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Inspirações do Claustro

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Inspirações do Claustro

Capítulo 31 · Inspirações do Claustro

Aos túmulos

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Pobre, grosseiro, não numeroso, que importa isso? Para pregar as tábuas de um ataúde qualquer pe­quena força basta. ALEXANDRE HERCULANO. Aos túmulos, aos túmulos, minh'harpa! Choremos sobre a lapida esquecida Dos homens que já foram. O céu aceita o pranto dos pequenos. Não te acobardes, não. Vamos, minh'harpa, Depor também na lousa dos finados, Como a viúva, um óbolo mesquinho, Mesquinho só na terra. Além das nuvens Um tesouro se torna aos pés do Eterno. Tua missão, minh'harpa, é grande, é grande: — Sagremo-nos à morte. Aos túmulos, aos túmulos, minh'harpa! Da grimpa do mosteiro atroa o bronze, E de fúnebres sons os ares pejam, Como a tremenda voz da eternidade, Que as nuvens baixa, e perde-se no imenso. Bem!—este som diz—morte!—e apraz aos tristes, Apraz a nós, minh'harpa! Não te assuste, por tanto, a voz amiga, Que há de chorar por nós, mau grado aos vivos, Quando não formos mais! Tua missão, minh'harpa, é grande, é grande: — Sagremo-nos à morte. Aos túmulos, aos túmulos, minh'harpa! Pobre instrumento, — as tuas áureas cordas, Onde pulsavas o prazer e a vida, Estalaram por si! — Estas que sobram Sejam sagradas à tristeza e ao luto. Mágoas somente restam-te. Emudece, Ou canta, soluçando, as mágoas mesmas. Estás cansada de chorar tão jovem? Já não são tua essência às grandes dores, Teu alimento as lágrimas? Tua missão, minh'harpa, é grande, é grande: — Sagremo-nos à morte. Aos túmulos, aos túmulos, minh'harpa! Não vês aqui este sepulcro aberto, Como se a terra se estivesse rindo, Para abraçar seus filhos? Vamo-nos juntos debruçar sobre ele. Nossos primeiros pais, cheios de susto, Templos aos manes levantaram quase. Tinham razão, talvez. Cristãos mais sábios Amemos com recato a tumba ao menos, Tua missão, minh'harpa, é grande, é grande: — Sagremo-nos à morte. Aos túmulos, aos túmulos, minh'harpa! Assim, minh'harpa, a nossa vida inteira Devêramos passar, cantando em trenos Esse jazigo, onde se esconde a ossada Dos séculos que passam. Aqui também na podridão, nos vermes Há de o futuro em esqueleto imenso Cair, esvaecer-se. Aqui também inspirações se bebem No hálito dos mortos. Aqui se encontra inesgotável messe De sólidas idéias. Tua missão, minh'harpa, é grande, é grande: — Sagremo-nos à morte. Aos túmulos, aos túmulos, minh'harpa! Sim: fiquemos aqui.— Aquele arbusto, Que das frestas da lapida desponta, Nasceu talvez do peito de um cadáver. A seiva humana em suas hástias corre. Aquela flor inda transpira sânie. Lá para o meio da soidão noturna Talvez fale do céu, talvez do inferno. Sim: fiquemos aqui. Daquelas folhas Talvez saia uma voz precisa ao mundo, Talvez algum recato aos vivos traga, Talvez de nós careçam. Sim: fiquemos aqui soturnos ambos. Esperando seu brado. Tua missão, minh'harpa, é grande, é grande: — Sagremo-nos à morte. Aos túmulos, aos túmulos, minh'harpa! Não te apavore o aspecto das tumbas. Esta boca sarcófaga que a terra Aqui a nossos pés abriu medonha Não é para engolir-nos. O nosso cálix de abundantes dores Não transbordou ainda. Tua missão, minh'harpa, é grande, é grande: Sagremo-nos à morte. Aos túmulos, aos túmulos, minh'harpa!

Inspirações do Claustro

Sinopse

Inspirações do Claustro, de Junqueira Freire, é um livro brasileiro de poesia romântica publicado originalmente em 1855 e ampliado na segunda edição de 1867. A obra reúne o prólogo do autor, juízo crítico e poemas marcados pela experiência do claustro, conflito espiritual, imaginação religiosa e lirismo ultrarromântico. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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