Leia agora
Pindorama

Universo da obra

Pindorama

Capítulo 20 · Pindorama

Parte Quarta - Capítulo III

20 de 22 ≈ 10 min de leitura

r t> regresso da bandeira, ao cabo de dous * y< mezes, annunciou-se pela manhan, com estrépito de alviçaras no circuito da cidade.

Iam sahindo os homens para suas granjas, do collegio rompiam os coros de piás e catechumenos entoando as orações matinaes, e os colonos que não trabalhavam no campo vinham — uns para as officinas de armas, para as obras de alvenaria, para as hortas e cortumes, outros desciam da chapada aos estaleiros, na ribeira das naus, quando entrou o dedicado Diogo a procura de D. Fernão e do governador.

No porto de Villa Velha tinham surgido ao raiar do dia os dous caravelões em que partira Mem Tupi com a sua banda de exploradores e o capellão padre Navarro.

Immediatamente os grangeiros, ganhões e mesteiraes, despegando o trabalho, refluíram á praça forte, exaltados pela visão do ouro e das pedrarias, cada qual expandindo a alegria das ambições que mal soffriam, desde tantos annos, a espectativa d'aquellas riquezas subterrâneas.

O alcaide foi obrigado a sahir com um troço de soldados para conter as manifestações dos colonos, entre os quaes já começava a explodir o ciúme. As alcunhas affrontosas de «mazombos» e «perros» eram permutadas, voz em grita. Os dous curibocas, filhos de Indayá, capitaneavam o partido dos mestiços; Gil Vaz, curado das suas chagas e da impiedade, sentia-se fraco para sopitar em si a paixão que desvairava os seus compatriotas.

Mais tarde a bandeira entrou, e a decepção que trouxe aos colonos foi causa de novas altercações. Do ouro apenas indícios tinham sido encontrados. Algumas pedras verdes e azues; a noticia de outra região aurífera, no sumidouro do grande rio senhoreado pelas dibras tupinambás; conquista de numerosas almas, convertidas pelo padre Navarro,— era tudo quanto trazia a banda dizi-

mada pelos rigores do clima e pelas privações padecidas durante a exploração.

Este incompleto successo não desagradou nem ao governador nem a Fernão Cerveira. O primeiro entendia, melhor avisado, que o descobrimento das minas ao tempo em que a colónia carecia de povoadores, faria mal á prosperidade dos novos estados; o segundo, convicto da existência dos thesouros, cogitava antes de tudo da alliança com as tribus mais poderosas pela conversão do maior numero de gentios, o que, a seu ver, facilitaria o povoamento e defesa das costas, o desenvolvimento das lavras, das industrias e do resgate. Depois d'isso, a entrada nos sertões, a marcha desimpedida sob os auspícios da cruz triumphante.

Estava D. Fernão com o governador, na quadra principal do solar, a discorrer sobre esses negócios da colónia, restituída á praça a boa ordem, quando lhe foi annunciado o padre Loyo.

Era mais de meio dia.

O missionário vinha de uma nova peregrinação ás margens do esteiro. Apenas tivera tempo de sacudir a poeira das alpercatas e pregar a doutrina aos meninos do seminário,

P1NDORAMA

Uma atoarda assustadora, colhida na taba, confirmada em meio do caminho pelos plantadores de roças, lhe apressava essa conferencia com o capitão general e seu conselheiro. Os fidalgos receberam-no de pé. Emquanto elle depunha o bordão e o breviário, o governador antecipou-se:

— Boas novas me trazeis?.... De certo já soubestes que os nossos bandeirantes se tornaram hoje ao raiar d'alva....

— Graças a Deus. Acabo de estar com o venerável irmão padre Navarro e d'elle soube o fructo que se fez naquellas paragens. Quizera vos dar — accrescentou, dirigindo-se a D. Fernão — tão boa nova acerca da vossa antiga serva tupiniquim e da mais gentilidade, a cuja selvageria se tornou.

— Perseverae, padre Loyo. Ninguém melhor que vós alcança os bons effeitos da sua conversão.

— Não desespero. Lá estarei de novo a pouco trecho.... Mas vou a dizer-vos o principal da missão que aqui me traz....

Sentaram-se todos, e padre Loyo falou.

— Senhores, é grave o que acaba de passar d'estes muros a fora.... Não bastava o levedo da cobiça, os muitos peccados de gula

e luxuria que ainda fazem barreira, nesta capitania, ao reinado de Deus. Aos brancos o que mais sabe é a demasia de vestes e alfaias, é sustentar mancebas e escravisar indios; aos mestiços desenfreia-os a presumpção de senhores da terra, por serem nella nascidos; aos bárbaros não ha dissuadil-os dos embustes dos pagés e do abuso da carne humana. Centos d'elles são hoje baptisados, em pazes com a igreja; mas são -taes as manhas de Satanaz, que em lavrando alguma peste nas aldeias, como ha succedido, logo se mette em cabeça a todos elles que o abaré lh'a pegou. Estimae por ahi os impedimentos que ainda encontram a lei de Deus e a salvação de tantos milhares de almas. De sorte que as minhas esperanças, senhores, todas se volvem para esses rebentos do gentio, esses piás a quem vamos edificando e ensinando as sacras verdades....

— D'est'arte ides salvando a vinha do futuro. Continuae, padre Loyo.

— Grave, dizia-vos, é o que ora succede além d'esses reparos. Senhores, vae por dous annos, aqui desembarcamos os poucos soldados de Jesus, e ao começar a empresa da santa milícia valeu-nos em muito aquelle prés-

tante bárbaro que habitava Villa Velha, já convertido á fé christan....

— Ararig, disse D. Fernão.

— Ararig é o seu nome, confirmou o missionário. Pois que sabeis dos seus serviços, nada mais vos direi senão que Ararig é desde hontem prisioneiro de um principal tupinambá, extremado inimigo dos christãos.

— Libertal-o é o nosso dever, acudiu com impeto D. Fernão. Padre Loyo, não vos nomearam esse gentio ousado?

— Conheceis-lo de mais. Por tradição sei eu que já lhe experimentastes a ingratidão, vós e aquelle nobre martyr que foi acabar ás garras de feras semelhantes.... Coutinho....

— Falaes de Tajaçu, porventura....

— Este, sim; o mesmo que acaba de fazer assolação nos campos e roças a loeste do esteiro... o mesmo que matou a frechadas dous dos vossos vassallos, solarengos de Simão da Gama.... o mesmo que, instigado do inferno, poz fogo á reducção do venerando padre Vicente.... Quem sabe, senhores, as traças que ainda vae pôr em obra esse deshumano bárbaro, tão rebelde ás leis de Deus e da republica?

— Uma rebellião.... inferiu o governador, gravemente.

IMXDORAMA 273

-Que pode lavrar, e de taba em taba até o esteiro, destruir o frueto das missões, concluiu D. Fernão.

Era um d'aquelles casos em que o regimento facultava ao capitão general reunir a junta dos homens qualificados da colónia. Talvez fosse preciso levar aos campos o terror da arcabuzaria, em guerra cruentissima, a que não bastava o presidio da cidade. Seria então necessário o concurso dos senhores de engenhos e fazendas com os seus terços de armas, o appello geral aos capitães donatários, a todos quantos deviam menagem ao governador e a quem elle dera foros e insígnias.

— Senhor, atalhou D. Fernão, insta o perigo, tanto quanto urge o remédio. Grande é o poder d'esse regulo Tajaçú, a quem rendem vassallagem os principaes de muitas aldeias. Se lhe não cortamos a tempo a passagem, e se elle acerta de sublevar as tabas ribeirinhas do esteiro, perdida estará, com todo aquelle rebanho, aquella que nos ha de propiciar a submissão e alliança das tribus do sul. Demais, senhor, cumpre-nos salvar Ararig, credor do nosso reconhecimento.

O governador, prudente e sereno, consultou ainda os seus interlocutores.

— E quaes remédios me aconselha a vossa sabedoria?

— Castigo immediato, insistiu o cavalleiro, antes que o malfeitor reincidente se persuada da nossa fraqueza e ao seu rebate se congreguem as aldeias visinhas.

Voltou-se o governador para o padre Loyo.

— Eu, senhor, respondeu o missionário, levando as mãos ao Crucifixo, ainda que não peleje senão com esta arma, por um reino que não é o d'este mundo, entendo, todavia, por bem da salvação d'essa barbaria, neste lanço extremo, lembrar-vos as palavras do inspirado apostolo: «E quasi todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue, e sem effusão de sangue não ha remissão.»

Olhou o governador a tela suspensa a um muro do salão, entre panóplias e bandeiras; e depois de longo reflectir:

— Pois bem, senhores, seja acceito o cartel que nos lança o inimigo. Em feição de guerra, pois que urge o caso, marcharão amanhan os homens d'armas d'este meu presidio e quantos mais se lhes possam juntar. Esta cidade a que dei por armas aquelle symbolo, na tela que vedes acolá, devia ser um penhor de paz definitiva a campear bem alto, na cabeça

Testes Estados. Sede testemunhas de que os não hostiliso, senão que, a mal do meu grado, fazendo a guerra aos bárbaros, ainda pelejo pela paz alli symbolada.

Neste momento a praça regorgitava de negros, mestiços e brancos, gente que vinha recolhendo dos campos, em alvoroço, receosa de assaltos. Crescia a onda tumultuaria; vozes clamavam por desaggravo, outros accusavam o «abaré» ; todos lastimavam a interrupção dos labores e a perda imminente das plantações.

E o governador passeava na quadra, ora pensativo, ora agitado.

O missionário, calado, com a fronte resignadamente cahida, os olhos azues na estamenha poida da roupeta, ouvia os gritos infrenes dos seus accusadores. E D. Fernão, á janella, via-os rebolear na praça, e deplorava em silencio o erro e a injustiça d'aquellas accusações.

Por fim entrou excitado, commovido pelas atrocidades do indio, e vendo o capitão, que passeava sempre, endireitou em face d^elle a bella cabeça encanecida e fitou-lhe os olhos aquilinos, dizendo:

— Vénia para a pergunta.... De que cogitaes vós?

O governador encarou-o, parecendo con-

tar-lhe os sulcos da velhice. Reflectiu ainda. Súbito respondeu:

— De uma espada que conduza os nossos soldados á fortuna da guerra....

— Eil-a! atalhou o cavalleiro, levando a mão á cinta, de onde pendia a arma lustrosa dos invictos Cerveiras.

Pindorama

Sinopse

Leia gratuitamente Pindorama, de Xavier Marques, romance brasileiro em domínio público sobre a época do descobrimento. Esta edição digital do Literunico foi preparada a partir da digitalização do Internet Archive/University of Toronto da edição de 1907, organizada em 24 capítulos HTML para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Pindorama

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Pindorama

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Pindorama

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Pindorama Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 20 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Pindorama

Capa de Pindorama
Continue a leitura Parte Quarta - Capítulo III Capítulo 20 · 20 de 22 · ≈ 10 min
Todos os capítulos 22 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir