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Capítulo 2 · Pindorama

Parte Primeira - Capítulo II

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7^Y) chapitéo da caravella em que nave-

gava com destino ao Oriente, o moço cavalleiro abstrahia de toda a faina de bordo, dos rumores do oceano, das mutações do firmamento, dos mil perigos e contrariedades possíveis em tão arriscada singradura.

Trilam apitos, chamando a postos a marinhagem, pelo castello de vante esvoaçam pelotes, em grita descompassada ordena o piloto manobras successivas, as velas latinas bojam ao peso do vento que se desencadeia, emquanto pelos ares torvos avança o nevoeiro negro da borrasca e a nau redoiça, pula, trepida, batida pelos flancos, arrebitando-se em arfadas do popa a proa....

Outras vezes, calado o marulho, dissipada a tormenta, rebrilha o sol, desenrolando lha-

mas de ouro sobre as aguas tremulas, que o talhamar do navio corta e cava como a relha do arado sobre a campina verde.

Da coberta, em volta do estrinque, por entre a cordoalha, á sombra dos pannos enfunados, sobem descantes e tangeres. Resplandece na feição dos marujos alegria, esperança. Os homens d'armas, contentes, animados, entregam-se a polir o aço das bestas e braçaes. Na sua loba escura, a cabeça agazalhada no barrete carmezim, perfila-se o capitão-mor, procurando no horisonte as velas da conserva, que alvejam esparsas no alto oceano.

— Eil-as que vêm na alheta.... fala o capitão, tranquillo e forte.

Ninguém mais soffre a obsseção, o terror das lendas marítimas; a onda cariciosa bate nas amuradas, o alisio fresco sibila nas enxárcias. Anafis, charamelas e timbales ferem com as suas notas a solidão do espaço. Recresce o concerto, sonorisando o casco veloz da capitanea, festejando a bonança dos elementos, aturdindo cérebros e corações onde já expiram as mais teimosas saudades do Tejo....

Só o pensamento do fidalgo, mais ligeiro

que (3 voo branco cias caravellas, se desprende de tudo o que o rodeia, quebra os laços da convivência, isoia-se da campanha, para somente titar-se no objectivo remoto que abalançou a tão longa e áspera jornada esses continuadores de D. Vasco.

Além, muito além da linha plúmbea que cose o mar com o ceu, Fernão tem arrumado plagas maravilhosas, onde a fantasia dos seus compatriotas colloca os reinos encobertos de Preste João. Que surprehendentes paizes de ouro, de rubis e topázios!... que bastos arvoredos mimosos da especiaria, da canella e da camphora perfumosas, do dragoeiro e da pimenta, por aquelles archipelagos disseminados no esplendoroso mar do Oriente! Quantas ilhas de pérolas, ilhas de pássaros purpúreos e de areias auriferas, quantas Ophirs e Sete-Cidades e regiões paradisíacas longe, escondidas no velario das brumas, porventura menos longe do que as suppõem capitães, pilotos e marinheiros!... Ah! que elles bem sabiam, por experiência, quão fértil em surprezas era o oceano. Bartholomeu Dias, ajudado da perícia náutica de Pêro d'Alemquer, passara, sem o saber, além do Cabo Tormentoso. Zarco e Tristão Vaz topa-

ram com o refugio do Porto Santo arremessados por uma procella. Esses mesmos desvendaram, por intuição do génio explorador, o mysterio d'aquella cerração negra, immovel sobre as vagas como uma montanha de pez — e lá estavam as collinas verdejantes e o clima suavíssimo da Madeira. Assim emergiram das aguas, successivamente, para acolher as marinhagens dos barcos, quando ellas menos o esperavam, todos aquelles oásis imprevistos, Santa Maria, São Miguel, Terceira, Graciosa, Fayal, São João, Corvo, e tantas, e tantas ilhas mais, que surgiam á proa dos navios, umas ridentes, adornadas, como corbelhas de flores, outras alcandoradas em seus picos volcanicos, banhando-se numa espuma fervente, estas vigiadas por uma ronda aérea de aves rapaces, aquella habitada pela estatua equestre de um solitário, que aponta para o deslumbramento do occaso com um -gesto que faz scismar e advinhar mundos novos por traz da tela polychroma do occidente.

