Universo da obra
Universo da obra
Oferecida ao Ilmo. Sr.
Dr. Adriano Manoel Soares.
Tributo de amizade e
gratidão.
É tão meiga, tão
fagueira,
Minha lua brasileira!
É tão doce, e
feiticeira,
Quando airosa vai nos
céus;
Quando sobre almos
palmares,
Ou sobre a face dos
mares,
Fixa nívea seus olhares,
Que deslumbram os olhos
meus...
Quando traça na campina
Larga fila diamantina,
Quando sobre a flor
marina
Derrama seu lindo albor;
Quando esparge
brandamente
Por sobre a relva
virente
Seu fulgor alvinitente
Seu melindroso
esplendor...
Quando sobre a fina
areia,
Que a vaga beijar
anseia,
Molemente ela passeia,
Desdobrando alvo lençol;
Quando ao fim da tarde
amena,
Ressurge pura e serena,
Disputando nessa cena
Primores co’o rubro
sol...
Que eu sinto meu pobre
peito
Comovido, ao fim
desfeito
Por tanto encanto
sujeito,
Por tantos gozos — meu
Deus,
E eu vejo os anjinhos
teus,
Noutras nuvens, noutros
céus
Novos mundos construir.
Podem outros seus
encantos
Ver também — gozar seus
prantos;
Pode cantá-la em seus
cantos
Qualquer jovem trovador;
Vendo-a bela sobre os
montes,
Ou retratada nas fontes,
Surgindo nos horizontes
C’roada de níveo albor.
Mimosa, pura; — mas bela
Assim branca, assim
singela,
Como pálida donzela,
Que geme na solidão;
Assim leda, acetinada,
Como flor na madrugada,
Pelo rocio beijada,
Beijada com devoção;
Assim em sua frescura,
Com tão maga formosura,
Percorrendo essa
planura,
De nossos formosos céus;
Assim não. Assim somente
Mimosa, pura, indolente
A vemos nós... fado
ingente
Foi este que nos deu
Deus.
Quem não ama vê-la assim
Com a candidez do
jasmim,
Espargindo amor sem fim,
Nas terras de Santa
Cruz!
Quem não ama
entusiasmado
Da noite o astro nevado,
Que com o rosto prateado
Tão meigamente seduz!...
Quem não sente uma
saudade,
Vendo a lua em fresca
tarde,
Branca — em plena
soledade
Vagar nos campos dos
céus!...
Quem não tece com
fervor,
No peito em que mora a
dor,
Um hino sacro de amor,
Um terno hino a seu
Deus!...
Eu por mim amo-te, oh!
bela,
Que semelhas à donzela,
Com roupas de fina tela,
Com traços de lindo
albor;
Que vai pura aos pés do
altar,
Por doce extremo de
amar,
Ao terno amante jurar,
Lealdade, fé — e amor.
Amor ver-te assim
fagueira
Minha lua brasileira,
Qual menina feiticeira,
Que promete, e foge e
ri,
E depois, sempre
folgando
Vem com beijinhos
pagando
Aquele, que a afagando
De novo a chamara a si.
Assim tens meus tristes
cantos,
Soltos ao som dos meus
prantos,
Que me inspiram teus
encantos,
Da noite na solidão;
A meiga lua querida,
Melancólica, e sentida,
Com tua face
enternecida,
Minha constante aflição.
Leia gratuitamente Cantos à beira-mar, de Maria Firmina dos Reis, livro de poesia brasileira em domínio público publicado em 1871. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 55 poemas em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte BLPL/UFSC validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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