Universo da obra
Universo da obra
A FILHA DE S. VICENTE DE PAULO, FALECIDA NA CIDADE DE MARIANA Se ela fora mais afortunada, sua historia seria mais pomposa: mas suas obras seriam menos cheias, e com títulos soberbos teria talvez aparecido vazia diante de Deus. BOSSUET I Olhai nos ares: lá sobem, Brilhando de acesas listras, Esferas áureas de nuvens Formosas, porém sinistras. Sinistras, sim: que na terra Tal espetáculo existe, Que é alegre para os anjos, Que para os homens é triste. É assim aquele aspecto De nuvens de ouro e safira: Tam prazenteiro que é ele! Não sei que pesar inspira. Olhai nos ares: lá sobem, Brilhando de acesas listras, Esferas áureas de nuvens Formosas, porém sinistras. E lavas de ardentes hinos Rebentam dos bojos seus: — São anjos lindos que entoam Mistérios santos de Deus. São musicas de outra pátria, — São do céu, — são anjos, sim: A voz das virgens da terra Não tem harmonia assim. Que beleza não refletem Os ares, a terra, o mar! — Mas que silencio que guardam Tam próprio para chorar! Olhai nos ares: lá sobem, Brilhando de acesas listras, Esferas áureas de nuvens Formosas, porém sinistras. Entes do céu! — quem inspira Vossa linguagem canora? Perdestes outrora um anjo, Que vindes buscar agora? Talvez que baixasse ao mundo Algum de vossos irmãos: Talvez que o céu nos mandasse Algum de seus cidadãos. E completasse entre os homens Sua divina missão: E suba, em nuvens douradas, De novo a sua mansão. Olhai nos ares: lá sobem, Brilhando de acesas listras, Esferas áureas de nuvens Formosas, porém sinistras. II Quem és, virgem cristão? — qual é teu nome? Por pátria tua — que nação te cabe? Porque sobem-te ao céu esferas de ouro? — Dentre os homens ninguém, — ninguém o sabe. Foste — qual chuva argêntea que, passando, Fecundação pelos vergéis acorda: Mas à vista do sol ninguém na terra Das cristalinas gotas se recorda. Assim, cristão, passaste pela terra, Estranha ao mundo, e plácida, e quieta: Nem a laje que cobre o teu cadáver Molhou-a co'o seu pranto algum poeta. Nem caiu-te no féretro uma lágrima, — Nem uma só de sentimento grato: Lagrima a preço de ambição comprada Não na tiveste desse povo ingrato. Não te adornaram a virgínea frente. Inúteis louros de Staël famosa. Não manejaste as áulicas intrigas, Que celebraram Maintenon vaidosa. Não te coube o poder da grande Aspásia pelos altivos sofos decantada. De Catharina o formidável cetro Não te pesou na destra delicada. Foste — qual chuva argêntea que, passando, Fecundação pelos vergéis acorda: Mas à vista do sol ninguém na terra Das cristalinas gotas se recorda. Nem elegias ternas de saudade Sobre o tumulo teu disse um poeta. Do ministro de Deus a voz apenas Pode-se ouvir monótona e quieta. Mas Deus, que lê nas vísceras dos homens, Fez abaixar do céu esferas de ouro. Tua alma pura, circundada de anjos, Foi levada ao Senhor, como um tesouro. Os cantores seráficos te entoam Nênias, que nunca os homens escutaram: Saudosas nênias, inauditas, novas, Que os poetas da terra te negaram. Quem és, virgem cristão? — qual é teu nome? Por pátria tua que nação te cabe? Porque sobem-te ao céu esferas de ouro? — Dentre os homens ninguém, ninguém o sabe. III Parai, ímpios, parai, — em quanto eu firo As cordas do alaúde. Mudos ouvi-me o cântico da morte, A nênia da virtude. Virgem cristão! — um trovador mesquinho Na terra ainda existe, Que entorna sobre a campa, que te encerra, Uma palavra triste. Não é um canto sobranceiro — como Águia que os céus devassa: É a quérula voz de homem afeito Aos hinos da desgraça. Virgem cristão! — tu que enxugaste em vida. As lágrimas do pobre, Aceita agora as lágrimas do bardo Na laje que te cobre. Tu hás de ouvir no céu, onde subiste, Meu lutuoso canto. A linguagem das lágrimas é tua: Entenderás meu pranto. Abaixa os olhos: — sobre o teu sepulcro Curvado está um homem: Lagrimas verte, — e dessas que, caindo, Secando, se consomem. Sou eu, — sou eu, — co'a lira nos joelhos, Co'a voz tremente e preza: Co'os vagos dedos afinando incerto A corda da tristeza. Dá-me, dá-me uma lágrima somente, Oh virgem, — que eu preciso: Uma lágrima, não! — lá não há delas Dá-me, dá-me um sorriso. Parai, ímpios, parai, — em quanto eu firo As cordas do alaúde. Mudos ouvi-me o cântico da morte, A nênia da virtude. IV Oh virgem! — na campa que tem teu cadáver Estive inclinado, —joelhos no chão. Co'o triste alaúde coberto de crepe Tentei entoar-te funérea canção. Minh'alma em sublime delírio voava, Minh'alma voava, saía de mim. Meu triste alaúde coberto de crepe Ficou numa estatua de duro marfim. Minh'alma voava suspensa no espaço, Minh'alma voava.