Mas de todas essas conquistas da navegação portugueza nenhuma egualou jamais em seducções a que encetaram as naus do Gama, dous annos d'aquella parte. Por ella é

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que se aventuram esses batedores marítimos, e entre elles o cavalleiro scismador, cuja espada freme de impaciência por libertar da cobiça dos mouros a dama dos seus pensamentos.

Elle a vê como poeta enamorado das suas miragens. É uma formosa levantina, toda constellada de pérolas, rubis e diamantes, expondo, vencida, sem resistência, o seu perfumado corpo ungido a sândalo e aloés ao beijo sórdido de mercadores árabes e persas. Reclinada á sombra dos arecaes ou mergulhada em fofos coxins de seda, soffre resignadamente, ella, rainha e captiva, que sejam as suas graças objecto de torpe mercancia, vendidas pelos rajahs a troco da bijuteria moura.

Não é que a deseje Fernão com a lascivia de um cheik para as orgias do harém. No seu peito de fidalgo leal e christão pulsam outras ambições. Tudo o que lhe appetece magnifica o espirito. As próprias riquezas do Oriente, sambenito dos bárbaros, virão dourar, ennobrecidas, os brazões d'armas do reino.

E o sino de Ceuta repercute, dia e noite, sem cessar, como um apello do céo. Fernão

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se julga mais que um simples emissário da corte com a missão de estabelecer feitorias na Ásia, — um verdadeiro embaixador do Christo, enviado a resgatar a alma hindu ao poder de Shiva e Allah, que a trazem encarcerada nos seus pagodes e mesquitas.

Essa é a visão que o retém, contemplativo, no alto do chapitéo, em face do oceano ermo, de cujas entranhas lhe parece surgir, meio fantástica, meio real, a paizagem do Levante orlada de areias fulvas, no viço de sua vegetação rica de especiarias, marchetada de ouro e pedras preciosas, e pairando sobre os campos de arroz e béthel, pousando, já no cimo das arequeiras, já nas coberturas de ola das cabanas, em torno da opulenta escrava hindu, os albornozes brancos da carabana arábica, semelhante a uma grande nuvem de aves de presa. Elle vê mais, — no remanso das bahias e esteiros, frotas immensas de paraus e carraças que se lastram da appetecida pimenta, emquanto no dorso dos elephantes e ca me lios, guiados por astutos butarinheiros, a troco de manilhas de vidro e marfim, de coraes e pastilhas, se afastam rapidamente para além das montanhas, os thesouros nativos d'aquella explorada região —

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cargas de pérolas, cargas de diamantes sem preço, uma seara incalculável que vae transbordar dos celleiros da Arábia. Tudo isso se lhe afigura uma expoliação a Portugal; e elle pensa: como seria bello ver fluctuar nas aguas do Tejo a bandeira da primeira nação do globo, annunciando ao mesmo tempo o triumpho universal da Cruz e a conquista definitiva do verdadeiro reino de Colchos!....

De novo estruge o concerto a bordo; os ventos da monção favorecem o surto da caravella, e á proporção que recuam as paragens quentes da calmaria, esplende aos olhos do cavalleiro a imagem da formosa levantina, que elle vae disputar ás mãos profanas da mourisma e ao jugo dos naires corrompidos, indómito como se' fora o próprio génio da Aventura que impellia Portugal aos mares.

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Sinopse

Leia gratuitamente Pindorama, de Xavier Marques, romance brasileiro em domínio público sobre a época do descobrimento. Esta edição digital do Literunico foi preparada a partir da digitalização do Internet Archive/University of Toronto da edição de 1907, organizada em 24 capítulos HTML para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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