hugo, sentiu-se outra vez panteísta, confundiu-se na alma Universal do Ser, declamou: Arbres, rochers, roseaux, tout vit! Tout est plein de âmes!

Todo o platonismo dos meses em que amara idealmente, lhe voltou, com languidezes elegíacas que lhe passavam na alma, relendo em Lamartine: Un soir, t'en souviens tu, nous voguions en silence! E os Iambos de Barbier fizeram-lhe bater o coração de novo, com as aspirações de uma democracia lírica: La liberté em est pas une comtesse Du noble faubourg St. Germain, Que le son de un fusil fait tomber en faiblesse, Qui met du rouge et du carmin. C'est une forte fille, aux puissantes mamelles, Aux mains rouges et teintes de sang! Leu toda a noite, sentado aos pés da cama, respirando a largas golfadas, com a delícia de quem sai de um cárcere, a atmosfera que o envolvia, feita das emanações de Ideal, exaladas daqueles volumes românticos. E era, entre aquelas paredes do seu quarto, como uma região luminosa, acima da terra, onde não havia tias nem farmácias, onde o sopro das paixões grandiosas se casava à música dos ritmos novos e em que ele se movia arrebatadamente por entre as criações da Arte. Ali, palpitavam no éter as asas de Eloá; a um canto de taverna romântica, vibrava o riso lúgubre de Rola; além, a cotovia cantava no jardim dos Capuletos; não havia uma carruagem que não levasse uma pálida Dama das Camélias; todos os animais eram poéticos como a cabrinha de Esmeralda e, nos cemitérios, Hamlet meditava, fazendo rolar sobre um chão trágico a caveira de Yorick. Quando a vela de sebo se derreteu no castiçal de latão, ficou desesperado. Queria prolongar aquela noitada romântica; então saiu pé ante pé, esguedelhado, raspando fósforos. No seu quarto, sob a proteção da sentinela, Albuquerquezinho ressonava; no corredor, os olhos do gato fixaram-no, fosforescentes e aterrados. Não encontrou candeeiro, nem vela... Foi ao oratório. Em cima de uma antiga cômoda com fecharia de metal, erguia-se um alto

crucifixo enegrecido dos anos, e em redor apinhava-se toda uma corte celeste, de barro, de massa e de madeira... Uma lamparina ardia perpetuamente aos pés do crucifixo, e naquela alcova abafada, o reflexo da torcida punha uma vaga claridade mística em redor, na auréola pálida de uma santa, no dourado lívido de um Menino Jesus, na brancura de uma renda de toalha, na encadernação canônica de um velho in-fólio. Errava um cheiro adocicado de junquilhos secos, de cera e de maçã camoesa... Artur arrebatou a lamparina, deixou os santos nas trevas, e todo o resto da noite, aquele pavio devoto, habituado a erguer a adoração da sua luzinha para as chagas de Jesus ou o burel de Santo António, alumiou páginas profanas, cheias dos gritos da Paixão e das rebeliões da Dúvida. Adormeceu quando a madrugada aparecia nas frinchas da janela, e sonhava que ia remando num barco, com o Taveira, por um rio de legenda, seguindo o corpo de Ofélia que a corrente levava... quando acordou estremunhado, aos gritos da tia Ricardina, que abrira a janela e apertava as mãos na cabeça, atônita, diante da lamparina seca: — Tu queres-me matar com desgostos, menino! — gritava sufocada. — Pois tu tiraste a luz do oratório? Artur explicou que fora uma dor de barriga. — Se ele se achou doentinho... — murmurou logo a tia Sabina, que entrara atrás dela, assustada. — Não há doenças! Que chamasse! É um desacato! É um desgosto que me há-de levar à cova. E a primeira vez, em quarenta anos... Como pode alguém esperar a ajuda de Nosso Senhor, se até se lhe tira o bocadinho de luz! Não me venha com as suas, mana Sabina! A sua cabeça bem a conheço. Olhe o que ela lhe custou. Veja o desgosto que sofreu! E saiu aos ais pelo corredor. Cercado de livros de versos, Artur julgou ter-lhe voltado de novo a «veia», sobretudo, talvez, porque a celebridade, o prestígio poético que eles tinham dado aos seus autores, lhe excitava a ambição. Decidiu reunir, pacientemente, um volume das suas poesias, a que daria o título cintilante de Esmaltes e Jóias! E, antes mesmo de o compor, já o coração lhe batia à ideia de ver o seu livro na vidraça dos livreiros, com uma capa cor-de-rosa. Decidiu que lhe

