Leia agora
Capítulo 1 · Canções de um Sourdough

A Lei Do Yukon

A LEI DO YUKON

Esta é a lei do Yukon, e ela a proclama sem cessar:

“Não me mandem tolos nem débeis; mandem-me os fortes, os sãos de julgar.

Fortes para a rubra fúria da batalha; sãos, pois os hei de açoitar;

Mandem-me homens cingidos para o combate, homens de fibra até o âmago a durar;

Ligeiros como a pantera no triunfo, ferozes como o urso na derrota,

Filhos de raça de buldogue, temperados no calor que o aço brota.

Mandem-me o melhor de vossa linhagem, emprestem-me os escolhidos;

Esses tomarei ao meu seio, esses chamarei de meus filhos;

Esses dourarei com meu tesouro, esses fartarei com minha carne;

Mas os outros — os desajustados, os falhados — sob meus pés hei de pisar-lhes.

Dissolutos, danados e desesperados, aleijados, paralíticos e mortos,

Quereis mandar-me a cria de vossas sarjetas — Ide! tomai de volta esses abortos.

“Bravias e vastas são minhas fronteiras, duro como a morte é meu mando;

De meu trono implacável reinei sozinha por um milhão de anos e mais um dia andando;

Abraçada a meu tesouro poderoso, esperando que o homem viesse enfim:

Até que ele varreu como turvo torrente, e atrás dele varreu-se — o lodo vil.

O cafetão pálido da raia morta, o enfraquecido da pena,

Um a um os extirpei, pois tudo o que eu buscava era — homens apenas.

Um a um os amedrontei, assombrando-os fundo com minhas trevas;

Um a um os traí, entregando-os às minhas múltiplas sentenças.

Afoguei-os como ratos em meus rios, esfomeei-os como cães em minhas planícies,

Apodreci-lhes a carne que restava, envenenei-lhes o sangue nas veias tristes;

Rompi sobre eles com meu inverno, cegando-lhes para sempre a vista,

Açoitei-os com rostos brancos de fungo, gemendo selvagens na noite erma e fria;

Cambaleando cegos no redemoinho da tormenta, tropeçando loucos pela neve,

Rígidos de gelo no bloco gelado, quebradiços e curvos como arco breve;

Sem feição, sem forma, esquecidos, farejados por lobos em sua fuga,

Deixados ao vento para fazer música nas costelas brancas que reluzem nuas;

Roendo a crosta negra do fracasso, sondando o fosso do desespero,

Encostando o dedo no gatilho, tentando balbuciar um derradeiro preceito;

Saindo para fora escoltados, delirando com os lábios todos em espuma;

Passando cheque de um milhão, babando débeis saudades de casa nenhuma;

Perdidos como piolho no incêndio... ou então, em cidade de tendas,

Buscando consolo de bêbado, descendo, descendo às próprias fendas;

Embebidos no lodo do fundo, mortos para um mundo decente,

Perdidos entre os destroços humanos, arremessados à fronteira longínqua e ardente;

No acampamento à curva do rio, com sua dúzia de saloons em clarão,

Seus antros de jogo em tumulto, seus gramofones aos berros pelo chão;

Vincados pelos crimes da cidade, cavalgados de pecado e refreados por mentiras,

No silêncio de minha vastidão montanhosa, no rubor de meus céus de meia-noite que cintilam.

Chagas de peste, porém instrumentos de meu intento, por isso ainda os deixo medrar,

Esmagando meus Fracos em suas garras, para que só meus Fortes possam restar.

“Mas os outros, os homens de meu metal, os homens que firmariam minha fama,

Até sua última consequência, conquistando-me honra, não vergonha nem lama;

Vasculhando meus vales derradeiros, lutando a cada passo que dão,

Disparando pela cólera de minhas corredeiras, escalando minhas muralhas de neve em solidão;

Rasgando as entranhas de minhas montanhas, saqueando os leitos de meus riachos,

Esses tomarei ao meu seio, e lhes falarei como mãe fala a seus filhos amados.

Sou a terra que escuta, sou a terra que medita;

Encharcada de beleza eterna, de águas cristalinas e matas infinitas.

Longo tempo esperei sozinha, evitada como coisa maldita,

Monstruosa, sombria, patética, a última das terras e a primeira da vida;

Visionando fogueiras ao crepúsculo, triste de um anseio sem norte,

Sentindo meu ventre prenhe em excesso da semente de cidades por nascerem fortes.

Bravias e vastas são minhas fronteiras, duro como a morte é meu mando,

E espero os homens que hão de vencer-me — e não serei vencida em um dia apenas, não;

E não serei vencida por fracos, sutis, suaves e brandos,

Mas por homens com corações de vikings e a fé simples de uma criança nas mãos;

Desesperados, fortes e irresistíveis, jamais estrangulados por medo ou derrota,

Esses dourarei com meu tesouro, esses fartarei com minha carne que se oferta.

Canções de um Sourdough

Sinopse

Coletânea poética de Robert W. Service sobre o Yukon, a vida de fronteira, a solidão, a aventura e os homens atraídos pelo Norte, em tradução literária para português do Brasil.

Canções de um Sourdough

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Canções de um Sourdough

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias de Canções de um Sourdough

Adquira Relíquias do Livro como colaboração ao autor e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Sinopse do universo · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo