Leia agora
Pindorama

Universo da obra

Pindorama

Capítulo 14 · Pindorama

Parte Terceira - Capítulo III

14 de 22 ≈ 13 min de leitura

to romper cTalva, D. Fernão, o capitão • Martim e suas sequelas já estavam batendo os mattos da chapada, para a frota ancorada no mar cinzento.

Anciosos da resposta de Ararig, logo que o sol nasceu voltaram de bordo com a india e os filhos. Indayá soube do ajuste de guerra, e prestes lançou-se no campo, louca de jubilo.

Dirigiam-se os da companha ao rancho do colono, quando ouviram, perplexos, o mais estranho fragor humano que os seus ouvidos ainda recolheram. A' estrondosa vozeria dominava o sacolejar dos maracás e o echo ululante dos grandes búzios uatapús. Para augmentar essa orgia de vozes horrisonas, bandos de papagaios e coricas alaram-se das

mattas em direcção ao norte, enchendo o circulo do espaço, que os arvoredos traçavam, de um grazinar estriduloso.

Os exploradores hesitaram, interpretando a gritaria, uns como sons de guerra, outros como expansões de festa. O experto Mem Tupi deu alguns passos para a frente, deitou-se por terra, escutou e disse ao fidalgo:

— Não haja Vossa Mercê temor. O que ouvimos é a pocema dos bárbaros contra o tupinambá. Entremos o arraial.

A companhia marchou resoluta por entre as relvas e catingas orvalhadas, com uma vaga desconfiança de aggressões. Apenas vingada a ribanceira, sentiram-se involuntariamente pregados ao solo e, espantados, contemplaram no terreiro da aldeia o quadro extraordinário. Ao lado de Mem Tupi collocou-se o ousado Gil Vaz, e ambos, rompendo a marcha, também soltaram brados, saudando os guerreiros.

Semelhava a planura um campo de gado bravo innumero. Centenas de -índios armados, apinhados, numa continua oscillação de mar empollado, escureciam sinistramente, formando vasta sombra terrosa na verdura da chan. O sol, erguendo-se da floresta, illumi-

nou subitamente o exercito gentio, cuja nudez adquiriu tons ruivos como o pêlo das suçuaranas. Aos meneios confusos da horda tremiam plumachos multicores; arcos, tacapes, flechas, murucús, brandidos no ar, ao som terrível dos maracás e da inubia, já pareciam terçar-se em choques de combate.

Tinham avançado os exploradores. A cem passos do terreiro, sahiram dous homens do atropelo dos selvagens e caminharam ao seu encontro. Era um d'elles o prestante Ararig, soberbamente coroado pelo tope de plumas escarlates e amarellas, escudado com o pavez de pelle de tapir, numa das mãos o rijo arco entretecido de cipó-embé, na outra o maracá ornado de pennas de guaiá, no pescoço o adereço de alvíssimos dentes, cujo numero contava as victorias ganhas sobre os inimigos. Uma untura de urucii lhe transformara as feições, assemelhando-o a um cafre.

Diogo, acercou-se do fidalgo e falou-lhe, grave e exaltado:

Senhor, o que de mim mandastes se ha cumprido, como vedes. O conselho cTestes povos determinou de ajudar os amigos do tupiniquim, que é o visinho bom (festa terra. Quiz-vos Deus Nosso Senhor assas bem, que

viestes achar o, braço de Ararig, guerreiro forte e ponderado, cujo aceno levanta este escarcéo. Além, a dentro d'aquelle pontal verde, onde o mar está fazendo carneirada, uma frota de igaras espera os guerreadores; o seu faro descobriu o paradeiro do tupinambá contrario, naquella ilha grande que tem nome do chefe Taparica. O inimigo é commum, e assim vão elles a pelejar por si e por vós. Em pouco vereis essas ondas coalhadas....

