Universo da obra
Universo da obra
— A pobreza orgulhosa explica o cinismo do muita gente. MARQUEZ DE MARICÁ. I Ali naquele alvergue derrocado Pela sanha do norte Um velho existe, — que libara um dia Os ósculos da sorte. Ás portas lhe bateram os prazeres Dourados de ventura. Sorriram-lhe os amores encantados Sorriso de doçura. Infindo pelotão de amigos nobres Subia-lhe as escadas. Co'esgares de paixão lhe olhavam ternas As damas afetadas. Tocou-lhe um dia na intonada fronte O dedo da desgraça. E, qual fumo disperso pelos ares, Seu fastígio esvoaça. Desapareceu, — qual vento, a chusma enumera De tanto e tanto amigo. E os filhinhos ao peito, a esposa ao lado, — Chorava sem abrigo. Dominando a montanha, — ontem viçava Pinheiro alevantado. Rugiu de madrugada o sul teimoso: Ei-lo no chão prostrado! Talvez da providência a mão piedosa Mostrou-lhe esta choupana. Pelo aceno de Deus talvez a alçaram O colmo e a agreste cana. II Vegeta o velho ali. Se dorme, — acorda-o Dos filhos o lamento. Se acorda, — escuta a esposa repassada De dor, fome e tormento. Muito cedo a cabeça encaneceu-lhe Miséria e dissabor. Não sabe trabalhar: — estava feito Á paz, ao sono e amor. Problema incrível lhe parece ao menos Tão veloz decadência. E não sabe suster o azar da sorte Com constância e prudência. E não sabe buscar, — de tonto e fátuo, Em Deus consolação. E não sabe incensar os pés do Eterno Co'os fumos da oração. III Ontem de tarde ergueu-se.— A esposa e os filhos Em torno se ajuntaram; E, como ecoa um frêmito de espectros, — Fome, fome! — gritaram. E pegou do bordão: — qual temulento, Foi caminho da aldeia. Pedinchando, — era um grande que imperava Com voz ingente e cheia. O passageiro olhou-lhe os vis andrajos E o sobrecenho horrível. Meneou-lhe a cabeça, — e escarneceu-lhe A nobreza risível. Avezado a mandar — um potentado Não deve pedir nunca; Embora os rins sensíveis lhe comprima A mão da fome adunca. Chamam-lhe a isso nesse mundo os homens — Constância e pundonor.— E, dos nomes co'a cor, cuidam que apagam Da soberbia a cor. IV O velhinho voltou: — injusto e testo Maldiz o céu e a terra. E torrentes de afrontas e blasfêmias Do peito desencerra. Assim como um tirano, que aguardava Da turba a sujeição; Mal sofrido se assanha, quando escuta Ao seu ditame um «não.» E grave entrou no alvergue: — os olhos torvos, A catadura má. Aí vai falar, — e a voz, que a raiva engasga, Rouco mugido dá. Nos olhos lhe adivinham os filhinhos O bem, ou mal, que traz. Fisionomistas por preciso instinto A natureza os faz. E a mãe co'os filhos um funéreo pranto Então do peito arrancam. Só não chorava o velho, — que co'a raiva As lágrimas se estancam. Pranto e pranto de morte alevantaram Os filhos, — recordando Que sustento mal-são, — erva dos campos Ainda irão catando. V Ai! — que entrasse do pobre na guarida Benfeitor generoso, Que na tripeça lhe deixasse adrede Montão de ouro abundoso! Vê-lo-ias — o velho, remoçado, Desamparar a choça; Na ventura olvidar essa tristeza, Que o coração lhe roça. Tal em lindo jardim roseira débil, Que o inverno desnudara, Na primavera já pimpolha ovante, Como se não murchara. Porém talvez ao benfeitor nas costas Embebera um punhal: Ou em dourada taça propinara-lhe Um tóxico fatal. Sobre soberbo, — ingrato! Ei-la do velho Inteira a apologia. Hão de sê-lo também os inocentes Filhinhos que ele cria. Os leõezinhos dos leões aprendem Sanha e sede de sangue: Vão gostando de ver os pais sedentos Tragar a preia exangue. E — raríssimo caso, — que entre os trances E os sofrimentos seus, Uma só vez os lábios do velhinho Não invocaram Deus! O nome do que só, — de seu espírito Deu alma aos céus e à terra. Quem sabe se no peito o velho, tímido, — Como um tesouro, o encerra? Ou nado em ouro e per'las, — e educado Em luzido salão, Por ventura seus pães não lhe ensinaram Sequer uma oração! Ai! — que vida o velhinho irá vivendo, — Que vida de miséria, ‘Té que se lhe desprenda o lasso espírito Das peias da matéria! VI Mancebos, que passais, — deixai o velho Viver na paz da morte: Que um dia ele já foi, —como vós outros. Rico dos dons da sorte. Mancebos, que passais, —deixai o velho Chorar ao pé da porta. Não no insulteis, — já que a desgraça dele Tão pouco vos importa. Sede, oh jovens brincões, — mais generosos, — E não no escarneçais. Mais antes venerai nas cãs do velho, As cãs de vossos pais. Bem vêde-lo transido.— A magra fome As vísceras lhe esfola. Não lhe olheis a arrogância, — oh bons mancebos, Mas dai, — dai-lhe uma esmola.
Inspirações do Claustro, de Junqueira Freire, é um livro brasileiro de poesia romântica publicado originalmente em 1855 e ampliado na segunda edição de 1867. A obra reúne o prólogo do autor, juízo crítico e poemas marcados pela experiência do claustro, conflito espiritual, imaginação religiosa e lirismo ultrarromântico. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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