Universo da obra
Universo da obra
Renata Alves chegou à Pensão Santa Marta com a planta baixa enrolada debaixo do braço, uma trena presa ao cinto e a irritação silenciosa de quem já sabia que o trabalho daria problema. O prédio ficava numa esquina antiga, de frente para uma praça mal cuidada, com janelas altas, azulejos rachados e letreiro apagado na fachada. A reforma parecia simples no papel. Doze quartos, dois corredores, uma escada principal, uma escada de serviço e um salão térreo que Caio Nobre queria transformar em café. Renata aceitou o serviço porque pagava bem e porque prédio velho sempre escondia erro de obra. O que ela não esperava era encontrar uma porta a mais antes mesmo de tirar a primeira medida.
Caio esperava no saguão, camisa branca dobrada nos punhos, chaves na mão e olheiras que o deixavam menos herdeiro e mais homem sem sono. Tinha vinte e nove anos, uma beleza limpa demais para aquele lugar mofado e um jeito de olhar para a pensão que misturava pressa com culpa. Explicou que a avó administrara o prédio por quarenta anos, até fechar tudo depois de um incêndio pequeno no terceiro andar. Renata abriu a planta sobre o balcão de recepção e conferiu os números. O terceiro andar terminava no quarto trezentos e doze. Caio confirmou. A prefeitura confirmava. O inventário confirmava. Mesmo assim, quando subiram, havia uma porta estreita depois do último quarto.
A porta ficava no fundo do corredor, entre uma parede de tijolo aparente e uma janela lacrada por madeira. Não tinha placa, olho mágico nem marca de fechadura antiga. Só uma maçaneta de porcelana branca, limpa demais para o resto do andar. Renata aproximou a trena da parede, mediu a distância entre os batentes e depois voltou à planta. Ali deveria haver apenas alvenaria. Caio ficou atrás dela, com a mão fechada em torno das chaves, e disse que nunca tinha visto aquela porta. A frase poderia ser mentira. O rosto dele, porém, parecia ofendido pela própria descoberta. Renata anotou a medida no canto da planta e pediu autorização para abrir.
Nenhuma chave do molho serviu. Caio tentou três vezes, cada uma com menos paciência. A maçaneta continuava imóvel e estava quente quando Renata encostou dois dedos. Ela retirou a mão rápido. O corredor cheirava a poeira, madeira velha e tinta descascada, sem qualquer razão para metal ou porcelana guardar calor daquele jeito. Do outro lado da porta veio um som baixo, parecido com uma cama rangendo sob movimento lento. Caio bateu uma vez. O som parou. Renata olhou para a janela lacrada, para a planta aberta e para a porta sem número. Disse que chamaria aquilo de vão técnico até descobrir outra palavra. Caio respondeu que queria vender o prédio, não colecionar mistério em parede.
No térreo, a zeladora antiga apareceu antes de irem embora. Dona Elza carregava um molho próprio de chaves no avental e uma expressão fechada que não combinava com surpresa. Renata mostrou a planta e perguntou pelo espaço depois do trezentos e doze. A mulher passou o dedo pela linha do corredor e evitou a parte final do papel. Disse que a pensão sempre teve doze quartos e que número a mais chama dívida velha. Caio pediu que ela falasse direito. Dona Elza olhou para ele com pena curta e respondeu que dona Marta, avó dele, mandava fechar o terceiro andar antes das onze e meia. Quem ficava depois desse horário escutava hóspede chamando por água.
Renata voltou ao terceiro andar sozinha antes de sair. Queria fotografar a porta com luz natural e marcar a posição exata na planta. O corredor estava mais frio. A janela lacrada tremia de leve, embora não houvesse vento entrando. Quando chegou ao fundo, a porta já tinha número. Trezentos e treze, escrito numa placa de metal escurecido que não existia minutos antes. A maçaneta branca estava coberta por pequenas gotas de água. Renata levantou o celular para fotografar e viu, na tela, o reflexo de alguém atrás dela. Um homem de terno antigo, parado no corredor, segurando uma bandeja com um copo vazio. Ao virar, não havia ninguém. Quando olhou de novo para a tela, o copo já estava cheio.
Renata Alves aceita reformar a antiga Pensão Santa Marta para Caio Nobre, herdeiro jovem que precisa vender o prédio antes que as dívidas da família o engulam. A planta baixa mostra doze quartos, dois corredores e uma escada de serviço. Na primeira vistoria, Renata encontra uma porta a mais no terceiro andar, sem número oficial e sem registro na prefeitura. À noite, a maçaneta fica quente, a parede respira e objetos de antigos hóspedes começam a aparecer dentro do quarto. Entre medo, desejo e desconfiança, Renata e Caio descobrem que o prédio conserva gente que nunca conseguiu sair.
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