Universo da obra
Universo da obra
Canção do judeu I Vai, ímpio bastardo, Vai, monstro sem crença! É vasta, é imensa A estrada que vês. Pendida se inclina Por lúbrica esteira, Suave ladeira P'ra as chamas, talvez. Teu pai te renega Na voz do profeta Co'a boca repleta De atroz maldição. Coberto de cinza, Co'o saco vestido, Com pranto dorido Se prostra no chão. A mãe, que te amava Com tanta ardentia, Maldiz de teu dia Co'os carmes de Jó. Hebréia formosa, De rosto engraçado, Por ti, malfadado, Se cobre de dó. Com pena de ferro Teu nome riscado Do livro sagrado, Da lei de Moisés! Teu nome famoso, Das tribos querido, Agora exprimido Debaixo dos pés! Oh tu, desgraçado, Mesquinho perjuro, Que abraças impuro Uns erros fatais! Que ensino a teus filhos, Que exemplo que legas! Na lei que renegas, Renegas teus pais! II Talvez mais que os nossos, Irás vagabundo De rastros no mundo Sem termo, sem fim! Nas selvas, nas cortes Os homens com gosto Lerão em teu rosto Sinal de Caim. Na jura que quebras, No crime que atentas, Excitas, aumentas Dos nossos a dor. Pisando nas tábuas, Que foram-te entregues, Afrontas, persegues Ao mesmo Senhor. III Outrora no Egito Nascemos escravos, Valentes e bravos, Sofrendo sem dó. Contentes nos tratos, Vivendo na penúria, Cuspimos na fúria Do mau Faraó. Depois nos erguemos No meio da praça, Em rude ameaça Batendo co'os pés. E o rei por dez vezes Tremeu contemplando Um Deus pelejando Na mão de Moisés. Depois nossos crimes, Qual chuva de setas, Mau grado aos profetas, Encheram o ar. Castigo do Eterno, Sentimos na frente O alfanje furente De Salmanazar. E o campo três vezes Vestiu-se de ossadas, Ao longo espalhadas Por Nabuzardan. E, farto de crimes, Tornou-se demônio O rei babilônio, Progênie de Cã. Sofrendo, esperamos, Dos tempos no giro, O nome de Cyro, Sorriso de Deus. Previsto, ansiado Na voz do vidente, Chegou de repente, Livrando os hebreus. Ao jugo dos gregos Curvando-nos quase, Beijamos a base Do ídolo Amon. Depois adoramos C'um medo mais feio O monstro que veio De lá de Ascalon. Não basta, não faria Ao céu irritado O sangue espalhado Dos bons Macabeus. Não basta que Tito, Que Roma viessem, Que até desfizessem O templo de Deus. Errantes, dispersos, — Castigo que pasma! — Andamos fantasma Por toda a nação. Há mais de mil anos Sofremos calados Por crimes passados De abominação. E vamos correndo, Correndo na terra De encontro co'a guerra Terrível, cruel. E vamos correndo, Nós povo escolhido, Nós povo querido Do Deus de Israel. Ah! foram mui grandes Os erros passados, Os altos pecados Do povo imortal! A voz dos profetas Perpetua se cala: Não clama, não fala Nem mesmo de mal. Do vate dos trenos, Do filho de Hélcia A crua elegia Faria-nos bem. Choráramos juntos Com santa saudade A vídua cidade De Jerusalém. Mas sempre nas eras Paternas que lemos, Lutamos, vencemos As perseguições. Talvez que bem cedo Tenhamos completas Dos nossos profetas As áureas visões. E agora no mundo, De há tanto previsto, Assome esse Cristo, Messias real. E ajunte num ponto Com frases de brasas Debaixo das azas O povo imortal. E venha c'um cetro Mais belo, mais novo Tirar o seu povo Do abismo de dó. E cumpra-se à letra O carme jucundo, Que, já moribundo, Nos disse Jacob. IV E agora meu filho, Nas tábuas cuspindo, Nos deixa, sorrindo, — Meu filho! que dor! E vai tresloucado Seguindo, adorando Um ídolo infando, Um Cristo impostor. Escuta, meu filho, O brado materno, E ao rosto paterno, Vem, tira-lhe o dó. Se o Cristo que abraças Não fora loucura, Seria impostura A voz de Jacob. O Cristo que abraças, Os erros que arrogas, Por mil sinagogas Danados estão. Há mais de mil anos Que são reprovados Por sábios sagrados Da crença de Abram. Têm sido julgados Por santos doutores, Profundos leitores Da lei de Moisés. E os nossos rabinos, Co'a raiva do velho, O falso evangelho Pisaram aos pés. Escuta, meu filho, O brado materno, E ao rosto paterno, Vem, tira-lhe o dó. O Cristo dos nossos Não vem perseguir-nos, Vem antes unir-nos Num povo, num só. Ah! volta, meu filho, Á mãe que te chora, Ao pai que te adora, Que geme por ti. Ah! entra de novo No nosso conjunto, E canta compunto Os ais de David. V Mas ah! renegado, Bastardo, descrente, Mais ímpio que a mente Do ímpio Caim! Riscou-se, apagou-se Teu nome execrado Em pleno, sagrado, Geral Sinedrim. Ah! réprobo infame, Nem mesmo compunto, No nosso conjunto Não podes entrar! Já leio em teu rosto O estigma candente, Que te há de na frente Perpetuo ficar. Nem pátria conservas, Nem nome paterno, E o povo do Eterno Teu povo não é. Vai, ímpio! — e que, ao ires, Era meio à viagem, Te engula a voragem Que abriu-se a Coré.
Inspirações do Claustro, de Junqueira Freire, é um livro brasileiro de poesia romântica publicado originalmente em 1855 e ampliado na segunda edição de 1867. A obra reúne o prólogo do autor, juízo crítico e poemas marcados pela experiência do claustro, conflito espiritual, imaginação religiosa e lirismo ultrarromântico. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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