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Inspirações do Claustro

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Inspirações do Claustro

Capítulo 7 · Inspirações do Claustro

O Apóstolo entre as gentes

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A Antonio Gonçalves Dias — Foste ao principio Sacerdote e profeta: Eram nos céus teus cantos uma prece, Na terra um vaticínio. Gonçalves Dias I Como o brado do anátema gravado Sobre a fronte do réprobo, — nas terras Pejado de baldões, envilecido Pelos filhos dos homens, que o repelem, Que não concebem a grandeza dalma, Que não escutam o pulsar dos peitos, Que não atingem ao sublime e ao Santo, — O ministro de Deus, — entregue ao mundo, A senda do viver percorre breve, Como o rocio, que no albor do dia Salpica as flores, e ao calor se estanca. E dorme o eterno sono em campa escura, Plácido, — como o espírito do justo: E ainda no olvido dessa mesma campa Penetra o riso mofador dos homens, E o molejo do cálido filósofo, Presumido de si, — como a ignorância, Que lhe preside aos erros e aos sofismas. — Nem se queixa: — que é findo o seu martírio, Única herança, que ao nascer lhe coube! II O varão do Senhor, — Moisés, o justo, Pulsou primeiro os nervos do saltério. E o estro virgem ressumbrou-lhe aos lábios, Como a torrente, — impetuoso e santo. Subiu aos céus, nas azas dos arcanjos, Um hino a Deus, que lhe acendera a mente. E o tipo então de sua onipotência Ao ser finito transmitiu-se.— O povo Ouviu na terra a incógnita linguagem, — A linguagem do Eterno. Ouviu-a extático O mundo inteiro, no estupor do espanto, Como a explosão vulcânica primeira. Estreme que era o fogo do profeta, E a voz e os olhos e o acento e o cenho! Justiça do Senhor! — Após os tergos Sepultado o cavalo e o cavaleiro Nas águas do mar-rubro: — e dante os olhos Esses vergéis da intacta Palestina, Prometendo delicias suavíssimas, Como os olhos da noiva espreguiçados Nas expansivas, rutilas pupilas Do paraninfo, que lhe assiste às bodas Ao mando do Senhor, e à noite e ao toro Lhe profetiza trêfegos amores. Esses sublimes alcantis e cerros, Donde desciam por quebradas trêmulas, Lambendo os troncos de copudos cedros, Beijando as hástias de mimosas flores, Entre os convulsos sílices de gemas, De mel e leite os trépidos arroios. Oh Palestina, oh virgem dos mistérios! Quem assentado em teus alpestres píncaros, Sentindo o vendaval soprar-lhe a grenha, E o cedro secular rompendo as nuvens, Como um gigante, — e ao sopé dos montes O rio a murmurar, como a donzela Junto do amante a desfazer-se em queixas, E ao longe a voz dos vagalhões bramindo Horrenda mais que a confusão do inferno, — Quem poderá deixar de ser poeta Ao menos uma vez, — oh pátria de anjos, Oh Palestina, oh virgem dos mistérios! III Ali foi educado, entre as palmeiras E o cedro e o murmurar do regato e as penhas E o rugido dos mares e as procelas, — O gênio entusiástico do apostolo. Ele entre as tribos assomou severo Ás portas de Sion, co'a voz constante, Como o rugido do leão das selvas. Vinha vestido de sinistro saco, E predizia a vinda do Homem-santo, Do máximo dos vates: — mas as tribos, As ímpias tribos, e os rabis fanáticos Escarneceram do pregão do apostolo, Escarneceram do poder do Eterno. IV Ele descreu dos homens e da terra, E para alçar mais livre aos céus os olhos, Subiu também aos coruchéus altivos Das colunas do Egito, que campeiam Aqui, ali, a recontar às eras Em seus gastos lavores hieroglíficos A vaidade dos reis e a falsa crença. Em derredor o viajor parava, Fixava nele os curiosos olhos, E tremia de ouvir-lhe a voz profética. E em torno à fronte lhe brilhava um disco De fogo mais que santo, — como alquando Moisés descendo do Sinai co'as taboas. Mas os homens alfim o escarneceram, Escarneceram do pregão do apostolo, Escarneceram do poder do Eterno. V Ele escondeu-se na soidão das lapas, Nas desertas montanhas de Cassino, Fugindo Roma, — a dona dos triunfos, Roma, — a senhora das nações da terra, E os bailes dela e as cívicas delicias E os áulicos salões, onde reinavam A mentira, a traição, o vicio, e o crime, Disfarçados nos risos dos hipócritas, Nos ademães dos cortesãos imundos. Ele escondeu-se.— E os homens o seguiram, E o viram co'a cabeça reclinada Em pedra rígida, — e deitado em tálamo De urtigas.— Mas alfim o escarneceram, Escarneceram do pregão do apostolo, Escarneceram do poder do Eterno. VI Hoje, porém, ele não mais assoma Severo e forte às portas da cidade, Como o bramido do leão das selvas. Não mais remonta aos coruchéus altivos Das colunas do Egito hieroglífico, Co'o disco em torno do semblante aceso. Não mais asila-se ao deserto e às lapas, Não foge Roma, — a dona dos triunfos, Roma, — a senhora das nações da terra. Mas os filhos dos homens o escarnecem, Inda escarnecem do pregão do apostolo, Inda escarnecem do poder do Eterno. VII Oh destinos do céu! — porque não somos Ainda agora os índios das florestas? Porque degenerado em nossas veias Gira tão raro o sangue do tamoio? Porque esse fogo irrequieto e vivido, Como o corisco a recortar o éter, — Porque esse fogo, que acendia os olhos, E o peito imenso do tupi guerreiro, Nos olhos e no peito de seus filhos Estanque e frio e gélido volveu-se? Bárbaros eram.— Mas em ranchos longos, Nos tejupás pendido das imbiras Desamparando o vibrador tacape, E meneando os colos enlaçados Das correntes das perolas do rio, E assoberbando as pequeninas testas Co'o variegado canitar nutante, E cingindo ao redor do esbelto corpo As multicores lindas arasoias, Das araras à púrpura roubadas, — Demandavam as ocas tenebrosas Dos severos e ascéticos piagas. E os consultavam nas empresas árduas, E decoravam seus oráculos santos, E decantavam seus poemas místicos, Como o primeiro beijo da donzela Dado furtivo entre o amor e o pejo Nos lábios caldos do donzel, que a vida Expandir-se-lhe sente em moles pulsos. — Oh! que não somos os briosos tapes, Filhos da virgem da guerreira América! Era o supremo Deus onipotente Tupá — o sábio autor da linda lua, Do sol vermelho e das montanhas de ouro E dos búzios marinhos, e dos cardos Que o viajor nos areais saciam, E do azulado beija-flor das veigas Que trebelha brincão entre os arbustos, Como os desejos sôfregos do amante. Que tinha? — Deus é Deus! — vozes não mudam O ser do Eterno — idêntico, — imutável, Nos planetas do céu — se mundos forem — Ou só na terra, se ela é só no imenso. Jeová, que expedia o arcanjo etéreo Em vante dos exércitos hebraicos Co'o facho aceso em fogo inextinguível: Brahma, que transmitiu a luz celeste, E o puro espírito e a energia e a forma, De que é principio, — aos fabulosos índios: Teos, que deu aos gregos mitológicos Um vasto olimpo arcado de miríadas De lindos deuses, — símbolos dos gostos: Tupá, que engendra no infinito espaço O trovão co'os bulcões vertiginosos E os chuveiros de pedra e o raio e a morte: — Tudo é Deus, tudo é Deus! — o mais sem nomes. VIII Nos áditos do místico pagode O ministro de Brahma aspira incensos. O áugure de Teos, assentado Na trípode tremente, auspícios canta. O piaga de Tupá, severo e casto, Nas ocas tece os versos dos oráculos. E o sacerdote do Senhor, — sozinho, — Coberto de baldões a par do réprobo, Ante o mundo ao martírio o colo curva, E aos céus cantando um hino sacrossanto, Como as notas finais do órgão do templo, Confessa a Deus; e — confessando — morre.

Inspirações do Claustro

Sinopse

Inspirações do Claustro, de Junqueira Freire, é um livro brasileiro de poesia romântica publicado originalmente em 1855 e ampliado na segunda edição de 1867. A obra reúne o prólogo do autor, juízo crítico e poemas marcados pela experiência do claustro, conflito espiritual, imaginação religiosa e lirismo ultrarromântico. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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