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Cantos à beira-mar

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Cantos à beira-mar

Capítulo 35 · Cantos à beira-mar

A dor, que não tem cura

35 de 55 ≈ 2 min de leitura

“O que mais dói na vida
não é ver-se

Mal pago um benefício,

Nem ouvir dura voz dos
que nos devem

Agradecidos votos.

Nem ter as mãos mordidas
pelo ingrato

Que as devera beijar.”

G. Dias

De tudo o que mais dói,
de quanto é dor

Que não valem nem
prantos, nem gemidos,

São afetos imensos,
puros, santos

Desprezados — ou mal
compreendidos.

É essa a que mais dói a um’alma nobre.

Que desconhece do
interesse a lei;

Rica de extremos, não
mendiga afetos,

Que é mais altiva que um
potente rei.

É essa a dor, que mais
nos dói na vida;

É essa a dor, que
dilacera a alma:

É essa a dor, que
martiriza, e mata.

Que rouba as crenças, o
sossego, a calma.

Não sei, se todos no
volver dos anos

Sentem-na funda
cruciante, atroz

Como eu a sinto... Oh! é martírio — ou vele,

Ou sonhe, — ou vague
mediante a sós.

Eu vi fugir-me como foge
a vida

Afeto santo de
extremosos pais:

Roubou-mos crua, impiedosa morte,

Sem que a movessem meus
doridos ais.

Vi nos espasmos de
agonia lenta

Morrer aquele, que eu
amei na vida...

Trêmulos lábios
soluçando — adeus!

Ouviu-lhe esta alma de
aflição transida.

Dores são estas, que
renascem vivas

A cada hora — que jamais
esquecem;

Enchem de luto da
existência o livro,

Conosco à campa
silenciosa descem.

Ah! quantas vezes,
recordando-as hoje,

Dos roxos olhos se me
verte o pranto!

Ah! quantas vezes,
dedilhando a lira,

Rebelde o peito, não
soluça um canto...

Mas, se essas dores
despedaçam a alma,

O pranto em baga nos
consola a dor:

Numa outra esfera, num
perene gozo,

Vivem, partilham divinal
amor.

Mas ah! de quanto nos
aflige, e mata

É esta a dor, que mais
nos dói sofrer;

Cobrar frieza em
recompensa a afetos,

No peito amigo
estrebuchar, — morrer!

Cantos à beira-mar

Sinopse

Leia gratuitamente Cantos à beira-mar, de Maria Firmina dos Reis, livro de poesia brasileira em domínio público publicado em 1871. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 55 poemas em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte BLPL/UFSC validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Cantos à beira-mar

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