juntaria o seu retrato, numa atitude de cabeça contemplativa: decerto alguma mulher inteligente o amaria, pela nobre melancolia que os seus olhos revelavam... E a sua vida seria uma continuação de beijos arrebatados e de rimas sonoras. Mas os meses passaram, naquela vida de uma regularidade triste de pêndulo, entre a casa e a farmácia — e o grosso livro encadernado, onde ele devia copiar os Esmaltes e Jóias, permanecia ainda quase todo branco. Lá estavam os três poemas que o Pensamento acolhera: Ofélia, A ti — que era a Aninhas Serrana, amada — e Mulher de Mármore — que era a Aninhas Serrana, odiada! Em obediência a Damião, produzira ainda uma Ode à Liberdade. Oliveira de Azeméis forneceralhe A Lua, Delírios e Pôr-do-sol. Mas depois destes esforços, a corrente de imaginação, onde flutuavam fragmentos de sonetos, pedaços de imagens, fora-se pouco a pouco imobilizando, como um regato que gela. Às vezes, julgava que era o assunto, a matéria poética que lhe faltava, e ia rebuscá-la pelos livros amados; e quando, depois de uma leitura das Orientais, imaginava que o Oriente e o seu pitoresco lhe inspirariam estrofes ricas, ou, depois de uma página de Vigny, lhe vinha o entusiasmo de cantar o amor dos anjos — era a expressão, o verbo que lhe fugiam. Então, desesperado, acusava a monotonia da vila triste que o esterilizava. Ah, se estivesse em Coimbra, em Lisboa sobretudo! Lá, entre os jornalistas, a Opera, os poetas, o seu cérebro que, agora, lhe parecia uma pedra que apesar de muito batida guarda obstinadamente a sua faísca, flamejaria então numa inspiração contínua. Mas não desistia, sustentado pela ambição histérica de ver o seu nome em folhetins, de ser admirado pelas senhoras sensíveis — e as tias não compreendiam o que ele fazia, passeando até altas horas pelo quarto, consumindo regularmente uma vela de sebo por noite, enquanto o Albuquerquezinho, que era doido, esse, no quarto ao lado, ressonava sensatamente! A tia Sabina, um dia, descobriu que o menino fazia versos, e veio perguntarlhe, em segredo, se era para alguma senhora de Coimbra. Quem era? — Não é para nenhuma senhora, tia Sabina. São versos. É para um livro... Ela não acreditou, ameaçou-o com o dedo, meigamente: — Ah, menino! menino!... É da tua idade, filho, é da tua idade! Mas Ricardina, essa, desaprovou com espalhafato «o despautério do menino». E era

para isso, para fazer versos, que assim arrasava a saúde, deitando-se de madrugada e trazendo aquela cara esverdeada! Que visse onde os versos tinham levado o tio Teotónio! E era um talentão, esse, íntimo de fidalgos, conhecido na Corte! Pois por lá morrera, numa enxerga de hospedaria, com uma camisa na mala e um montão de papelada!... E no seu horror à Poesia, que ela considerava a origem fatal da fome e do vício, pediu ao Vasco que trouxesse o menino a ideias mais sérias, mais práticas, de carreira e de futuro. O boticário felô em frases muito graves, muito meditadas: se o Sr. Corvelo gostava de empregar os seus vagares, como era justo na sua idade, por que não unia o útil ao agradável? Por que não estudava a bela Física, e bela Química, que lhe seriam de tanto auxílio no seu futuro farmacêutico? E acrescentou com bondade: — Eu não digo, quando se tem já uma posição na sociedade e alguns vinténs de lado, que não seja bonito poder produzir um bom acróstico, ou, sem malícia, um engraçado epigrama... Mas fazer da poesia a principal ocupação, não! Desculpe-me o Sr. Corvelo, mas é uma grave imprudência e há-de concorrer para o desviar dos seus deveres! Artur empalidecia de raiva. Só na tia Sabina encontrava simpatia. Essa, desde a descoberta do caderno dos Esmaltes e Jóias, parecia estimá-lo mais, como se a habilidade poética fosse uma evidência da ternura da alma. Um dia, mesmo, quando ela estava arranjando o seu gavetão, a doce velha tirou de entre um livro de orações um papel amarelado, de dobras muito gastas e com mistério pediu-lhe que o lesse: mas baixinho! Eram versos, versos à tia Sabina, versos datados do Porto, de 1841! Eis chegado o momento de partir, Dor e luto se apossam do meu ser; Longe de ti, ó anjo feiticeiro, A vida é treva, não posso viver. E havia doze quadras neste estilo, trabalhadas ao gosto do tempo, misturando fanatismos de amor e palpites de morte às melancolias do Outono e às tristezas da separação. Artur disse, sorrindo, numa complacência de mestre amável:

— São bonitos, tia Sabina, estão bem-feitos... A velha dobrou silenciosamente o papel: — E eram verdade nesse tempo, filho — murmurou por fim. — Quando a gente é nova! Artur teve vontade de a abraçar! O seu acanhamento reteve-o. Mas estimou-a mais desde então: quase desejava contar-lhe as suas melancolias e as suas ambições; mas vendo-a depois, à noite, cabecear com sono sobre a mesa, ou, na sombra do Oratório, enfiando SalveRainhas, sentia que a pobre velha não o compreenderia. Agora, incessantemente, ansiava por alguém com quem desabafar! Desejaria ler os seus versos, aquecer-se a uma admiração amiga, falar dos seus poetas queridos, de entusiasmos, de aspirações revolucionárias. Mas à casa das tias só vinham os Vascos, e a botica era frequentada apenas por um velhote caturra e obsoleto, o Sequeira, e por um proprietário, o Abreu, que todas as tardes, apoiado ao castão da bengala, murmurava sombriamente as mesmas palavras: «Então, que há de política? As coisas vão mal, as coisas vão mal...». Na vila, havia, na verdade, dois moços bacharéis, mas Artur não os conhecia: eram da Assembleia, das famosas soirées das Carneiros, que todos os sábados faziam brilhar na praça escura as três sacadas nobres da sua casa. Muitas vezes, passando por lá, considerava-as com azedume, pensando como lhe seria fácil cativar ali as senhoras, recitando, tendo ditos poéticos. Mas excluíam-no daquela sociedade brilhante a obscuridade das tias e a sua posição subalterna na farmácia; consolava-se então, pensando que seria aquele um mundo burguês, ocupado das intrigas da vila, indiferente à arte e incapaz de sentir em concordância com ele. Mais-valia a sua solidão de alma incompreendida. Porém, nas noites em que se sentia «sem veia», quando odiava os livros — como se a sua esterilidade lhe tornasse antipática a abundância dos eloquentes — aquele isolamento completo amargurava-o como um desterro numa rocha deserta. A nostalgia de Coimbra, das cavaqueiras poéticas do Cenáculo, daquela vida intensa que lhe parecia agora sublime, voltava-lhe mais pungente; e ávido de poetas e de filósofos, tinha de vir sentar-se entre as tias, fazendo as suas meias sonolentas, e o Albuquerquezinho, compenetrado, elaborando paciências ou revistando o álbum das esquadras. Se ao menos tivesse uma irmã, inteligente e

