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Cantos à beira-mar

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Cantos à beira-mar

Capítulo 2 · Cantos à beira-mar

Minha terra

2 de 55 ≈ 4 min de leitura

Oferecida ao distinto
literato o Sr. Francisco Sotero dos Reis.

“Minha alma não está
comigo. Não anda entre os nevoeiros dos Órgãos, envolta em neblina, balouçada
em castelos de nuvens, nem rouquejando na voz do Trovão. Lá está ela”.

G. Dias

Maranhão! Açucena entre
verdores,

Gentil filha do mar — meiga
donzela,

Que a nobre fronte,
desprendida a coma,

Dos seios do Oceano
levantaste!

Quanto és nobre, e
formosa — sustentando

Nas mãos potentes — como
cetro de Ouro,

O Bacanga caudal, — o
Anil ameno!

O curso de ambos tu,
Senhora — domas,

E seus furores a teus
pés se quebram.

Oh! como é belo
contemplar-te posta

Mole sultana num divã de
prata,

Cobrando amor, adoração,
respeito;

Dando de par ao
estrangeiro — o beijo,

E a fronte ornando de
lauréis viçosos!

Pátria minha natal, — ninho
de amores...

Ai! miséria de mim...
quisera dar-te

Na lira minha mavioso
canto,

Canto exaltado que
elevar-te fora

‘Té
onde levas a nobreza tua!

Porém o estro deserdado,
e pobre,

Sonha, e não pode obrar
o seu intento.

Campeia indolente no
leito gentil,

Cercada das vagas
amenas, danosas;

Das vagas macias,
quebradas, cheirosas

Do salso Bacanga, do
fértil Anil.

Formosa rainha, c’roada de louros,

Altiva levanta tua
fronte gentil;

Que Deus concedeu-te de
graças — tesouros,

Criando-te o mínimo do
vasto Brasil.

Exalta teus filhos
fervente entusiasmo

E quebram num dia
sangrento grilhão!

Contempla a Europa tal
feito — com pasmo...

E bradas: sou livre!...
com grata efusão.

Maranhão! Açucena entre
verdores,

Campeando gentil, bela,
e donosa;

Como em haste mimosa
altiva rosa,

Como lírio do val cobrando amores.

És ninfa sobre as águas
balouçada,

Descuidosa brincando em
salsa praia;

No pego mergulhada a
nívea saia,

A nobre fronte de
festões ornada.

Princesa do oceano! a fronte alçaste

Por tantos séculos
abatida, e triste...

Um eco aqui
repercutir-se — ouviste,

E as vis algemas sob os
pés quebraste!

Quebraste os ferros — que
o Brasil não sofre,

Sequer um dia ser
escravo, — não.

És livre, és grande! Tão
sublime ação

Quem fez jamais — e
tanto assim de chofre?!...

O grito lá da serra do
Ipiranga,

O grito todo amor,
fraternidade,

Ecoou no teu seio! a
liberdade,

Pairou sobre o Anil,
sobre o Bacanga!

Eis-te bela, coroada, e
sedutora,

Pomposa, e descuidada,
sobranceira;

Em teu divã gentil,
gentil, sultana,

Filha das vagas, e do
mar senhora,

A unânime grito se
erguia a cativa

Que jaz a dormir;

E ao som prolongado que
os ecos repetem

Desperta a sorrir:

Os braços distende — que
agora é rainha:

Quebrou-se o grilhão!

Com a fronte cingida de
louros tão gratos

Se erguem Maranhão!

O pego, as florestas, os
campos que regem

Os vastos sertões,

Entoam seu hino de amor,
liberdade!

Ao som dos canhões

E prados, e bosques, e
sendas bordadas

De verdes tapizes,

E ribas salgadas, e
gratos mangueiros,

Se julgam felizes...

E as auras despertam,
tecendo mimosos

Festejos a mil!

E o grato Bacanga parece
em amplexo

Ligar-se ao Anil.

Campeia indolente no
leito gentil

Domina as florestas os
gratos vergéis;

Renova na fronte
singelos lauréis,

Esmalta o império do
vasto Brasil.

Cantos à beira-mar

Sinopse

Leia gratuitamente Cantos à beira-mar, de Maria Firmina dos Reis, livro de poesia brasileira em domínio público publicado em 1871. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 55 poemas em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte BLPL/UFSC validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Cantos à beira-mar

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