Universo da obra
Universo da obra
Pelo falecimento do venerando ancião — Frei Marcelino do Coração de Jesus, acontecido em junho de 1854 no mosteiro do Rio de Janeiro. São velhos que batalharam, E que jamais renegaram A sua divisa e fé. MUNIZ-BARRETO. Por que deixaste o teu mosteiro, oh monge, Deixaste a tua cela? Para o báculo ainda um dia tinhas, Um dia para a mitra! Não tinhas mais que performar no mundo? Esgotaste da vida o vário cálix, Onde, a par do prazer que à tona sobe, Assentam mágoa e fezes? Saciaste-te bem de dor, de gozos! Fartaste-te da vida? Por que deixaste o teu mosteiro, oh monge, Deixaste a tua cela? Era cedo, talvez. Ainda as faces Alardeavam mocidade e vida. Na fronte ainda o ébano luzente Entremeava a prata. Rija, sonora, da tribuna eterna, A voz ainda estremecia as turbas, Apavorava os grandes. Podias espalhar mais bem no mundo, Se fosses mais um dia. Porque deixaste o teu mosteiro, oh monge, Deixaste a tua cela? Foras um homem necessário agora. Precisavam de ti vítimas tantas, Ai! tantos desgraçados! A mão iníqua de sagrados ódios Sobre o colo inocente alçou de novo A sécure de Herodes. Co'a garganta infantil cozida ao cepo, Do algoz romano pávidos ouviram: — Obediência ou morte! — Obedeceram.— A tortura, o açoite, O ergástulo, o patíbulo, as panteras, Dos ímpios Neros foram. Hoje há Neros cristãos mais brutos que eles. São de todas as épocas os tipos De crime, de ferócia. Não há, porém, anfiteatro e feras. Conhecem mais o sofrimento, as dores, O que mais dana os homens. Dão-nos apenas cárcere e desterro! Ah! o desterro!... prolongada estatua De morte que do céu se prende ao inferno, — De morte que não finda! Ai! para tantos míseros agora Que necessário foras! Por que deixaste o teu mosteiro, oh monge, Deixaste a tua cela? Não viste as salas úmidas do pranto Dos míseros proscritos. Não viste o pano dos sagrados muros Transudando de lágrimas. Não viste o coruchéu do templo anoso — Testemunha da dor, — curvar-se a ela, Em respeito à desgraça. Não viste à noite nos soturnos claustros, De par em par fendendo-se os sepulcros, Rangindo os ossos, levantar-se os mortos Brandindo maldições em férreos carmes Sobre os filhos sacrílegos. Mui agra fora a teus provectos anos Uma cena de sangue. Ah! tanto horror te causaria infernos! Foste feliz: — morreste. Quando os pequenos, tão do Cristo amados, Fossem vistos de ti, — pálidos, tristes Co'as faces cavas do sofrer profundo, Castigados sem crime, em hóstia à raiva De fariseus hipócritas... Uma lágrima tua, um gesto, um brado, De bálsamo lhes fora. Por que deixaste o teu mosteiro, oh monge, Deixaste a tua cela? Também foste proscrito. A dor do exílio Não era-te ignota. Ah! quantas vezes desejaste em anciãs Voltar à pátria cara! Na pedra tumular da avita glória, Sobre o pó dos troféus, pobre, aviltado, Seus maus destinos Portugal pranteia, E pranteando dorme. Ossada de nação co'os pés em terra, Co'as mãos a custo sustentando o crânio, A cada sopro do suão vacila. Mas inda assim amavas-lhe os destroços! Lá o teu berço estava. Mas ah! os toques matinais não soam Nas cúpulas da Arrábida. Jazem seus claustros pavorosos ermos. Murmura ainda nas extensas naves O ruído do sangue. Nas vácuas celas estampado impera O crime de seus filhos. Só esta idéia te rasgava as veias, Te amargurava o peito. Receaste, avistando-lhe as ruínas, Desfalecer chorando. Mas esses prantos que o sublime excita Contêm suave gozo. Por que deixaste o teu mosteiro, oh monge, Deixaste a tua cela? Hoje de lá do céu a vista inclina Para a dor dos pequenos. Uma prece de ti merecem, querem Tão inocentes almas. Roga por eles ao Senhor que os ama. Prostra-te ainda dante o sólio eterno Orando pelos ímpios. Talvez o Cristo lhes perdoe o crime, Dizendo ainda ao Pai, qual disse outrora: — Não sabem o que fazem. Talvez subiste ao céu por ímpios tantos. Seria lá precisa a prece tua, Para abrandar-se a cólera divina, Que já baixava em laminas de fogo Nas mãos do arcanjo que assolara o Egito, Sobre a cabeça grávida de crimes Dos fariseus modernos. Por que, senão por isto, ao céu subiste? Por que deixaste o teu mosteiro, oh monge, Deixaste a tua cela?
Inspirações do Claustro, de Junqueira Freire, é um livro brasileiro de poesia romântica publicado originalmente em 1855 e ampliado na segunda edição de 1867. A obra reúne o prólogo do autor, juízo crítico e poemas marcados pela experiência do claustro, conflito espiritual, imaginação religiosa e lirismo ultrarromântico. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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