poética! Fazia-o suspirar, cerrar os olhos, a ideia de uma mulher de alma romântica, que o amasse, recebesse, reconhecida, a revelação das suas sensibilidades e para o acalmar lhe soubesse tocar ao piano melodias de Weber ou árias de Mozart! Foi esta necessidade de convivência literária que o levou, decerto, a ligar-se com um sujeito da vila, apesar de haver entre ambos um contraste radical de temperamento, de gostos e de compreensão da vida. Chamavam-lhe em Oliveira de Azeméis o Rabecaz. Era um homenzarrão, de carão audaz e vermelho, fortes bigodes de mosqueteiro, muito teso no seu casaco de alamares debruado de astracã; com o seu chapéu ao lado, a ponta do lenço muito de fora, o grande bengalão de cana-da-índia, parecia a Artur — quando o via passar na praça, revirando para as criadas que iam à fonte os olhos avermelhados de genebra — um destes mestres de armas, capitães a meio soldo, azedados e turbulentos, dos romances de Eugénio Sue. Era empregado da Administração e ninguém sabia como se achava ali havia dez anos. Porque era de Lisboa, amaldiçoava Oliveira de Azeméis; mal sabia redigir uni ofício e trovejava livremente contra os governos. Era um bilharista famoso na vila, grande homem do botequim da Corcovada, onde ficava, das quatro da tarde até à meia-noite, carambolando, atirando para as fauces copinhos de genebra e falando com autoridade de política e de mulheres. Foi ali que se encontraram, uma noite em que Artur, ao passar, se refugiara de uma pancada de água no bilhar quase deserto. O Rabecaz, que batia melancolicamente carambolas solitárias, propôs a Artur uma partida às vinte e cinco. — Que V. Exª, como frequentou Coimbra, deve ser da confraria do taco. — Jogo mal. Mas aceitou, com uma curiosidade daquela figura que tinha em Oliveira um relevo pitoresco. E, carambolando, conversaram. O Rabecaz, imediatamente, injuriou o governo — e a simpatia nasceu de se reconhecerem ambos republicanos. No entanto divergiam: Artur queria os Estados Unidos da Europa, governados pelos grandes gênios: Vítor Hugo devia presidir à França, Castelar, à Espanha; não haveria exércitos e os povos federados sentar-seiam fraternalmente em banquetes simbólicos, cantando a Marselhesa. Rabecaz exigia um Robespierre, um Cromwell, para guilhotinar os fidalgos, confiscar os bens dos capitalistas e

escavacar os padres! — Nem barões, nem sotainas! — berrou, brandindo o taco. — Pelo que vejo — disse Artur — V. Exª é da escola de Proudhon. — Eu não sou da escola de ninguém, meu caro senhor. Eu sou uma fera! Quando penso no estado a que chegou este pais, sou uma fera! Trovejou então contra o clero: — mas não concordavam também sobre questões religiosas. Artur entendia que se devia adorar a Natureza, nos campos, diante do Céu, templo eterno, e admirava Jesus, filósofo e democrata! Rabecaz não admitia Jesus — «porque, uma de duas, meu caro senhor, ou era um Deus e então tinha o poder de se não deixar matar, ou não era um Deus, e então não podia ter ressuscitado: porque deixar-se matar, para ter o prazer de se fazer ressuscitar, parecia-lhe uma trica política, imprópria de um ente divino!» E pousando o taco, convidou o Artur a cear. A Corcovada tinha ao fundo, para os íntimos, entre a cozinha e a estrebaria, um cubículo com uma mesa de pinho e mochos de palhinha. De uma parede pendia o retrato de Pio IX, de mão erguida numa bênção; defronte, numa litografia colorida, uma odalisca seminua enfiava pérolas. Ouvia-se ao lado rabujar os netos da Corcovada, estalar na lareira a lenha verde e as mulas dos almocreves, puxando a argola das manjedouras, baterem o chão lajeado. Rabecaz encomendou à Mariquitas, sobrinha da Corcovada, «a bela fritada de ovos e chouriço e dois meios litros reais». E indicando, com um piscar de olhos, a rapariga sardenta e roliça: — Boa perna! Escarrou para o lado, e, instalando-se à mesa, quis saber a opinião de Artur «sobre o gado». — Que gado? — O gado, o femeaço... A expressão brutal escandalizou as delicadezas de Artur e o seu desprezo por Rabecaz foi completo quando o ouviu declarar, com o olho lúbrico, que o que apreciava no gado eram «as boas carnes».

— O amigo nunca esteve em Lisboa? — Não, disse Artur. O Rabecaz deu uma palmada na coxa: — Então, meu caro senhor, não sabe o que é gado! Não faz ideia do que é um pé catita! — E com uma punhada na mesa: — Então, não sabe o que é a pândega! Falou imediatamente de si. Tinha vivido em Lisboa, ele, com cavalos, com cadeira em S. Carlos, com carruagem! Fora um príncipe! No tempo em que Madama Ortza era uma beleza e o Marrare um céu aberto! Que batidas para as Portas de Algés! Que orgias com a Contadini! — Comi tudo, mas regalei-me! — disse, dando um puxão ao bigode. Artur considerava-o agora com interesse, como uma ruína romanesca. — O Sr. Rabecaz então devia conhecer bem Lisboa... — Lisboa? Bebeu um trago «real» e passando pelos beiços as costas da mão cabeluda: — Meu caro senhor, conheço Lisboa desde o mais alto — e o seu gesto no ar parecia designar dosséis de tronos — até ao mais baixo! Ao mais baixo! — E agitava a mão sob a mesa, como revolvendo lamas. Rabecaz adquiriu logo para Artur uma autoridade imprevista, por aquela experiência tão complexa da grande cidade, das suas glórias. dos seus mistérios. Naturalmente tinha convivido com escritores, com artistas... — Grande rapaziada! — exclamou Rabecaz. – Conheço-os a todos, de tu! Belos pândegos! Citou nomes. O José Estêvão! O Garrett! A Sociedade do Delírio! Uma troça real! Mas voltou com fogo às mulheres: — Não há como Lisboa para se apanhar do bom, do alto! Tudo sedas e veludos! – E repoltreava-se, retorcendo as guias, significando que se rolara no leito de condessas. – E as espanholas, ó amigo, hem? E as espanholas? O olho chamejava-lhe. Para ele, não havia como uma rica andaluza, cheia de salero e de chic, de cinta de anel, pezinho catita... Oh! menino!

Deu um puxão às calças, bufou de concupiscência. — Agora aqui é chupar no dedo! — concluiu sombriamente. — Que choldra de vida! Até um homem aqui ganha mofo... — A mim, paralisam-se-me as faculdades... — E eu estou a perder a tacada... Estes gostos baixos, as locuções incultas de Rabecaz, revelaram a Artur um brutal que o dinheiro, a petulância, tinham misturado casualmente às existências desordenadas das almas ardentes. E, preocupado só do mundo da Arte e da Literatura, interrogou-o ainda sobre os teatros, as dançarinas. Devia ser uma vida deliciosa nos bastidores... ceias com os jornalistas... — Um delírio, meu caro senhor! De tremer! De vir tudo abaixo! E Artur entrevia orgias sonoras, o estalar do champagne, can-cans, em que cabelos soltos perfumam o ar cálido... — E vive a gente aqui! — suspirou. — Na estrumeira! — ecoou Rabecaz. E azedados à ideia das felicidades inacessíveis, uniam-se numa simpatia nascente. A Artur, o que lhe valia eram os livros. Recolhia cedo a casa, tomava o seu Vítor Hugo...Rabecaz arregalou os olhos. — Vítor Hugo! — rosnou com uma voz cava. — Um mundo! Aquela admiração, precisada numa palavra profunda, entusiasmou Artur. E com a pupila acesa, os cotovelos na mesa: — Pois não é verdade? As Contemplações! Os Miseráveis! E Lamartine? O Rabecaz alargou os braços, como para designar um seio de proporções mais que humanas e soltou: — Lamartine? Um mundo! — O tipo de Elvira, hem? E o tipo divino de Graziela? Mas Alfredo de Musset? Oh! Alfredo de Musset! O Rabecaz refletiu, com um vinco na testa:

— Desse não estou ao facto... Mas Guizot! Um mundo! De tremer tudo!... Mais dois quartilhos, bela Maria... Eram onze horas quando saíram da Corcovada. Ao passar diante da Igreja de S. José, Rabecaz, excitado, insultou os padres, disse pilhérias sobre os dogmas. — Para que serve isto, este covil? — E brandia o bengalão para a fachada da igreja negra e muda. — Deviam ser convertidas em escolas — disse Artur. O Rabecaz, indiferente à instrução, encolheu os ombros: — Devia ser tudo arrasado. Depois, a casa do Carneiro, o rico lojista de panos, coberta de azulejos, com as suas três varandas de sacada, exasperou-o. — Grandíssimo burro! Se nós lhe apanhássemos o dinheiro, hem? Era logo comboio para Lisboa, e bater para o Clube, com um par de pequenas. Enterrou as mãos nos bolsos e tornou-se sombrio. A chuva cessara: um vento frio ia rolando espessuras de nuvens, espaços azuis estrelavam-se. — Pois tivemos uma bela cavaqueira — disse o Rabecaz, quando Artur parou à porta de casa. Eu gosto de conversar com quem me entenda e cá o amigo é dos meus. Apareça pela Corcovada. Não se passa mal. E avistando um gato, atirou-lhe uma bengalada. Aquela brutalidade escandalizou Artur. Deitou-se, convencido que o Rabecaz era um grosseiro, sem educação literária, de uma lubricidade de bode. Mas vivera em Lisboa, bebera o Champagne das orgias literárias; sobretudo, era republicano — e, daí a dias, Artur voltou à Corcovada, com o pretexto de pagar a ceia ao Rabecaz — realmente para lhe mostrar a sua Ode à Liberdade. O Rabecaz entusiasmou-se logo, sobretudo quando Artur, afogueado, soltava este final da sua estrofe amada:

Luze o novo arrebol Em vez do templo o livro! Em vez da estola a pena! Ao perfume do incenso, prefiro o da vérmina Prefiro à hóstia, o sol! Rabecaz atirou uma punhada à mesa, bradou: — Caramba! Isso é de artista! Você o que deve é ir para Lisboa, que em Lisboa desbanca-os a todos! Artur não o duvidava — e essa palavra cimentou a intimidade entre ambos. Aquele aplauso tornou-se-lhe então necessário. Rabecaz era o seu público; julgava-o inteligente, de gosto muito certo, desde que ele admirava os seus versos; leu-lhe sucessivamente todas as poesias dos Esmaltes e Jóias e para o lisonjear nas suas antipatias clericais — espírito efeminado, já adulava servilmente os instintos do seu público — compôs uma sátira contra os padres, a quem chamava negros serventes de um estéril dogma. O seu cérebro pareceu degelar ao sopro quente daquela admiração grosseira; fez sonetos; e o que escrevia agora era sob a preocupação «do que diria o Rabecaz». E, todavia, era sempre a mesma a fórmula critica do Rabecaz; escutava com os braços cruzados, nobilitando a sua atitude na presença das rimas: se a poesia era lírica e amorosa, tinha um riso mudo que lhe enchia a face de rugas, lhe mostrava a dentuça negra, e arrastando a voz com deleite: — Está catita! Se era «uma peça filosófica», arregalava o olho, o nariz alongava-se-lhe, eriçava-se-lhe o bigode e rosnava cavamente: — Está de arromba! E terminava por exclamar, com uma palmada no joelho: — Caramba, Artur, você deve ir para Lisboa! Você vai a ministro! Artur suspirava. A certeza que o Rabecaz lhe dava da celebridade em Lisboa — ele que a conhecia tão completamente — inflamara-lhe o desejo de lá viver e ser uma das suas personalidades

