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Capítulo 22 · Pindorama

Parte Quarta - Capítulo V

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wVp PENAS chegara ao governador noticia 7Q& da victoria alcançada sobre a aldeia de Tajaçú, amplo alvoroço festivo apoderou-se da cidade.

Ao paço do capitão general acudiram as auctori.dades principaes da colónia, trocando alviçaras. Diogo e os genros vieram pressurosos de Villa Velha. Mostraram-se na praça, em trajos de gala, com as suas insígnias, o capitão-mor da costa, o provedor da fazenda com escrivães e almoxarifes, o ouvidor geral, o cirurgião, corregedores, meirinhos, capitã officiaes e guarnições da armada surta no porto.

Fidalgos 'de solar, trajando ricos gibões de brocado appareceram, uns a cavallo, outros em tipóias carregadas por escravos Índios e negros. As mulheres dos abastados solarengos

da terra, mulheres de aventureiros e contractadores de pau brasil e até mancebas de casta branca e mestiça, atravessaram ruas, lepidamente, ostentando luxo de arrecadas, vasquinhas de seda e gibões de velludo carmezim.

A cidade, jubilosa, adornava-se para receber a milícia triumphante. Lotes de ganhões e degradados erigiam arcos e columnas encimadas por trophéos; as casas e cabanas enramavam-se; bandeiras, colchas de fino damasco indiano, armas do reino cobriam a fachada severa do grande solar. Á frente da casa do concelho resahia no campo azul de preciosa tela a pomba symbolica da paz com o ramo de oliveira no bico. Tremulavam pendões nos cimos das torres artilhadas e ao longe, sobre as aguas do lagamar, nos mastros das naus, das galeotas e caravelas.

Troavam as bombardas, de espaço em espaço, propalando de echo em echo a boa fortuna da legião.

Quando o sol começava a enrolar-se nas purpuras do poente, o governador assomou á janella do paço e viu a multidão febricitante revolver-se, correndo aos muros da praça. O som das trombetas enchia os valles e quebra-

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O vento do mar arrufava os palmares e as frondes longínquas da selva.

Antes que a luz do dia se extinguisse, as hostes invadiram o circuito, pelas portas do nascente.

Romperam então os tiros das torres, a que respondia a artilharia da armada.

No mesmo grito de acclamação se confundiam as vozes do povo e dos soldados, estes cobertos de pó,' suarentos, com as pantalonas salpicadas de um lodo sanguíneo, as lanças e piques ataviados de folhas e pennas multicores.

O chefe general deixou que a legião entrasse.

Á retaguarda de um terço de peões chegou Mem Tupi com uma turma de flecheiros brancos e caboclos, todos carregando os seus despojos.

As seis baterias da muralha não cessaram mais de dar salvas.

E a torre do collegio preludiou um cântico de bronze.

Tresvariava a cidade, aguardando o heroe da jornada.

Por baixo do grande arco fronteiro ao solar do governador, surgiu a procissão dos piás, cantando o hymno sagrado em honra da

vera cruz, que padre Loyo trazia alçada como O guião da sua milícia.

Após o seminário, resplandeceu o elmo de D. Fernão.

Montado no ginete, ladeado pelo alcaide e o chefe dos arcabuzeiros, avançava lentamente, crescendo, transfigurando-se aos olhos da fidalguia, da soldadesca e do populacho que o victoriavam com estrondo.

A' sua chegada precipitavam-se os rebôos da artilharia, a voz dos campanários imitava nos ares um coro de arapongas da floresta, e o vento rugindo nos palmares levava aos montes e campos sempre verdes a grita sonora das ovações.

Elle approximava-se do arco triumphal. passo a passo, a espada em punho oscillando sobre a cabeça da plebe delirante, respondendo ás salvas com um gesto affirmativo de protecção e força. O seu olhar de águia ora mergulhavanas purpuras do occaso, ora se extasiava nos braços da cruz, suspensa pelo catechista em meio das turbas.

Repentinamente o semblante olympico de Fernão Cerveira tomou uma expressão severa, fanziu-se-lhe o sobrolho, seu ginete estacou. O alcaide e o capitão que lhe guarneciam os flancos procuraram em torno a causa d'essa

estranha mudança. Já o chefe general apontava com o gladio um lote de mestiços agrupados de redor de uma columna, e entre elles dous mancebos que affrontosamente profanavam as armas reaes, desfazendo o seu trophéo, arrancando-as despedaçando-as, com visível ostentação de irreverência.

Irritado, surdo ás atroadas populares, D. Fernão desviou-se e tocou a ponta da arma no hombro de um dos mancebos.

Volveram-se ambos, com arrebatamento, e cheio de pasmo reconheceu-os o glorioso capitão.

— Elles?!. ..- A sua progénie!.... Os filhos de Indayá!....

Que amargura travou nesse instante a alegria do triumphador! Que fataes presentimentos!.... Quem l^e pôde escutar a queixa do coração, ferida pelo acto sedicioso da prole, o ingrato sangue do seu sangue?....

Mas a onda acclamadora recresceu na praça.

Retumbaram novas salvas e fanfarras. Victor! Victor! cantaram echos unisonos.

Como o sino de Ceuta, os bronzes do collegio vibravam no espaço, nanando a gloria de Jesus e do seu exercito.

Fernão sentiu-se arrebatar, e entrou. Uma visão do eterno lhe consolava os olhos: o lenho sagrado, soltando-se das mãos de padre Loyo, crescia e subia, cercado de uma aureola refulgente, na luz do occaso que tinha então o rubor de uma aurora.

— Prodígio divino!....

A cruz subia sempre, dominando torres e solares, acima das cúpulas da floresta e das palmeiras ondulosas que já não rugiam a pocema hostil, mas pareciam rezar um penitet solenne por sobre os verdores da terra conquistada.

— Gloria a Jesus! murmurou num êxtase o cavalleiro....

E a visão sumiu-se no espaço.

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Sinopse

Leia gratuitamente Pindorama, de Xavier Marques, romance brasileiro em domínio público sobre a época do descobrimento. Esta edição digital do Literunico foi preparada a partir da digitalização do Internet Archive/University of Toronto da edição de 1907, organizada em 24 capítulos HTML para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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