— por onde — não sei. Aos lados e acima somente o infinito, Por baixo somente sepulcros achei. E tudo deserto, — silencio de tumbas, Vastíssimo aspecto de imensa soidão: E tudo espirava belezas horríveis De um mundo que de homens não pode ser, não. Então repentina no vago do espaço Não sei que harmonia que ouvi que rompeu; Não sei se partia de vozes estranhas, Não sei se partia do espírito meu. V O cadáver que jaz nesta campa Esse mundo o não teve entendido. Esse mundo não deu o seu pranto, — Esse pranto comprado e vendido. É dos céus o cadáver da virgem, Que esvoaça do mundo mentido. O cadáver que jaz nesta campa Sentimentos dos anjos conteve. Salamandra que vive nas chamas, Neste mundo esta virgem esteve. Neste mundo os preceitos do Cristo Em sua alma ela sempre os reteve. O cadáver que jaz nesta campa Esse mundo o tratou com desprezo: Que esse mundo escarnece as virtudes, Quando delas se sente surpreso. Lá nos antros escuros do peito Da verdade o louvor fica prezo. Perguntais sua pátria qual era? — Perguntai-o aos dois pólos da terra: — Flor eterna que em todo o universo As raízes profundas aferra: — Povo de homens cristãos que nos orbes Nunca um déspota enorme os desterra. O seu nome quereis? — Consultai-lhe Que palpites seus peitos tiveram. Sentireis, no cadáver gelado, Que valentes, que sôfregos eram. — Caridade! — seus peitos palpitam: — Caridade! — seus lábios disseram. Foi seu astro esse nome divino, Esse nome que o Cristo ensinou. Para os cárdines longes da terra Essa virgem cristão se atirou. Co'esse nome do Cristo nos lábios, Mil ferozes nações arrostou. Esses mártires loucos da guerra Exumou do cruor da batalha. Foi pensar a família do pobre Na modesta casinha de palha. Foi as chagas limpar do mendigo Com fibrosa e macia toalha. Pelos trívios desertos da estrada, Pelos sórdidos cantos das ruas, Recolheu os infantes expostos Pelas mães desumanas e cruas; Envolveu em felpudas mantilhas Suas carnes geladas e nuas. Porém nunca prostrou-se nos tronos Nem rojou pelos pés do monarca. Caridade! — este nome sagrado, Como as tábuas da lei dentro da arca, Caridade! — entre o mármore e o colmo Acepções diferentes não marca. Caridade! — evangelho em resumo — Entre os homens não faz distinção. Ama o pobre — que acima dos ricos Desse amor têm maior precisão. Vale menos um cetro p'ra ela: Vale mais do mendigo o bordão. Caridade! — evangelho em resumo — Nem senhores nem servos conhece. — Como o servo estremece, morrendo, Deste modo o senhor estremece. E a nobreza comprada no berço Numa campa co'o pobre fenece. Assim foi esta virgem.— Mil vezes Os feridos colheu da batalha. Os mendigos tomou pelas ruas, Consolou na casinha de palha. Envolveu os infantes expostos Em fibrosa e macia toalha. Porém hoje o seu corpo é cadáver. Tem sua alma a celeste mansão. O Senhor a chamou por seus anjos, Que completa viu sua missão. E partiu dentre nós... E da virgem, Ninguém dela se lembra mais não. Nos semblantes de enfermos, de pobres Da ventura já brilha o retrato. O menino que a vida lhe deve, Esse mundo ao depois fê-lo ingrato: Por que o homem no leito de estofo Julga infâmia o que lembra o grabato. E partiu dentre nós... E não teve A canção funeral do poeta, — Do inspirado de Deus para o mundo, Do escolhido — terrestre profeta. Do profeta divino somente Ela teve uma prece quieta. E partiu dentre nós... E seus anjos, Seus irmãos — uma nênia entoaram. E no ar assombrado e tranqüilo Harmonias do céu ressoaram. E de nuvens esferas douradas Para os altos de Deus a levaram. E perante esse aspecto de glória Toda a terra quedou-se serena: Como o triste, ante os risos alheios, Sente mais aumentar-se-lhe a pena: Como a taça de néctar do rico As artérias do pobre envenena. Mas a terra reflete belezas, Essa terra, esse vácuo, esse mar! Porém tudo — mudez e silencio, — — Atalaia que põe-se a espiar: Porém tudo assombrado e tranqüilo, Como quem preludia chorar. E partiu dentre nós... E seus anjos, — Seus irmãos — uma nênia entoaram. E de nuvens esferas douradas Para os altos de Deus a levaram. E essa terra, esse vácuo, esses mares Na mudez da tristeza ficaram. Tu, oh céu, na escritura dos anjos, Mais um anjo em teus choros registras. Tu mandaste-o buscar por teus anjos Sobre nuvens de fulgidas listras. Mas a terra ficou merencória, Qual gigante co'as faces sinistras. VI Tal foi repentina no vago do espaço Aquela harmonia que ouvi que rompeu. Não sei se partia de vozes estranhas,
Inspirações do Claustro, de Junqueira Freire, é um livro brasileiro de poesia romântica publicado originalmente em 1855 e ampliado na segunda edição de 1867. A obra reúne o prólogo do autor, juízo crítico e poemas marcados pela experiência do claustro, conflito espiritual, imaginação religiosa e lirismo ultrarromântico. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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