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Inspirações do Claustro

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Inspirações do Claustro

Capítulo 34 · Inspirações do Claustro

Poema fúnebre

34 de 38 ≈ 23 min de leitura

Dedicado a meu irmão Frei Henrique de Santa Rosa Ribeiro, por ocasião da morte de seu irmão Raymundo Álvares Ribei­ro, sucedida a 23 de abril de 1853. Choraram Germânico até os desconhecidos. TÁCITO. I Choremos todos um amor de menos. Se uma flor, que murchou, sentimos tanto, É que faltou-nos seu odor suave, Que nos dizia — amor — quando exalava. Choremos todos um amor de menos. Se lá se esconde no oceano a lua, E se nos parte o coração saudoso, É que sem luz os olhos nos ficaram, Sem esse amor que ela inspirar-nos sabe. Choremos todos um amor de menos. Se algum farol não vemos na tormenta, E se nos fogem da esperança os raios, É que visamos o naufrágio urgente, E a perda amarga da visão da pátria, Que delicias de amor nos predizia. Choremos todos um amor de menos. Se a morte crua nos arranca o amigo, Se damos prantos à memória dele, É que de nós p'ra sempre separou-se Um coração que concluía o nosso, E o gozado prazer não mais gozamos, E doutro amor o nosso amor falece. Choremos todos um amor de menos! Choremos todos o mancebo, o amigo, Que a nossos braços nos arranca a morte. Choremos todos uma flor crestada, Que não dá mais odor: a linda lua, Que se escondeu nas ondas do oceano, Que mais não luz: esse farol brilhante, Que se apagou nas vascas da tormenta, E a pátria desviou-nos: esse amigo, Que doutro amor o nosso amor enchia. Choremos todos sua perda infausta, Choremos todos o passado gozo, Choremos todos um amor de menos! II Era um dia formoso. — O sol brilhante Mais esplendidos raios difundia, E mais ardentes júbilos mostrava. Como do infante as faces que enrubescem A mais e mais, quando a alegria aumenta. Num vaporoso sonho de poeta Três formosas visões eu vi — tão novas — Que mais ao céu que à terra pertenciam. Séria matrona erguia-se a primeira Com majestoso porte e honesto riso. Gentil donzela erguia-se a segunda Co'o tímido pudor nos olhos ternos, — Anjo inefável de modéstia altiva! Estava ante elas um loução mancebo Co'os vivos olhos alongados, fixos, Respirando prazer, amor e pejo, Como num templo a vista indefinida Do crente que no peito as rezas volve. Enternecido em amoroso arroubo, Fita à donzela, que, em pudor e riso, No chão a vista envergonhada crava. Era um anjo de luz entre dois anjos, Que dele a luz primeiro recebiam, E seus raios depois comunicavam, Como a destra do Eterno a graça infunde. E onde era o centro fecundante e vivo, E onde era a ação do móbile primeiro, A humana vista distinguir não pôde. E cada qual destas imagens vagas Era foco de luz, fonte de brilhos: Bem como o sol — vivificante fogo — Seus próprios raios, circulando, espalha Na vastidão do espaço, — e a luz que o cerca, Vai refletir pelos etéreos corpos, Pelos astros do céu — e o firmamento Com estranho clarão pompeia à noite. Eram assim minhas visões formosas, As três imagens de meu vago sonho, Que mais ao céu que à terra pertenciam! III O mancebo falou. O norte intenso, Que ia cruzando enfurecido os ares, Foi transformar-se em zéfiro saudável, Quando o mancebo desprendeu seus lábios. O terreno vapor, que ao éter sobe, Do chão, dos mares, tórrido ou aquoso, Que vai no espaço assimilar-se em nuvens, Que o céu em crepe mortuário enlutam, Parou também a aspiração que tinha, Quando o mancebo desprendeu seus lábios. As lindas flores dos jardins da terra, Que pelo sol crestadas, estuavam, Tentando em si desnatural esforço, A seiva toda do âmago chamaram Ao cálix globuloso — e cheiro e bálsamo. Mais novo e ativo respiraram todas, Quando o mancebo desprendeu seus lábios. O sol também mais orgulhoso e altivo, Subiu ao seu zenith — seu trono etéreo — Para mirar na direção dos raios, Na baixa terra a imagem da inocência, A encarnação do espírito dos anjos, Quando o mancebo desprendeu seus lábios. — O vento forte e as nuvens se sumiram, Não exalaram mais o mar e a terra, Balsamo novo as flores respiraram, O sol subiu ao seu zenith sublime; Parada, estanque, a natureza atende, E o mancebo loução desprende os lábios. — Crê-me, oh donzela! a onipotente destra Formou meu coração p'ra ser contido Bem dentro do teu peito — qual se esconde Tesouro imenso em urna pequenina. Tua alma pura, cândida, inocente, Como o gemer de solitária rola, Também foi feita para unir-se à minha. Somos dois corações fundidos ambos Num coração que um sentimento iguala: Duas felizes almas derramadas Numa alma só que um pensamento ajunta. Quando teus olhos — como ardentes fachos — Chamas de puro amor, em mim se fitam, Não encontras também meus olhos quentes Fitos nos teus em fogo de ternura? Quando, depois de instantes de silencio, Depois de um lindo e passageiro arroubo, A ponto os nossos lábios se desprendem, Não temos dito tanja vez num brado As mesmas expressões, as mesmas frases? Não pensamos também na mesma idéia? Quando um incerto e vago sentimento De amor, de timidez, de zelo ou mágoa, Ambos os nossos corações comprime, Não temos arrancado ao mesmo tempo Doridos ais ou tépidos suspiros? Dois corações e duas almas somos, Que um sentimento e um pensamento ajuntam. Deus quer-nos juntos, porque assim formou-nos; Seremos juntos, venturosos, lindos, Como as aves do céu no espaço livre. Deus quer-nos juntos — porque assim formou-nos, Quer-nos ditosos, venturosos, lindos! Não carecemos de riqueza imensa, Para gozarmos nossa imensa dita. Não carecemos de um solar vetusto, De um castelo feudal, de um régio alcáçar, Nem de um palácio de riqueza imensa, Que nos devam conter a imensa dita. Não carecemos do poder do mundo, De um diadema excelso de rainha, De um cetro forte de riqueza imensa, Que nos venham ornar a imensa dita. Não carecemos de renome ou fama, Desses prestígios frívolos de glória, Dessa vaidosa voz, geral, inútil, Que nos venha espalhar a imensa dita. Templo maior mais digno, mais sublime É nosso coração: imenso alcáçar, Onde pôde habitar o amor somente! Chegamos nele: — que ele é amplo, extenso, Capaz, bastante a concluir num foco Duas vidas irmãs, iguais, fundidas. É só no coração que a dita existe, É nele só que ser feliz se pode. Só do seu centro partem-se, despedem-se, Brilhantes raios de imortal ventura. E se meu coração co'o teu se iguala, Se juntos somos pela mão do Eterno, É que a ventura em nós também se dobra, E duas vezes mais felizes somos. Deus nos quer juntos — porque assim formou-nos, — Quer-nos ditosos, venturosos, lindos! — Assim falava o fervido mancebo: Seu coração pulsava arrebatado, Forte, ansioso, inquieto, ardente, Como o oceano em vagalhões revolto, — E parecia, entre os arfantes pulsos, Querer pular no coração da virgem. E as pupilas da virgem rutilavam Saltantes, doidas, como incertos fogos No mar à noite co'o ferver das ondas. E do prazer a lágrima correu-lhe Do lado esquerdo pela face quente, E foi por ela tremula caindo, Como um regato de cristal ao longe, E muito tempo lhe pendeu da face, Qual pende em flocos do penhasco o gelo, — E a tez ardente resfriou-lhe um pouco, E pelas veias circulou-lhe o sangue, Que todo havia concorrido ao rosto. E a seu estado natural volvida Era a donzela uma visão celeste, Que vê-se em sonho, e se dizer não pode. E a matrona sorriu. E os fracos olhos Lagrimas raras de prazer manaram, Bem como gotas de ligeira chuva. E levantando a vista ao céu sereno, E erguendo a destra sobre a filha e o jovem, E os abraçando em apertado amplexo, — Sublime, excelsa, qual no templo assoma Do sacerdote o divinal semblante, — De Deus a bênção derramou por eles. IV E um disco enorme de ventura e glória Cobriu minha visão. E as três imagens Eram três centros de brilhantes raios, De mistérios de luz. Então meus olhos De tamanho clarão feridos, cegos, Não viram mais esta visão distinta. Perante a vista ainda restou por horas Um turbilhão de luz no mesmo estado. Depois de grau em grau foi-se apagando, E se extinguiu. — Um vórtice de trevas, Imolando no ar, veio envolvê-la. V Então a voz de uma verdade amarga A meus ouvidos ressoou tremenda, Como o ribombo do trovão rolante! Um grito extenso, quereloso, trêmulo, Nos ares se partiu. — Como um rangido De ferro em ferro, o guincho desatou-se. Depois subindo lamentosa escala, Era de um doido a gargalhada bruta, De vivo incêndio o crepitar nas matas, O som de um raio no escachar o tronco. Por fim descendo em gradação medonha, Já muito ao longe terminou-se o guincho Na querelosa voz que começara. Ave sinistra! — incrédulos ou sábios Teus mortuários cânticos não temam! Eu não! que sei temer-te. — Instinto ou alma Existe em ti que profetiza a morte. Talvez o Eterno te formou de modo, Que teu olfato peregrino ou próprio, Do moribundo os hálitos perceba, Assim como formou-te a voz horrível Para dizeres lôbregos lamentos. Então a voz de uma verdade amarga A meus ouvidos ressoou tremenda Como o ribombo do trovão rolante! Então o lindo zéfiro saudável Transformou-se outra vez em norte intenso. O mar e a terra respirou vapores, Que subiram ao ar formando nuvens, Que o céu em crepe fúnebre enlutaram. Então as flores dos jardins da terra Esgotaram a seiva e a força e a vida, E o cheiro ativo e o bálsamo perderam. E o sol formoso, que eu sonhava há pouco, Contra o nosso hemisférico a face tinha. Então a voz de uma verdade amarga A meus ouvidos ressoou tremenda, Como o ribombo do trovão rolante! VI Torvos os olhos, trêmulos os lábios, Pálida a face em lágrimas banhada, Rugada a testa juvenil — tão linda, Caída pelo colo a espessa coma, Um lúgubre ululado ao ar desata Uma triste mulher. Chamou-se esposa Num instante somente, — e noutro instante Da viuvez a sorte e as dores prova. VII — Ele, meu Deus! o esposo da minh'alma Aqui no coração viveu ‘té agora, Como num templo. —Ele morreu p'ra sempre, — E resta o coração que ele habitava, Qual fica o templo a que se tira o Santo. E resta o coração... que é este agora? Taça vazia do licor divino, Que outrora a encheu e a perfumou tão doce! Amplo jardim de arbustos decepado, Sem flores mais que embelecê-lo possam! Tais para mim os meus amores eram! Doce licor que o peito me embebia, Flores que a fronte ornavam-me em grinalda, Santo que tinha na minha alma um templo! Ah! meu amor se consumou tão cedo!... A minha vida se acabou co'a dele, Qual murcha a planta quando o pé lhe arrancam. — Tirai-me aqui, levai-me longe, amigas, Levai-me longe as vestes do noivado. Esta capela, que cingiu-me a testa, Que eu tenho aqui tão natural, tão nobre, Foi ele que ma deu. Seus próprios dedos Foram que em mim esta capela ataram. Depois, de mim três passos afastou-se Para mirar-me assim, — e achou-me bela Como sua alma, e me chamou «Divina, «Visão de Deus, ou serafim, ou fada. «És bela, oh minha irmã, — então me disse, «Como os anjos do céu, — quando te adorna «A fronte esta capela. —Em nossas bodas «Irás ovante, presunçosa, altiva, «De teu brilhante resplendor cercada.» Levai-me longe esta infeliz capela, Levai-me longe este presente, amigas, Levai-me longe as vestes do noivado. Tirai-me as jóias que este colo enfeitam, De que me ornei para agradar-lhe os olhos. Não mais eu tenho o meu amor tão belo, P'ra quem me enfeite de luzidas jóias. Levai tais jóias para longe amigas, Levai-me longe as vestes do noivado. De meus dedos, aqui, vinde arrancar-me Estes anéis de rutilos brilhantes, Estes ornatos de alegria e luxo. Mas este anel, que vedes mais pomposo, Mais fulgurante aqui — bem como um astro — Por compaixão! não mo tireis, amigas, Que foi de meu amor sinal eterno, Impresso pela mão do amante esposo. Os mais enfeites me arrancai, amigas, Levai-me longe as vestes do noivado. Fatal doença, que poder tiveste Que de meus braços o levaste à morte! Tam jovem inda o meu esposo! Agora, —Viver, agora, começava apenas, Pois agora somente era que amava. Quando lhe urgira o passamento extremo, Lutando já entre mortais transidos, Essas tocantes frases lhe escutamos: «Morrer tão cedo! — e o serafim que eu tenho, «Esta esposa infeliz, que amo extremoso, «Único anelo à vida ao pé da morte, «Esta esposa infeliz tão cedo a deixo!» Fui eu, fui eu seu pensamento extremo! E nessa convulsão que ultima a vida, Quando a pálida boca abriu forçado, Quando lançou seu derradeiro expiro, Inda tentou articular meu nome, Que entrepartido lhe ficou nos lábios, E o fim, e o resto — transportou-o à campa! Campa cruel, que o meu amor encerras, Não lhe comprimas o mimoso corpo, Que eu já cuidei para entregar-te agora. Já que não podes reverter-lhe a vida, Dá-lhe um sossego plácido na morte, Campa cruel, que o meu amor encerras! Ele não era para mim somente Amor inútil, isolado, ou fátuo. Co'o seu amor vivifico e fecundo Queria a todos, como a si queria. Choremos todos um amor de menos. Choremos todos: que partiu tão breve Da terra aos céus um coração de amigo. Mas foi unir-se àquela Essência eterna, Donde seu puro espírito partira. Entre os anjos nos céus ele revoa; Que um anjo ele era cândido e formoso. Isto consola: — mas em quanto a vida Na terra me durar, — contínuo e sempre Chorarei pelo amor que dele tive, E com meu pranto copioso e ardente A lamentá-lo ensinarei a todos. Choremos todos um amor de menos.

Inspirações do Claustro

Sinopse

Inspirações do Claustro, de Junqueira Freire, é um livro brasileiro de poesia romântica publicado originalmente em 1855 e ampliado na segunda edição de 1867. A obra reúne o prólogo do autor, juízo crítico e poemas marcados pela experiência do claustro, conflito espiritual, imaginação religiosa e lirismo ultrarromântico. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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