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Capítulo 11 · Pindorama

Parte Segunda - Capítulo V

11 de 22 ≈ 18 min de leitura

iT.NDAYÁ voltara á casa senhorial, a viver <&=> na communhão das indias christianisadas e das poucas mulheres brancas ao serviço do capitão.

Afim de a reduzir ao baptismo, vinha frequentemente o arrabido. Certa distincção com que era tratada pelo fidalgo, tal ou qual nobreza a ella attriòuida como filha de um cacique, a própria belleza selvática de sua cabeça, tudo isso impunha ao religioso excepcional brandura nas diligencias para a converter. Infelizmente nenhum esforço, nenhuma exhortaçâo, nem o exemplo das outras indias convertidas, nada quebrava a resistência ardilosa de Indayá. Ella respondia sempre com tergiversações,— vacillando, se muito apertada pelo arrabido, — fugindo, quando elle já estendia a

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mão para colher o fructo de mais uma alma que suppunha sazonada.

Vendo baldadas suas predicas e crendo que a dureza d'essa gentia provinha de suas communicações com a maloca, occorreu ao franciscano sequestral-a definitivamente no arraial.

A vinda do abaete, rodeado de columins e selvagens, á praça fortificada, foi outro acontecimento de bom presagio para os moradores da capitania.

Por momentos gosou o populacho hybrido da colónia o espectáculo da selvageria ainda virgem, tal como a guardavam as espessuras da matta e os campos do sertão. No circuito incompletamente vallado fulguraram entre os gibões, barretes e pantalonas dos homens d'armas e os langotins alvadios dos trabalhadores, altas plumas de arara, pennas de kanitares e fraldões. Arcos de pau ferro e curabis eram as armas do séquito.

As turmas largaram de mão os alferces para ver passar em direcção ao alpendre, guiada por Tapuya Branco, a corte joco-seria, meio suspicaz e altiva, convencida da sua importância. A magnanimidade de um fidalgo cavalleiro ia acolher complacentemente o bruto

venerável da família selvagem, assim considerado entre muitos colonos desdenhosos, mas bastante egoístas para não alienar desde logo o concurso da tribu.

O abaete rajado de urucú, topetado de pennas de tucano, com axorcas nos pulsos e tornozelos e a arasoya da cintura abaixo, olhava desconfiadamente, no meio da sua piara igualmente alienada e ornada, as cortinas da fortificação; e os colonos acompanhavam-lhe de longe o passo largo e solido, como imaginavam ser o andar do tapir.

Sua curiosidade não se fartava. E' que, á excepção dos bandeirantes e descobridores, como D. Fernão e Pêro Mendes, elles não conheciam o índio de Pindorama senão pelos exemplares desprestigiados, sem a tinta de poesia selvagem com que appareciam no quadro das lendas e narrativas de mestre Nuno, de Tapuya Branco, do incógnito Affonso Ribeiro e outros aventureiros, que alguma vez se acharam do littoral a dentro em busca de riquezas. Era o columin, despido dos seus adornos, tangado, pescando ou roçando, meio pagão, meio christão, iniciado nos vicios do estrangeiro, fácil em servir ás vinganças dos senhores, — tal o indio familiar á maioria dos

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colonos. — O typo da selvageria extreme do contacto europeu ficava, para elles, a immensa distancia, além das florestas fantásticas, além das serras nevoentas, como um ente fabuloso que em raras occasiões se deixava surprehender e contemplar.

Quando o cortejo desappareceu no alto, o colono Vasco Peres, da turma e do partido de Nuno Ayres, observou para este mofando:

— Cá temos o novo samorim, com sua curte, a receber audiência de um chefe christão.... Que proveito pensaes vós que d'isso resulte?

— Encher mais o papo do milhafre, está bem de ver.

E tirar esses antípodas da gentilidade, não vos parece?

Falaes deveras? Credes acaso que se elles o puderam desde já não aferrolhariam essa embaixada, ou que melhor nome haja, debaixo da coberta dos primeiros galeões que aqui aportassem?.... Calae vossa bocca, Vasco Peres. Havemos de ver em que dão as cavallarias dos fidalgos santarrões, se estas pedras, antes d'isso, lhes não voarem atraz. Vamos entrar o sertão, dizem que a vingar o sangue do morubixaba. Quem vingará o sangue de

Tacyba?. .. Calae vossa bocca e estae certo do que diz o rifão: quem bem semeia bem colhe.

Os golpes de enxadão e machado repercutiram fortemente nas obras da tercena e nos extremos do vallo. Montava-se no baluarte sul um meio berço. Os columins do séquito voltaram a faina.

Mestre Nuno, limitado a cultivar mantimentos, com poucos abunhados, e estes madraços, preguiçosos, afastou-se carrancudo, cogitando de novo rumo para a fortuna.

Pensava em organisar uma bandeira e subir ás serras verdes e azues, de esmeraldas e saphiras; pensava em tomar passagem nalguma frota a chegar, e ir tentar a sorte em outras costas do paiz. — Ah! o enganador do fidalgo, que lhe promettera mundos e fundos com os foros de sesmeiro!.,. Sentia ganas de ir offerecer os seus serviços de piloto e cosmographo aos corsários, mau grado a prohibição de el-rei. Esta idéa lhe afagava os rancores e o desejo da vingança. Os barcos de Honfleur careciam de marujos adestrados como elle. O Normando pagava-os a bom preço. E se um dia, ao leme de um d 'esses navios, antes que chegasse do reino a esqua-

dra guarda-costas, mestre Nuno aproasse ao monte Paschoal e áquelle porto seguro do senhor D. Fernão.... adeus grossas fazendas de Tapuya Branco! adeus gloria de fidalgos sem palavra e sem justiça!....

De repente Nuno Ayres, interrompendo a marcha, olhou para os ares entroviscados. O sol pairava, encoberto, sobre a floresta. Não foi de certo um raio do astro o que acabara de ferir-lhe os olhos. Se não era também um corisco de tormenta, seria alguma cousa semelhante ou peor.... peor para os que a semearam.

A flecha (era uma longa flecha) disparada por elevação, não sabia d'onde, das brenhas provavelmente, viera cahir aos fundos da casa do capitão, e cravada no solo, ainda estremecia, ainda vibrava, como se a cólera do selvagem desconhecido.... algum amigo de Tacyba.... lhe escorresse pelo âmago.

Nuno Ayres não se demorou a considerar na ameaça. Voltando sobre as pegadas, foi ao encontro de Vasco Peres, chamou-o á parte e falou-lhe baixo. Ambos tomaram o mesmo caminho, apressados, e chegando ao sitio marcado pela flecha, um a apontou, o outro perguntou :

— Que significado tem isso?

— Tempestade, vol-o affianço.... --Vamos a dar rebate... avisar ao capitão.

— Calae-vos! Deixae colher os que a semearam.

— Mestre Nuno! volveu o outro, espantado. E se os innocentes pagam pelos peccadores?

— Os justos somos nós. Não tenhaes medo. Na marinha das minhas terras ficaremos a bom recado da commettida dos bárbaros. Elles não devem tardar.... apressemo-nos, Vasco Peres. Não tendes muito que perder, não é verdade? Assim eu. Caluda! E' por aqui o nosso caminho.

Ambos se foram retirando com dissimulação pela encosta apinhada de trabalhadores, clamante de echos das enxadas e picaretas.

A tarde continuava opaca, annunciando o fim do veranico, e as grandes sombras das mattas já se projectavam na redondeza do vallo.

Em caminho os dous homens pararam, emquanto passava, de volta da audiência, o cortejo do abaete. Com os bárbaros seguia o

arrabido, a serva Indayá e Mem Tupi, o filho de Tapuya Branco.

— Vão porventura á sega d'almas, disse mestre Nuno, chasqueando; praza a Deus que não saiam tosquiados.

Havia mulheres e creanças nos terreiros das choupanas, sob os alpendres, ás janellas e portas de urupema, acompanhando o desfilar do bando pacifico para as brenhas. Vasco Peres reconsiderou:

— Até aquelles párvulos, mestre Nuno?...

— Aquelles serão Tapuyas Brancos amanham Olhae um que alli vae; já tem as manhas do pae, o maldito mameluco. Pudera! Sae a acha ao madeiro.... Essa é a casta mais inimiga do colono e ha de ser a damnação d'estes Brasis. Crêde-me, Vasco Peres; bom fructo não dá — sangue de milhafre com sangue de onça, coito de lobos com antas. Se não acreditaes, sabel-o-heis mais tarde. A seu tempo vêm as uvas e as maçans maduras.

— A' fé, que o vicio damna este arraial.

— Estae persuadido.... E pois é bem que as chammas o purifiquem. Salve-se quem puder. Salvemo-nos nós....

E Nuno Ayres, batendo malignamente as

pálpebras rugosas, proseguiu em direitura á praia e á ribeira, arrastando comsigo o colono. Alli, emquanto se affastavam dous besteiros da guarda, moderou a marcha e lançou as vistas ao celleiro de Tapuya Branco, aos seus galpões cheios de madeira que o outro filho de Pêro Mendes e um lote de «brasileiros» arrumavam para sahir na primeira frota mercante, a troco de bons ducados.

Ainda uma vez o sorriso demoniaco lhe contrahiu os lábios. À guarda sumiu-se por traz dos ranchos; o sesmeiro e o colono tornaram a estugar o passo, fugindo pelas ribas do mar e da ribeira.

Ao cabo de uma hora já se não ouvia o estrondo dos cavadores e pedreiros nas obras da fortificação e da tercena.

O crepúsculo descia das serras nubladas, o mar embravecia-se; as turmas pareciam tomar o fôlego depois da longa trabalheira. O rumor dos casaes, na espectativa dos artífices, ia pouco a pouco se absorvendo no rugeruge dos palmares e no estalar das ondas sobre os recifes.

Os dous homens desappareceram no matto cego, próximo ao littoral da sesmaria.

A' frouxa claridade vesperal, D. Fernão

sahiu de casa pelo alpendre e encaminhou-se para a quinta, onde lavravam alguns pretos de Guine. Seu pensamento viajava nas pegadas do abaete, com o arrabido, a serva Indayá e o filho de Pêro Mendes.

Decidida a guerra contra o gentio tupinambá, que avançava cada dia mais, ameaçando a aldeia dos Índios mansos e o próprio assento da colónia, elle esperava, em compensação d'esse doloroso serviço, a grande colheita d'almas, na tribu satisfeita com as promessas de vingança.

Seu olhar abrangeu á distancia o vallo, que se levanta confinando com as mattas, e o oceano, que em breve se povoaria de fortalezas fluctuantes. Deste lado a cruz resahiu com os braços dourados por um clarão de sol moribundo. Em baixo as palmeiras hirtas, coroadas pelo mesmo sol, inspiraram-lhe scismas profundas.

— Pindorama.... terra sem Deus, forçoso é que os caules das tuas florestas gigantescas se dobrem ou derrubem, para que em seu logar cresça e frondeje a arvore do Christo. De ti farei melhor e de mais nobre condição que Terra das Palmeiras; eu te farei- -Terra da Santa Cruz!....

Junto á cepa de uma arvore, na quinta, o capitão lobrigou o torso de uma creatura dobrada sobre terra. A enxada ao lado, a face negra lhe descansando no cabo, Afra dormia vencida pela fadiga. Uma sombra mais densa envolvia o outeiro, os montes e quebradas ao norte e ao sul. O tempo ennegrecia e esfriava; o inverno do trópico ahi vinha vasar suas cataractas sobre o arraial, os ventos ululantes iam esgarrar as esquadras, já talvez em singradura da metrópole. De que perigos, porém não zombariam os heróicos filhos de Sagres! Que arrojo de animo lhes não daria a santa obra começada para honra da Pátria!

Deixando a estancia dos quinteiros, o capitão deu fé de uns novelões de fumarada que giravam no horisonte, sobre as terras de Nuno Ayres. — Alguma coivara, conjecturou.

Chegando ao viso do monte avistou as pontas das lavaredas na altura das roças do aventureiro, ao mesmo tempo que uma nuvem de cinza e folhas carbonisadas passava, com a refrega do sul, salpicando-lhe as vestes.

Entrou. Mas apenas sentou-se á mesa para a collação, voltou de dentro o pagem que o servia, a annunciar fogo posto nas lavouras.

