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A pesca na Amazônia

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A pesca na Amazônia

Capítulo 1 · A pesca na Amazônia

Ichthyologia amazônica

PRIMEIRA PARTE Ichthyologia amazônica ; A bacia fluvial amazônica, a mais vasta e a mais caudalosa do mundo, é também a mais rica em peixes de infinita variedade. Luiz Agassiz, que especialmente lhe ■estudou a fauna icbthyologica, encontrou ahi nada menos de 1800 especies, mais que as então conhecidas na bacia do Oceano Atlântico, o dobro das do Mediterrâneo, já então larga e profundamente estudadas, dez vezes tantas quanto conhecia Linneu no mundo inteiro, cerca de um século antes (1). E os estudos de Agassiz forão incompletos, não só por falta de exame de todas as aguas da immensa bacia, como por accidentes sobrevindos ás suas riquíssimas colleções do museu da Universidade de Cambridge (Estados Unidos). Em carta ao (1) Mme E. Agassiz. Louis Agassiz, sa vie et sa correspondance. Paris, 1887, p. 502 — L. Agassiz, Le l/assín de 1'Amazone in Hev. Scient, T. XIII.

professor Milne Edwards, dizia elle, desde o Amazonas, qae não o surprehenderia que o numero de especies amazônicas subisse a tres ou quatro mil. (1), Comquanto incompletas e deficientes, esses primeiros estudos do sabio naturalista, esparsos no livro publicado em collaboração com a sua digna esposa e intelligente companheira de viagem (2) nas conferencias recolhidas no Rio de Janeiro e nos Estados Unidos e trasladadas em revistas européas (3) e em suas cartas citadas a amigos e a scientistas (4) são elles ainda, que eu saiba, o melhor estudo da ichtbyologia amazônica, nas suas grandes linhas ao menos. Mais que nenhum outro rio da terra, contem o Amazonas, segundo elle, uma variedade espantosa de seres organisados, que excede toda concepção, e que o surprehendeu, mesmo a elle, que votara a sua vida ao estudo dos peixes.

Esta fauna não é somente unica pela quantidade maravilhosa dos seus representantes, como pela sua variedade e outras feições e características que a distinguem entre todas. A existência de faunas ichthyologicas distinctas não só na mesma bacia, mas no mesmo rio, é uma das mais frizames. Assim as especies do rio Pará, ( 1) Annales des Sciences naturelles, ã'* serie, V, 186o. — (2) .4 Journey in Brasil , Boston 1808, trad. franceza por Felix Yogelf, Paris, 1869.

(3) Recue Scientiflque, citada. (4) Annales des Sçienc , nat., Louis Agassis sa vie etc, e Vogage au Brésil, citados. v. / 1CHTHV01.0G1A AMAZÔNICA do mar á foz do Tocantins, difTerem das que seencontram na rede de anastomoses que unem o rio Pará ao Amazonas propriamente dito. As especies do Amazonas, além doXingú, diiíerem das que ficam mais acima, as do curso inferior do Xingu, das do curso inferior de Tapajós. As dos numerosos igarapés e lagos de Manáos, igualmeníe diversificam das do curso principal do grande rio e dos seus principaes attluentes. Preciso fòra, entretanto, estudar as alterações que podem sobrevir nesta distribuição, no decurso do anno, conforme a altura das aguas e conforme também a época da desova das differentes especies. Encontrara apenas um diminuto numero de especies com uma aria de distribuição muito estensa. Outra característica desta fauna é o auchtonismo, si posso dizer assim, dessas especi°s. Xo Amazonas se não encontra um só dos peixes conhecidos nos rios dos Estados Unidos ou da Europa, ou em outra qualquer bacia d’agua doce. O grande rio possue seus peixesespeeiaes, inteiramente differentes dos das aguas doces do Brazil. (lj Agassiz, porem, apenas teve tempo e vagar para o estudo das grandes linhas da curiosissima fauna. O trabalho, para o qual reunira no museu de Cambridge copioso e unico material, ficou por fazer. Offerece, pois, a Amazônia largo campo aos estudos ichthyologicos, e podemos esperar que o distincto zoologo que hoje dirige o Museu paraense, o Dr.

Emílio Goeldi, se prevalecerá da sua estada e posição naquella região para continuar a tarefa (1) Olra> citada-, passiin. Não ha correlação entre a importância zoologica e o valor economico da fauna ichtbyologica de uma bacia.

Na amazônica se confirma esta regra. Das quasi duas mil especies de peixes ali existentes, apenas um decimo, si tanto, será aproveitado na alimentação.

Não quer isso dizer que não haja outras aproveitáveis ; mas a gente amazônica não dá geralmente apreço aos peixes pequenos e se atem aos maiores e aos de facil presa com os seus instrumentos de pesca curiosos, interessantes, mas primitivos. Esses instrumentos, não lhe proporcionavam a captura sinão dos maiores, e só aos maiores ficaram principalmente conhecendo e aproveitando. A introducção da rede de pescar e o seu uso. aliás limitadíssimo entre os propriamente naturaes da região, deve ter augmentaáo em numero considerável a quantidade dos peixes na alimentação usados.

Além destas razões, outras ha que explicão a mesquinhez relativa das especies nella aproveitadas : as abusões e crendices, os preconceitos geral mente de fundo fetichista, dominantes em populações que nunca se libertaram inteiramente do fetichisrno.

Essas especies, porém, têm bastado e bastarão ainda, si lhes não consentirem a destruição, para alimento ou auxiliar da alimentação, das populações amazônicas. Os indivíduos de cada uma delias são em quantidade assombrosa, a coalharem, em certas quadras do anno.

rios e lagos. E' preciso ter visitado nessas temporadas o Amazonas e seus tributários para saber que nenhum exagero pode dizer a prodigiosa copia de pescado que encerrão. E delicioso pescado, por estrangeiros e nacionaes. desde a conquista, reputadissimo pela excellencia e delicadeza do seu sabor. A Amazônia tem a honra de contar entre os viajantes que mais demoradamente a estudaram, a Alfred Wallace, 6 famoso emulo de Ch. Darwin na descoberta da theoria da evolução.

Dos seus peixes, diz elle : « São muitos de optimo ( most excelLcnt ) sabor, excedendo a quantos comi na Inglaterra, de agua doce ou salgada ; muitas especies têm verdadeira gordura, que faz da agua em que os cozinhõo um agradavel caldo (1).

O meio affeiçôa o homem : o indígena da Amazônia é principalmente ichthyophago e, conseguintemente, pescador. A mata amazônica, sem embargo do seu volume e espessura, lhe não é obstáculo á vida facil e commoda que leva. A prodigiosa rede de canaes— rios, furos, igarapés, igarapémiris, lagos, ligados uns aos ou'ros e aos rios proximos — que lhes offerecem orneio mais facil, mais conveniente, mais prooicio as suas, aliás resumidas, necessidades da vida social, o desobrigão de devassal-a.

Quasi delle se pôde dizer o que dos conquistadores portuguezes do Brasil disse Fr. Vicente do Salvador: arranham apenas as margens, sem penetrar terra a dentro, pela espessura aspera do floresta. E quando 'á cata da seringa, da copahiba, da andiroba ou da castanha, preciso lhes é penetral-a, ainda os igarapés, bastantes ás suas leves canòas, abrem-lhes caminho comrnodo aos re(1) .1 narrative of traveis on the Amazon and Rio .'Negt-o, London 18Õ3, pg. 200.

cessos habitados por esses vegetaes preciosos. E ali mesmo, no seio da mata, não raro delia própria tira o seu alimento. Não lh'o dão os fructos que lhe fpoderia ella offerecer, ou â caça que á sua frecha ou á sua espingarda deparasse, si não ainda o peixe, o peixe especial chamado do mato, criado e vivendo nas lagoas e brejaes, na linguagem local chamados igapós, abundantes naquella região d 'aguas.

A penetração da mata, póde-se dizer, se não fez ainda sinão mediante os infinitos cursos d’agua da rede fluvial amazônica e tanto quanto ellesa penetram. Uma ou outra picada, angusta e mal aberta, pouco segue alem da beirada em que o espera a sua canòa ou onde eleva a sua barraca ; quando não serve apenas para communicar duas correntes ou dous lagos, uma corrente e um lago— aguas em todo o caso— e por sobre ellas «varar», como elles dizem, a maneira embarcação.

Este meio aquatico e piscoso fez delles comedores de peixe e pescadores. Sedentário lavrador á beira rio — e só como ribeirinho os vereis estabelecidos — ou, meio nômade, extractor dos productos naturaes, ou, ainda, criador ou vaqueiro; nas matas virgens, onde se elevam as alterosas*castanheiras de vasta cópa, as fartas andirobeiras eas robustas copaibeiras : nas varzeas mais ou meno^ enxutas, cortadas por longas faxas de mataria, de entre a qual sáem os altos troncos alvacentos, coroados de folhas miúdas, da seringueira; nos vastos campos de Marajó, do Araguari, do Aquiqui, da Prainha ou de Monte -Alegre* do Maecurú. do Curuá, do Lago Grande, de Óbidos, do Maria-pixy, ou do Rio Branco, o encontrareis sempre tal: furtando ao íntermittente trabalho, sem ardor, nem pressa feito, o tempo necessário a ir a qualquer aguà ali perto, e a sabe certa, «pegar peixe» ou « mariscar», consoante o seu dizer. Esse peixe será o seu alimento principal; é o peixe o mantimento com que mais conta.

Moqueado, assado, reduzido a farinha após a moqueação, ou simplesmente cosidq em agua, que nestes se resumem os seus processos culinários para o prepararem, é sempre elle o seu nutrirrento primário e constante.

Para durar, para levar ás expedições em que se empenham, conservam-o salgado ou moqueado, isto é, assado no muquem. O muquem é um assadouro ou grelha, de fórma geralmente triangular, cada angulo descançando em uma pedra ou em uma forquilha de madeira. Madeira especial, refractaria ao fogo, chamada «páo de muquem», ou outra pouco combustível, é usada neste assadouro sob o qual fazem lume, para assar a fogo lento o peixe ou caça que lhe poem em cima. O peixe moqueado reduzem-o a migalhas e o esfarinham levando-o aos seus fornos de farinha braudamente aquecidos. Ao peixe assim desfeito charnão piracui, farinha de peixe (pirá, peixe em tupi, ui, farinha.) Comem a simplesmente, au naturel, com a sua indefectível farinha d'agua ou fazendo-a cosinhar ern agua com algum raro condimento, alguma pimenta malagueta ou cheirosa e ajuntando-lhe durante ou após a cocção uma porção desta farinha, com que engrossam o prato e o servem. Chamão-lhe «mogiea», nome de todo o seu preparado culinário em que entra uma fécula qualquer com o fim de condimentar ou antes, «engrossar», que é no tupi o significado de mogiea, um caldo qualquer, ou a porção de peixe secco ou salgado da sua panella de barro. Esta panella a descançam sobre as tres pedras que com o nome de «tacurua» lhes servem de fogão, quando, ã falta de pedras, commum em ama região em que a pedra é escassa, a não poem simplesmente sobre os tições accessos.

A caça, que em sua alimentação entra em quantidade infinitamente menor que o peixe, ainda os rios e outras aguas mediterrâneas lh'a fornecem, não só na copiosa variedade da sua fauna peculiar, os patos, as marrecas, os anambés, além dos pernaltos, dos pica-peixe, como a grande ariramba, também por elles comida, como nos quadrúpedes que a ellas vêm beber, refrescar-se ou comer as gramineas que ás beiradas lhe se encostam : os porcos do matto, as antas, os veados, as pacas, as cotias, sem falar nas capivaras, quasi peixe pelo sabor, e que, excepto a branca, e ainda esta por necessidade, não comem.

Porque o gentio amazonieo é cheio de escrúpulos na sua comida. O peixe de pelle, em geral, refuga-o. Considera-o nocivo a saude, «carregado», causador de herpetismo. Xão faz também alimento da capivara, da lontra e de outros animaes. nem lhe apetecem as aves, sinão as grandes, os inambús, os jacus, os jacamins, as macucauas e outras, de carne farta e saborosa. Das menores, mesmo as deliciosas narcejas, abundantes nas beiradas ■dos lagos e alagadiços de certas zonas, as pombas, que ■em Setembro cobrem nas varzeas as murtas frondosas, não fazem conta. O jacaré, o jaearé-tinga, pequeno, de peito branco, carne alva e bóa, só o comem as populaÇões do lado oriental do estado do Pará e visinhanças e, principalmente, de Marajó.

Não se creia, porém, que de todo não sejam caçadores. A’ caça dão-se também e nella são frequentemente exímios, menos pela habilidade no atirar, nelles trivial, que pela finura dos seus sentidos, únicos e preciosos guias através das sombrias e intrincadas florestas, e pela rijesa de suas pernas que não cançam. A caça exigindo, por igual, mais movimento que a pesca, ha mais este motivo para lhes não ser tão sympatica como esta. De mais as suas armas indígenas para a caça, o arco e a frécha, e, em certas regiões do AltoAmazonas, a zarabatana são, qualquer que seja a habilidade com que as manejam, inferiores a uma espingarda. O uso desta, e os processos de caça de todos conhecidos, tira-lhes todo o interesse como caçadores.

Não é, porém, somente no ponto de vista ethnographico, sinão também sob o aspecto economico que merecem descriptas as suas artes, e os seus processos e instrumentos de pesca. A população amazônica, não inferior talvez a setecentos ou oitocentos mil habitantes, alimenta-se, já vimos, principalmeate de peixe e a pesca em grande escala de alguns dos representantes da fauna dos seus rios e lagos, concorre também, e não pouco, para a riquesa publicadosdous estados que formam a Amazónia.

Como este estudo mostrará, a fartura de peixe na Amazónia por muito explica a facilidade relativa com que foi essa immensa região penetrada e civilisada, do mesmo passo revelando quão importante é economicamente e, portanto, socialmente, esse factor no desenvolvimento <lella. E pondo de manifesto este facto, tenta chamara attenção dos poderes públicos e do povo dos dous estados do Pará e do Amazonas para a criminosa negligencia com que ali se encara um problema capital da sua economia social.

A pesca na Amazônia

Sinopse

Leia gratuitamente A pesca na Amazônia, de José Veríssimo, obra brasileira em domínio público publicada em 1895. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 10 capítulos sobre ictiologia amazônica, pescarias, pirarucu, peixe-boi, tartaruga, baleia, instrumentos, história, estatística e legislação da pesca, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikimedia Commons/Internet Archive validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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