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Inspirações do Claustro

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Inspirações do Claustro

Capítulo 6 · Inspirações do Claustro

Meditação

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Isto pensava, isto escrevo, isto tinha n'alma, isto vai no papel: que doutro modo não sei escrever. GARRETT. I Gosto de meditar de noite, às vezes, Como um infante, Espasmado no olhar, fitando o corpo, Que tem diante. Gosto de meditar de dia, às vezes, Como o ancião, A quem idéias se erguem do passado Em borbulhão. O infante, o ancião!—os dois extremos Da existência; Um à vida, outro à morte, iguais amostram Igual tendência. Este é planta mimosa, delicada, Esperançosa: Aquel'outro hasteada e quase murcha, Colhida rosa. Este promete e cheiro e viço e ramas. Flores ao cento; Aquel’outro esgalhar espera as folhas A certo vento. E muitas vezes o sol cresta a plantinha, Denuda e mata: E vinga a planta antiga, — e quase morta Revive intacta. O velho então é como o infante estúpido, Que nasce agora: Magina mil visões: sem causa ri-se, Sem causa chora. Se fui infante estúpido e pasmado, Adulto louco: Se hei de ser velho, sem sentir, sem alma, Daqui a pouco. Antes quisera ser infante, — quase Sem sensações: Não tora ao menos cônscio de remorsos, Nem decepções. Fosse por toda a vida infante néscio, Sem consciência: Morresse alfim apenas circunscrito Em minha essência. II Por que e para que rompeu meu corpo Do embrião? Que melhor que não fora me abafasse A compressão? Fora melhor. E o olho vil do hipócrita Não me veria: Franzindo-me o nariz atrás das costas, Não se riria. Fora melhor. E a seiva de amargores Não me coara, E a precoce da estação das dores inda Não me chegara. Fora melhor. E o estigma da tristeza Não me selara. Melancólica ronha os rins sensíveis Não mos gastara. O coração não fora um grosso livro De negras laudas. Não me açoitara a hidra dos remorsos Co'as férreas caudas. Não me fora sem flores a existência Contínuo inverno. Não me fora este mundo um campo estéril, Páramo eterno. Onde só nascem, crescem e vicejam Males sem conto. Donde se ceifa antecipado pranto, Enojo pronto. Porque e para que rompeu meu corpo Do embrião? Pela miséria, e para a morte interna Do coração! E o Deus, que tem por escabelo nuvens De ouro e marfim, De ofendido, parece deslembrado, — Triste! — de mim! Deus! para que tiraste-me do imo Do embrião? P'ra vida de minha alma, — ou para a morte Do coração? III Oh! morra o coração, — gérmen fecundo De mil tormentos. Desfaleçam-lhe as fibras, — espedacem-se Os filamentos. Isenta de paixões, — de amor, ou ódio, Surja a razão. Não obedeça escrava aos sentimentos Do coração. Torne-se o coração lâmpada extinta, Cinza no lar. E deixe que a razão veleje livre Em largo mar. Creia num Deus, — e dos dulçores goze De almo ascetismo. Não mais lhe roa as vísceras o cancro Do cepticismo. A dúvida infernal, batendo as azas, Perdendo as cores, Precipite-se súbito nas chamas Exteriores. Sepulte-se a descrença em negras trevas De negro inferno. Creia a razão convicta nas justiças Do Deus eterno. Sim: o viburno pequenino, humilde No prado agreste, Vegeta ao pé da realeza enfática De alto cipreste. E Deus, que vivifica o alvar pinheiro E a tenra planta: Que os soberbos calcina, e que os humildes Do pó levanta: De minha vil baixeza, como os homens, Ah! — não se peja; Que ele mão cheia de mil dons em todos Largo despeja. Mas se ‘té 'qui parece deslembrado, Triste! — de mim: Se não manda aguardar minh'alma dúbia Um querubim: Se nunca se lembrar que um ente existe Nessa amargura, Melhor não fora me gelasse o sangue A morte dura? Em sala, onde mil luzes por mil lâmpadas Reparte o gás, Delas a mais pequena que se apague Que mal que faz? IV Qual rápido relâmpago no espaço Sói discorrer, Tal, sem deixar pegadas de seu vôo, Foge o prazer. Foge o prazer como a andorinha leve Os ares corta: Como o primeiro feto — esperanças suas — A esposa aborta. Foge o prazer, qual seta que dispara Índio sagaz: Qual no deserto a voz, que um eco apenas Nos vales faz. Ali—bem vejo — ali pompéia esplendida A cena aberta. E da platéia os vácuos atacados O povo aperta. Jubilosas menções, palmas soantes Rompem, murmuram. Melíflua orquestra, tímpanos sonoros A dor lhes curam. Os vates das paixões enamorados, Como possessos, Trovam, filtrando em todos o requinte De seus acessos. Fugazes fadas no ademã fantástico Cisnes gorjeiam. Depois, prendendo-se a audição aos cantos, Todos pranteiam. Arrebatam-se as almas, — magnetizam-se Os sentimentos. Mudam de sua ação inda os mais frigidos Temperamentos. Letargia fatal! — ao outro dia Calmos acordam. E, sonâmbulos quase, — aéreas formas Só lhes recordam. A miséria da vida se lhes mostra Então real. Catam novos prazeres: nem um deles De mais lhes val'. Qual rápido relâmpago no espaço Sói discorrer, Tal, sem deixar pegadas de seu vôo, Foge o prazer. V Hora da noite, — hora solene e sacra Á reflexão: Quando do mesmo sono o pobre e o rico Dormindo estão. Gosto de vós, sombras da noite queda, Morte do dia, Que me amparais dos cálidos esgares Da hipocrisia. Posso então retrair-me em minha essência, Viver comigo. Não me rodeia do traidor a mascara Com cor de amigo. Profundo o olhar do hipócrita, —profundo Como o oceano. Na retina lhe luz das trevas cegas O anjo insano. Sorri também.—Este sorriso estrídulo, Oh ente vil, Por dá-lo mesmo assim fazes, empregas Esforços mil! Sorri também: e seu sorriso — escárnio — Da natureza. Seu sorriso — um prelúdio concebido De malvadeza. Quanta vez viração tépida e fresca Serena os ares, E procela depois revolta horrenda Terras e mares! Quanta vez mil delícias lá desmancha Vaivém da sorte! Quanta vez o prazer da vida incauta Precede à morte! Assim sorri o hipócrita um sorriso De fúria má. Mentiras, manhas ímpias seu demônio Grato lhe dá. Hipócrita, que pisas o palácio E a palhoça e a cela, Deixa de teus furores esquecida Uma parcela. Não me toques na orla dos vestidos Co'a férrea mão: Deixa-me entregue na soidão da noite Á reflexão. 17 de novembro de 1831.

Inspirações do Claustro

Sinopse

Inspirações do Claustro, de Junqueira Freire, é um livro brasileiro de poesia romântica publicado originalmente em 1855 e ampliado na segunda edição de 1867. A obra reúne o prólogo do autor, juízo crítico e poemas marcados pela experiência do claustro, conflito espiritual, imaginação religiosa e lirismo ultrarromântico. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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