Um bando de grangeiros, brasileiros e coluniins, corriam das bandas do incêndio, em grita espantosa. Dos ranchos e tejupares da planície, á riba mar, acudiam outras chusmas alarmadas. Havia um perigo, a que o capitão ainda era estranho. — Fogo lançado ás searas.... mas por quem?

Tratava de sabel-o, quando á beira do alpendre seus olhos desviaram-se da plebe que galgava o monte pela encosta do norte, e puzeram-se num homem vestido de coura, que vinha em fúria, a correr da banda opposta, agitando o sombreiro e clamando:

-Justiça! Justiça de el-rei! Tapuya Branco me poz fogo á seara e á casa!.... Justiça, senhor D. Fernão!....

O capitão correu á panóplia; tomou a espada e cingiu-a, pegou no escudo e embraçou-o.

Em volta da casa senhorial, a multidão, presa de assombro, denunciou novo fogo que acabava de rebentar mais próximo do arraial, aonde não chegava ainda a defesa do vallo. Os dous incêndios, soprados pelo vento baixo que crescia, avançavam um para o outro, e já estavam prestes a emendar por esse lado uma barreira de chammas. A floresta fazia um maio

rulho tormentoso, e o povo da colónia começou a gritar, encontradamente:

— E' o gentio da serra! o gentio do norte!

— E' o gentio da aldeia!....

As ordens do capitão chegaram rápidas ao alcaide, e em breve á gritaria dos colonos juntou-se o clangor da trombeta e o tropel dos homens d'armas, carregados de bestas, arcubuzes e munições, correndo ao vallo, ao cimo do monte e ao outeiro da cruz, á orla da praia, e guarnecendo a casa do capitão.

Subitamente a multidão assombradiça, em frente á casa partiu-se em duas, e um homem, sósinho, ficou em meio do claro, com um flecha cravada no peito e um brado raivoso na bocca:

— Justiça! Justiça, senhor....

A dor da flechada estrangulou-lhe as ultimas palavras; o sombreiro cahiu para um lado, mestre Nuno para outro.

Neste momento apparecia, couraçado de gibão d'armas, protegido por uma rodela, á semelhança dos selvagens, o vulto de Pêro Mendes, em companhia de uma turma de lanceiros, besteiros e columins de arco e flecha.

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Da linha do vallo romperam tiros de arcabuz e borco. O novo refluiu como ondas para a planície do norte; a gente de Pêro Mendes abrigou-se ás paredes da capella e o capitão ao alpendre, emquanto os Índios assaltantes, nus, ferozes, rubificados pelo clarão do fogo, passavam de arrancada, como um tufão, disparando flechas sobre os colonos, que rolavam, berrando, para as baixas.

Fernão saltou do alpendre, e commandando a turma, ordenou atacar a piara pela retaguarda. Sua espada lampejou á luz do incêndio que lhe crepitava as costas; e emquanto as settas dos bárbaros desconhecidos choviam sobre as mulheres e os peões que fugiam descendo as faldas do moníe, os pelouros, lanças e arremessões da turma iam prostrando corpos no couce da horda.

Os pés dos quadrilheiros, no encalço dos indios, em corrida insana, tropeçavam nos homens derrubados. Tapuya Branco achou-se ao lado do capitão, ambos confundindo vozes de incitamento, acommettendo e ferindo.

Na carreira desabalada, atraz do furacão selvagem, esbarraram colonos trôpegos, que gemiam, arpoados nas costas. Pêro Mendes pôde apenas reconhecer um d'elles: Affonso

Ribeiro, o degradado. E receando o assalto a seus armazéns, lá embaixo, ia precipitar-se adeante da turma, quando sentiu a mão do fidalgo lhe prender o braço armado da lança. O capitão ouvia o alarido de outra piara, ao fundo do outeiro, como se dirigindo ao sitio da cruz. Três soldados da turma estacaram. Os outros desciam, frechando e lanceando os bárbaros.

— Pêro Mendes! gritou D. Fernão, olhando para o cimo, — pela cruz do Senhor até a vida!....

O brasileiro hesitou um instante, assoprando, com os olhos desvairados na planície, no seu galpão cheio de madeiras, nos seus celleiros repletos de mantimentos. A vozearia dos novos assaltantes estrugiu, mais perto. O estrupido dos outros abafou-se no plaino, em rumo do mar. Elle decidiu-se.

