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Cantos à beira-mar

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Cantos à beira-mar

Capítulo 9 · Cantos à beira-mar

O meu segredo

9 de 55 ≈ 3 min de leitura

Aqui no exílio — revolvendo
a mente

Breve passado, — momentâneo
gosto,

Qual fugaz meteoro;

Ao riso estulto da
profana gente,

Pálido volvo p’ra não
vê-la o rosto,

E magoado choro.

E as turbas passam: — nem
sequer p’ra mim

Seus olhos lançam — nem
as vejo eu

o que há de comum

Entre mim e os homens?
Eles riem,

Eu choro — seu viver não
é o meu,

Não os amo a nenhum.

Já gasta d’um querer que
me devora,

Vou — ave soidão,
buscando um ermo,

Asilo ao meu sofrer...

Onde do sol os raios
nessa hora

Não penetrem — do trilho
lá no termo

Vou sonhar — e gemer.

Aí, curvada a fronte
sobre a mão

Brotam mil pensamentos à
porfia,

Mil lembranças, oh céu!

Vem nas lúbricas asas da
aflição,

Como dores nas horas
d’agonia,

No peito d’um ateu!

Em tropel se me antolham
— afoutos vêm

Desejo, amor, descrença,
ou ilusão,

Esperança ou receio:

Sinto o cérebro arder — o
peito tem

Férrea mão que
constringe — e o coração

Não palpita no seio.

Deixai passar as turbas;
— venha embora

A noite — com seu véu me
envolva, — brilhe,

Ou não o firmamento:

Descante o sabiá da
sesta à hora;

Deixa-me em meu cismar; —
embora triste

Errado o pensamento!

Deixai o meu segredo; — oh!
é mistério

Eu o amo — é meu sonho
tão querido...

Quem o sabe? ninguém.

São notas afinadas de um
saltério

Que geme de saudades — esquecido

Na má Jerusalém!

É por isso que eu quero
a paz do ermo

Que faz lembrar a paz da
sepultura,

Solitária, — e tão
só!...

Não sonho aí sentada, o
breve termo,

Que almejo a minha dor —
a desventura,

Ligou-me em estreito
nó....

Vou fartar-me de dor
longe do mundo,

Vasar do peito aos
lábios — na sordão

Torrentes de amargor!

Dar asa a um querer
vago, e profundo;

Com prantos iludir meu
coração,

Gelado, — e sem amor!

Embora venham as turbas
desvendar

No solitário abrigo meu
viver,

Minha longa aflição;

Jamais hão de profanos —
meus cismar.

Meu segredo — sequer — compreender

No morto coração.

Cantos à beira-mar

Sinopse

Leia gratuitamente Cantos à beira-mar, de Maria Firmina dos Reis, livro de poesia brasileira em domínio público publicado em 1871. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 55 poemas em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte BLPL/UFSC validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Cantos à beira-mar

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