Universo da obra
Universo da obra
(SÉCULO XVIII) A Frei Arsênio da Natividade Moura Tu, que sabes chorar a crença exangue, — Crente! — desamarás os ais de um crente? I Dorme, dorme teu sono, oh vã cidade, Dorme teu sono sensual e podre: Que as estrelas e a lua, — de ofendidas, O inútil brilho em negro véu trocaram. Carranca enorme de chumbadas nuvens A cor dos céus trocou na cor do abismo. É noite: e noite de pavor é ela, Sacra aos mistérios de esquecidos túmulos. Sozinho o bardo aqui, —co'a noite e as trevas! Só ele aqui: — que o mundo é morto agora Nos braços do letargo, — irmão do nada. Só ele aqui co'as campas dos finados Na latidão dos claustros solitários, Que apontando co'o índice da morte Aos carcomidos dísticos das lapidas, Sorrindo-se, lhe solvem o problema, —Árduo problema, — do que monta o mundo E a vida e os homens e a vaidade deles. Que aí não haja uma alma, qual a sua, Que ria-se da guerra e paz do mundo, — Ai! que difere a paz da guerra dele? — E, — qual vigia no arraial do exército, A noite vele entre o dormir das armas, E a sós co'o trovador, co'os seus enlevos — Venha, arroubada, comungar dos saibos Do absinto amaro, — que chamaram — vida? Não: sozinho — é melhor. Sozinho o cisne No vazio dos céus mais livre adeja. Aqui não há mister de alma bastarda, Impura, — como os vermes do sepulcro, — Que lhe imole a inocência dos pensares, Quando na mente se fermentam inda Tumultuosos, — qual do ninho escasso O bando das alcíones garridas Desprega o vôo pelo vão dos ares. Aqui não há mister de alma bastarda, Que as emoções mais intimas lhe insulte, Antes que saltem as idéias fora Do cérebro, que apenas as continha, De pequenino, — e pelos lábios francos Em simples fôrma rápidas ressumbrem: Tal ao sereno exposta, — inteira a noite, Ânfora cheia do licor mais puro, Lá por antemanhã, fervendo ao frio, — Aventou com fragor, — e a linfa clara Se expandiu pelo chão, que a foi sorvendo. Essa abstração de espírito quimérica, Esse suposta coração de amigo, Existe algures? — Morará no peito Da pombinha, que afaga entre os arrulhos A coleira do esposo, — e abandonada, Deixando-o no pombal beijando os filhos, Deita a correr traz os casais visinhos? — Ou morará, talvez, no adunco bico Do pelicano, que estrangula as vísceras Para dar a beber seu sangue aos filhos, E sendo adultos, desconhece-os todos? — Este ser ideal, tipo dos anjos — Quem concebeu-o, escarneceu dos homens. Ou foi um parto de traição dos íncubos Para mais tratear a mente aos vivos, Desesperar, — ganhar a si mais almas. Mas se é certo que existe um tal fantasma, — Ou vive lá com Deus, além dos mundos, Ou foi tolhido ao bardo igual tesouro.— Antes sozinho ser. Se num despenho, De ignorante, cair, — nele pereça De vez p'ra sempre. Assim lascado o seixo Das penedias da fragosa costa Com ruído sonoro ao mar descendo Do gravitar nas azas necessárias, As vagas perfurando, — achou no pego E paz e olvido e sepultura eterna: — Não no arranques de lá, braço de ferro, Para dar-lhe depois em troco a morte, — E que morte? — o morrer do renegado!— No amargo travo da traição primeiro, Depois no ecúleo dá calúnia torpe, No vasquejar, alfim, do desespero. II Também agora o céu está despido Dos astros seus.— Nuvens de cinza o toldam, E os amigos da noite o desamparam. Também agora os claustros estão mudos, E parecem dormir um sono eterno, Quais solitários paramos infindos, Onde não há ouvir humano acento. É tudo morte: — e só de quando em quando Quebra um tufão das naves a calada, E vem dizer que a natureza vive. Oh quanta e quanta vez nestas desoras Não viram elas levantar-se os monges, A transitar nos vácuos corredores, — Como de meigas turturinas aves Compacto bando a revoar nos ares, — Recatados e tímidos e graves, Murmurando baixinho um salmo lindo. A cantar do Senhor as maravilhas! Quanta vez em silencio respeitoso Não ouviram toada e grave e doce, — Grave como o pensar de ancião idoso, Doce como o falar de virgem pura, — De hinos e salmos e canções proféticas, Perdendo os ecos na expansão dos ares, Subindo em fumos à mansão do Eterno? Hoje em dia — esqueleto do deserto, — Que mais há aí? — o túmulo do nada! Agora só na negridão das rochas, Um talismã risível meneando, Algum aluno, que sobeja ainda, Do fanatismo do caduco Egito, Evocando os espíritos do inferno Nas extorsões do lívido semblante, Murmurará ensalmos de demônios. Quem se erguerá do marroquino leito, Abroquelado de oração piedosa, — Bem como invicto campeão da pátria Que a pátria vinga ao embraçar do escudo, — Para aplicar um valioso antídoto Ás sinistras tenções do anjo das trevas, E debelar-lhe os cálculos de sangue? — Nem um se quer! — os claustros estão quedos, Como os sepulcros negros, que os povoam, Como as colunas alvas, que os sustentam, — E nem um estalar de órgão saudoso Na terra um hnno a Jeová desfere. Eles, depois — os cenobitas pios — Também nas azas de orações devotas Baixavam à rudeza destas claustras, E um responso feral e difundido, Qual expansivo recender de rosas, Caía sobre a campa dos finados, E do pecado lhes roubava a pena. Então — óleo de unção — a reza santa, Em lábios puros, — quais candentes brasas, — Fervendo, — deslizava enternecida. Hoje, que resta ao fervor antigo? — Pálidas preces, a desleixo, e mornas, Bem como a voz do indiferente hipócrita, Calam na laje, e ficam sepultadas. III Modesto velho de mais longes eras, — Modesto como os olhos da donzela, — Assentado ao luar a sós comigo Nos degraus do vestíbulo da igreja, Fazendo prantos, me contou que houvera Arvorado acolá junto do alpendre O dorido suplício do Deus-Homem. Os monges co'os devotos, — co'as velhinhas, E as trementes velhinhas conduzindo Pela mão os netinhos inocentes, — Vinham beijar-lhe o pé, todos os dias, Recitar-lhe uma antífona eloqüente, A qual, a humanas ouças passageira, Vistosa aos anjos e formosa ao Eterno, Lá no tope da cruz resplandecia, — Como cheiroso e lindo ramalhete De mil corimbos de distintas flores Tecido pelas mãos alfeninadas Das meninas donosas da campina. Hoje — que é dela — a cruz? — era um escândalo, Era, — inda mais, — um fanatismo estúpido, Era vergonha aos sábios deste século, — E foi calcada aos pés, lançada ao fogo! O velho viu ainda a cruz do alpendre, — Teve esse gozo: —inda abraçou-lhe as travas, E quando os maus e os ímpios, quais possessos, Entre sanha e blasfêmia a espedaçavam, — Ele os olhou choroso e compassivo. E alçando aos montes os quebrados olhos Pediu a Deus inspiração, — incerto No que faria então. E após um breve Fitar nos céus e meditar consigo, Perdão balbuciou sobre os sacrílegos, E quedo foi dormir na crença sua. Ele escutou também, uns dias antes, — Qual voz do Eterno ensurdecendo as vagas, O salmear dos monges alta noite, Que lhe acordou do sono, que dormia, — Desceu do leito e foi rezar nas contas. Cuidoso alevantou-se ao romper d’alva, No solitário templo entrou, — benzendo-se, — Encostou-se ao festão de uma coluna Co'os olhos no portão da sacristia. Esperava que a mão e a voz do preste, — Bem como unção divina derramada Na cabeça do rei pelo profeta, — Por entre o incenso da oblação mais santa Lhe abençoasse a encanecida fronte. Esperou, esperou. Não mais os monges Ouviu descer a lisa escadaria, Nem subir os degraus das aras santas. Qual vaporosa nuvem no horizonte Pela sanha dos nortes impelida, — Desapareceram num relance.— É morto Nos claustros o pudor, no templo o canto. E o bom do velho soçobrado e tímido, — Como se a vista e o siso lhe torvasse O súbito clarão, de um raio ao perto, Tornou aos lares, — foi narrá-lo à esposa, E pelos olhos deslizando o pranto As faces lhe encheu, — como o oceano! E os monges — onde iriam? — Os que unidos, Como nos céus os anjos entre os anjos, Na paz das celas, na soidão dos claustros, Não sabiam viver, se não consigo, — Ódio dos povos em países bárbaros, Escárnio das nações, — hoje divagam A vastidão do mundo — e seus errores. E vós que do solar benquisto deles Os expelistes, — lhes tolhendo a pátria, E nela o resguardar a muda crença, E o sossego da vida e os pães e amigos, — Vencestes. — Triunfai, entes descridos! Esse monstro do inferno — esse homicida Ri-se co'o sangue da imolada vítima. Vossa vitória é tal: — folgai com ela. Folgai em quanto é tempo, — em quanto a morte Os vermes seus não ceva à custa vossa: Em quanto os anjos de Lusbel treitentos Não vos arrojam de uma vez p'ra sempre Ás eternais, exteriores chamas; Onde não há mais luz que o caos das trevas, Onde não há mais paz que o desespero, Onde não há mais couto que a geena, Onde não há mais redenção que o inferno! IV Feliz e vezes mil feliz aquele, Que nos braços de irmãos, nos osc'los deles Deu aqui seu arranco derradeiro! Que em mortuária procissão solene Desceu de lá da pequenina cela, E veio aqui jazer entre os finados Sob a campa deserta há tanto século! E, ao romper — d’alva uma oração formosa Caía, — como o gotejar do orvalho, — Na laje, — e vinha lhe ameigar as penas. E os filhos dos altares, deserdados, Hoje depararão um só no mundo, Que a seca pedra do sepulcro ignoto Vá borrifar co'a lágrima da prece? Meu Deus! — não há se quer uma alma pia! — Filosóficos — cristãos, se o bem fizeram, Não antolhavam recompensa dele. O premio e a c'roa e a glória a seus martírios Deus lhos guarda nos céus, entre os arcanjos. Já lá passaram as virtudes deles, Como chuveiro de ouro em dia breve. Porém as vastas colunatas góticas Desse edifício gigantesco e excelso Sobejarão para atestar às eras, Com brado eterno, — os benefícios deles. Nossos pios avós chamando os netos Ao adro do casal, — e os reclinando Por sobre a grama, no luar de prata, E em torno as netas dedilhando os bilros Nas almofadas, — ou girando o fuso, Entre longo serão, — lhes vão contando As lendas, que da boca autorizada Dos pais beberam: — recitando a historia Desses heróicos mártires da crença, Que os velhos guardam a-la-par da vida, — Como na mente casta a virgem ama O fagueiro sonhar do amor primeiro. — Assim dos justos a memória vive No recordar das gerações passadas, Como o nauta conserva o ensejo augusto Da salvação nas vascas do naufrágio. V Quando este sec'lo de egoísmo e vícios, Entre o rugido e o horror do passamento Derradeiro, ansiar, — bem como o dia Cede, morrendo, ao tremulo crepúsculo, E o crepúsculo à noite, — então que herança Que legará nas vésperas da morte Aos filhos seus, — aos séculos por vir? E qual será seu testamento? Oh! esse, — Obra de sangue e parto dos infernos, — Há de selá-lo o anjo dos terrores! E só três nomes conterá: — três nomes Que hão de no mundo reboar malditos, Como o trovão arrebentando os pólos. Em férreas letras hão de ler-lhe os filhos: FATUIDADE E SACRILÉGIO E SANGUE! Os netos do futuro, —os nossos netos Hão de amaldiçoar com mão de fogo Aos livres do presente, — e ao patrimônio De infâmia, que os avós lhes assinamos. VI Eu, entretanto, —o bardo, que não vivo, Mas duro apenas nessa férrea idade, A qual minha não é, — como do nauta Não são as vagas, que singrando trilha, — Nessa idade vilã, — pela qual passo, Como a fumaça que o galerno extingue, Eu me consolo.—Do cantor mesquinho, Que aos homens não, — a Deus ergue seus hinos, — Na bastecida turma dos poetas, Que os tronos, os saraus, o amor celebram, Qual o pranto se esquece entre delicias, — Assim dele também, — vate dos lutos, Há de memória se perder.— Ao menos Que ninguém saiba a envilecida pátria, Que o abortou, para que visse, acinte, Sua miséria e dó: — torrão estéril, Onde emurchece o inocente e o justo, Como a roseira em tremedal plantada, E o mau e o ímpio a florescer nas hástias, Como o cedro alteando o cimo às nuvens. Que ninguém saiba o século maldito, Que o viu — nas urzes, pulular da túnica, Que o viu — nas urzes, vegetar do tronco, Que o viu — nas urzes, definhar das ramas. Ei-lo final tesouro de ventura, Que a par da salvação — anciã o bardo, — Misérrimo! — que já não mais amima Na terra um sonho de bonança e glória: A quem os lábios rubros da esperança Não mais sorriem seu sorrir de graças. Não: — que lhe sobra uma esperança: — o tumulo! — Semelhante à bonina das campinas, Que, abrindo o cálix, entre nova e murcha, Saúda a tarde e profetiza a noite, E a morte sua ao avançar do dia. Ei-la a flor derradeira de ventura, Que produz, moribunda, a débil árvore Dos enlevos do bardo, —melancólica, Como o silencio e a negridão dos claustros. VII Ai — claustros, claustros! — se falar pudésseis Aos séculos por vir — que testemunho, Que não daríeis, das virtudes altas Desses heróis, que um dia vos alçaram! Materiais de pedernal, — sois mudos! Não podeis levantar um brado ingente Para fazer ouvir ao mundo inteiro A defensa de vossos fundadores Caluniados, pobres e proscritos! Sim: foram maus: — muito de mais amaram, Com puro amor, — religião e pátria. Sim: foram maus: — obedeceram, livres, No mundo a Deus, — na pátria a seu monarca, Sem rojarem-se às plantas enlodadas De usurpadores, nem vilões tiranos. Sim: foram maus: — compreenderam, sábios, O espírito sublime do evangelho, — Da majestade dessa crença nova, A qual, — na voz e nas ações do Verbo — Co'a regeneração, — nos deu profusa — Dons não gostados pelo velho mundo, — — A liberdade co'o saber gozá-la, E a caridade e o igualar os homens. VIII Oh perseguidos mártires da crença De nossos pais! — eu, pequenino bardo, Sentei-me ao pés do túmulos dos vossos, Arredio dos vivos, e cortado Vos mando meu saudar por entre angustias! IX E vós outros, oh sábios deste século, Talvez agora, — entre o dormir torvado, — Sonhais na perdição dos servos crentes, Dos servos do Senhor, que restam inda. Adejando co'as asas estanhadas Por sobre o leito cômodo e felpudo Os enviados de Lusbel vos pintam, — Como num quadro enérgico e falante Da ceifadora guerra e seus horrores, — Vários desenhos de maldade varia Contra a mal firme fé da Cruz divina. X Sim: — quereis reformar, oh filantropos, A natureza e a índole dos homens, E o sentimento inato e a fé co'a crença, — Que em vosso vago e túmido vasconço Nomeais — ignorância e prejuízo.— Reformai, reformai: — mas os fenômenos Das mãos do Eterno penderão, quais dantes. No aceno dele as leis da natureza Se librarão, — como nos dedos destros Do menestrel as notas do saltério. E surdo a vosso mando presunçoso O trovão rugirá — tremendo os ímpios, O raio baixará queimando o éter, Por sobre o ovante vértice do hipócrita, Ao prasme do que rege os céus e a terra. E como Deus os quis na mente excelsa, Tais os homens serão, — até que um dia Na voz dos querubins disser — não quero! — Para levar ao cabo a vossa empresa, Torná-la digna do pensar de um sábio, É preciso sustar as leis constantes, Que o mundo em seu volver resguarda inteiras, Como o pobre cristão na mente adora Do benfeitor, que o arrancou do abismo, A voz e o riso e o apertar da destra, Quando, modesto, lhe fugiu dos olhos — Anjo de luz entre o terror das trevas. Mau grado vosso, — a onipotência dele Será provada na impotência vossa, Como entre os dedos de afanoso artífice No crisol, que não mente, o ouro impuro. Mudai, — se podeis tanto, — a natureza, Arrematai perfeita a obra vossa, Arrebatai das mãos de Deus o cetro, — E cantareis vitória, — oh filantropos! XI Talvez eu tenha de sobrar ainda Para ver o remate iníquo e torpe Dos planos sestros que máquina o ímpio. Vê-lo-ei arrojar-se, blasfemando, Como as hostes na sanha da matança, Ás clausuras da paz do eremitério, — Selo da contrição dos meus e minha: Entrar, fulo de raiva, o sacro templo, Qual soberbo invasor de alheios muros, — Combalir, derribar a cruz das aras, — Penhor, que herdamos de mais longes eras, Da fé de nossos símplices maiores, — Testamento da crença assinalado Co'o sangue deles, em cachões jorrado, Como precipitosa catadupa, Cristais golfando, — vastas chãs alaga! XII Oh! — se rolar por terra a cruz do claustro, Expire o bardo seu nos braços dela! Mas ai de vós, — varões da nova idade, Mais sábios do que Deus, mais fortes que ele! Tramai, tramai co'a fúria dos demônios, Tramai contra o Senhor e os crentes nele ; Balda loucura; — a cruz espezinhada Há de erguer-se maior noutro calvário! 1851.
Inspirações do Claustro, de Junqueira Freire, é um livro brasileiro de poesia romântica publicado originalmente em 1855 e ampliado na segunda edição de 1867. A obra reúne o prólogo do autor, juízo crítico e poemas marcados pela experiência do claustro, conflito espiritual, imaginação religiosa e lirismo ultrarromântico. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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