Universo da obra
Universo da obra
Ouvi piar o mocho — era
alta noite,
Eu tinha o peito de
aflição eivado...
A dor coou tão funda,
que minh’alma
Em modorra de angústia
acalentou-se.
Quanto tempo durou esse
marasmo,
Esse estado penível,
doloroso,
Sono imerso na dor, que
enerva, e mata,
Em que o quisesse, não
sei bem dizê-lo.
Fugiam horas e eu sequer
não tinha
Da própria vida o
sentimento, as dores.
O sinistro piar de
aflito mocho
Mais lúgubre que
outrora, mais agudo,
Quebrando as solidões
adormecidas,
No repouso feliz da
natureza,
Como que um eco de meus
ais doridos,
Minh’alma afigurou — eu,
despertando.
Então incerta, sem
destino ou guia
Por densas selvas eu
vaguei, — e inda
Por entre bosques
merencórios, ermos
Onde uma sombra era
fantasma horrendo,
Um espectro medonho o
verde arbusto.
Sob meus pés as
dessecadas folhas
Rangiam, — como de
aflição gemidos.
A dor me sufocava, era
mais ima,
Mais funda no meu peito,
ali no bosque.
Saí. Era uma senda
escura, e feia,
Pedregosa, — caí, rojei
na terra
Estéril, poeirenta,
seca, e dura,
Como um penhasco...
lacerou-me a fronte.
E eu não senti — que me
amargava intenso
O fel do sofrimento
agudo, e fero.
E o pó, que ergueram as
deslocadas pedras,
Minhas espáduas
recamou Oh! quanta
Desesperança — no meu
peito — havia!...
Era de angústias um
letal veneno
No peito a me ondular — era
nas veias
O gelo do sepulcro a
traspassá-las,
Coando até a medula dos
ossos!...
Era a garganta
constrangida, ardente,
Árida, e seca, — e
sufocada a boca.
Quanto tempo durou inda
esta angustia
Suprema, — que meu ser
aniquilava.
Este aflito penar, este
delírio,
Este estado de dor tão
violenta.
Não o posso dizer.
Crescia a noite,
E mais carpia ainda o
mocho triste...
Então voltou-me um átomo
de vida,
Porque senti volúpia
amarga, — enlevo
No sinistro gemer da ave
noturna:
Porque o som de sua voz
com o meu gemido,
Com a voz de minh’alma —
harmonizava.
Gemi — foi um gemido
doloroso,
Surdo, sem eco, soluçado
apenas,
Que as fibras todas do
cansado peito
Quebrou no seu passar.
Abri os olhos
Ao ímpeto da dor, que se
aumentava;
Um rochedo a meus pés se
erguia mudo.
Altivo, e forte
sobranceiro aos mares.
Galguei-o, ora correndo
desvairada,
Ora, com passo vagaroso,
e trépido,
Ora rojando minha face
em terra.
Selando as pedras com
meu rubro sangue,
Galguei-o. Era um penedo
árido, e triste,
Nem uma erva lhe bordava
a encosta.
Como nas faldas, era
ermo o pico.
Copioso suor me
aljofarava.
A turva fronte, — e os
cabelos soltos
Ao vento, — me vendavam
os olhos baços.
Exausta de cansaço, e de
amargura,
Ao cume do rochedo enfim
fui posta.
Oh! mistérios de um Deus
eterno, e santo!
Ali, por tantas mágoas
comprimido
Meu coração já frio,
enregelado,
Sem fé, sem crenças, sem
alento, ou vida
Mórbido, lânguido, — reviveu...
mistério!
A meus pés era o mar
augusto, imenso
Simbolizando o Deus da
natureza...
Sobre a minha cabeça
distendia-se
O espaço infinito, — o
firmamento!
Nem uma estrela ali
brilhava a furto:
Porque as nuvens escuras
se embatiam,
A chuva ameaçando. Ao
lume d’água,
Salsa, pesada de mil
pontos surgem
Luminosos faróis, que
logo apagam.
Roneavam os aquilões,
soprava o vento
Rijo — encrespando a
superfície d’agua.
Que se agitava com
sinistro aspecto.
Gemia a tempestade
pavorosa
Tão poética, e grande! A
chuva era
Como pranto de mãe, que
sobre o berço
Vazio do filhinho
esparge aflita.
Em gotas sobre a fonte
me escorria:
Benfazeja foi ela! que
gelou-me
A fronte ardente,
requeimada, e seca...
Amei então a chuva, amei
a onda,
Que irosa, embravecida,
mais crescia,
Bramindo em seu furor, —
ameaçando
O imóvel rochedo. As
salsas gotas
Dessa espuma de neve,
que se erguia.
Salpicando as encostas
pedregosas
Me ungia a fronte, como
um doce beijo,
Expressivo de meiga
complacência.
D’aquele que se dói, da
dor de estranhos.
Ígneos raios sibilando
ardentes,
Com mil fogos sobre o
mar cruzavam:
E o gemer do trovão — gemer
das ondas,
Com o sibilar do vento —
harmonizavam.
Roncava a tempestade — o
mar crescia,
Soberbo o cataclismo se
aumentava.
Contemplando o furor dos
elementos,
A frágoa
de minh’alma se ameigava.
Quanto me vi
mesquinha... um verme apenas
No cume do rochedo,
sobre o mar!
Humilde me curvei: — com
a face em terra,
Minh’alma se exaltou — eu
pude orar.
Os ventos amainaram — a
tempestade
Toda desfez-se — repousou
natura;
O mar nos seus limites
se encerrava,
E hino divinal rompeu na
altura.
Eram cantos celestes — escutei-os,
E do peito emanou-me um
doce pranto;
As lágrimas lavaram as
agras dores,
As crenças restituiu-me
o sacro canto.
Mas ainda assim, como
que agora escuto
A dulia
nota das canções dos céus;
Esvaiu-se a visão... mas
sinto grata,
No peito a graça, que
nos vem de Deus.
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