Universo da obra
Universo da obra
POLYPTICO DE GRAÇA
ARANHA
MACHADO DE ASSIS E JOAQUIM
NABUCO JULGADOS POR
GRAÇA ARANHA
Sobre a correspondência entre Joaquim Nabuco e Machado de Assis, que a família do nobre diplomata e estadista resolveu dar á estampa, escreve Graça Aranha, em admirável prefacio, algumas paginas que devem ser pesadas e meditadas pelos homens novos do Brasil.
Graça Aranha tem o privilegio em nosso paiz, de não pertencer exclusivamente á sua geração, de não se haver estratificado na rocha inerte dos preconceitos de um momento determinado, como a generalidade dos nossos escriptores, com excepção de um João Ribeiro e poucos mais. Seu espirito possue a frescura das águas livres e eternas, pois, no turbilhão das formas encontradas, sabe orientar-se generosamente, "dominando a matéria universal" Graça Aranha é, em si mesmo, na larga expansão do seu rythmo criador, o mais bello espectaculo da intelligencia brasileira contemporânea. E' o único homem, entre nós, que vive realmente as suas idéas, que as representa, que vae, por ellas, ao encontro do sacrificio, que não as esconde, por temor ou calculo, e as joga, apaixonadamente, no tumulto das cousas.
Desde o "Chanaan", a sua trajectoria é um só ímpeto. ímpeto de energia, de força concentrada, que não se desvia do objectivo, e não diminue a velocidade inicial, para conservar intacta a velocidade restante. Nelle, o artista se desdobra no político. Pareça embora, artificioso, nem por isso será menos verdadeiro tal juizo. Filho do norte do Brasil, descendente, portanto, da aristocracia que formou o esqueleto da nossa raça, que lhe deu resistência e solidez, não poderia seu inconsciente desligar-se dos elementos imperativos que o geraram. O que nos depara a sua obra não é somente a penetração esthetica, mas também a fé, não é apenas o estilo, mas a irradiação do gênio político.
Apesar da admiração literária que lhe vota, não pôde Graça Aranha nutrir ardente sympathia pelo desencantado engenho de Machado de Assis. A indecisão, a timidez, o desconsolo fácil dos que se contentam com as raízes amargas da experiência, o temor, a resignação, o espanto da realidade, eis o que elle condemna e repelle. Graça Aranha tem horror aos que negam. A Renan, a France, a Thackeray, a Aristophanes. São esses os que mais facilmente se submettem, os que se alimentam daquella desarticulada ironia, mais humilhante que a escravidão.
"O humorismo e o sarcasmo são cousas passageiras. Pertencem a uma época, vão-se com e l l a s . . . A sorte dos escriptores humoristas é precária. Só pelo gênio se libertam do esquecimento. Ou ás vezes é o assumpto que mantém impereciveis as obras satíricas ou humorísticas. Se o theatro de Aristophanes ainda nos interessa não é pelo que ha nelle de sátira, mas porque o assumpto é a sociedade de uma Grécia immorredoura e os personagens são Sócrates e outros da mesma projecção. Nas sátiras de Juvenal reflectemse os costumes de Roma: são documentos da historia intima de uma grande civilização. Voltaire não envelhece no "Candide" e no "Ingénu", porque a sátira é de ordem tão geral e tão humana, tão profunda e tão fresca sobretudo, que é uma alegria permanente. Swift também allia ao seu "humour" uma sátira tão genial e pittoresca que a eterniza. Ao passo que mil outros humoristas foramse, como Thackeray com a sua famosa "Vanity Fair". E' de receiar que o mesmo aconteça com Eça de Queiroz, cujo humorismo é de uma certa época, de uma certa terra, de uma certa gente. Não será entendido em outra época, em outras terras e por outras gentes. O espirito de Machado de Assis é mais geral, mais humano, porém, não tão intenso que perdure. Ás vezes, falta-lhe graça ao "humour" e nada mais mortífero que a insipidez. Um titulo como "Dom Casmurro" traz a pretensão de impressionar ironicamente, mas sem sabor, não faz rir nem chorar."
A ironia é o pudor do enthusiasmo, o temor de esperdiçar a vida. Graça Aranha despresa aquella arma de sophista. Seu espirito é um instrumento de acção. A 'Esthetica da Vida" é um conselho para criar, para transformar a substancia da realidade em valores affirmativos e práticos. Por que práticos? perguntarão. Porque elle faz da vontade o eixo de todo o seu systema. Que é o "Chanaan", por exemplo, se não o poema da vontade? Ha, ali, uma raça ameaçada, colhida de improviso, na phase embryonaria dos primeiros caldeamentos, por elementos perturbadores da sua formação normal. Do próprio perigo, entretanto, saem as armas para combatel-o. O artista não se satisfaz com a plasticidade infinita do espectaculo universal, mas intervém neste, a cada passo, plasma-o voluptuosamente, sonda-o, penetra-lhe os segredos mais íntimos, até sobrepujal-o, transformando-o num instrumento capaz de obedecer ás energias que o devem dirigir.
Ha, no "Chanaan" como na 'Tavola Redonda", na "Canção de Rolando" ou na "Divina Comedia", além do interesse artístico, um fundamental problema humano e sociológico. Desenha-se, ali, o conflicto do homem antigo, preso a categorias moraes e religiosas, com o homem moderno, acima do bem e do mal, producto ainda informe das massas volúveis, em busca de novas formulas de fixação. A moralidade dessa fábula transcendente é clara, é a mesma que se encontra na "Esthetica da Vida", é a mesma desse tão profundo quanto incomprehendido "Malazarte": vencer a natureza pela intelligencia. Ora, está aqui a superioridade manifesta de Graça Aranha sobre todos os nossos escriptores de ficção. O alimento do seu estilo é a própria vida. Seu estilo não se baseia na ossatura rija do raciocínio nem na carne palpitante da imagição. Equilibra-se entre esses dois factores, realizando o milagre de uma arte que é, ao mesmo tempo, activa e contemplativa.
Para não recorrer a outras fontes, basta, afim de apoiar as minhas considerações, revelar certas passagens desse prefacio mencionado, em que, por vezes, seu espirito projecta, na rembrandtesca penumbra que atravessamos, uma luz pura e promissora. Deante de Nabuco e Machado de Assis, Graça Aranha esquece os indivíduos, para justificar, pela excepção, a regra geral.
"A essência intellectual de Nabuco provém das suas origens e é por isso que nelle se accentua, mais do que o artista o pensador político. E' uma tradição espiritual que elle conserva e eleva a um gráo superior, ainda que a essa vocação absoluta se allie a sensibilidade -artística. Elle não foi artista absoluto e exclusivo; a sua attracção pela historia e o culto do passado são manifestações de um temperamento político. Nos estudos históricos Nabuco cosiderava, sobretudo, a evolução social, a directriz política das sociedades. Herdou do pae o amor da perfeição, o gosto do conceito, a formula expressiva e graphica, a que elle ajuntou a modernidade do espirito, a curiosidade cosmopolita, o sabor da novidade e o ardor romântico .
"Machado de Assis não tem historia de família. O que se sabe das suas origens é impreciso; é a vaga e vulgar filiação, com inteira ignorância da qualidade psychologica desses pães, dessa hierarchia, de onde dimana a sensibilidade do singular escriptor. E por isso accentua-se mais o aspecto sorprehendente do seu temperamento raro, e divergente do que se entende por alma brasileira. Ha um encanto nesse mysterio original, e a brusca e inexplicável revelação do talento concorre vigorosamente para fortificar-se o secreto attractivo que sentimos por tão estranho espirito. De onde lhe vem o senso agudo da vida ? Que legados de gênio, ou de imaginação, recebeu elle? Ninguém sabe. De onde essa amargura e esse desencanto? De onde esse riso fatigado? De onde a meiguice? A volúpia? 0 pudor? De onde esse enjôo dos humanos? Essas qualidades e esses defeitos estão no sangue, não são -adquiridos pela cultura individual. A expressão psychologica de Machado de Assis é muito intensa para que possa ser attribuida ao estudo, á observação própria."
Quereis, agora, a explicação política e sociológica do antagonismo entre esses dois grandes homens do século passado? Entre o que, ante o escravo acuado, se commove e se apieda, ainda infante, na fazenda solarenga, e o que ri do soffrimento humano, e sopra, como bolhas de ar, as almas inquietas? Eil-a :
"O heroísmo de Joaquim Nabuco foi o de separar-se da aristocracia e fazer a abolição. O heroísmo de Machado de Assis foi uma marcha inversa, da plebe á aristocracia pela ascensão espiritual. Ambos tiveram de romper com as suas classes e heroicamente affirmar as suas próprias personalidades."
Graça Aranha, nota-se bem, prefere o heroísmo de Nabuco ao de Machado de Assis.. Por que? Por estar mais de accordo com o seu gênio político. O heroísmo de Nabuco é uma affirmação generosa do espirito que, numa synthese arrojada, submette todos os factores secundários á idéa principal. Fazer a abolição, seria salvar o Brasil moralmente, mas talvez perdel-o materialmente. Nabuco, entretanto, fecha os olhos aos argumentos econômicos, para só ver os psychologicos. A paixão foi a sua lógica.
Machado de Assis, ao revés, é o heróe do desdém. Seu heroísmo é o do ser que se compara, mas não se considera. E' o do homem que analysa, e a analyse é uma operação atrevida, onde a physionomia das cousas se decompõe tristemente. Machado de Assis verifica, e sorri. A lógica foi a sua paixão.
Graça Aranha viu nesses dois heroísmos a própria tragédia da nacionalidade, pois, a ambos faltaria uma condição que se lhe afigura indispensável ao homem brasileiro: o sentimento da liberdade infinita, o desejo de provocar o destino e viver perigosamente. Elles não quizeram "transpor os baluartes da fé religiosa e da duvida metaphysica. Não foram possuidos da tentação de ser Deus, não gozaram a áspera volúpia de. criar o Universo, de commandar e serem obedecidos, de pesar sobre os destinos humanos"
Mais uma vez se observa, aqui, a marca do homem de acção, cujo pensamento procura converter-se em actos, em forças que vão fecundar a realidade.
Ninguém definiu melhor esse pensamento, transformando-se em energia criadora, do que o autor da "Esthetica da Vida" nesta pagina, que é, simultaneamente, agua-forte, pela agudeza dos contornos, baixo relevo, pelo volume da imagem e symphonia pelo aéreo rumor do rythmo. E' a legenda de uma raça, o que se lê nestas linhas soberanas, onde a historia deixa de ser descripta, para viver no movimento perpetuo do ímpeto vital:
"Foi no castello de Hatfield que lord Salisbury ao demittir-se de presidente do conselho, por occasião da coroação do rei, quando entendeu chegada a hora da retirada, fez as suas despedidas á sociedade e á política, numa "garderí-party", a que convocou a Terra inteira.
"Hindus reluziam como enormes besouros. O castello estendia perfidamente a sombra negra sobre as mulheres, que escapavam á obscuridade attraidas pela fascinação da luz, onde os seus vultos esguios de galgas inglezas vibravam translúcidos. Não faltou ao festim a porcellana chineza. Cabeças de mandarins, surgindo de uma apotheose de sedas e de pinturas, oscillavam como pêndulos aborrecidos. Os occidentaes, em trajes monótonos e funerários, infestavam a alegria das formas e das cores. Mas sobre o gramado indeciso Ras Markonen, abyssinio faiscante, de canella fina, dentes agudos, barbinha em caracol, segurando a adaga, arrebatava tudo para o deserto, numa correria louca de cavallos árabes. Os escossezes não cavalgavam nessa imaginação; ficavam, como grandes meninos de saiotes escossezes, bonézinho capadocio, a tocar pif ano. O velho lord assentara-se á sombra do castello, cercado de cherubins inglezes que eram os seus netinhos, e presidiu aos seus ante-funeraes. Desfilaram as gentes familiares e as gentes estranhas, príncipes, princezas, lords e ladies, actrizes e clowns, diplomatas e traficantes; desfilaram roxos monsenhores, brancos cheiks, variegados marajahs, negros pagés da África. E o velho avô misturava a sua infantilidade octogenária á curiosidade inquieta e séria das crianças. Era um magnífico e raro divertimento inglez, em que se brincava com o mundo inteiro e os bonecos eram variados e singulares. Cafres de cabellos tintos de ouro, atados com immensos pentes de tartaruga, invadiam o castello com vacillantes passos infantis. Os Cafres sorriram para os meninos de lord Salisbury. Estes approximaram-se e arriscaram os níveos dedos na negra pelle africana, espantados de não ficarem tisnados. O folguedo com as crianças despertou nos negros os ancestraes appetites cannibalescos. Os dentes ficaram-lhes mais brancos de desejos estranhos. Os dourados cherubins sentiram a gula preta e aconçhegaram-se ao avô. O olhar do urso inglez, diante do ataque, relampejou. As duas selvagerias, a da terra branca dos gelos e a da terra rubra do sol, enfrentaram-se. O olhar inglez enfureceu-se. Os negros recuaram e recolheram o riso. O velho marquez de Salisbury sorriu nos seus dentes postiços. As subjugadas gentes continuaram a adormecer na incommensuravel beatitude britannica."
Ha, em tal painel, o movimento de Michelet, do Michelet que descreveu o despertar das communas, no século XIII, e as lutas normandas do século XV; e naquelles "dentes postiços de lord Salisbury", o sal de Carlyle, do Carlyle cruel da Revolução Franceza. Mas a combinação dessa dôr e desse riso, dessa piedade e desse sarcasmo só a intuição politica do artista seria capaz de conseguir. Essa intuição politica, própria dos grandes criadores, é o fermento activo da imaginação enérgica de Graça Aranha. Eis porque a sua metaphysica é o mais bello instrumento para comprehender e amar a realidade. Por essa metaphysica está elle mais perto dos homens que affirmam, e, portanto, de Nabuco, do que de Machado de Assis, o mais caprichoso e insinuante dos homens que negam. Entre Rabelais e Montaigne, Graça Aranha ficaria com o riso numeroso de Gargantua, com a vida, em summa.
Texto original de Estudos brasileiros: 2a. série, livro de ensaios de Ronald de Carvalho publicado em 1931. Edição Literunico organizada em dez blocos a partir do exemplar em domínio público da BBM USP, limitada ao texto autoral.
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