Leia agora
Inspirações do Claustro

Universo da obra

Inspirações do Claustro

Capítulo 36 · Inspirações do Claustro

Os dois cadáveres

36 de 38 ≈ 8 min de leitura

Não sei se partia do espírito meu. 1 de fevereiro de 1854. OS DOIS CADÁVERES Aos manes do venerando ancião — o Dr. Fr. José de Santa Es­colástlca e Oliveira, falecido a 22 de março, e do meu jovem amigo Fr. Henrique de Santa Rosa Ribeiro, falecido a 22 do mesmo mês. Felizes, — não só pela honradez da vida, como pela oportunidade da morte. TÁCITO. I As lamentáveis orações que escuto Dizem que é tempo de chorá-los inda. Precisam certas dores longa ausência Para tornar-se fortes. Nem no tempo É que se enxugam lágrimas de amigos. E as lamentáveis orações que escuto Dizem que é tempo de chorá-los inda. II Em dois dias somente à terra demos Dois cadáveres nossos. E essa terra Duas fauces abriu para engoli-los, — Duas fauces terríveis. Parecia Por duas bocas horrorosa rir-se Com sardônico aspecto. III Entre as preces de morte aqui trouxemos Primeiro um ancião. Vivera um dia, Mas um dia completo. A sua aurora Fora risonha: o seu zenith mais belo: Mais belo o seu ocaso. De sua historia as páginas douradas Todas num verbo apenas se resumem, — No verbo da virtude. E vós, filhos do mundo, — e vós, que tendes Menoscabado, ironizado os claustros, Vede aquele sepulcro. Ali na pedra Lereis vossa loucura, alfim vencida De pejo e confusão, — indo esconder-se Por entre as nossas orgulhosas palmas De fúnebre vitória. E esse quadrado, povoado ao longo De cadáveres mil, atesta aos ímpios Que esta insânia da cruz não cai ainda. Vinde estudar na lapida dos túmulos A sorte do porvir. Aqui se enastram Nas flores do martírio imensos nomes Que figuram no céu. Aqui lançamos Ao mundo inteiro uma solene prova Do que ele chama — as ambições do monge. Inclinai vossa fronte em nossas campas, Oh ímpios, — e aprendei! Aqui se escondem Do monge as ambições mortas com ele. Perguntai, perguntai às mesmas campas — Quais elas foram? — Uma prece humilde Depois de sua morte. Tais do monge ancião, que inda choramos, As ambições na vida e além dos túmulos. Foram cumpridas, elas. Seu cadáver Entre as preces de morte aqui trouxemos. IV Tinha troado lutuoso o bronze Gravosos sons de morte. De dobres e orações os ares pejam. Da dor o espectro, o gênio dos lamentos Nos tetos pousa, em lágrimas folgando. E o campanário emudeceu: nas auras De todo em todo o lúgubre ruído, Voando, esperdiçou-se em tênues ecos. Somente as orações crebras sussurram Pela extensão dos solitários claustros. E tudo o mais era silencio e nada. Quando outra vez o acostumado bronze Mais outra morte clama: V Era um jovem que um passo apenas dera No caminho da vida. Uma pegada Marcou somente nos degraus do mundo: Desceu, — e deu no tumulo a segunda. Um momento parará ante os altares Cantando o Eterno em maviosos hinos: Foi toda a vida sua esse momento: E remontou-se ao céu, findado o canto. Quando de tarde enternecida e meiga Fala entre as folhas dos rosais a brisa, Um som — quase canção — se expande ao longo, Melodioso, sim: porém mais belo Era o seu hino harmonioso e brando. Quando sobre a montanha aérea orquestra De altivos rouxinóis em fortes trinos De musica atrevida os ares enchem, Para os ouvir o camponês deserta O inocente tugúrio, — e as feras bravas E as torrentes caudais e os nortes param: Mas nada disso a sua voz copia. Nem a harpa imortal tangida outrora Pelo jovem David nos régios paços, Do possesso Saul calmando as fúrias, Traduz o seu cantar. Já para a terra Era de mais ouvi-lo. Tinha excedido há muito o ser de humano, E já tocava à perfeição dos anjos. Talvez que precisasse o etéreo trono Mais de um cantor, qual ele. Ou dentre os choros seus—Deus, por momentos, Tirara um anjo que viesse ao mundo Cantar canções do céu, — dizendo aos homens Como se adora a Deus na pátria eterna. VI Cantor, cantor do céu! tu não morreste, Nem mudaste de pátria. Não pode, não, ser teu nem um dos orbes. Se na terra passaste, oh sim, — viagem, Missão de Deus foi isso em nossa esfera. A pátria tua é tão somente o Eterno! Tu gemias, eu sei, eu vi-te, eu mesmo, — Gemias, circunscrito em teu segredo, Com saudades de lá. Cuidando às vezes A sós contigo e tua idéia estares, Em quentes preces ao Senhor pedias Sua mensagem concluir contigo. Lá no Gólgota assim, na cruz suspenso, Entre dores ao Pai rogava o Cristo Que lhe passasse o cálix. Deus enfim te atendeu, cantor sagrado. Almas dignas de Deus — Deus sempre as ouve. Não choremo-lo, não. Um pranto estéril Sobre os manes de um anjo — insulto fora. Gravemos só em sua campa um nome, E o mais em nossos peitos. 22 de abril de 1854.

Inspirações do Claustro

Sinopse

Inspirações do Claustro, de Junqueira Freire, é um livro brasileiro de poesia romântica publicado originalmente em 1855 e ampliado na segunda edição de 1867. A obra reúne o prólogo do autor, juízo crítico e poemas marcados pela experiência do claustro, conflito espiritual, imaginação religiosa e lirismo ultrarromântico. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978650252556463100842356
Inspirações do Claustro

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Inspirações do Claustro

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Inspirações do Claustro

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Inspirações do Claustro Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 36 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Inspirações do Claustro

Capa de Inspirações do Claustro
Continue a leitura Os dois cadáveres Capítulo 36 · 36 de 38 · ≈ 8 min
Todos os capítulos 38 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir