Universo da obra
Universo da obra
Por ocasião da morte do venerando ancião, Frei Manuel da Piedade Borba. Eu não sou um historiador das coisas humanas. BOSSUET. I Eu vi-o, eu vi-o, — e o coração transido Retalhou-se-me então nas fibras intimas. Eu vi-o, eu vi-o, — escancarando a boca, Roncava na garganta engasgo horrendo. Eu vi-o, eu vi-o, — em contorções, em ânsias, Estrebuchando os membros impotentes. Não lhe era aspecto nas feições mudadas, E a voz apenas lhe restava rouca. Ele pedia — o velho agonizante — Pedia ainda do prelado a bênção. Tu só, consolo certo dos aflitos, Tu só religião, preciso culto, Tu lhe ministras varonil conforto, E os paroxismos agros lhe minoras. Oh! por que vem tão tarde, irremissível, Esse momento necessário e certo, Em que teu brilho fascinante assoma, Fatal verdade aterradora, — eterna! Como fulmíneo meteoro súbito, À fronte esmagas, quando leve a roças! Tremer fazia os íntimos dos ossos O grave som do compassado sino, Que do dioso encanecido velho A agonia fatal anunciava. Ungido foi co'o óleo sacrossanto: E em volta ao leito súplices murmuram Preces ardentes, orações piedosas, Que seus irmãos sinceros lhe repetem, — Pedindo a Deus e à Virgem mais que pura, Pedindo aos santos mártires celestes, Pedindo agora aos divinais pontífices, Aos confessores do afrontado Cristo, Ás puras virgens, e às mulheres castas, — Guardem-no pios da perpétua morte. Eu vi-o, eu vi-o, — em convulsão serena, — Quanto do justo o passamento é doce, — Desprender seu espírito cansado Da cadeia que o liga à vil matéria, E voar, e voar, com leves asas, Emanação de Deus, — de Deus ao seio. A derradeira paz — fraternos ósculos De seus irmãos já recebia o triste: Oh! fantasma da vida! como passas Rápido tanto! oh tempo mentiroso De existência falaz e momentânea! Homem há aí tão vão que inda confie Nesses teus ouropéis de podre glória? Há aí quem seja de razão tão fátua, Que eterno julgue teu brilhar efêmero, Que a tuas breves decepções se abrace? Há aí quem seja em seu olhar tão cego, Que pretenda esquivar-se à natureza? Loucos mortais! —onde esconder-vos livres, Que não vejais o querubim da morte, Galopando em alígero ginete, Co'a foice em riste, às fauces apontando? II Pelos claustros soturnos estrugia O grave e compassado andar dos monges. Eu te quisera ter presente agora A ti, vaidoso ateu, nas horas mortas. Eu quisera notar com línceos olhos De rasgo a rasgo os visos de teu rosto. Eu quisera apanhar, uma por uma, As contorções doridas, — as angustias, Que por tuas feições reverberassem. Tomara a consciência acovardada Sondar-ta sim, —porém prová-la, nunca! Não vês, não vês? — silenciosos, quedos, Em dois extensos renques se dividem: Talvez disseras que estes homens eram Negras estatuas, que emblemassem morte! Sonora voz levanta-se dentre eles, Convidando-se a virem contentíssimos Prostrar-se aos pés de Jeová potente. «Vinde, — cantavam, — vinde, e adoremo-lo.» Caíram todos, debruçados, curvos, Ante a face de Deus Tu, ente infame, Torpe ilusor dos próprios sentimentos, Não te curvas, — susténs de Deus a vista? Ah! perdoa-me o excesso, irmão em Cristo, Ateu não és, — que não nos há no mundo! Tu te prostras também — também caíste De joelhos em terra involuntário! Interna violência e força ignota Obrigou-te a ser homem por momento, Deixar de bruto a condição que ostentas! Não achas não sei quê sonoro e místico No recitar monótono dos salmos? Não achas não sei quê triste e patético, — Um merencório eflúvio de dor terna, Do miserável Jó nas próprias pragas? Segue esse não sei quê — por Deus soprado, Que em teu intimo foro apenas sentes, Mas que indizível definir não sabes. Segue esse não sei quê da consciência, Que é certo a voz ingênita do Eterno. Aprende aqui, — oh ente depravado, A ter fé no Senhor que te criara. Serás então feliz, — se olhar quiseres, Alem da vida efêmera da terra, Outra vida nos céus, — que não se acaba. Ouve-as agora — as derradeiras preces, O salmo dos degraus, que um rei profeta, Sonoro dedilhando o decacordo, Insuflado por Deus, cantara um dia. «Do imo de meu peito (ei-los que dizem) A ti, Senhor, clamei no mesmo abismo; Os meus prantos, Senhor, — meus rogos ouve!» Pouco depois passasses por ventura Pelo extenso salão e mudas crastas. Em solene calada distinguiras O pisar do pilão pesado e ouço Por estóicos coveiros manejado. Depois o baque da sonora lapida, Que fecha — esmaga o pútrido cadáver. Depois talvez uma oração ainda Dos lábios do cristão baixou sobre ele. Depois mais nada ali — fora o silencio. III N'estes claustros, aqui, talvez, — quem sabe? Talvez neste sepulcro imundo mesmo, Após alguns minutos mais escassos Desse meu vegetar insulso e morno, Me pilarão — triturarão meus ossos Desumanos tumbeiros.— Eu contigo, Podre cadáver, dormirei eterno, Feito meu corpo em terra e cinza e nada. 1851.
Inspirações do Claustro, de Junqueira Freire, é um livro brasileiro de poesia romântica publicado originalmente em 1855 e ampliado na segunda edição de 1867. A obra reúne o prólogo do autor, juízo crítico e poemas marcados pela experiência do claustro, conflito espiritual, imaginação religiosa e lirismo ultrarromântico. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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