essenciais. Lisboa era agora a sua necessidade, o seu ideal, a sua mania. Pensava que lá, na Capital, as suas faculdades se desenvolveriam prodigiosamente, como certas plantas raras que só medram em terrenos ricos; aí encontraria decerto as glórias do coração em amores aristocráticos, e, discutido nos folhetins, recitado nos teatros, muito alto na hierarquia das letras, poderia talvez extrair uma fortuna dos cofres dos editores! Tudo o que o cercava e o retinha, a casa das tias, a farmácia do Vasco, lhe parecia então mais odioso; tudo na vila lhe dava uma sensação de obscuridade que o abafava — as ruas que se lhe afiguravam estreitas como as ideias, as fachadas que eram inexpressivas como os rostos; detestava aquela gente que nunca leria os seus versos, e que decerto o desprezava: o fiel de feitos que ao meio-dia passava na praça, com o seu saco de lustrina cheio de autos e o Carneiro que, de robe-de-chambre, a face próspera e farta, fumava o seu charuto à varanda... E trabalhava num ardor contínuo, forçando a imaginação difícil, ávido da terminação dos Esmaltes e Jóias, como se eles fossem o fim de todas as suas desesperanças. As tias, o Vasco, achavam-lhe uma «cara de desenterrado» e as pessoas que moravam na praça, olhavam quase com compaixão aquele moço triste, que passava de manhã e à tarde, de olhos baixos, cabelo muito comprido, encolhido no seu paletot cor de pinhão. Andava, num desabafo, compondo uma Epístola em quadras, dedicada ao poeta que disse: Eu nunca vi Lisboa e tenho pena... Artur, sem o conhecer, tratando-o de tu, numa familiaridade de Parnaso, comungava na mesma ambição. E nas manhãs em que não havia trabalho na farmácia, era pelo seu quarto um passear desordenado, declamando: Também eu nunca vi Lisboa, amigo. Profunda Babilónia junto ao mar! Oh! que me fosse dado ir lá contigo Unidos ambos para cantar e amar!

E ao lado, do peitoril da janela, estendendo o braço agaloado de ouro, o Albuquerquezinho berrava num acesso: — Orça a barlavento! Cerra os traquetes da gávea! Fogo! Um sopro de loucura parecia correr naquele andar da casa, enquanto em baixo, na sala, as tias faziam a sua meia e o gato branco dormia, numa réstia pálida do sol de Novembro. Foi por esse tempo que Artur recebeu do Porto, do seu padrinho, o rico Guedes Craveiro, uma carta estranha, em que lamentava, ainda depois de dois anos, «a morte fatal do meu nunca de mais chorado amigo Manuel Corvelo», falava misteriosamente «de um desgosto cruel com que a Providência o visitara o mês passado» e prodigalizava frases devotas, pedindo a Artur que o não esquecesse nas suas orações. Em post-scriptum, dizia que passaria em Ovar no sábado, em viagem para Lisboa e seria uma alegria para o seu coração, poder apertar nos braços e conhecer seu estremecido afilhado! Foi um espanto para Artur. Nunca vira o padrinho Guedes. Lembrava-se que em casa, em Ovar, lhe chamavam o carola; mais tarde, durante umas férias, seu pai, voltando do Porto, falara dos escândalos que dava nesse momento o Guedes... Era uma história triste: o pobre Carola, numa dessas paixões brutais que fazem irrupção, por vezes, numa existência devota, apaixonara-se furiosamente por uma Lola, comparsa de zarzuela do Baquet, e teria decerto acabado por casar com ela, se Lola não tivesse já um marido, um bandido, que se instalara na quinta do Guedes, lhe bebia o vinho, lhe vestia a roupa branca e lhe arrancava dinheiro com ameaças de suicídio. Desde então, não soubera mais do padrinho, o Carola, o amante de Lola! O que significaria esta ternura inesperada, esse «desgosto», tantas declamações lúgubres? Ricardina decidiu Logo que o menino devia ir à estação de Ovar no char-à-bancs da carreira. Sabina lembrou que Arturzinho lhe levasse um frango frio «para o homenzinho cear na jornada». — O homenzinho, menina? — exclamou Ricardina. — O homenzinho? Boa! É um dos cavalheiros mais ricos do Porto! Tem trens, tem tudo!

E o Rabecaz, informado, concluiu com autoridade: — Deve ir a Ovar. E fazer-lhe tagatés. Se o sujeito tem uma pequena espanhola, é homem de gosto, é cá dos nossos. E oiça cá, se a pequena vier com ele, não se me faça acanhado. É grande cortesia dizer-lhe: Salero! Viva la gracia! Eu conheço as espanholas, gostam disso!

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Leia gratuitamente A Capital, romance póstumo de Eça de Queirós, preparado em capítulos para leitura online no Literunico a partir de fonte textual conferida contra registros MEC e Imprensa Nacional.

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