Universo da obra
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AO MEU AMIGO LUPÉRCIO GAHAGEM CHAMPLONl I Debalde procuro O campo, as florestas: Imagens funestas Me seguem te lá. Nas lapas, nas rochas, Debaixo da terra, Um busto me aterra, Um homem está. Co'os olhos brilhantes, Co'as faces formosas, Co'os lábios de rosas, Sorri-se p'ra mim. Debalde lhe amostro Medonho o semblante: C'um gesto galante Responde que — sim. Na areia da fonte, Nas urnas do rio, Meu rosto sombrio Se encontra co'o seu. Ajunta seus lábios, Bebendo comigo, — Fatal inimigo Que o fado me deu. Correndo assombrado Do vulto gravoso, Veloz, pressuroso, Demando a soidão. Mas, inda correndo, Se volto co'os olhos, Encontro os sobrolhos, Da eterna visão. E sempre a sorrir-se. Qual moça inocente, C'um modo contente Dizendo-me adeus. Renego-te, oh anjo Fatal, sempiterno, Ou venhas do inferno, Ou venhas de Deus! II Nos raios da aurora, Nos trinos das aves, Nas brisas suaves, Na voz da manhã, Em pé, sobre os montes, Coum brado que aterra, Maldigo essa terra Tão ampla, tão vã. Os homens odeio, Com ódio profundo, Com ódio, que o mundo Não pôde entender. Então, quanto quero, Derramo do peito O fel, que, desfeito, Não posso conter. E clamo em discursos, Em odes atrozes, E os brutos ferozes Me temem de ouvir, Dos raios que atiro, Feridas as selvas, De folhas, de relvas Se fazem despir. Maldigo as estreitas, As nuvens, a aurora, A queixa sonora Das aves do céu. Maldigo esse encanto Que abismos encobre, — Mulher que se cobre Co'as dobras de um véu. Maldigo a ciência Que os homens tortura, — Formosa loucura De face louçã; Procela da insânia, Pegão de sofismas, Montanha de prismas, Figura de Pã. Maldigo a virtude Instável cada hora, Demócrito agora, Agora Catão: Fantasma versátil, Estranho, não visto, Que ri-se no Cristo, Que chora em João. Sedento da raiva Que nunca me finda, Mais válido ainda, Maldigo meus pais. Depois, elevando A vista ao superno, Maldigo do Eterno, Por ser dos mortais. III E sempre esse busto De homem que odeio, Me vem, sem receio, Constante, escutar. E a cada discurso, Que franco improviso, Responde c'um riso, E põe-se a calar. No seio das rochas Debalde me amparo, Que sempre o deparo C'um riso dos seus. Castigo infinito, Tantálico, eterno. Que veio do inferno Por ordem de Deus! Em cima da rocha Me assento ferino Com gesto assassino Buindo um punhal. Mas ele desata, Deixando-me em pasmo, Com rude sarcasmo, Risada brutal. E corro demente Por ínvias devesas, Co'as faces acesas, Co'o ferro na mão. E o busto sinistro Recua voando, De frente me olhando C'um riso brincão. E sempre a sorrir-se, Qual moça inocente, C'um modo contente Dizendo-me adeus! Castigo infinito, Tantálico, eterno, Que veio do inferno Por ordem de Deus!
Inspirações do Claustro, de Junqueira Freire, é um livro brasileiro de poesia romântica publicado originalmente em 1855 e ampliado na segunda edição de 1867. A obra reúne o prólogo do autor, juízo crítico e poemas marcados pela experiência do claustro, conflito espiritual, imaginação religiosa e lirismo ultrarromântico. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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