— Boas novas me daes, respondeu Fernão, apertando a mão a Diogo. E voltando-se para. o arrabido: — Implore Vossa Reverencia o favor do céo para esses soldados que, posto gentios, marcham em defesa da santa causa.

Ararig, firme e empavonado, articulou algumas palavras, e sem mais detença volveu ao campo, tangendo o maracá. O exercito selvagem rebramiu; arcos e curabis, clavas e kanitares se agitaram como touceiras de ubá sopradas por um tufão. índios pequenos disparavam flechas de caniço ás palmas dos burys e carnaubeiras; uma turba de mulheres cingia a cohorte, em demonstrações de jubilo, servindo-lhe cuiadas de vinho das igaçabas.

A um segundo signal do chefe, as hordas

P1ND0RA.MA 181

deitaram a correr atabalhoadamente pela planura para a baixada, ao sul do arraial. Os exploradores, reunidos no terreiro, viam attingir as raias do descampado, rolar pelas escarpas e ladeiras, e sumir-se uns após outros, mattos a dentro, os troços pardos da legião núa, a sacudir aljavas carregadas de settas, pennachos rutilantes e longas tamaranas, que muitos levavam penduradas, no dorso. Apenas o ultimo troço immergiu na brenha, o fidalgo consultou o commandante da esquadra:

— Se vos parece, capitão, saiamos num esquife apercebido de armas, de conserva com os bárbaros, para que lhes demos auxilio, se preciso for.

Immediatamente desandaram todos os presentes, menos Diogo, para a costa. Gil Vaz e Mem Tupi haviam desapparecido.

Nuvens de chumbo empanavam a turqueza do céo, e uma calma abafadiça, que impunha silencio ao arvoredo, vinha annunciando furores de tempestade. Apesar de tudo, os exploradores, empenhados na sorte dos Índios, affrontavam os perigos e fadigas da jornada.

Na capitanea da frota comeram dos peixes que a maruja apanhara; e tendo apparelhado

o esquife com armas brancas, remos, arrombadas e um berço montado á proa, passaram-se a elle afoitamente.

Quando o esquife largava a sirga, um espectáculo nunca visto se exhibiu da banda do sul. Cerca de sessenta pirogas avançavam, á força de remos, como um cardume de dragões. Na. calmaria ardente ouvia-se o ruido das apecuitás cavando o mar entorpecido. Os indios, suarentos, lustravam com avermelhados reflexos de xarão, e aos trinta, aos quarenta, aos cincoenta pejavam as canoas rápidas, cujo peso venciam os pulsos dos remeiros.

A gente da esquadra testemunhou, admirada, a ordem e cadencia dos selvagens remadores, até que estes, na sua frota, lhe passaram pelas proas, estrugindo os ares com celeuma espantosa.

Seguiu-os o esquife, a principio terra a terra, com os penedos do littoral á vista, e as mattas e roças, onde a maniva estendia amplamente as ramas verde-escuras. Fernão firmou os olhos nesse ponto e alli,- na capoeira, entre o matto e a plantação, um sombreiro amarello e um gibão vermelho denunciaram-lhe Mem Tupi com o aventureiro degradado.

P1ND0RAMA 183

— Filho do grumete Pêro Mendes.... murmurou, pensativo.

Depois, amarando-se a embarcação, elle alcançou toda a chapada, e na culminância de um monte creu divisar aquella estatua de cobre animado que uma noite, no alto da Vera Cruz, sob o livor da lua cheia, lhe suggeriu a fraqueza e o peccado.... A mulher, alcandorada na eminência, com os dous filhos nos flancos, parecia suspensa do seu sócco de rochas, acompanhando o vogar da frota barbara. Dir-se-ia a águia bravia de Pindorama, anciosa de soltar o voo e lançar a garra vingativa aos cruéis irmãos da própria raça.

A ilha grande, a oeste do lagamar, vinha delineando as elevações das suas collinas e florestas. O esquife amarou-se mais, o vento soprou da barra, afugentando as nuvens. Em torno da ilha o mar começou a rebentar em flores sobre os recifes que a defendiam.

Pareceu ao capitão Martim que outras almadias vogavam das praias contra os tupinambás de Diogo. A companha não deu logo por isso; mas pouco a pouco se definiram os traços e no fundo, contra as espumas que ferviam nos escolhos, Fernão e os seus avis-

taram a frota insulana em disparada sobre os contrários.

O vento foi afrouxando, os recifes alvejaram menos: voltou a soalheira tépida; o sol attingindo o zenith, fulminou as aguas, onde se dilatava a nuvem baça dos guerreiros.

Cruzando os remos sobre a borda do esquife, os remadores, soldados e capitães ouviram o estrépito do primeiro choque. As* duas frotas de igaras, em linhas irregulares, batiam-se com urros assombrosos e coriscar de flechas, que ao jogo da luz meridiana ora escureciam, ora chispavam nítidas como agulhas de neve.

A's vezes, uma igara se destacava da linha e, vomitando pinhas de venabulos, ia tentando abordagens. A grita redobrava do lado de terra, as flechadas convergiam para a canoa arrojada; esta recuava, e o alarido recrudescia em ambas as frotas.

Repetiam-se de espaço em espaço as investidas, já de um lado, já do outro, por pirogas isoladas ou muitas d'ellas jungidas. Vultos de combatentes iam cahindo. Da parte de Ararig appareceu uma igara sem homens. O esquife chegou-se mais ao theatro da peleja.

Parecia rarearem as settas na esquadrilha dos ilhéos, porque de lá já se arremessavam grossas maças, projecteis volumosos, como pedras. Nova acommettida se ensaiou da banda do mar. Duas igaras, das maiores, desatinadamente impellidas, lançaram-se debaixo de uma saraivada coriscante, e foram roçar as dos contrários. Numas e noutras rutilavam, como insígnias de chefes, kanitares ardentes.

Nesse momento o olhar do capitão Martim acompanhava uma almadia que se distanciava da frota de Ararig, singrando para as barretas do recife, como que a dar desembarque. Elle denunciou a manobra ao cavalleiro. Este, porém, com os marujos e homens d'armas, seguia outro especteculo mais admirável. De longe a frecharia voava sobre os abordados como enxames de insectos dourados, como víboras aladas, picando troncos e membros. Laminas de tangapemas cruzavam-se no ar, luctadores, corpo a corpo, vacillando, como funambulos trágicos, pareciam brigar equilibrados sobre cordas bambas. Novas igaras acudiram. Condensou-se a massa, formou-se um globo girante, cujos pedaços saltavam desaggregados pelo volcão interior; os rombos eram logo tapados por outras iga-

PIND0RAA1A

ras que arremettiam, desfazendo-se em flechas, soltando os caboclos o mesmo berro de onças famintas.

De repente as aguas pularam como em fervura; os selvagens cahiam aos lotes, mergulhando. As frotas repelliram-se; houve uma trégua momentânea. As restantes igaras, que pelejavam de longe, partiram num arranco vertiginoso; e todos se acharam de novo englobados, no ataque, braço a braço.

Era tarde. A peleja continuava nesse vaevem de assaltos, repulsas e turbilhões, quando notaram os do. esquife eclipsar-se uma cabeça empennachada que seria a de Ararig. Então falou, exaltado, o capitão Martim:

— Senhor D. Fernão, se perigam os nossos alliados, é tempo de chegar o morrão a este berço.

— Esparae, capitão, não lhes devemos roubar a gloria.... Olhae.... dizia, acompanhando o passo decisivo do combatemos contrários recuam... Vede se não recuam. Uma... duas.... três igaras se apartam. A' fé, que vogam para os anegados....

— Tendes . razão, confirmou um homem cTarmas; outras d'ellas recuam. Estão vencidos!

PINDORA.WA 1S7

— E os nossos perseguem....

— Victoria! bradaram todos no esquife. O sol descia.

Começou a echoar a pocema jubilosa. O apupo do vencedor retumbou atraz dos primeiros fugitivos, corridos a frechadas. O mar se poz entre as duas frotas. Soaram instrumentos de guerra.

O capitão Martim mandou dar fogo ao berço; a detonação repercutiu, e as igaras vencidas foram desapparecendo pelo recife dentro, como gaivotas feridas que vão razando as aguas.

A frota de Ararig retrocedia a grande força.

— Deixemol-a que passe e demos-lhe a salva a que fez jus, determinou D. Fernão.

A canoa do principal foi a primeira a surtir á proa do esquife. Ararig, imponente, com os olhos cravados no espaço, tinha debaixo das mãos dous Índios, em cujas feições o desprezo e a altivez se ostentavam insolentemente. Um era velho, tosquiado e vestido de enduape de plumas rubras; o outro, muito moço, de olhos brilhantes como onix, a bocca talhada n'uma linha feroz, mostrava no hombro a dentada sangrenta de uma curabi. Só

estes não remavam nem boquejavam. Eram prisioneiros.

Toda a esquadrilha foi correndo em disparada por entre um fragor de acclamações, em que fraternizaram selvagens e europeus. E o esquife, embandeirado, fechou o préstito.

Ao lusco-fusco, os exploradores se achavam no terreiro de Diogo, esperando a entrada triumphal do exercito gentio.

Não tardou que da banda do pontal se annunciassem os arautos empennachados. Tripudiavam as hordas em redor dos prisioneiros; trocanos e maracás ensurdeciam, indias e piás corriam, desvairados de alegria, á recepção da tribu.

Quando ella desfilava pelo campo, levando para o sacrifício, na taba arruinada, os dous impassíveis inimigos, viram os exploradores crescer desmedidamente na confusão dos bárbaros a figura insana de uma cabocla. -Indayá, lançando-se após os dous prisioneiros da cabilda que tragara o morubixaba, arrepiou-se como o jaguar assanhado e soltou do peito uma explosão de alegria mais aguda que o grito de ferro da araponga.

Fernão viu-a sumir-se na frente do exercito que seguia para a ocara da*aldeia. De-

subindo a um toro de carnaubeira, falou para os soldados, colonos e aventureiros:

-Com a ajuda do Senhor e diligencia d'aquelles, foi castigado o mau visinho d'esta paragem; pelo que rendamos graças ao céo. Ficae sabendo que d'esta terra se vae fazer a partição, por que a povoem e lavrem os seus futuros donatários e nella vivam em santa paz, sem se fazerem damnos nem injurias. Que assim todos vos comporteis, para tença d'este vasto paiz e gloria d'Aquelle que nol-o deparou. Descobridor com o almirante Pedr'Alvares, capitão da primeira capitania, não serei mais d'ora avante que o conselho para os cordatos e a espada para os rebeldes. E pois que a el-rei approuve em sua sabedoria levar até ás regiões austraes, onde é voz correrem rios argentiferos, o pendão das nossas naus, peçamos a Deus o favor dos bons ventos para a armada do estrénuo capitão que zarpará sobre a manhan!

— Ao rio da prata! gritaram os aventureiros, retrocedendo para bordo.

Pindorama

Sinopse

Leia gratuitamente Pindorama, de Xavier Marques, romance brasileiro em domínio público sobre a época do descobrimento. Esta edição digital do Literunico foi preparada a partir da digitalização do Internet Archive/University of Toronto da edição de 1907, organizada em 24 capítulos HTML para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Pindorama

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Pindorama

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Pindorama

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Pindorama Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 14 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Pindorama

Capa de Pindorama
Continue a leitura Parte Terceira - Capítulo III Capítulo 14 · 14 de 22 · ≈ 13 min
Todos os capítulos 22 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir