Universo da obra
Universo da obra
A suma perfeição consiste em vagar o espírito para Deus. S. THOMAZ. Que rezas, que rezas, — tremendo co'os lábios, Co'a baça pupila nas córneas imota? Batendo nos peitos co'as mãos descarnadas, Co'as mãos no rosário, — velhinha devota? Coitada da velha, — que ou sinta pesares, Ou sinta dulçores, não sabe chorar! Que o sorvo da vida, de acéticos travos, O pranto nos olhos lho pôde estancar! Agora só reza nas contas benditas, Só reza contrita, — que pode mais al? Que o tempo, que as rugas, que os anos que foram, Contínuo lhe faliam da lousa final. Que a vida, que vivem os homens na terra, É sonho, que a infância sonhou, a cismar. Feliz quem mais soube dormir este sono, Quem soube este sonho mais longo sonhar! Ai — quem me poderá sondar os arcanos Do peito da velha! — Que rica seara, Que messe tão vasta de tanta verdade, Que o jovem não sega, não rega, não ara! Qual vôo do tempo nas asas das eras, Tal é da ciência do velho o condão: Que quantos mais dias de vida lhe escorrem, Mais largas verdades crescendo lhe vão. Velhinha, — é tão noite! —no chão do cruzeiro Que rezas, — sustendo dos nortes o açoite? Oh — não te arreceias das ruas desertas, Oh — não te amedrontam as larvas da noite? Não sentes, devota, — pressões nem arfagens, Quais vagas dos mares, — no peito torpente? O mau sobrecenho da morta velhice Torrou-te os sentidos desta alma fervente? Oh — sim: — como a estrada que os séc'los trilharam, Está calejado teu bom coração: E das penedias na sílice alpestre Tornou-se-te a tua senil sensação. Que braço tão forte de ferro abismou-te Das penas no fogo, — dos males no fundo? Quem nesta tristura, — vulcão que devora, — Quem nesta tristura lançou-te? — este mundo! Por isso ao cruzeiro levantas os olhos, Co'a baça pupila nas córneas imota: Por isso acarinhas um só pensamento, — A imagem do Eterno, — velhinha devota! A imagem do Eterno, — qual canto brasido, Qual tocha das aras, — te brilha no aspeito. A imagem do Eterno, — que o mundo repele, Adoras, — qual mimo de amores, no peito. E o chão do cruzeiro co'os nortes, que zunem, Soprando os cabelos da velha tremente: E a noite co'as larvas medonhas, — tão feias, E o éter cerrado de nevoa somente: E as aves noturnas co'os cantos de agouro, Nos vãos do cruzeiro, — nos seus coruchéus: Lhe faliam de um Ente, — que os homens esquecem, Lhe faliam na terra de um Deus que há nos céus! Oh — beija fervente mil vezes, velhinha, Sim, — beija os emblemas de teu relicário. Recita, — tremendo, recita essas rezas, Correndo nos dedos o grosso rosário. E vós — oh donzelas gabadas de lindas, Que tanto vos rides da velha — coitada? Deixai-a que suas camáldulas gire, No frio ladrilho da cruz assentada. É calvo o cruzeiro, — tão alto, tão alvo, Qual de caramelos lucente alcantil: É como um espectro: fugi oh donzelas, Do espectro, que topa co'o arco de anil! E todo este quadro de horrenda poesia, De assombros, — não trava de seu coração. Sua alma não teme fantásticos trasgos, Sustida nas asas de linda oração. É seu gozo todo: — prostrar-se nas lajes, Nas lajes marmóreas daquele calvário: Liberta das vistas vipérias do mundo Rezar mais devota no bento rosário. Um dia, — era jovem, mimosa dos homens, — Os homens lhe deram um trono real. Mas hoje, — velhinha, — co'os pés do cruzeiro Se abraça contrita, — que pode mais al?
Inspirações do Claustro, de Junqueira Freire, é um livro brasileiro de poesia romântica publicado originalmente em 1855 e ampliado na segunda edição de 1867. A obra reúne o prólogo do autor, juízo crítico e poemas marcados pela experiência do claustro, conflito espiritual, imaginação religiosa e lirismo ultrarromântico. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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