Universo da obra
Universo da obra
Eu lhe queria tanto, quanto os desgraçados querem aos que os estimam. EUGENIO SUE. Eu sei, oh virgem, que em teu peito inócuo Tenho palpites, lá. Sei que tua alma Ficou pensando co'as idéias altas, Que te inspirei profundo. Inda em teus olhos reconheço ao longe Todo o meu pensamento. Alto gravada Em tua mente a minha mente existe. Pertences-me p'ra sempre. Rasguei-te, sim, do coração mais imo Um véu cerrado de inocência fátua. Mas não te nodoei: quis que ficasses Casta assim mesma, — e sabia. Tal na floresta a cândida pombinha Penetra o ninho do amoroso pombo: E como dantes, nos rosais florentes, Vai arrulando ainda. Não, não temo de ti. O amor que sentes Não é da terra não, — nem segue o corpo. O amor que sentes, nem contigo expira. É mais que imorredouro. Hás de amar-me na terra, — e alem dos astros, Eu te ensinei um sentimento eterno. Mau grado a mim, a ti, ao mundo, aos anjos, Oh! hás de amar-me sempre! Não te forcei, nem te prendi com ferros. Tua vontade é, como dantes, livre. Mas voluntária nem coacta podes Amar a outro amante. Um vate, um vate coligou-te aos seios, Tu deste-lhe o perfume de teus lábios. O nó do abraço te estreitou seu corpo. O mais foi um poema. Tu recebeste os hálitos de um vate. Tu lhe bebeste a inspiração aos tragos. O fogo que do céu lhe desce em línguas, Mulher! também ardeu-te. Para os homens de Deus foste sagrada. Pudeste ser-lhes dos mistérios cônscia. És, oh vestal, a cúmplice divina Dos celestes oráculos. Estás agora iniciada eterno. Amaste-me: eu te quis. Julguei-te digna De seres-me a Sibila de meus cantos, O anjo de meus versos. Hás de amar-me na terra, — e além dos astros. Eu te ensinei um sentimento eterno. Mau grado a mim, a ti, ao mundo, aos anjos, Oh! hás de amar-me sempre! Eu sei que um negro, espantador fantasma Co'as asas brônzeas te aparece à noite, E te deixando a palidez manchada, Te grita — Monge! — e passa. Eu sei que envolto na pancada aérea Do meio-dia te revoa um silfo, Que no côncavo d’alma se te enrola, Também dizendo — Crime! — Listras de sangue, de manhã, te cortam O brando anil que nada-te nos olhos. E assim mais bela, temerosa e pávida, Pensas em mim, —e choras. Em presença da aurora, aos raios dela, Lá do tremulo seio em que me escondes, Arrancas as canções que me inspiraste Travado co'as delicias. Meus versos cantas para o sol que nasce, Para o gorjeio matinal dos pássaros, E de minha harpa as harmonias casas Co'o cicio das árvores. Depois um riso te assombreia a face, Limpa-te o sangue dos aníleos olhos, E co'o nome de — Vate — assoletrado Desfazem-se-te as nódoas. Os alvos braços — êmulos do jaspe — Cá para o sul onde eu habito estendes, E nas asas da aurora um beijo ardente Envias a meu cárcere. Então — que passe o tétrico fantasma, E grite embora — Monge! — e troe o sino Que toca ao meio-dia, e nele envolto Proclame o silfo — Crime! — Que céu te pode anuviar um riso! Que espectro pode sustentar-te o canto! Que silfo não desmancha-se nos ares Ao sopro de meus versos! Guarda no seio o talismã que dei-te. Diante das visões, meus carmes canta. Insulta os gritos de sinistra inveja, Que dizem — Monge, e Crime! — Mau grado aos mundos, serás minha agora. Eu te ensinei um sentimento eterno, Hás de amar-me na terra, — e além dos astros. Oh! hás de amar-me sempre!
Inspirações do Claustro, de Junqueira Freire, é um livro brasileiro de poesia romântica publicado originalmente em 1855 e ampliado na segunda edição de 1867. A obra reúne o prólogo do autor, juízo crítico e poemas marcados pela experiência do claustro, conflito espiritual, imaginação religiosa e lirismo ultrarromântico. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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