— Ide vós. Eu corro a defender a tercena. Quando Fernão se volveu a procura do

aventureiro, este já se havia obumbrado na escuridão da encosta para juntar-se á turma.

— Vinde commigo, se tendes mais amor a Deus que á vossa fazenda!

Ao appello colérico e trovejante do capi-

tão, os tres soldados responderam desgalgando-se pela quebrada para o colle.

O resto da horda com estrépito horrível e arremesso de flechas, corria effectivamente ao cruzeiro. O incêndio se aplacava aos poucos, de vez em quando expellindo um lumaréo fulo que accendia a espada e o broquel de D. Fernão.

Mal alcançaram o sitio, um chuveiro de settas rechinou pelo topo da cruz. O capitão se havia encostado ao madeiro e com a espada erguida, o peito abroquelado, esperava de frente os selvagens, aparando no escudo as flechadas que começavam a cahir sobre elle. O brilho do metal ateado pelo claror intermittente do fogo regulava a pontaria aos atacantes. A floresta, rugindo, parecia avançar com elles, e no incismo som de guerra.

De súbito cessou o tiroteio, a noite escureceu mais e do fundo do matto crivado de brasas e faulhas sacudidas pelo vento, a piara cresceu, ululando, como uma vara de tajaçús.

Na planície da costa e na quebrada succedera aos gritos um borborinho desolado.

Fernão entrou a brandir o gladio, ladeado pelos lanceiros. Quando a lufada pas-

excitando uma grande labareda, elle viu o cardume de feras á distancia de duas braças. Os soldados lançaram o mesmo grito de — misericórdia! A espada do capitão já embatia contra a mole selvagem. Seu broquel recebia formidandos choques. Emquanto os trez soldados, a seus flancos, faziam recuar com os ferros das longas lanças a retaguarda do bando, o capitão ia derribando, um por um, os que o acommettiam pela frente.

Tombavam os mal feridos; fugiam, bramindo, os golpeados, e o ferro vibrante ia acutilando, sem interrupção, num jogo assombroso e mortal.

Fernão sentiu chiar uma setta por cima do seu elmo e tocar o lenho da cruz. Ao mesmo tempo um dos lanceiros cahia, á sua ilharga, fulminado por um golpe de varapau. Duplicou-se, então, a força dos seus pulsos.

A espada, brandida com ambas as mãos, abriu um claro em torno do cruzeiro. Elle cresceu no espaço como um gigante. Seu pés machucaram membros inertes, atolara m-se n'uma terra pegajosa. A dibra recuava; os lanceiros avançavam. Partiam de longe flechas, cujas pontas se embotavam no broquel.

As trevas tudo envolviam. O incêndio extinguiu-se de todo.

Neste ponto da peleja rebentaram tiros de arcabuz na encosta e uma renque de fachos ardentes acudia ao viso do outeiro. Era Pêro Mendes que chegava.

Quando os arcubuzeiros, besteiros e columins armados pisaram no terra-pleno, só viram de pé, sob os braços da cruz, D. Fernão e os dous soldados.

Os restantes da piara tinham abandonado o campo, onde a luz dos archotes mostrou a ceifa de uma espada!....

Passara o furacão.

Por cima do arraial corria um vento frio e gemebundo.

As turmas, arquejantes, foram seguindo as pisadas do capitão, descendo o colle, subindo o monte e recolhendo-se aos ranchos, ao alpendre, ás choupanas. Pêro Mendes tinha a dextra ferida na palma pela ponta de um curabi. Os mortos, sem conto, de um e outro campo, ficavam sem sepultura até que rompesse o dia.

Sobre a terra da colónia, adubada de sangue, desabou a chuva torrencial do trópico, a chuva procreadora que arrojava aos ares troncos gigantes para futuras construcções.

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Sinopse

Leia gratuitamente Pindorama, de Xavier Marques, romance brasileiro em domínio público sobre a época do descobrimento. Esta edição digital do Literunico foi preparada a partir da digitalização do Internet Archive/University of Toronto da edição de 1907, organizada em 24 capítulos HTML para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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